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José Manuel Fernandes não pode hoje escapar no Contracorrente à polémica do momento, aquela que envolve Joacine Katar Moreira e o Livre.

É verdade. Mas eu não quero falar apenas de Joacine e do Livre, quero também falar de Mamadou Ba e do Bloco de Esquerda. Aparentemente são dois casos muito diferentes. A deputada Joacine é do Livre e não seguiu uma indicação de voto do partido. Para já continua no Livre, mas percebe-se que nem ela está contente com a direção do Livre e eu diria que nem a direção do Livre se sente lá muito confortável com o protagonismo da Joacine. Para além disso, como se já não fosse suficiente com a história do voto da Palestina, parece que a deputada agora também se atrasou a entregar a proposta mais emblemática do partido, que era sobre a nacionalidade, e agora também diz que é por causa de problemas de comunicação. De facto, há ali um problema. Acho que o Diogo Quinta está lá que tem razão. O assessor anda de saias, o telemóvel não vibra nas calças e, portanto, aquelas chamadas perdem-se. Acho que as coisas não estão mesmo nada bem entre a Joacine e o Livre. Já o caso Mamadou Ba é um pouco diferente. Ele é dirigente do SOS Racismo, era militante do Bloco há 20 anos e agora demitiu-se falando em profundas divergências. O que é estranho, mesmo estranho, é que essas divergências não são de hoje, têm mais de 10 meses. Ele diz que tomou a decisão em janeiro. Isto é, quando foram os acontecimentos no bairro Jamaica. Achou que o Bloco tinha sido frouxo na resposta a esses incidentes. Frouxo, os termos são meus, mas eu acho que é o que resulta da declaração dele. Agora tu perguntas-me e acho: por que ele esperou 10 meses pra sair do Bloco?

É uma boa pergunta, por que esperou tanto tempo? Não se compreende.

Não só não se compreende, como é aquilo que eu acho que é uma estranha coincidência. Mamadou Ba sai do Bloco precisamente na mesma altura em que Joacine entra em choque com a direção do Livre. Eu diria que parece haver aqui uma vontade de fazer coincidir estes dois conflitos políticos. Em princípio, são dois conflitos muito diferentes, mas têm um ponto em comum. E esse ponto em comum é importante, é que têm como protagonistas dois políticos, que têm como principal característica identificarem-se como políticos negros. Não sou eu que os identifico assim. Por exemplo, Mamadou costuma dizer que é um indivíduo racializado negro. E Joacine tem uma espécie de bilhete de identidade que anda sempre a repetir que é mulher, negra e gaga.

Mas achas que isso é mesmo importante? Não será apenas uma coincidência?

Pode ser. Mas há uma frase de Joacine, que ela disse ao Observador este domingo, e que eu acho que é muito clara e reveladora. Ela disse assim, eu vou citá-la: "Fui eu quem ganhei as eleições sozinha e a direção quer ensinar-me a ser política." Eu acho que a parte importante desta declaração é ela achar que ninguém lhe tem que ensinar a ser política. Ora, o que é um deputado, ou uma deputada se preferires, senão uma política? É uma política, não é uma ativista. Aquilo que eu sinto é que a Joacine ainda se sente muito na pele da ativista. Uma ativista negra, feminista, antirracista, tudo isso com imensa legitimidade, mas ela, de facto, tem que ser uma política. E ela parece estar no Parlamento mais para levar por diante a sua agenda, que é uma agenda muito identitária de mulher e de negra, e só secundariamente para dar cumprimento ao programa do Livre. É um pouco como no seu tempo foi Miguel Vale Almeida e como de alguma forma ainda é hoje Isabel Moreira, que são deputados que parece que só foram eleitos para fazerem passar certas leis, no caso destes dois, leis relativas aos direitos LGBT. Quase mais nada lhes interessava ou interessa.

Mas também não te parece que é legítimo que os deputados tenham as suas prioridades?

Legítimo é, mas eu acho que é muito complicado quando são deputados únicos, como é o caso da Joacine. Era menos complicado no caso do Miguel Vale Almeida. Por outro lado, mas eu acho que é um ponto aqui que é mais importante. É que no caso das agendas identitárias, sobretudo de identitárias radicais, o que me parece estar a acontecer com estes ativistas, Joacine e Mamadou, é que elas passam a ver a realidade sempre tudo ou mesmo tudo pelo prisma da raça, nestes casos. Aquilo que eu sinto é que o seu antirracismo, e este ponto é importante, começa mais pela afirmação das diferenças raciais do que por outra coisa qualquer, o que leva a cair numa espécie de racismo de sinal contrário. Por exemplo, no tempo de Luther King, e a gente lembra-se dos principais discursos que ele fez, havia o sonho de um mundo em que todos fossem iguais. Ora, eu sinto que Joacine e Mamadou não reivindicam a igualdade, porque preferem colocar-se no lugar das vítimas. E isto não é exclusivo deles, é muito do movimento atual deste tipo de agendas. No fundo, é como se tivéssemos nós, o país, a sociedade, quase que diria o mundo, uma dívida permanente para com eles. Para mim, é este o grande erro, a grande armadilha das políticas identitárias. Não nos podemos esquecer, por outro lado, que os deputados não se representam a si mesmos, eles representam aqueles que os elegeram. Eles não representam um grupo, representam uma comunidade. É por isso que é importante que Joacine Katar Moreira aprenda a ser política. Ela não está no Parlamento para dar livre curso aos seus ressentimentos pessoais, por mais legítimos e dolorosos que eles sejam, e eu admito que possam ser muito dolorosos até. Ela está lá, pelo menos eu acho que ela devia estar, para representar o partido porque foi eleita. Mas, de resto, como sabes, não me pareceu que a Joacine e o Livre, desde o princípio, se tenham casado lá muito bem. O que eu não antecipava é que se zangassem tão depressa como se estão a zangar. E também devo dizer que não antecipava que o Mamadou tentasse virar a boleia desta zanga.

Foi mais um Contracorrente com José Manuel Fernandes na Rádio Observador e claro, sempre em podcast.