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José Manuel Fernandes quer regressar no Contra Corrente de hoje a um tema que já aqui abordou: o das pessoas que estão a morrer por terem medo de ir ao hospital.

Bom dia.

Bom dia.

Sim, eu queria voltar a esse tema, porque ontem foi conhecido um estudo que eu acho que é muito importante. É um estudo da Escola Nacional de Saúde Pública. Essa escola esteve a olhar para a mortalidade nas duas últimas semanas de março e nas duas primeiras de abril. Ou seja, esteve a ver quantas pessoas morreram em Portugal nas quatro semanas a seguir à primeira morte por COVID-19. A conclusão é impressionante. Os investigadores usaram dois modelos estatísticos diferentes e num deles estimaram que morreram em Portugal mais 1255 pessoas do que seria de esperar, no outro, 1281. É mais ou menos o mesmo número, portanto, os modelos bateram mais ou menos certo. O importante é sabermos que nem metade dessas mortes podem ser atribuídas à COVID-19, ou melhor, foram atribuídas à COVID-19. Nessas quatro semanas, pelas estatísticas, só morreram 599 pessoas com coronavírus.

E as outras morreram de quê, José Manuel?

Daquilo que nós sabemos, morreram, sobretudo, de causas naturais. Até porque, como devemos imaginar, o número de mortes por acidentes de trânsito diminuiu, e bastante, porque as pessoas estão em casa, não andam de automóvel, não há acidentes. O que não sabemos é que causas naturais foram essas. Sabemos que a maior parte das pessoas eram idosos e uma das hipóteses que os investigadores colocaram é que alguns tenham morrido com COVID-19, mas não tinham chegado a fazer o teste. Isso pode ter acontecido, portanto, a atribuição foi dada a outra doença e isso terá acontecido, sobretudo, nas primeiras semanas.

Até parece que noutros países aconteceu o mesmo.

O mesmo ou parecido. Em países como França, Espanha, Reino Unido, até por razões de metodologia, não se começou logo a contabilizar todas as mortes por coronavírus, só se contabilizavam as mortes que aconteciam em hospitais. De resto, aqui há uns tempos, no Observador, nós estávamos a fazer um trabalho em que fazíamos esse levantamento. Por acaso, esse trabalho até é citado na bibliografia deste estudo da Escola Nacional de Saúde Pública, é um trabalho da Ana Kotovitz. E agora o New York Times publicou uma outra estimativa, em que haverá só em 11 países, a maior parte deles europeus, de resto, um ou dois não são europeus, mais 28 mil mortes por COVID-19 do que aqueles que foram contabilizados. Portanto, é um número ainda bastante significativo. Mas questiono nem sequer esta contabilidade, que neste caso concreto, ou pelo menos no nosso caso concreto, me preocupa mais. Aquilo que me deixa bastante inquieto é que muitos desses que estão a morrer, e que estão a morrer a mais, não morreram por coronavírus. E eu acho que a pergunta a fazer é: de que é que eles estão a morrer?

É isso mesmo e tens uma resposta para isso?

Não tenho a resposta, tenho hipóteses. Aliás, como a Escola Nacional de Saúde Pública também tem, e nenhuma dessas hipóteses é muito agradável. A Escola Nacional de Saúde Pública tem uma hipótese, e uma hipótese é que os hospitais, os serviços de saúde, estejam a dar hoje menos atenção aos outros doentes por estarem muito focados na pandemia e, portanto, estarem, de alguma forma, a descuidar ou a dar menos atenção a quem chega com outras morbilidades. Se isto for verdade, eu acho que é muito aflitivo, porque isto não devia estar a acontecer. Não podemos salvar uns por um lado e deixar morrer outros pelo outro, mas sinceramente, não sei se este é mesmo o principal problema. Até porque uma das coisas que me parece estar a acontecer é que nos hospitais há muitos serviços semivazios. É verdade que no SNS adiaram muitas consultas e muitas operações por causa do coronavírus, mas, em princípio, aquilo que se adiou não seriam casos de vida ou de morte. Eu digo em princípio, e espero não estar a enganar-me.

Mas se não é isso, o que é? Tens aí uma luta, José Manuel.

Tenho aqui uma luta.

Estávamos a tentar perceber. Exato, estavas aí a resolver um problema, estávamos a tentar perceber o que está a acontecer.

O que é que é? Penso que um dos problemas é que muitas pessoas estão com medo de ir às urgências. Estão com medo de ir às consultas também, e até mesmo estão com medo de ir aos tratamentos. Isso sabemos até também pelas estatísticas. Por exemplo, as urgências dos grandes hospitais caiu para metade. Nalguns casos, para menos de metade. E a pergunta a fazer é: onde é que se meteu essa gente toda? Porque nós antes íamos muitas vezes às urgências e víamos muita gente mesmo muito doente. O que aconteceu? Essas pessoas deixaram de adoecer, de repente ficou toda a gente boa? Eu acho que não. E acho também que não eram tudo falsas urgências. O que se passou é que muitas dessas pessoas devem estar a adiar um pedido de socorro E adiam tanto até ser tarde demais. No fundo, têm medo de ir a uma urgência por causa da Covid e acabam por morrer em casa ou no lar com queixas que vão escondendo.

Esse retrato é um bocado aflito.

Sim, é um retrato um bocadinho de aflição, um bocado aflitivo, mas eu acho que até é mais porque é a ponta do iceberg. Porque além disso, há também muitas pessoas que não estando neste momento a morrer, estão a deixar tratamentos interrompidos, tratamentos oncológicos, por exemplo. Há doentes cardíacos que deixarão de ser seguidos, há médicos a chamar a atenção para isso. Há também muitos doentes crónicos com medo de fazer os tratamentos que deviam estar a fazer. O que é que isso quer dizer? Quer dizer que muitas dessas pessoas podem estar a agravar as suas doenças, podem estar a tornar, de alguma forma, incuráveis males que tinham tratamento. O problema não é só as muitas centenas de pessoas que já morreram sem ser com a Covid-19 e que, em princípio, não deviam ter morrido. O problema são também todos os que podem vir a morrer mais cedo por não estarem a ser devidamente tratados. Ou seja, há pessoas que não estão a morrer de Covid-19, mas estão a morrer de medo da Covid-19.

Mas o que é que se pode fazer para isso?

Ora bem, este tema é de facto muito delicado e deve alertar-nos para que, de facto, o confinamento e este ambiente de confinamento não é tudo. Fechar os nossos idosos nos lares não é tudo. Aliás, eu diria que há alguns aspetos, às vezes, que não é nada, pode apenas ser uma crueldade. Não sei se te recordas, uma vez fiz aqui uma crónica sobre a morte do Paulo Gonçalves no Dakar e, na altura, não se falava ainda do coronavírus, eu disse que estava um pouco cansado desta sociedade habituada a uma espécie de segurança total, a um mundo quase almofadado. Ora, com esta doença, nós percebemos que não há mundo almofadado nenhum e que não podemos querer substituí-lo por vidas dentro de uma espécie de redoma superprotegida. Sobretudo, não podemos querer fechar agora os nossos mais velhos, sem sequer lhes perguntarmos, numa espécie de caixa forte esterilizada. Eu acho que isso não vai resultar. Não vai resultar porque, como estamos a ver, está a entrar pelos olhos dentro. Pregámos tanto medo, pregámos um susto tão grande, que eles acabam por estar a morrer, mesmo sem terem coronavírus, por outras razões. E não vai resultar, sobretudo, também porque não podemos impor-lhes a solidão. Portanto, eu acho que estes números e esta situação nos obriga a pensar um pouco melhor nisto tudo.

José Manuel Fernandes no "Contra Corrente" da Rádio Observador. Se não ouviu tudo, já sabe que pode sempre fazê-lo dentro de instantes em podcast.

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