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Luís Montenegro esteve ontem na Assembleia da República, explicou a posição portuguesa relativamente ao atual conflito, tendo repetido grosso modo as explicações que Paulo Rangel já tinha dado sobre as condições em que foi utilizada a base das Lajes. O PS, pela boca de José Luís Carneiro, não se distanciou de forma radical da posição do Executivo, ou seja, não usou em Portugal argumentos semelhantes aos que estão a ser usados em Espanha pelos socialistas de Pedro Sánchez, cujo governo tomou a posição mais radical de todos os governos europeus. Numa altura em que tudo indica que a guerra pode prolongar-se por algumas semanas, queremos no Contracorrente de hoje discutir o porquê das posições diferentes de Portugal e de Espanha. Bom dia, José Manuel. A posição dos socialistas portugueses e espanhóis é mesmo assim tão diferente?
Pelo menos naquilo que foi visível ontem, é. E é muito em parte porque eu creio que, apesar de tudo, nós estamos perante figuras diferentes. José Luís Carneiro não é Pedro Sánchez. Depois, porque a tradição dos socialistas portugueses e dos socialistas espanhóis também é diferente, sobretudo no que diz respeito à sua relação com os Estados Unidos e até com a integração no espaço atlântico e na NATO. E sobretudo porque Pedro Sánchez, neste momento, ontem eu estava a ouvir alguém que dizia que basicamente ele é o político europeu mais parecido com Trump, que diz tudo e o seu contrário se for necessário e no qual não é possível ter grande confiança. Espanha já tinha, de alguma forma, criado alguns problemas na reunião que houve dos ministros dos Negócios Estrangeiros durante o passado domingo, onde levou algum tempo a aprovar o comunicado final, porque a Espanha queria colocar lá passagens que depois acabaram por não ficar e relativas aos Estados Unidos. Mas isto tem muito a ver com dois aspetos. Primeiro aspeto: em Espanha há uma velha tradição antiamericana que atravessa toda a sociedade, atravessa a esquerda e a direita e que vem desde aquilo que em Espanha é conhecido como o Desastre de 1898. Estou a referir-me à guerra hispano-americana, portanto, a guerra que levou à independência de Cuba, à ocupação pelos Estados Unidos durante algum tempo das Filipinas e à perda também de Porto Rico. Para a Espanha, este foi o fim definitivo do império. Ficou talvez a Sahara Espanhola e não sei se a Guiné Equatorial, pouco mais que isso. O resto desapareceu tudo, portanto, foi o fim de uma era. Isto abriu uma enorme crise em Espanha que acabaria também por, de alguma forma, não só levar à Guerra Civil, como por outros aspetos, é o momento de renascimento dos nacionalismos espanhóis. Portanto, é um momento muito importante na história da Espanha, é o momento que leva a que a mesma direita espanhola, a direita nacionalista, tenha tido sempre uma costela antiamericana e a esquerda, até porque a tradição do século XX, a esquerda também a teve e o próprio Partido Socialista Operário Espanhol chegou durante muito tempo a ser a oposição. A Espanha não fez parte da NATO no início, não é um país fundador. Só entra pra NATO nos anos 80 pela mão de socialistas, mas socialistas diferentes dos atuais, pela mão de Felipe González, que primeiro pilota uma mudança de posição dos socialistas, que eram contra a integração da NATO e depois passam a ser a favor e, como primeiro-ministro, convoca um referendo que aprova a integração da NATO. Portanto, isto é uma história muito diferente da nossa. Mas depois há outro aspeto, e esse aspeto tem a ver com alguns socialistas espanhóis que sistematicamente instrumentalizam estes lados mais culturais para proveito próprio. O primeiro a fazê-lo foi Zapatero, e não é por acaso que é Zapatero. Zapatero é o político que começou a usar a instrumentalização de velhas feridas políticas espanholas para proveito próprio. Fez, por exemplo, com a Lei da Memória Histórica e agora tem um filho dileto em Pedro Sánchez, que entrou em rutura com o PSOE clássico e também resolveu tornar-se uma espécie de-- enfim, o discurso dele feito na Moncloa não seria muito diferente de um discurso feito pela Catarina Martins se por acaso tivesse a oportunidade de o fazer a partir do Palácio de São Bento, até no lado quase Miss Mundo, do gênero "nós preferimos hospitais a bombas", o que é uma coisa que para um discurso de um primeiro-ministro é no mínimo ridículo e caricato. Mas enfim, é assim que é a Espanha. Temos novamente o mesmo alinhamento e isto causou alguns problemas na Europa. A Europa sentiu-se obrigada, alguns países europeus obrigados a manifestar solidariedade com Espanha, mas ninguém fez o mesmo que Espanha fez. Portanto, há um país que também está aos solavancos, que é o Reino Unido, ora vai para trás, ora vai para a frente, anda ali a balançar. O Reino Unido está a ter um comportamento tutaco com a Mala Starmer. Até esta noite, uma operação de evacuação de britânicos que estavam em Oman correu catastroficamente em termos de operação. Enfim, não houve nenhum desastre, mas tudo correu mal nos voos que estavam previstos, até um piloto cansado. E a Royal Navy já não é o que foi. Não é só não ser o que foi no passado A Royal Navy nem sequer vai conseguir chegar a Chipre a tempo de defender Chipre. O Reino Unido teve de pedir ajuda a França, o que é uma coisa humilhante para o Reino Unido. Enfim, um desastre completo a forma como o Reino Unido, com avanços e recuos, com divisões no gabinete, também com uma ala muito descredista dirigida por Ed Miliband, que é o ministro dos Negócios Estrangeiros, a obrigar Starmer a fazer ziguezagues. Aliás, parece ser a especialidade de Starmer. Mas na Europa, formalmente ninguém se contrapôs a Espanha, mas há mal-estar claramente com a posição espanhola e Portugal tomou uma posição. Portugal e os socialistas portugueses ontem posicionaram-se no Parlamento que um governo, pelo menos José Luís Carneiro, provavelmente teria tomado a mesma posição que tomou o governo de Luís Montenegro, que é um cumprimento do acordo das bases aliadas condicionado, como é natural. Alguns dirão que há sempre alguma hipocrisia, porque é difícil distinguir o que são voos de ataque de voos de defesa, de voos de reabastecimento, enfim, uma operação que é mundial, há sempre conexões. Mas até na operação rotineira de qualquer base, neste momento dos Estados Unidos, haverá sempre conexões. Portanto, Portugal acabou por tomar uma posição que é coerente com aquilo que tem sido a sua relação atlântica e reparemos que é uma relação que atravessou regimes. Portanto, vem de muito trás. Recordemos que a posição de Portugal e de Espanha, por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial e na sua relação com os Estados Unidos foi completamente diferente. A entrada dos aliados nos Açores é também um momento muito relevante. A manutenção desse tipo de bases sempre foi importante para os Açores e para Portugal. A nossa própria relação com os Estados Unidos e com as comunidades portuguesas nos Estados Unidos também sempre foi distinta e não tivemos uma guerra com os Estados Unidos, como é o caso de Espanha e os próprios socialistas portugueses ao longo dos tempos, portanto, Mário Soares, António Guterres, para todos os efeitos, tiveram sempre um alinhamento diferente e não é surpreendente a posição de José Luís Carneiro. É evidente que se percebe que no Partido Socialista há outras opiniões, outras sensibilidades. Isso também se percebeu ontem por algumas coisas que foram ditas no debate parlamentar e que foram certeiras, mas não estamos perante nenhum Pedro Sánchez, até porque Pedro Sánchez está a instrumentalizar isso para se aguentar no poder. Neste momento, ele utiliza todas as alavancas possíveis para evitar ser apeado. O PSOE tem acumulado os piores resultados eleitorais de toda a sua história em eleições regionais, em eleições locais, em tudo, mas ele está agarrado ao poder e usou mais uma vez este instrumento, o não à guerra, o antes hospitais que bombas, para tentar recuperar algum espaço político, o que conhecendo a cultura política espanhola, até pode vir a acontecer. Só que isto pode ter consequências. Diz: "Os Estados Unidos não podem discriminar comercialmente a Espanha." Do ponto de vista de aplicar tarifas diferenciadas, não, o acordo é com a União Europeia. Só que podem claramente desviar contratos, fazer outros contratos e a Espanha, por muito alto que fale Pedro Sánchez, as próprias Forças Armadas espanholas estão dependentes de fornecimento dos Estados Unidos e se esses fornecimentos forem interrompidos, os aviões ficam em terra, por exemplo, não voam. E portanto, é necessário considerar que pode haver aqui uma evolução desagradável para a própria Espanha, devido a uma posição que no fundo é muito oportunista. Vamos falar mais sobre isto depois das 10h00. Até já, Isabel Manuel.
Até já.