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José Manuel Fernandes, bom dia.

Bom dia.

No Contracorrente de hoje queres falar do início do debate do orçamento suplementar na Assembleia da República. Parece que não gostaste muito do que viste.

Sim, é verdade. Eu não gostou de assistir a um debate onde tive muito a sensação de que o governo, os deputados e devo dizer que também um pouco os jornalistas, pareciam encantados com o regresso da velha retórica parlamentar, um pouco sem perceberem que o país entretanto foi atropelado por uma pandemia. Eu acho que quando olhamos para o que se passou ontem no Parlamento, vemos que regressaram muitos dos temas de antigamente, sobretudo o estilo de antigamente, o nível de laicidade, as eternas discussões sobre o Novo Banco, a TAP. Às vezes acho que a assembleia parece um pouco um disco riscado.

Mas não achas que era inevitável falar da TAP e do Novo Banco? Estamos a falar de muitas centenas, senão mesmo milhares de milhões de euros.

Inevitável era, acho que não havia uma forma de escapar. Agora, aprendeu-se alguma coisa? A discussão trouxe-nos alguma luz sobre aqueles temas? Eu acho que há muito tempo que a TAP, o Novo Banco, são sobretudo armas de arremesso político, onde não se avança muito nessas discussões. É quase sempre meias-verdades, mistificações, muita demagogia. Por quê? Porque é um tema em que é fácil colher dividendos políticos. Como há muito dinheiro em jogo, como tu disseste, é sempre fácil dizer ou pelo menos insinuar que não se vai dar mais nenhum tostão ao Novo Banco ou que não se dá um tostão à TAP. Aquilo que ninguém explica nunca é o que aconteceria se isso acontecesse. Mas eu acho que isto é um pouco a discussão fácil, para não dizer mesmo populismo, mas é o que temos tido há muito tempo e aquilo que não temos tido, e aquilo que eu não dei por isso, e aquilo que eu acho que ontem era importante, era chamar a atenção para aquilo que são realmente as grandes lacunas deste orçamento suplementar.

E queres dar algum exemplo?

Eu quero, até porque é um tema que já tratei aqui no Contracorrente mais que uma vez, acho que é um tema muito importante, e que é o tema da educação. Acho que aquilo que se está passando nas escolas, sobretudo nas escolas do ensino básico, há muito pouca gente a falar sobre isso e acho que é uma catástrofe o que vai ser o ano letivo para os filhos das famílias com menos condições e com menos instrução. Há algumas exceções. O Alexandre Homem Cristo tem falado imenso disso aqui no Observador, o Luís Aguiar Conraria também tem sido um campeão a falar disso no Expresso, mas são quase vozes sozinhas a pregar no deserto, devo dizer-te. Ontem, por exemplo, houve um outro texto também aqui no Observador, do Fernão Alexandre, que é colega do Luís Aguiar Conraria na Universidade do Minho. Também escreveu aqui no Observador, dizia eu, um texto que eu acho muito interessante e que tem um aspecto curioso, é que eu achei que ele é quase profético se pensarmos no que depois se passou no Parlamento.

Quase profético em que sentido?

Se calhar vamos começar pelo princípio para explicar um pouco o que está em causa. Eu acho que, de uma forma muito breve, o primeiro erro que foi cometido neste processo foi manter fechadas as escolas do ensino básico e abrir as do secundário. Isto foi ao contrário do que praticamente toda a Europa fez. O risco, como toda a gente sabe, é menor entre os mais novos e nós o que fizemos foi guardar os mais novos em casa e mandar os mais velhos para as aulas, e quando são os mais novos que mais sentem a falta do professor. O segundo erro, e eu só estou a falar de dois erros neste caso, porque há mais problemas, é que o segundo erro está no orçamento. O orçamento, numa situação destas, o mínimo que podia fazer era, por exemplo, prever aulas suplementares de recuperação para ver se compensava um pouco essas escolas fechadas. Há imensos países que estão a fazer isso ou pelo menos a planear fazer isso, porque é uma urgência. Não há nada disso previsto no orçamento. Há lá pouco dinheiro para a educação e o dinheiro que está é: um, uma coisa que já devia estar feita, que é reabilitar o ambiente das escolas, aproveitem elas estarem fechadas para fazerem umas obras, e o resto é para aquilo que chamam transição digital, mas que aparentemente servirá sobretudo para recuperar o atraso que as escolas estavam já a acumular nos últimos anos, pouco mais que isso.

Mas tinha sido prometido que nenhuma criança ficaria sem computador já em setembro.

Pois tinha, não sei se vai ser cumprido, aliás, há muitas dúvidas sobre isso, mas eu nem sei se esse sequer é o principal problema. Acho que o principal problema, provavelmente, é que o ministério não sabe se quer dizer qual é o problema, porque se calhar não sabe dizer o que se está a passar. Por exemplo, quantos alunos é que estão mesmo a ter aulas? Isto parece uma dúvida metafísica. A FENPROF veio dizer que os professores perderam o contacto com metade dos alunos. Isso é verdade? Será verdade? Isto é inacreditável se for verdade. Outro tema: há alguma coerência nos métodos de ensino? Há professores que ensinam com Zoom, outros que ensinam com Microsoft não sei o quê, outros que ensinam com métodos da Google, obrigando os alunos a estarem sempre a saltar de aplicativo. Isto é assim. Era normal que fosse assim no primeiro momento a seguir ao confinamento, que foi um pouco o salve-se quem puder. Mas a seguir ninguém organizou nada. Portanto, o que está a acontecer agora que acabou o confinamento aos filhos que ficam sozinhos em casa em todos aqueles em que os pais não continuam em teletrabalho. E quantos é que eles são? Que tipo de apoio é que estão a ter? Eu acho que ninguém faz ideia de nada. Ou se faz, não se explica nada no documento do orçamento.

E tu querias ver isso ontem discutido no Parlamento?

Eu queria que pelo menos a educação tivesse sido, como algumas pessoas disseram ontem, um elefante na sala, como foi a TAP ou como foi o Novo Banco. Mas não, e aqui é que chega o texto do Fernando Alexandre. O que ele escrevia ontem, referindo-se um pouco à diferença que há entre os problemas do povo e os problemas das elites, é que há cada vez um fosso maior entre as elites dirigentes e o resto da população. Ele escrevia que há muitas décadas que essas elites dirigentes se têm vindo a fechar sobre si próprias. Estudam nas mesmas escolas, vivem nos mesmos bairros, casam entre si e reproduzem-se. Ou seja, vivem numa bolha que está isolada do resto da sociedade e que em muitos aspetos é insensível aos problemas do cidadão comum. Esta realidade está bem estudada nos Estados Unidos e eu acho que começamos a sofrer do mesmo mal. Eu interrogo-me até que ponto é que aqueles ministros, aqueles deputados conhecerão o que se passa, por exemplo, quando se tem que deixar um filho em casa sem qualquer apoio, a receber os mails de um professor e a nem sequer ter uma impressora para os imprimir. Acho que eles não reconhecem essa realidade, por isso provavelmente não se incomodam, não se sentem preocupados e por isso não falam dela no Parlamento. É por isso que eu só digo: por favor, abram os olhos. O orçamento para a educação é uma vergonha. O plano de contingência para a educação é outra vergonha. Estamos a fazer muito mal aos mais desfavorecidos e aos mais desprotegidos. Estamos, no fundo, a destruir ainda mais aquilo que já funcionava muito mal, que é a igualdade de oportunidades. Por favor, deixem agora um pouco de parte o Novo Banco, que só há dinheiro para o ano que vem, e ocupem-se do que é realmente urgente e importante neste momento para o nosso futuro, que é a educação.

José Manuel Fernandes no Contracorrente da Rádio Observador, à conversa com o jornalista Miguel Cordeiro. Amanhã há nova edição aqui, online e sempre em podcast.

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