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Corrente do José Manuel Fernandes.

José Manuel Fernandes não gostou de ouvir ontem o Presidente da República e por isso não resiste a dedicar-lhe o Contracorrente. Mas o que não gostaste em concreto, José Manuel? Bom dia. Estamos a perguntar ao José Manuel Fernandes do que é que não gostou do discurso.

Desculpa.

Mas agora é assim. Conta-nos lá, queres falar. Não gostaste do discurso de ontem de Marcelo Rebelo de Sousa, mas explica o que te incomodou.

O que me incomodou... Para já, deixa-me dizer o que gostei. Gostei de ouvê-lo dizer bem dos portugueses, essa parte foi boa, mas o que não gostei, e não gostei de várias coisas, é que provavelmente o presidente queria dizer algumas coisas que não pôde dizer. Designadamente, eu acho que ele gostaria de poder dizer algumas coisas sobre o que vem a seguir e como é que os portugueses vão poder desconfinar, mas não pode dizer, porque não há esse planeamento. Mas aquilo que não gostei mais foi de ouvir coisas que não são verdade. Marcelo, como sabes, vai defender que é preciso manter o país confinado e por isso vai repetir uma espécie de bengal ou uma linga linga. E essa é a ideia, que é preciso salvar qualquer coisa. Agora, o que é preciso salvar é o verão e o outono. Eu suspeito que ele próprio já tem consciência que é uma conversa que já não convence muito os portugueses. Já tivemos essa conversa para salvar o verão do ano passado, depois o verão foi a porcaria que foi. Depois veio a conversa de salvar o Natal, e o Natal estragou-se tudo ou pelo menos contribuiu-se para estragar tudo. E, portanto, quando se anda sem se saber muito bem para onde se vai, já ninguém tem grande confiança em orientações de quem nos dirige e por isso esta conversa já não passa com os portugueses. Por isso Marcelo acabou por acrescentar uma história que em vez de salvar o verão, a ideia de que se não continuarmos todos confinados vem aí um novo desastre, não vai ser suficiente. Portanto, ele disse uma coisa diferente, que foi: "Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la." Esta parte é verdade, só que depois veio com uma ameaça e essa ameaça, no fundo, baseou-se em dados falsos. Foi quando ele disse: "Sabemos que os números sobem sempre mais depressa do que descem."

Mas não sobem? Não foi isso que aconteceu em janeiro?

Não, não foi e eu fui verificar. Eu tinha a intuição que não tinha sido, porque de facto, às vezes fica-se com impressões erradas. Ora bem, eu vou pedir desculpa por usar um bocado de números logo a esta hora da manhã, mas tem que ser. O pico dos casos, e eu vou usar a média de sete dias, porque é o que é o mais correto para tirar os picos, que não são assim muito rápidos. O pico dos casos, com a média de sete dias, foi atingido a 30 de janeiro e foram 12.435. Ontem, dia 25, essa média tinha caído para 1160. Ora, isto quer dizer que o ritmo de descida dos casos foi de 433 casos por dia. Estivemos a perder 433 casos por dia. Qual foi o ritmo de subida nos 26 dias anteriores, portanto, no período de 26 dias anteriores ao pico de 30 de janeiro? Considerando 4 de janeiro, estávamos com 4933 casos. Portanto, a média de subida diária foi de 286, muito menos que este ritmo de descida de 433. Ou seja, o ritmo de descida foi mais rápido que o ritmo de subida. Ora, o mesmo se passou com o número de mortos. Passaram 24 dias, e não 26, entre o dia em que a média de mortos atingiu o seu máximo, que foi 290. E desde então, eles caíram à média diária de 9,5 mortes por dia. Ora, nos 24 dias anteriores, o número de mortes foi subindo mais devagar, um pouquinho mais devagar, foi subindo à média diária de 8,4 mortes por dia. Portanto, o ritmo de subida de mortes e o ritmo de subida de casos foi menor do que o ritmo de descida do número de mortes e do número de casos. Desculpa lá estar a vir aqui a esta hora da manhã com tantos números, mas eu não podia acusar o Presidente da República de ter faltado à verdade sem o provar. E, portanto, fui eu fazer as contas e cheguei a estas conclusões e acho que ele não podia ter dito como disse, que os números tinham subido mais depressa do que desceram, quando o que aconteceu foi o contrário. Os números desceram mais depressa do que subiram.

Mas como é que explicas que o presidente tenha dito uma coisa dessas, então?

Eu acho que só tem uma explicação. O presidente já percebeu que os portugueses não compreendem que um prolongamento tão indefinido, sobretudo, a palavra-chave aqui é indefinido, do confinamento. Uma coisa é perceber que temos que continuar confinados, outra coisa é perceber que temos que continuar indefinidamente confinados até à Páscoa, pelo menos, sem nenhumas alterações significativas. O presidente pediu um planeamento e não tem um planeamento. Por isso, não tinha nada para dizer aos portugueses, não tinha um horizonte, não tinha um faseamento, repito, não tinha nada para dizer. Só tinha, por assim dizer, o prolongamento desta espécie de prisão domiciliária, ou o que quer que lhe chamem, em que todos os dias descobrimos que há medidas absurdas cuja manutenção não faz sentido. O que está a acontecer, o que vai acontecer é que cada vez menos gente vai continuar em casa Fechada, porque cada vez menos gente vai compreender porque é que tem que continuar em casa desde que cumpra regras de comportamento que já foram interiorizadas. Às vezes é o que está a acontecer. Ontem foi divulgado um estudo da consultora PESI que mostra aquilo que se nota: qualquer pessoa que saia à rua, é que há mais pessoas na rua. É que os portugueses já estão a desconfinar. Nenhuma polícia vai conseguir evitar que isso aconteça, pelo que o recurso foi de novo tentar carregar na tecla do medo, espalhar o medo. Mas acho que já estamos naquela fase em que o provérbio que se aplica é que aquilo que não é torto, tarda nunca se endireita.

Portanto, José Manuel, tu achas que nem assustando um pouco as pessoas se consegue toda a disciplina necessária?

Eu começo a achar que as regras que temos estão apressadas e mal desenhadas, porque isso aconteceu desde o princípio. Há coisas absurdas que já falamos aqui muitas vezes, não vou repetir. Como sabemos, apoiei aqui na semana passada um manifesto que defendia que as crianças das creches e pré-escolares deviam voltar às escolas já na próxima semana. Apenas essas, mas essas eram muito importantes, até para perceber que com essas é diferente com as mais velhas. Era bom separar o resto das aulas por graus de ensino. Sabemos que não só pelos riscos serem muito menores com os mais pequenos, mas porque a capacidade de eles transmitirem a doença também é muito mais negligenciável. Provavelmente, aquilo que vai acontecer é regressar outra vez tudo ao mesmo tempo depois da Páscoa, porque à altura a pressão já vai ser tão grande que ninguém vai manter ninguém em casa. E depois, não estamos a discutir essas alternativas seriamente, de facto, continuamos com mistificações no que diz respeito à apresentação, por exemplo, dos números. Estes sistemas são tabu, porque o governo, por exemplo, nunca diz o que pensa fazer, faz caixinhas de tudo. Estamos quase a entrar em março e só sabemos que estamos de novo com números que eram os números de outubro, mas como os hospitais ainda estão cheios, apesar de estarem a esvaziar, a ordem é ficar todos em casa. Já sabemos que os apoios sociais são os piores, senão mesmo os piores da Europa, que os apoios à economia não chegam às empresas, que o fisco cobra impostos e novas taxas. Ainda ontem descobri que havia mais uma nova taxa agora, uma coisa inacreditável, que as empresas estão descapitalizadas, mas o fisco este ano arranjou uma forma de cobrar um novo imposto de selo sobre os sócios que adiantam dinheiro às empresas para necessidades de tesouraria. É mesmo aquilo que estava a faltar. A Segurança Social, entretanto, atrasa-se sempre ou quase sempre. Já sabemos tudo isso e muito mais. E tudo o resto que ainda não conhecemos, porque há muitas coisas que infelizmente não conhecemos, mas vamos continuar todos em casa, sem plano, sem perspectivas, à espera de quê? Vamos ficar à espera de mais uma reunião no Infarmed, como é óbvio. Para depois termos este ciclo: reunião no Infarmed, presente com os partidos, uma reunião da Assembleia, decreto de lei, presidente da televisão, Conselho de Ministros... Enfim, esta rotina. É triste, mas é verdade. Mas foi infelizmente isto que vimos ontem fazer o Presidente da República tentar convencer-nos, e agora através do medo.

José Manuel Fernandes com o Contracorrente nesta manhã de sexta-feira. Ele vai estar conosco já daqui a pouco, depois das 08h30 para "E o vencedor é..."

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