Porque é que duas pessoas se afastam, por dentro, quando se casam, se convivem todos os dias, anos a fio?
Porque até conviverem mal se conheciam. Porque vão estando tão atulhadas de compromissos que a agitação lhes rouba espaço para repararem uma na outra e falarem sobre si, sobre a relação que têm e de todas as pequenas coisas que fazem parte dos seus dias. Porque deixam de se reconhecer uma na outra e de se admirar mutuamente. Porque acumulam episódios chatos, feios ou dolorosos que não se resolvem dentro de si. Porque assumem que um casamento é, primeiro, paixão; depois, carinho; a seguir, amizade; e, finalmente, uma resignação que se encaminha para uma solidãozinha na presença de alguém. Porque o silêncio é uma bruma que desce depois de cada um dos dois sentir que nunca é escutado de forma a sentir-se entendido. Porque de tanta familiaridade se ter a intimidade vai perdendo espaço, atenção e delicadeza. Porque cada um dos dois passa a não se sentir dentro do abraço do outro. E um beijo ou um abraço deixam de ser gestos mais íntimos que o sexo.
Por um bocadinho de tudo isto, um casamento deixa de ser uma casa que nos aconchega e reconfigura-se como um abrigo que nos protege. E o ombro do outro deixa de ser o cantinho do mimo. E os cuidados com brio e com ternura, que se passa a não ter, deixam de ser descuidos e tornam-se, sobretudo, pitadas de indiferença. E, com isso tudo, deixamos de nos sentir alindados e acarinhados. Sem espaço para lamúrias e queixinhas. Sem sítio onde possamos experimentar a liberdade de chorar ou a capacidade de estar triste. E onde se tenha colo. Sobretudo, colo. Muito colo! Os casamentos estragam-se por falta de colo!
Por vezes, a melhor forma de estarmos tristes é resignarmo-nos com a vida que temos. Que é uma forma de não se chorar nem de dizer que não estamos felizes.
Afinal, o que dói mais num casamento: as coisas más que vão acontecendo, os silêncios que se acumulam sobre tudo aquilo que seria essencial conversar ou reconhecer, à data de hoje, que a tristeza que sentimos não encontra um colo que a repare? A falta de colo, é claro.
Houvesse colo, apesar de tudo o resto que magoa, e o desamparo passava a ter uma razão para nos casarmos todos os dias.