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08h17, hora de conhecermos o tema do Contracorrente para entrar em direto depois do jornal das 10, basta ligar para nós 91 002 41 85, número que também pode usar para nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. Carla. A depressão Christine trouxe ventos como não havia registo em Portugal e deixou um rasto de destruição que vai levar muito tempo a recuperar. Ontem soubemos, por exemplo, que a reposição total da corrente elétrica pode só acontecer no final deste mês de fevereiro. Agora vivemos sob outros alertas, os alertas de chuva intensa e prolongada, e há também alertas para cheias em quase todos os grandes rios do país. Estamos sempre a falar de fenômenos climáticos extremos, mas a muita chuva estamos mais habituados. Será, no entanto, que estamos melhor preparados? É o que queremos saber no Contracorrente de hoje, numa altura em que já temos muitas regiões alagadas e as ligações ferroviárias Lisboa-Porto estão de novo cortadas. José Manuel, bom dia. Mais medo do vento ou mais medo da chuva?
Olha, eu creio que há boas razões para dizer que o vento é mais imprevisível e quando é muito violento, é quase impossível de prevenir, no sentido de conseguir evitar aquilo que aconteceu, a não ser modificando de forma muito radical a forma como construímos em Portugal, porque nós em Portugal não construímos como, por exemplo, nas zonas que habitualmente são varridas por ciclones ou por tufões, por razões que têm a ver com o nosso clima histórico, que era menos tropical do que aparentemente se está a tornar. E tornando-se um pouco mais tropical, estamos mais sujeitos a situações parecidas com aquelas que às vezes vêm para a Flórida, para a Louisiana, por exemplo, no sul dos Estados Unidos, ou para as regiões das monções, no Índico e no Pacífico. Portanto, são fenômenos diferentes. No caso das chuvas, não. No caso das chuvas, há muitos anos que nós temos muita chuva com frequência. Quando digo anos, digo séculos. E, portanto, desse ponto de vista, a nossa obrigação, e hoje já vamos ver se a cumprimos ou não, é estarmos mais preparados para ciclos destes. É evidente que pontualmente se podem bater recordes, mas há aqui muitos fatores diferentes e às vezes, quando não se tem noção deles, confunde-se um pouco tudo. Nós quando falamos de cheias, e simplificando muito, estamos sobretudo a falar de dois tipos de cheias. As rápidas, que são aquelas que acontecem em pequena dimensão e quando há uma chuva intensa durante um período de tempo relativamente curto, mas muito intensa. Por exemplo, 1967 em Lisboa, ou as de 83, ou aquelas que tivemos há dois ou três anos atrás, que também bateram recordes, são cheias que ocorrem quando muito rapidamente se acumula muita água numa zona relativamente circunscrita. E sobretudo se essa zona estiver muito ocupada por construções, por infraestruturas, por pessoas. E essas infraestruturas não estiverem preparadas para esses escoamentos tão rápidos e quase imprevisíveis. Começa a chover e passado uma hora já estamos debaixo de água. Aparentemente, é algo diferente. É sim é possível haver um pico de chuva desses nalgumas pequenas bacias, mas o que se está a passar é algo diferente, que já estamos habituados a vários dias, que é durante muitos dias seguidos vai chover, vai chover bastante, mas não vai chover com aquela intensidade com que choveu ainda há pouco tempo em Lisboa ou nalgumas regiões do Alentejo e que deu as tais chuvas rápidas. De publicidade é mais habitual e nós sabemos que quando ela acontece durante muito tempo, em quantidades grandes, e sobretudo quando acontece nesta fase do ano, isto é, já depois de termos tido muitos meses de muita chuva, com os solos já muito empapados e portanto sem capacidade de absorção, o que chove vai parar aos rios e os rios transbordam. Historicamente, isso sempre aconteceu, ou quase sempre aconteceu. Nós temos, por exemplo, na zona que agora excita mais preocupação, que é Coimbra, temos cheias registradas pelo menos no século XIV, 1371, por exemplo, mas depois elas continuam por aí adiante e no século XX houve imensas, eram muito comuns. Antigamente chamava-se até ao Mondego, em Coimbra, o Basófias, porque estava seco no verão e no inverno transbordava. Aliás, há uma coisa curiosa, não sei se já visitaste, tu já deves ter visitado, com certeza, a Igreja de Santa Cruz. A Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, é a igreja onde está sepultado o nosso primeiro rei, o Dom Afonso Henriques. Essa igreja tem uma característica curiosa, não sei se a visitaste, não sei se percebeste ela. Hoje em dia está um pouquinho diferente, porque eles mudaram ali a praça à igreja, mas a igreja desce-se para ela, em vez de subir. Habitualmente, quando vais a uma igreja, sobes uns degraus. Em Santa Cruz, desces.
É verdade.
Por quê? É verdade, não é? Exatamente. Por quê? Porque quando ela foi construída, no tempo do Dom Afonso Henriques, há muitos séculos, o rio passava um pouco mais abaixo e depois foi havendo aterros, foi havendo aluviões, foi havendo muitas cheias e, portanto, o nível, o chão de Coimbra foi alteando. E aquela igreja, assim como do outro lado do rio, o antigo Mosteiro de Santa Clara, o primeiro, Santa Clara a Velha, também está debaixo d'água atualmente. Isso é um sinal que naquela zona as margens foram ficando mais altas e o rio também foi ficando mais alto. O que é um sinal de que sempre houve, historicamente, ali cheias, e depois, historicamente, a população foi ocupando aqueles espaços e muitas vezes construindo onde não devia. Nestas bacias, que são diferentes, a bacia do Douro é diferente da bacia do Mondego em termos de características, a bacia do Tejo também, a bacia do Sado também. Por exemplo, a bacia do Sado, que começou agora a haver mais inundações, é uma bacia que tem barragens, hoje em dia quase todas as bacias têm barragens, mas com características, são mais pequenas e características diferentes, por exemplo, das grandes barragens que existem no Tejo ou no Douro, mesmo no Mondego. E isto faz com que haja menos capacidade para ir encaixando a chuva que vai chegando. E aquilo que neste momento deve estar a ser feito, e sei que pelo menos há sinais muito claros que está a ser feito no Mondego, que é o rio que está mais crítico nesta altura e que também está a ser feito nos outros rios, é procurar que nas barragens, quando não chove, se vá despejando um pouco da água que lá está dentro, para que quando vier, por exemplo, as chegadas de chuva e as chegadas de excesso de água a chegar à barragem, ela tenha capacidade de encaixe. Eu estive ontem à noite a ver em que ponto estão a maior parte das barragens portuguesas. Muitas estão a 90, 95% da sua capacidade. A Aguieira, que é a maior barragem capaz de controlar o caudal no Mondego. Atenção, há barragens importantes que eram jusante, grandemente afluentes do Mondego. Portanto, a Aguieira não controla tudo. Mas a Aguieira, o último dado que eu tinha era de 75%, o que quer dizer que têm estado a ser feitas descargas para que agora se vier dois, três dias em que há muita água a chegar à Aguieira, a Aguieira tenha alguma capacidade para encaixar essa água e não despejar toda para ali abaixo, porque quando em Coimbra se chegar a um determinado ponto, não há solução, aquilo inunda mesmo. E o problema não é Coimbra, o problema é tudo aquilo que fica a jusante de Coimbra e nós ainda recentemente tivemos situações de ruturas. Toda a superfície fluvial do Mondego, a jusante de Coimbra é muito plano. Quando a gente anda na autoestrada, por exemplo, é aquela zona onde vemos muitos postes de alta tensão cheios de ninhos de cegonha, o que é um sinal que há ali uma região agrícola alagadiça e muito rica. E essa zona hoje está muito artificializada. Há até o chamado Rio Velho, que era o antigo leito do Mondego, e depois, na década de 80, 90, foram feitas obras de profundíssima transformação e hoje em dia o Mondego Novo é um leito novo construído artificialmente e enquadrado por diques. Esses diques, penso que foi em 2019, foram suprados, foram em parte destruídos e é isso que se quer evitar que aconteça novamente, mas enfim, veremos se consegue ou não. E portanto, isto é muito diferente do vento. O vento chega e a força que tiver, vai embora. Como foi infelizmente na região de Leiria. No caso da chuva é diferente, a gente já está muito mais preparado. E eu diria que sobretudo mais habituados. Não quer dizer que vá tudo correr bem, porque continua muita gente a construir onde não devia, a fazer essas infraestruturas onde não se deve. E como tem havido, eu vou dizer uma coisa que pode parecer surpreendente, como tem havido menos cheias do que havia antigamente, e isso é verdade, há menos cheias nessas bacias do que havia antigamente, as pessoas desabituaram-se de todos os anos haver alturas do ano em que a água invadia tudo.
José Manuel, vamos falar melhor depois disso. Até já. Faça parte do "Contra Corrente", ligue 91 002 41 85 e entre em direto depois do "Jornal das 10".