Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
É hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Já sabe que para participar só tem de ligar para nós, 910 002 41 85, mas também nos pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos o seu áudio, a sua mensagem de voz, através do WhatsApp, 910 002 41 85. Carla. Os piores resultados de sempre a português e a matemática, uma queda geral nas aprendizagens e competências que não pode ser disfarçada com as quedas também verificadas noutros países. Os resultados dos testes PISA 2025 são muito preocupantes e revelam em toda a sua dimensão as consequências das mudanças promovidas nas políticas de educação a partir de 2016 e dos governos da Geringonça. Mesmo assim, há quem queira encontrar bodes expiatórios ou desculpas de ocasião, numa altura em que temos mesmo de questionar o que deve mudar em todo o setor. No Contracorrente de hoje vamos tentar perceber o que se passa. Bom dia, José Manuel. Ficaste surpreendido com estes resultados? Estavas à espera de uma queda tão grande?
Estava à espera de uma queda, não estava à espera de uma queda tão grande. E é preciso ver as coisas na sua enorme dimensão. Ora bem, por que eu estava à espera disto? Porque de facto houve alterações que foram realizadas logo a seguir à chegada do governo da Geringonça, que foram muito substanciais e que agora se procura apagar. Essas alterações tiveram a ver com o processo de avaliação dos alunos, que perdeu importância para a classificação final e também destruiu as bases de dados que existiam relativamente à sequência da aprendizagem dos alunos. Quando eu mudo o ano em que faço os testes, eu deixo de poder comparar com os anos anteriores, porque o ciclo passou a ser outro. E quando mudo também o grau de exigência, faço com que quem participa nessas provas participe de forma completamente diferente. Isso aconteceu logo em 2016 e depois foi acompanhado por alterações também no que se refere aos currículos, que se tornaram aprendizagens essenciais e houve uma mudança no sentido da exigência para aquilo que se falou, abrangência, competências, coisas muitíssimo mais vagas, que mesmo podendo fazer algum sentido, as pessoas hoje já não têm que fazer as coisas da mesma forma, na prática representaram uma diminuição do grau de exigência. Eu não fiquei surpreendido, eu estava à espera que isto já se tinha notado antes em outros PISA, desde 2015 que se vinha a notar uma descida, podíamos depois dar várias explicações, o que havia e por aí adiante, mas havia uma tendência e agora claramente essa tendência agravou-se. Dir-se-á: "Mas aconteceu em quase todo o mundo". É verdade, aconteceu em boa parte do mundo e isso está a levar muita gente a debater o porquê, sobretudo em áreas como a leitura, que é talvez aquela em que há maior recuo, mas não aconteceu em todo o mundo. Não aconteceu em todo o mundo e é importante comparar os países em que aconteceu e os países em que não aconteceu. E há, curiosamente, um país aqui perto de nós onde isso aconteceu de forma muitíssimo mais mitigada e, sobretudo, aconteceu de forma diferenciada. Estou a falar do Reino Unido. No Reino Unido, em 2010, houve um conjunto de reformas em educação que foram em sentido exatamente contrário àquele que foi seguido pelas reformas em Portugal em 2016. Portanto, foram reformas que acentuaram a importância do currículo, aumentaram as exigências, aumentaram a comparabilidade das escolas, valorizaram os chamados rankings e criaram também regimes de autonomia para permitir que as escolas seguissem por caminhos mais adaptados às suas realidades concretas, mas dentro de um quadro de comparabilidade e exigência curricular. Isso aconteceu em Inglaterra. No Reino Unido, as políticas de educação estão devolvidas, que é o termo que eles usam, às regiões e, portanto, em Inglaterra foi isto que aconteceu, mas não aconteceu na Escócia nem no País de Gales, que seguiram exatamente o caminho ao contrário, destruíram de alguma forma as normas curriculares, foram para coisas como que é importante é formar cidadãos, conversas deste gênero, que isto é conversas, são tretas. E o resultado foi que a Escócia tinha melhores resultados que a Inglaterra e agora tem muito piores. O País de Gales já estava mais ou menos no mesmo nível da Inglaterra e foi uma queda abrupta por aí abaixo. Portanto, há uma correlação óbvia entre políticas adotadas e o que aconteceu nestes estudos. Inglaterra é um dos países europeus que se porta melhor nestes estudos. A Inglaterra recuperou o lugar que tinha há décadas atrás. A Inglaterra vinha a cair e depois das reformas de 2010 começou novamente a subir nas posições. Não estou a dizer nos valores absolutos, porque os valores absolutos depois têm outras condicionantes, mas no lugar, no ordenamento dos países. E depois há também países em que aparentemente ficaram incólumes este tipo de problemas, como alguns países asiáticos, sobretudo a China e os países de cultura chinesa, a Coreia, o Japão, Cingapura e por aí adiante. Portanto, não podemos ir pelo caminho das desculpas, não podemos ir pelo caminho a dizer que isto tanto faz, tanto faz ser exigente ou não ser exigente, tanto faz não sei o quê, não sei o que mais, porque no limite os rapazes estão se a comportar muito mal. Eu estou a exagerar um bocadinho, mas isto é a lógica de um longo artigo que ontem o antigo ministro da Educação João Costa publicou. O João Costa é o grande responsável pelas mudanças posteriores a 2016. Ele é que verdadeiramente mandava na política de educação em Portugal. E ontem veio com um artigo que é muito diferente do título, sobretudo do título da entrevista, que dava a ideia que ele não assumia Assumir essas responsabilidades todas por estes resultados. Ele de facto não pode dizer que não tem responsabilidades, mas justifica tudo. No fundo, é como se não fosse necessário mudar nada. E é necessário mudar algumas coisas. Nós precisamos de ter currículos estruturados, porque sem currículos não vale a pena. Se as pessoas não tiverem bases, nem sequer se podem usar os instrumentos como o antigo Google e a nova inteligência artificial, não os usarão de forma profícua, digamos assim. Portanto, é necessário, de facto, uma base. Falaremos um pouco melhor nisso, com questões que têm a ver com os princípios cognitivos. Depois, é necessário avaliação. É a mesma coisa que pensarmos que nós vamos todos jogar futebol a feijões ou vamos todos fazer corridas e não importa quem ganha. Portanto, se não tivermos uma vontade de ser exigente e de ser competitivo, no fim ficamos todos para trás, porque não temos estímulo para ser melhores. É necessário também avaliação, quer dos estudantes, quer das diferentes escolas. Depois tem que ser possível as escolas lidarem com os seus graus, com as suas realidades. Isso tem que ser feito com autonomia. E não existe autonomia verdadeira enquanto for o Ministério da Educação, por exemplo, a impor às escolas as equipas que elas têm, isto é, a colocar os professores. Se o Ministério da Educação coloca os professores nas escolas todas do país, que é uma coisa soviética, naturalmente que depois os projetos escolares são determinados por um algoritmo qualquer na sede do Ministério da Educação e não pelas realidades locais, por aquilo que é importante perceber que há uma escola que de repente tem muitos alunos com pais que não nasceram em Portugal e outra que tem realidades diferentes. Nós sabemos que é assim, nós temos tido estudos esta semana que nos mostram que estas realidades existem e que se não houver capacidade de adaptar às circunstâncias socioeconômicas diferentes, a famílias com outras culturas, não é possível ter sucesso. E mais uma vez, usando o exemplo do que se passou em Inglaterra, que é um exemplo de sucesso, foi uma das coisas que foi feita em 2010 pelo ministro da Educação na altura, um senhor chamado Michael Gove. E há mais pontos que temos que debater e ver que sobretudo não podemos enfiar a cabeça na areia e dizer: "Vamos discutir isto tudo" e depois o que se quer fazer é mais do mesmo. Mais do mesmo vai levar ao desastre habitual, apesar de nós sabermos que há problemas que são globais. O problema, por exemplo, da falta de atenção e falta de leitura, é algo que não acontece só em Portugal e não tem a ver só com as redes sociais. Já tem a ver com os ecrãs e com a inteligência artificial, mas iremos a isso tudo.
Sim, vamos sim. Até já, Emanuel.
Até já.
Ligue 91 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no "Contracorrente", depois das 10:00.