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Hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Depois, pra entrar em direto, só tem que ligar pra nós: 91 002 41 85, número que também pode usar pra nos enviar a sua mensagem de voz, o seu áudio por WhatsApp. Se preferir, deixe os seus comentários nas redes sociais ou no site do Observador. Carla.

11 milhões e meio. Nunca tantos viveram em Portugal, confirmou esta segunda-feira o Instituto Nacional de Estatística. Entre 2021 e 2025, a população residente cresceu mais 800 mil pessoas. E não porque os portugueses começassem a ter mais filhos. Chegaram centenas de milhares de imigrantes, pelo que um em cada sete habitantes é hoje estrangeiro. É uma realidade nova, com implicações em políticas públicas como as da habitação, saúde ou educação. No Contracorrente de hoje, vamos tentar perceber como é que esta mudança tão rápida aconteceu e que implicações políticas pode ter. Bom dia, José Manuel.

Bom dia.

Ficaste surpreendido com os números?

Não fiquei surpreendido. Os números confirmam, de alguma forma, em termos de percentagem, o peso dos estrangeiros. São quase todos imigrantes. Haverá também alguns expatriados, mas isso são sobretudo imigrantes europeus, ou melhor, estrangeiros vindos da União Europeia, que são uma pequena minoria neste número tão elevado. Talvez não estivesse exatamente à espera que a soma com os nascidos em Portugal já estivesse nos quase 11 milhões e meio, como tu referiste. Isso ajuda-nos a perceber algumas coisas que às vezes andamos à procura de outras explicações. Se temos, de repente, em poucos anos, mais 800 mil pessoas em Portugal, onde é que elas vivem? Não vivem debaixo das pontes. Portanto, se não construirmos casas, há de haver um problema de casas, de habitação. Por exemplo, se não começarmos a importar médicos, mas importamos pessoas, somos capazes de ter mais listas de espera. Se não construirmos novas escolas, é capaz de haver um problema também, sobretudo no ensino básico. E, de facto, existe. Há estatísticas do ensino básico bastante impressionantes. Basta pensar, por exemplo, que nós temos já uma proporção no ensino básico muito semelhante a esta proporção de estrangeiros, portanto, um em cada sete alunos. Nalguns concelhos, sobretudo Lisboa, por exemplo, Setúbal, Algarve, essa proporção chega a ser um terço, mas as escolas não estão preparadas pra isso. Não têm português para não nativos de português e há originários de alguns países que têm muita dificuldade. Por exemplo, enquanto mais de 90% dos portugueses e praticamente o mesmo número de ucranianos completa o primeiro ciclo, que são quatro anos, em quatro anos, quando passamos, por exemplo, pros filhos de indianos, nem metade. Portanto, estamos numa situação de grande desequilíbrio aqui. Isto é apenas um sinal de que vamos tentar perceber como é que o INE fez estas contas, mas da importância de nós termos números pra poder trabalhar e definir políticas públicas, porque quando temos só percepções, quando temos só impressões, quando temos só, pior que isso, preconceitos. Quando a AIMA começou a dizer que havia mil e meio, sensivelmente, de processos em andamento ou que já estavam deferidos, veio muita gente dizer que não podia ser, que era uma construção política. Agora o INE veio cruzar os dados da AIMA com os dados da habitação, com os dados do emprego, com os dados da Segurança Social, com o conjunto de outros dados, de todas as bases de dados do governo, os dados da educação, os dados da saúde, e chegou a um número praticamente igual. Não será exatamente o mesmo, mas é praticamente igual, o que é muito revelador e nos obriga a pensar também sobre o país que íamos tendo, porque tivemos um período em que estava completamente descontrolado. Mais de 300 mil pessoas a entrar por ano, como chegaram a entrar. Três mil pessoas são 3% da população, portanto, 300 mil pessoas são 3% da população. É uma mudança demográfica muito rápida. Nós temos que discutir, e vale a pena discutir, a importância que os imigrantes têm pra garantir que a população ativa não diminui. Nós estaríamos com a população ativa a diminuir sem imigração, mas ao mesmo tempo, se não há condições não apenas para integrar, é para viver com essa imigração, porque o problema é integrá-la culturalmente, integrá-la sociologicamente. Outro problema é ter casas pra toda gente. Ou ter escolas pra toda gente, ou ter médicos pra toda gente. Portanto, isso vamos tentar perceber um pouco melhor o que se passou em Portugal, o que se está a passar, o que mudou ou não mudou, porque isto é, em todo o mundo desenvolvido, o tema dos dias de hoje e o tema do futuro mais próximo, pela necessidade absoluta, porque os desequilíbrios demográficos vão manter-se. Ao mesmo tempo que isto aconteceu, o país continuou a envelhecer. Encontramo-nos de novo depois de amanhã.

Encontramo-nos de novo. Já sem os teus galos, mas tem sido bom ouvi-los. Até já.

Hoje não cantaram.

Não cantaram, cantaram.

Estão a cantar, olha aí.

Até já.

Até já.