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8:19. Fora de conhecermos o tema do Contracorrente, depois para entrar em direto, já sabe que só tem de ligar 91 002 41 85, número que também pode usar para nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp, se preferir. Deixe os seus comentários nas redes sociais ou no nosso site. Carla. Espanha fica mesmo aqui ao lado. Espanha vive momentos especialmente conturbados, mas em Portugal pouca atenção damos ao que se passa no país vizinho. Contudo, se déssemos o mínimo de atenção, notaríamos como o sistema político espanhol vive momentos de tensão máxima, sobretudo depois da revelação, na semana passada, dos detalhes de um caso de corrupção que atingiu o topo do governo e o topo do PSOE, o partido no poder. Pedro Sánchez foi obrigado a pedir desculpa aos espanhóis, mas não deu sinais de que possa demitir-se ou convocar eleições antecipadas. Isto num país que vive sem orçamento de Estado aprovado e onde o governo depende de uma maioria heterodoxa, onde os partidos independentistas têm um peso determinante. A sociedade está também muito polarizada, o que nem surpreenderá se pensarmos na tradição das duas Espanhas. É todo este quadro que queremos discutir no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia.
Bom dia.
Até que ponto achas que a situação em Espanha é preocupante?
Eu acho que é preocupante por várias razões. Primeiro que tudo, porque temos em Espanha claramente um governo muito enfraquecido, mas um primeiro-ministro que não quer de forma nenhuma abandonar o lugar porque está sem saída. Pedro Sánchez sempre governou de forma, em muitos aspetos, surpreendente, fazendo o contrário daquilo que tinha dito que faria, em várias ocasiões, vários momentos, e continua a fazer o mesmo. O que aconteceu desta vez? Desta vez acontece que foi revelado um relatório longo, de 500 páginas, onde são revelados um conjunto de escutas realizadas no quadro de uma investigação a casos de corrupção. É um relatório daquilo que podemos considerar, de alguma forma, o equivalente espanhol à nossa Polícia Judiciária, que está a investigar uma série de situações. E o que se percebe é que o secretário de organização do Partido Socialista, isto é, a pessoa que manda na estrutura do partido, um senhor chamado Santos Jordán, aparece a pagar comissões, como principal suspeito de pagamento de comissões. Depois temos um antigo ministro dos Transportes, José Luis Ábalos, que era considerado uma espécie de braço direito de Sánchez, que também está acusado de participar na corrupção de contratos públicos. O facto de Ábalos ter sido colocado como ministro dos Transportes por Sánchez, é considerado determinante porque é um dos ministérios por onde passa mais dinheiro. E depois temos ainda um assessor, um tal Koldo García, que teria sido um operacional disto tudo. Há várias acusações que vão desde o desvio de fundos significativos, mas também a possibilidade de ter havido manipulação na eleição que permitiu a Sánchez tornar-se líder do Partido Socialista, posição onde ele sempre teve a oposição de vários setores mais moderados do partido. Isto não é um caso isolado, porque nós temos outras situações igualmente inquietantes. A mulher de Sánchez está a ser investigada por causa de situações de favorecimento em Madrid, na Universidade de Madrid. O irmão de Sánchez está a ser investigado por causa de situações passadas aqui mais perto, em Badajoz, em que não se compreende porque é que ele tinha um determinado emprego, o que é que fazia lá. Ele nem sabia onde era o escritório quando foi interrogado por uma juíza. Tudo isto são situações que têm vindo a criar uma sensação de apodrecimento no coração do regime espanhol. O primeiro-ministro está, de alguma forma, cercado. Isto num país onde o governo depende de interesses muito particulares. Por um lado, está dependente de partidos autonomistas, partidos, nalguns casos, separatistas, como é o caso do Bildu, do País Basco, que são os herdeiros da ETA, mas também de partidos que se colocaram à margem da lei, como são os partidos catalães, e que têm um poder de influência brutal sobre o governo. Aliás, uma destas figuras é absolutamente central nisto, que é Santos Jordán, o secretário de organização do PSOE, o Partido Socialista Espanhol, porque era quem se ia encontrar em Waterloo, na Bélgica, com um fugitivo à justiça, Carlos Puigdemont, antigo presidente da Generalitat catalã. Estes partidos têm um poder que é completamente desproporcional relativamente ao seu peso eleitoral, porque são partidos regionalistas, que só têm votos em algumas regiões de Espanha, mas que usam os poucos deputados que têm para obter de Pedro Sánchez concessões absolutamente enormes e numa situação de fragilidade ainda maior de Pedro Sánchez, não se imagina o que é que vem aí. Mas isto também está num ponto em que Espanha é governada sem orçamento, coisa que em Portugal seria difícil, mas em Espanha é possível e já acontece há muito tempo. É uma situação, por um lado, de governabilidade superfrágil, por outro lado, de quase implosão do Estado nacional. E em cima disto, temos muitas questões que se colocam relativamente às instituições. Basta dizer que a figura que em Espanha corresponde ao nosso Procurador-Geral da República é uma figura que, ao contrário do que sucede em Portugal, onde há preocupações de independência, em Espanha é alguém que passou diretamente do governo para este lugar e agora está a ser investigado porque violou segredos de justiça para tentar perseguir uma presidente da autoridade de Madrid, Isabel Ayuso, que é uma das figuras mais relevantes do principal partido da oposição, o Partido Popular. Há em Espanha, e falaremos mais de outras coisas, muitos sinais também de que as instituições e o equilíbrio entre poderes e a limitação do poder executivo estão em causa. Espanha é uma monarquia, não tem um presidente com alguns poderes que limitem o poder do governo, pelo contrário. A situação tem muitos aspetos que a meu ver são preocupantes.
Sim, e falamos pouco disso, portanto vamos aproveitar hoje. Até já, José Manuel.
Exatamente, vamos aproveitar hoje. Teremos uma semana de programa de governo, portanto voltaremos a isso amanhã e depois.
Claro que sim. Até já. Faça parte do Contracorrente, ligue 91 002 41 85 e entra em direto logo a seguir ao Jornal das 10.