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Começa agora mais um Contracorrente com a Helena Matos. Dificilmente se encontra um português que desconheça Maddie e que não tenha uma opinião própria sobre o caso. O que tem este caso de tão especial? Queremos conhecer a sua opinião, por isso contamos com a sua participação. Ligue-nos 910024185 ou deixe os seus comentários nas nossas redes sociais e no site do Observador. Carla Jorge Carvalho. Vamos até 3 de maio de 2007, na Praia da Luz. Mediaticamente, o desaparecimento de Madeleine McCann tornou-se um acontecimento à escala global. Há quem tenha ficado com a carreira destruída por causa deste caso, há quem tenha partido para o Algarve para investigar por conta própria. Teorias da conspiração, erros absurdos, choques culturais, comportamentos inexplicáveis. Houve de tudo neste caso, que a memória não deixa encerrar, mas o que é que tem o desaparecimento de Madeleine McCann de diferente em relação a outros casos? Helena, queres arriscar alguma explicação? Nós temos hoje nos nossos convidados quem o saiba fazer certamente muito melhor que eu. Basicamente, isto é uma observação muito grosseira da minha parte, mas é óbvio que os sequestros, os desaparecimentos, sobretudo os desaparecimentos, sempre têm algo de tão profundamente enigmático que acabam por prender a nossa atenção mais do que, por exemplo, um homicídio. E no caso de Maddie, é claro que estamos quase diante daqueles crimes do chamado quarto fechado. Em que nós percebemos, não é por acaso, que o Poirot, a Miss Marple, acabam por funcionar em espaços fechados. Aliás, o Poirot até no fim junta as pessoas todas dentro de uma sala e nós estamos ali. Eu tenho a dizer que sou tão burra no deslindar desses crimes, que quando ele se põe a deslindar aquilo, eu acho sempre que toda a gente pode ser quase que a própria vítima também. Portanto, não tenho qualquer perspicácia nesses momentos. Mas existe ali um lado que, claramente, sobretudo na questão do desaparecimento, porque é quase contranatura, nós queremos perceber. Mesmo quando aconteceram alguns casos e aconteceram aqui na Europa, por exemplo, daqueles sequestradores que simultaneamente encarceravam as vítimas e acabam a ser descobertas, o caso da Campus, que ela é encontrada muitos anos depois. Há ali qualquer coisa que vai mesmo contra a natureza e, portanto, nós acabamos por ficar presos a querer perceber. Note-se que mediaticamente nós tivemos no século XX, em Portugal, dois grandes casos de desaparecimento. E se o desaparecimento for de um bebê, ainda é muito mais. Porque no terror de todos nós, que somos pais, ou que estivemos a tomar conta de crianças, todos nós já tivemos aqueles agônicos cinco minutos, meia hora, em que não sabemos. Até pode ser menos e é desesperante. E é desesperante, nunca mais ninguém esquece. E percebe-se o que se sente. É como se todo o organismo começasse a funcionar ao contrário naquele momento. Portanto, de alguma forma, todos nós, quando Maddie desapareceu, nos revimos naqueles pais, um dia chegarmos a um quarto e ele estar vazio ou à porta de casa. O confrontarmo-nos com a divisão vazia está no inconsciente de todos nós. Note-se que no século XX nós tivemos exatamente dois grandes casos. Houve alguns enigmas criminais muito grandes, mas dois grandes casos passam por duas crianças, duas meninas que desapareceram. A primeira é muito de imprensa escrita, que é em 1955, que é quando uma menina, uma bebê, desaparece à porta do Cemitério do Alto São João, em Lisboa. A mãe era florista e como acontece com muitas floristas, ainda hoje, são elas que muitas das vezes vão pôr as flores às campas. Têm essa contratualização com algumas pessoas. Ela tinha consigo, como acontecia muito, a sua filha bebê, enquanto estava a trabalhar, vai colocar as flores à campa, deixa ficar a bebê, até porque havia mais floristas, e quando volta, não há bebê. Curiosamente, este caso vem a ser deslindado muitos anos mais tarde, por um homem a quem nós chamamos inspetor, mas ele nunca foi da polícia, que era o Inspetor Veretojo. Ele era um homem religioso, era um homem que tinha muita sensibilidade para as questões dos presos, visitava muito as cadeias, mas não gostava, como ele dizia, de mandar ninguém para a prisão. E de facto, ele veio a descobrir. É claro que a bebê tinha sido raptada, sequestrada por alguém, o que acontece muito, por uma mulher que queria ter uma filha. E note-se que é com essa mulher que depois a criança vai continuar a viver. Mas este é um caso que já tem contornos, era a bebê raptada no Alto São João. Depois tivemos, já com televisão, o caso da bebê que é roubada no hospital particular e portanto, ali já tínhamos televisão, já tínhamos ali um lado, também uma criança que foi sequestrada. Viemos a saber mais tarde, claro, por uma mulher que também queria ser mãe. Ou pelo menos fazer de conta que tinha sido mãe perante a sociedade e ter uma criança para criar. Sobretudo neste último caso, tornou-se claro, a partir de determinado momento, e havia intervenções policiais nesse sentido, que não seria propriamente alguém que queria fazer mal à bebê. Eu lembro-me das notícias, havia explicações, até das pessoas ligadas à polícia, claro, não se podia excluir, mas que muitas vezes o perfil do desaparecimento da criança nestas circunstâncias, bebês muito pequeninos, são sobretudo mulheres que simularam gravidezes e que depois, se alguém simula uma gravidez ao fim de nove meses ou de oito meses, vai ter de aparecer com uma criança.

Mas estávamos a falar de tempos em que, para já, tinha esta questão. Teria sido, em princípio, sobretudo neste caso, 1984, acreditava-se alguém que queria fazer de conta que tinha um filho, por uma simulação de gravidez. Por outro lado, em 1955 não havia televisão, havia rádio, havia jornais, mas o caso não saiu aqui. Chegou à imprensa do Porto, claro que se falava, mas não teve dimensão, não foi uma notícia internacional. O caso do rapto no hospital particular em 1984, já tivemos televisão, também muita imprensa, mas teve uma dimensão. Quem teve filhos por esta época não esqueceu. Isto, aliás, leva a uma alteração no funcionamento dos berçários em Portugal, porque realmente garantir a segurança absoluta de um berçário é uma coisa difícil. E, portanto, houve alterações, os bebês passaram a ficar mais ao pé das mães, e houve mesmo depois procedimentos por parte dos berçários e a necessidade de tranquilizar os pais e as mães que não havia possibilidade de o seu bebê desaparecer. Até porque note-se, não é caso único. Este já foi mais midiatizado, mas o sequestro de bebês em hospitais, estou a falar de Portugal, às vezes, e há um caso esse em Portugal, até por uma mãe, porque há coisas complicadas na vida das pessoas. Este sequestro em hospital pode até ser às vezes feito pelos familiares, não foi caso único, contudo, eu creio que nós, na nossa memória, temos mais ou menos esta memória deste caso de 1984. O que acontece com o caso Maddie? Claramente, não se está diante de um sequestro de alguém que simula uma gravidez, pela idade da criança. Por outro lado, já estamos num tempo em que a questão dos abusos sexuais de crianças já são muito mais falados, muito mais midiatizados, porque muitas vezes estes crimes sobre crianças, quando eles são noticiados, estou a falar até aos anos 70, eles são apresentados como crime infame, mas o foco está no agressor. Ou seja, o infame, é como se de repente a criança fosse subtraída da notícia. Tínhamos às vezes títulos sobre crime infame, mas o infame é quem o pratica. Portanto, o foco estava muito em como é possível que haja uma tal aberração entre nós que faça isto a uma criança.

Não estava centrado na ideia da vítima.

Não estava centrado na ideia da vítima. De todo, não estava. Quando chegamos ao século XXI, o discurso já é completamente diferente. E não é apenas em Portugal. Note-se que uma das explicações que hoje se dá, nomeadamente nos Estados Unidos, para o facto de muitas crianças terem passado a ir acompanhadas para a escola, é a maior atenção que os pais passaram a dar, e os media, aos desaparecimentos de crianças. Muitas famílias que até ali deixavam as suas crianças ir sozinhas para a escola, passaram a ter, sobretudo há dois casos nos Estados Unidos e Canadá também, que poderão ter contribuído para esta alteração daquilo que se sabe. Hoje, aliás, temos até em Portugal, neste momento, uma investigação e um estudo sobre isso, que as crianças, os pais vão levá-las de automóvel à porta da escola. E não é porque eu tenho as pernas mais fraquinhas, é porque para muitos pais é quase insuportável a ideia de, de repente, deixarem-nos ir sozinhos. Para lá de todas as outras coisas, porque as pessoas têm menos filhos, por todo um conjunto de razões. Mas a midiatização dos casos de abusos e maus-tratos a crianças por agressores sexuais, pode ter contribuído para isso. Quando nós chegamos a este caso Maddie, no século XXI, a nossa disponibilidade não é a mesma, ou aquilo que nos chama a atenção, não é a mesma que no passado. A nossa cabeça a olhar para aquilo, não estava como em 1984, quando desapareceu aquele bebê no hospital particular. É claro que pelo meio tivemos também um caso que já nos tinha marcado imenso, que é o desaparecimento do Rui Pedro. Isto estou a falar de Portugal. Já claramente se tinha percebido que não seria para fazer de conta que se era mãe de alguém ou pai de alguém. E o mal-estar todo que tem envolvido sempre o caso Rui Pedro, e pode dizer-se, houve casos semelhantes. Mas ali tivemos já a midiatização e sobretudo quase daquela mater dolorosa que é aquela mãe. E nós começamos a ver-nos naquele lugar.

Sim, ela encarnou muito a imagem da mãe desesperada.

Eu posso dizer que é uma das pessoas com quem estive que mais me impressionou e que mais me marcou. Porque sim, até fisicamente.

Não és a primeira pessoa que diz isso, que esteve com Filomena, a mãe do Rui Pedro, e que diz exatamente isso.

Sim. Eu estou a dizer isto e estou-me a arrepiar, porque me lembro perfeitamente. A pessoa chega aqui a este desaparecimento da Maddie, nós vamos mudando ao longo do tempo, também a forma como olhamos para as coisas, e nós chegamos aqui a este caso de uma forma completamente diferente, com uma capacidade de midiatização completamente diferente. Eu já o tenho dito, aliás, já o disse aqui na redação, eu tenho uma filha que não vive em Portugal, no norte da Europa, e quando uma pessoa chega a esses países, eles sabem o que é o caso Maddie Podem não saber mais nada. Podem não saber muito bem onde é que isto acaba e começa a Espanha, mas sabem que em Portugal houve uma coisa chamada caso Maddie. Temos aqui como nosso convidado o Luís Castro, jornalista, que é alguém que estudou como é que foi já tudo tão diferente, a mediatização deste caso. Nós também ouviremos isso hoje, temos um outro convidado que chama a atenção para isso. Quem chama Maddie somos nós, também.

O Luís também diz isso. Somos nós em sentido.

Somos nós. Adotamos a nossa Maddie. O Luís Castro também diz isto. Ela é a nossa Maddie. Porque os pais não a tratariam assim. De repente, aquela menina cuja imagem se torna universal, é a Maddie de todos nós naquele ano, naqueles meses. Nós temos aqui um caso perante o qual reagimos. Nós, de repente, sabíamos tudo sobre como é que se detetavam impressões com sangue, sobre cães pisteiros, sobre a linguagem corporal dos pais, a linguagem corporal dos policiais, sobre se os policiais deviam falar, sobre se os policiais não deviam falar. Tornamo-nos, de repente, experts em locais de crime. A forma como nós vivemos este caso, creio que o Luís concordará comigo, foi algo também de profundamente inédito.

Antes de mais, Helena, Maria João e Carla, é um enorme gosto estar aqui convosco. Eu sou ouvinte da Rádio Observador a partir das 19h15. Não só porque eu gosto de pessoas inteligentes, espíritos livres, porque também tenho aqui dois amigos, o Paulo e o Juca.

E o Juca.

São pessoas por quem eu nutro uma enorme amizade e muito carinho, até porque o Júlio é o responsável por eu ter ido pra RTP e o Paulo trabalhou comigo também na RTP. Por isso, antes de mais, obrigado pelo convite. Helena, permite-me começar talvez pelo final. Nós cozinhamos de tal forma o caso que ele acabou esturricado. No livro que eu escrevi, o "Porque Adotámos Maddie", já vou explicar o porquê desse título. D. Januário, que foi uma das personalidades que eu ouvi para este-

Talvez possas explicar que entrevistas 24, não é?

Sim, 24. E eu já vou explicar quem foram essas pessoas. O D. Januário diz: "Se vos ouvisse, vocês jornalistas, em confissão, não vos mandava qualquer penitência. Dizia-vos só: vão pra casa e não voltem a pecar". Porque, na verdade, nós pecamos e pecamos muito. E por que eu fui ouvir essas 24 personalidades? Polícias, inspetores, advogados, juízes, psicólogos, sociólogos, jornalistas. Por quê? Porque era necessário fazermos uma reflexão sobre os nossos comportamentos enquanto jornalistas. Eu não escondo, quem me conhece sabe que eu sou muito crítico de muitas das nossas práticas jornalísticas. E em muitos casos nós não estamos a prestar um bom serviço à sociedade e à democracia em geral. Mas por que nós devemos ou não refletir sobre aquilo que noticiamos, sobre as nossas escolhas, sobre os nossos critérios editoriais, sobre a forma como nós fazemos opinião e pomos as outras pessoas a pensar? E isto começa quando um ex-inspetor da Polícia Judiciária, nosso comentador na RTP, no "Telejornal", acusa os pais de Maddie de praticarem swing. Eu era o coordenador do "Telejornal", daí esta reflexão. Eu fui coordenador do "Telejornal" durante seis meses, por isso, grande parte daquelas decisões editoriais, do que as pessoas veem ou não veem, eram da minha responsabilidade.

E é muito tenebroso olhar para as audiências e perceber o que as pessoas veem com base nesses números.

Minuto a minuto.

Segundo a segundo, só podes dizer.

Mas felizmente nós só conseguimos ver isso no dia seguinte. Há outros países, como no caso do Brasil, que conseguem ver isso em tempo real e vão mudando os alinhamentos à medida que estão a perder ou estão a ganhar audiência. E nessa altura, o que aconteceu? Aconteceu que eu pus as mãos na cabeça, vejo o ex-inspetor da PJ a dizer que se dizia que os pais praticavam swing.

Luís, só uma coisa, perceba que é um ex-inspetor da PJ.

Credível.

Credível, que está associado a grandes investigações em Portugal, nomeadamente o combate ao terrorismo.

Podia ser um Inspetor Barra da Costa.

Sim, portanto não era, de repente, um agente de giro.

Não era um tudologista daqueles que apareceu lá a falar de tudo e de nada.

Ou mesmo um PSP que estivesse a passar por ali e dissesse. É um nome respeitado, mas eu penso, Luís, quando se está a ouvir o que está a ser dito em estúdio, a pessoa pensa: "O que é que eu vou dizer?"

Eu pus as mãos na cabeça. E o José Rodrigues Santos, que era o pivô, diz: "Mas diz-se por quem sabe ou diz-se porque se diz?" E ele diz: "Não, diz-se à boca cheia". É o primeiro a pôr o dedo nessa ferida. Imediatamente a Sandra Felgueiras, que estava na Praia da Luz, é abordada por jornalistas ingleses que lhe dizem: "Olha, na tua televisão há um ex-inspetor da PJ que diz que eles praticam swing. Vais ser entrevistada." E ela diz: "Por favor, não me pergunte nada porque eu não sei de nada". Por isso, a informação circulava com uma rapidez muito grande. E nesse momento, eu pensei: é necessário nós refletirmos sobre quem são as pessoas que estamos a pôr no ar, quem são as pessoas a quem abrimos o microfone, quem são as pessoas que nós mandamos para os locais para fazer essa cobertura e quais são as nossas decisões, quais são os nossos critérios de valor notícia. E então eu fui rever seis meses de telejornais. Passei noites a fio nos arquivos da RTP a rever tudo aquilo que nós tínhamos feito, as minhas decisões e as decisões da redação E o impacto que aquilo provavelmente teria. E é aí que eu descubro: ninguém da família lhe chamava Madeleine.

Maddie.

Era Madeleine. Todos, pais, família, ingleses. Só nós, jornalistas. Fomos nós, jornalistas, que criamos o caso Maddie.

Mas como é que aparece o Maddie?

Olha, Helena, eu não sei quem foi, mas eu também fui. Por quê? Caso Madeleine McCann é muito extenso no ecrã.

E tem muito Madeleine.

E nós reduzimos o nome para aumentar na afetividade.

Claro.

Eu sou o António, António Luís, e deitei fora o meu nome António. Por quê? Porque me chamavam Toninho. Não gosto que me reduzam o nome.

Peço desculpa, o que disseste foi impactante, mas não tanto. Estamos aqui nos acertos. Desculpa, Luís. Sim, mas estavas aqui a falar como surgiu este caso.

Porque nós temos os casos e os casinhos, as horas e as horinhas. Nós estamos sempre a diminuir tudo, mas quando diminuímos, aproximamos e criamos empatia, e geramos emoção.

Em linguística, uma das coisas que se percebia é que naquilo que é muito afetivo para nós, muitas vezes diminuímos o que é realmente grande.

E, importante, o que leva a paradoxos na culinária. Muitas vezes, nós na culinária, e os linguistas, nas coisas que comemos, muitas vezes usamos, se nós formos ao Alentejo e nos disserem que têm ali uns pezinhos ou que têm ali uns enchidos, porque os alentejanos usam muito o diminutivo, nós não vamos para uma refeição light, antes pelo contrário. Ou seja, o diminutivo pode ser uma forma de chegarmos a uma relação de grandeza, até. Não é? Sim, e quando me chamavam Toninho, não era pejorativo, era por carinho, mas eu não gostava.

Claro, porque é afetivo. Há algo de envolvente, uma envolvência no uso do diminutivo.

Ao criares o Maddie, caso Maddie, ele é muito mais sonante, campinhas. Caso Maddie não é o caso Madeleine McCann, já é muito extenso e no ecrã fica muito longo.

Madeleine McCann é uma estrangeira.

Um título de jornal.

É uma estrangeira. Maddie é nossa.

E aquela criança passou a ser filha de todos nós, filha do mundo e não pais ingleses. Por quê? Porque nós, e por isso o título do meu livro, porque adotamos Maddie, todos nós achamos que a criança era quase como se fosse nossa filha e todos tivemos opinião se os pais mataram, se não mataram, se eram culpados, se não eram culpados.

E foi variando a opinião.

E por que isto aconteceu no nosso quintal? Será que nós perguntamos alguma vez por que este caso, com este impacto mundial, nasce a partir de uma criança de três anos, na Praia da Luz, numa altura daquelas? E foi esse também um dos pontos de reflexão. A que conclusões chegamos? Primeiro, nos Estados Unidos desapareciam, por dia, 2000 crianças. Em Inglaterra, em seis meses, desapareceram 800 crianças. Em Portugal, no ano anterior, tinham desaparecido 31 crianças entre os 11 e os 16 anos. Então por que tanto aparato sobre aquela criança?

Mas algumas dessas crianças que desaparecem, nós sabemos terem ficado com a resta parental, outros que se irritam com os pais.

Desaparecem e podem aparecer passado duas horas.

Podem aparecer, vão ali um bocadinho irritados.

Por que acontece? Desculpa, mas esta é a pergunta que fica e até para essa tivemos muitas explicações, nomeadamente as influências que a família de Madeleine McCann tinha com o governo britânico. Há duas razões aparentes. Mais do que aparentes, evidentes. A primeira, o campeonato inglês estava decidido. Já não havia notícia. Segundo, os ingleses estavam a caminho do Algarve. Não havia notícias. E tinha desaparecido uma criança.

Inglesa.

E essa criança era inglesa e não era filha de pais anônimos. Eles tinham alguma influência. E aí, é a segunda razão, é que o primeiro telefonema do pai é feito para um amigo, que é uma pessoa influente, um diplomata, amiga de Gordon Brown, que era o ministro das Finanças, mais tarde, logo a seguir, mês e meio depois, torna-se o primeiro-ministro. E eles desenvolvem todas as démarches e uma outra amiga de Kate e do casal dispara também todas as direções, inclusive junto do irmão de Gordon Brown. E aquilo rapidamente chega à imprensa, mas chega à imprensa e chega à Sky News. E aqui é outro fator importante. É que a Sky News começa a bater a notícia de 15 em 15 minutos. E quando começa a bater a notícia de 15 em 15 minutos, depois os outros não lhe querem ficar atrás. Até a BBC foi atrás. E de um momento para outro, nós, em Portugal, acordamos com uma notícia mundial no nosso quintal e nós não estamos lá. E então vamos todos a correr para o Algarve, vamos todos a correr para a Praia da Luz. A Sky, nesse dia seguinte, meteu 30 pessoas na Praia da Luz. Eles contratam o Carlos Vaz, que é um ex-colega nosso cameraman, tem uma produtora no Algarve, e ele é o primeiro a trabalhar para a Sky, até que eles chegassem. E ele foi dos primeiros a chegar lá. E ele diz: "Eu fiquei horrorizado quando comecei a ver a quantidade de jornalistas que estavam a chegar e a forma como tudo estava a começar a desenrolar". E a certa altura, um fotógrafo corria para um café e todos corriam atrás, porque se ele vai para o café, alguma coisa se está a passar. E aquilo era uma loucura.

É o efeito manada, não é?

Foi tudo em manada. E a certa altura, julgo que também se chama pack journalism, mas julgo que também se chama teoria de Lasswell. Alguém dá uma notícia, alguém diz uma coisa e todos dão, e todos se copiam, e a certa altura já ninguém sabe quem disse, mas todos tomam aquilo como verdade. E o que aconteceu foi que de um momento para outro, e em seis meses Nós vemos as audiências, como tu estavas a fazer essa referência há pouco. Nós, RTP, fomos os que noticiamos menos, os que demos menos notícias, a seguir à TVI. E quem noticiou mais foi a SIC. O que acontecia na curva das audiências? Quando nós saíamos do caso Maddie, começávamos a cair. A RTP era líder da informação. Quando saíamos do caso Maddie, perdíamos a liderança para a TVI. Quando a TVI saía do caso Maddie, perdia a liderança para a SIC. E então, o que é que isto faz? Faz com que no dia seguinte, nós, em vez de 10 minutos, passemos a dedicar 15 ou 20, porque ninguém quer cair nas audiências. E aqui fica um paradoxo e um equilíbrio muito complicado entre aquilo que nós achamos que devemos fazer, aquilo que os públicos querem que nós façamos e não podemos estar alheados daquilo que a concorrência faz. E tudo isto impacta no facto de nós dedicarmos horas a fio. Horas a fio a esta notícia. Um dos entrevistados que eu tive para o meu livro foi o Adelino Gomes, que diz uma coisa brilhante. O Adelino, o nosso decano, o nosso grande guia, para mim é um dos meus guias espirituais do jornalismo, dizia-me: "Luís, imagina o que seria o PREC com três televisões a transmitir em direto. Ainda hoje não tinha acabado." É o que nós estamos a viver também com a guerra e vivemos com tantos outros acontecimentos. Os média alimentam, não deixam que terminem, porque eles precisam daquilo para viver. E estávamos já nessa altura a viver uma crise fortíssima na imprensa, que estancou e aumentou as tiragens. Por isso, nós precisamos de um caso Maddie, precisamos de uma guerra, nós precisamos de notícias para alimentar os nossos públicos, porque os públicos também querem. Isto fez com que, como disse há pouco, nós estorricamos de tal forma o caso. Nós acusamos os pais de coisas absolutamente inacreditáveis. Eu vi hoje de manhã. Eu obriguei-me durante todo esse tempo a não ter opinião sobre a culpabilidade ou não dos pais. E mais ainda quando escrevi o livro, porque tinha que ter esse distanciamento. Dizíamos nós que os pais, ou no caso, uma mãe, nunca tinha chorado. Mentira. A mãe chorou e chorou muitas vezes. E só uma mãe que é mãe, ou mais ainda uma mãe que perde um filho, é que sabe qual é a dor de uma perda.

Luís, só outra coisa, também há aqui um choque cultural, ou não?

Sim, mas permite-me só isto. Quando se perde um filho e ele morre, há um luto. Sabemos que há um fim. Há um momento em que aquilo aconteceu e o corpo está ali e faz-se o luto. Quando a criança desaparece, há sempre uma perspectiva, uma esperança de que ela apareça. O caso do Rui Pedro, a mãe do Rui Pedro, o caso da Kate, dos pais da menina inglesa. Por isso, há aqui um sofrimento constante aos quais nós fomos alheios. E há este choque cultural que falavas. Primeiro, nós temos um direito de inspiração germânica. Para nós, tudo é segredo, tudo se esconde. Eles são anglo-saxónicos, tudo se mostra. Mas também, de certa forma, e isso explicarão os especialistas, é que o mostrar tudo pode significar o acelerar da morte da criança se ela tiver sido raptada.

Sim.

Porque nos Estados Unidos, 30% das crianças, nessa altura, que a fotografia era exposta, eram recuperadas. E havia teses diferentes. Tinham ajudado aos 30% ou tinham ajudado aos 70%. Há sempre diversos ângulos para se olhar a história. Como dizia o homem da propaganda do Hitler, tudo depende de quem conta a história do ângulo da câmera. Por isso, nós podemos olhar para a história como quisermos. E cá em Portugal, nós escondemos tudo. E se, julgo que já ninguém se recorda nessa altura, mas qual é a primeira conferência de imprensa que a Polícia Judiciária dá na Praia da Luz? É um responsável da PJ, do Algarve, sem a mínima preparação mediática, capacidade de comunicação, aos gritos, aos berros, a tentar fazer-se ouvir entre os jornalistas ingleses e portugueses e todos aqueles que já lá estavam. Por isso, desde o início que eu vi ali uma impreparação de comunicação da Polícia Judiciária, um choque entre diversas visões. Eu passei férias no Algarve durante muitos anos, num hotel onde basicamente eram ingleses que lá estavam. Eu andava com os meus filhos e, perdoa-me a expressão, quase por uma trela. Os filhos deles andavam à solta. Os filhos deles iam para a cama às 19h, 20h. Os meus iam para a meia-noite, 01h. E eles ficavam a dormir até mais tarde. Os deles de manhã já estavam na piscina. Há aqui um choque muito grande. Daí aquela questão que foi lançada pelo Bárbara Costa também, na altura na RTP, por praticamente todos. Por que as crianças às 19h estavam na cama?

E mais, que pais é que deixam as crianças sozinhas num parque?

Ora, lá está. Por quê? Porque os pais praticavam swing. E porque os pais eram irresponsáveis. E vejam a quantidade de condimentos que isto cozinhado, começa a ser feito com uma enorme injustiça, porque nós não nos compreendemos. As próprias polícias se chocaram. Vejam, os ingleses escreveram artigos a chamar a nossa polícia de estúpida, incompetente, comedores de sardinhas, porque o Gonçalo Amaral e os inspetores também tinham que almoçar. Ninguém os deixava em paz, eles eram todos em cima.

E apanharam a época das sardinhas.

Pronto, e depois porque tinha uma garrafa de vinho, então aquilo era-

Nós bebíamos habitualmente. Também há uma relação diferente com o vinho. Para nós é perfeitamente banal ter vinho numa mesa, mesmo que estejam lá crianças. Temos uma relação normal com o vinho, coisa que não acontece em muitos países, sobretudo no norte da Europa, onde se há crianças à mesa, o vinho não vai. Ou se as crianças são portuguesas, diz-se: "Depois na escola, por favor, não vais dizer que estivemos todos a beber vinho à mesa."

Eu nunca disse isto.

Eu sou minhotos. Tinha colegas meus que chegavam à escola com bigodes de vinho, com as sobras de vinho. Eu tenho uma infância muito rural.

Luís, mas há aqui também uma coisa. Nós tínhamos tido pouco tempo antes o caso Joana.

Pois.

Em que, de facto, também já tinha sido muito midiatizado.

Sabes quantas vezes a RTP abriu com o caso Joana? Três. E fomos altamente criticados. Sabes em seis meses quantas vezes abrimos com o caso Joana? Trinta e nove.

Com o caso Maddie?

Com o caso Maddie, 39.

Quer dizer que a Joana era pobre e morena.

E não tinha cá ingleses.

E não tinha cá ingleses. E a mãe da Joana não era muito telegénica. E a Maddie era loirinha.

Era bonita, tinha o olhinho azul, tinha uma marca no olho.

Sim, ficava muito bem nas fotografias.

Eu mandei fazer uma reportagem sobre essa marca, porque essa marca foi muito importante na parte da investigação. Por quê? Porque a partir do momento em que se começa a dar importância ao sinal que aquela menina tem no olho direito, significa que é um caso em cinco milhões. E se alguém tem aquela criança raptada, é mais um motivo pra matar e pra desfazer o corpo. Por isso, foi altamente discutível se os pais deviam ter libertado. Porque atenção, o que acontece é que Gordon Brown manda assessores diplomáticos, assessores de comunicação. O Ocean Club chama e contrata um ex-assessor que pertencia a uma empresa de um assessor que tinha trabalhado também com a Margaret Thatcher. Ou seja, havia ali uma questão já muito profissional.

Tu não achas que os ingleses, a certa altura, terão receado, as autoridades inglesas, verem o casal McCann ser sujeito aos mesmos procedimentos da mãe de Joana Cipriano?

Gordon Brown tinha interesse naquela notícia. O governo inglês tinha interesse naquela notícia. Os ingleses tinham interesse naquela notícia, porque havia que alimentar o caso todos os dias. Quando não havia um fato, eles criavam um fato. Helena, não vamos mais longe. É só ver o que está a acontecer na Ucrânia. Todos os dias, quando não há um fato, o protagonista cria um fato. Vai visitar, daí entrega umas medalhas.

Mas nós bem sabemos porque ele tem que criar esses fatos. Ele precisa de armas e de financiamento.

E ali os ingleses precisavam que a notícia se mantivesse na tona.

Por que eles não tinham notícias?

Sabemos como são os tabloides. Um dos tabloides oferece 10 mil libras, 15 mil euros de recompensa a quem encontrar a criança logo ao fim de três ou quatro dias. Passados uns tempos, outro jornal oferece dois milhões de euros a quem encontrasse a criança. A certa altura, já há um fundo de quatro milhões pra quem desse informação relevante. Portanto, tudo aquilo começa a ganhar aquilo que são os critérios de valor notícia: a proximidade, a quantidade, a afetividade, a notoriedade. Por isso, tinha todos os condimentos. E a certa altura, o caso Maddie tem mais notícias que as Torres Gêmeas, o atentado às Torres Gêmeas, uma coisa absolutamente inacreditável. Atenção que é o primeiro caso que acontece com uma pessoa anônima. Nunca tinha havido um impacto mundial mediático, uma notícia global com uma pessoa anônima. Tinha acontecido o caso Diana.

E o bebê Lindbergh, mas não era anônimo, de maneira nenhuma. Também o sequestro de um bebê, o pai era um piloto, era um herói.

Isto era um casal de médicos. Tinham era conhecimentos. E nessa altura, qual é o pai, qual é a mãe que não desenvolve e não dispara em todas as direções quando lhes desaparece um filho? Foi o que eles fizeram. Ligaram a todos aqueles que eles viram que lhes podiam ajudar. Governo, imprensa britânica, eles cá não conheciam ninguém. E é aí que depois se estabelecem os contatos entre as polícias e a própria cimeira da União Europeia cá, quando juntou Gordon Brown e José Sócrates, eles discutiram o caso Maddie. Cavaco Silva falou sobre o caso Maddie, porque estava preocupado com a forma como as polícias portuguesas estavam a ser tratadas pelos ingleses. Por isso, isto tornou-se um caso político. Tornou-se um caso pessoal de uma família, obviamente, de um drama, mas tornou-se um caso global, político, diplomático e econômico, porque todos nós precisávamos de vender e precisávamos ter audiências. Por isso, estavam ali os condimentos todos para que isso acontecesse.

Luís, mas nestes ingredientes todos de uma boa história, seja jornalística, seja uma história que discutimos à mesa do café ou do restaurante, as boas histórias costumam ter um fim. Esta ainda não tem. Isso, na lógica da narrativa, alimenta, e não sei se sabes agora que audiências é que está a ter este novo pico do caso Maddie.

Não, porque há outras.

Porque há outras mais interessantes nesta altura.

Nós vivemos de caso em caso. Vocês sabem que eu fui repórter de guerra muitos anos. Eu estive preso no Iraque, estive preso várias vezes, por isso não me digam que me conhecem, porque já tenho um longo cadastro. Mas o que acontece às mulheres do Afeganistão? Eu vivi lá, eu vivi bastante tempo aquele drama. Já ninguém fala do drama das mulheres. Mas, Carla, não quero ser indelicado, mas eu hoje assino um artigo no Sol, onde o título é: "Começa a faltar pau para tanta cobra". E dou o exemplo de 20 mulheres, que nos últimos tempos foram premiadas, reconhecidas internacionalmente pelo seu papel na ciência, no empreendedorismo, e sete das quais, sete magníficas, muito recentemente. Ninguém sabe quem são, mas todos nós sabemos quem é Frederico Pinheiro, Eugénia Caçapa, quantas fotocópias foram tirar e quantos murros ficaram por dar. Nós andamos nos casos e nos casinhos. É verdade. Nas horas e nas horinhas. É verdade. Andamos no acessório e esquecemos no fundamental, porque o jornalismo também é isto, bem ou mal. Entre o trigo e o joio, escolhemos o joio e deitamos fora o trigo E, na verdade, nós não falamos das coisas boas, porque elas não vendem. Nós falamos das coisas más, porque o jornalismo também é o cão que mordeu o homem ou o homem que mordeu o cão. O que é novo? Qual é a novidade? É se o cão morder o homem. Por isso, o que acontece é que nós vivemos destes casos. E se é que ele vai ter algum dia um final feliz, não sei, o Rui Pedro também não teve. E tantos outros não têm. E tantas outras histórias nós vamos deitando fora. Por quê? Porque apareceu outra mais apelativa. Depois da guerra da Síria, veio a guerra da Ucrânia e há de vir outra a seguir e depois os ucranianos lá hão de ficar, como ficaram os afegãos, como ficaram os sírios, como ficou o Rui Pedro. A mãe do Rui Pedro tem toda a razão quando nos critica. Então e o meu filho? Deixou de ser notícia. E por que a menina é tão notícia?

E note, desculpa, que a mãe do Rui Pedro, até porque a família tinha determinados meios e conhecimentos, conseguiu dar visibilidade ao caso.

Muito por nós, RTP. Muito nós, RTP no Porto e inclusive alguns jornalistas da RTP Porto, como é o Hélder Silva, que não largaram o assunto, porque acharam que aquele assunto merecia ser mantido na tona das notícias.

Claro, até porque antes tinha havido desaparecimentos também de rapazes e não se tinha conseguido, até porque eram famílias muito humildes, não tinham conseguido ter aquele destaque. No caso Rui Pedro, eu acho que não é irrelevante aqui o fato de se tratar de uma criança de pouca idade. Portanto, quanto mais nova é a criança, maior a afetividade. O fato de ser uma menina também, porque ainda temos mais preocupações, sobretudo na questão dos abusos, embora os rapazes também possam ser abusados, mas há aqui um lado de maior inquietação naquilo, até muito profundo. Agora, eu creio que o fenômeno, isto não é um fato português. Se nós formos ver, nós encontramos em vários países, neste início de século XXI, final de século XX, grandes casos noticiosos com crianças. Temos em Espanha, que é uma coisa que também foi muito polêmica em termos de jornalismo, embora aí o cadáver das crianças tenha sido descoberto, que é o caso das meninas de Alcácer, que são raptadas, violadas e assassinadas.

Tinha havido duas também em Inglaterra.

Exatamente. Temos um caso também em França, que se arrasta até hoje. É o caso de um miúdo que desaparece também, mas aí também com uma questão familiar. Ou seja, de repente, de repente não, estes são processos com décadas, a sociedade passa a olhar para estes crimes, tal como no passado tinha olhado para outros casos, casos de traição à pátria. Ou casos de grandes roubos. E aqui, e isso é certo, de repente são os filhos das pessoas como nós, que também podem ser sequestradas, porque durante muito tempo quem tinha sido sequestrado eram os filhos dos muito ricos, dos milionários, e sabia-se, não é? Eram sequestrados porque se iam pedir enormes resgates. Ou então filhos de pessoas que tinham uma fama mundial, o caso do Lindbergh. Agora, neste caso, de repente, as crianças tornaram-se protagonistas das notícias. Eu noto também este país inteiro, e aí eu também participei na discussão, que nós, de repente, não podíamos ter reuniões familiares em que não se discutisse o caso da Esmeralda. E quase que se andou ao murro em alguns encontros de família por causa da Esmeralda. E cada um tinha uma opinião sobre a Esmeralda e aquilo era como se fosse conosco. E, portanto, eu acho também que aqui há uma outra coisa, para lá disso, dos jornalistas venderem, do tablóide e tudo isso, mas é, de repente, as crianças.

Interessa aos públicos, interessa aos públicos, interessa a todos nós.

E as crianças vieram para o centro das notícias e não tinham estado lá, não tinham o mesmo destaque.

Porque podem ser as nossas.

Pronto, e passaram a ser vistas como podem ser as nossas. Portanto, eu acho que as crianças tornaram-se muito preciosas, deixaram de ser algo comum. As pessoas tinham muitos filhos, acontecia.

E aqui, não. Luís e Helena, vamos continuar a conversar na segunda parte do Contra-Corrente.

A conversa é interminável. Mal se percebe o caso, continua a suscitar a maior atenção.

Ainda não falámos sequer da metade dos assuntos, mas vamos fazê-lo na segunda parte do Contra-Corrente. Até já. Segunda parte do Contra-Corrente, hoje sobre o caso Maddie. O que tem este caso de tão especial que o torna tão conhecido? Queremos conhecer a sua opinião. 910 002 41 85. A alternativa é deixar os seus comentários nas nossas redes sociais, no site ou então enviar e-mail para ouvinte@observador.pt. Carla Jorge Carvalho. Juntando-se agora ao Luís Castro e à Helena Matos, temos ao telefone o psicólogo e investigador de crimes sexuais, Luís Maia, que também escreveu sobre este caso, o caso Maddie, como estamos a falar. Luís Maia, bom dia.

Muito bom dia.

Bom dia, muito bem-vindo.

A todos e a todo o auditório. Obrigado.

Estamos a tentar perceber aqui por que o caso Madeleine McCann se tornou diferente de outros casos de crianças desaparecidas. Tem alguma explicação para isso?

Bom, antes de mais, bom dia outra vez a todos que estão em estúdio e a todo o auditório e parabenizo por estar a discutir, particularmente com o senhor jornalista Luís Castro, que editou, de fato, um livro maravilhoso. Eu julgo que um dos aspectos principais, que já foi de certa forma abordado na primeira parte do programa, nós todos temos em nós um sentido voyeurista Se reparar, como acabava de dizer o senhor jornalista, a notícia não é o cão morder o homem, a notícia é o homem morder o cão. E este caso torna-se tão apetecível justamente por todos os aspetos que foram referidos por todo o papel da imprensa, e já foi referida, mas por outra parte, que eu gostava de salientar como psicólogo, mas como pai também, e investigador. Por uma parte, que de fato já foi discutida na primeira parte, que é o fato de as crianças terem ficado sozinhas e isso ser considerado normal. Na nossa sociedade não é. Eu peço imensa desculpa ao senhor jornalista Luís Castro, que eu respeito imenso.

Mas quando diz na nossa sociedade não é, na portuguesa, está a dizer que na sociedade ocidental está a alargar mais esse conceito, é isso?

Exatamente, não é, de todo. Eu já vivi em cinco países africanos, americanos e europeus. E sei que quando vou para um país, tenho que me adaptar às leis do país. Veja bem, eu fiquei perplexo porque é que não houve um processo-crime de exposição e abandono a todos os pais, a todos aqueles pais que lá estavam. Se a dra. Carla deixar o seu filho e lhe acontecer alguma coisa como aconteceu com a Maddie, a dra. Carla vai ter problemas gravíssimos com a justiça. Por que não aconteceu com o casal McCann? Isso já não é da minha área.

Mas tiveram um tratamento preferencial.

Eu penso que todos já se pronunciaram acerca disso. Houve coisas que foram diferentes. Se formos comparar com o caso da menina Joana, meu Deus, que diferenças abissais nós temos que permitem claramente perceber que houve um tratamento àqueles pais, todos, eu estou a falar de todos, mas particularmente àqueles pais, porque é Madeleine McCann, a Maddie, como já foi dito, que desaparece. Não sabemos se está morta, se está viva. Há dado aqui claramente um tratamento que a um português normal não seria dado. A mim não seria dado com certeza absoluta, doutora. Eu seria acusado imediatamente pelo Ministério Público de exposição e abandono.

Portanto, estamos aqui sempre claramente a falar de um caso que não é igual aos outros.

Eu tenho a experiência cultural dos meus netos realmente viverem num país do norte da Europa e de fato, eles vão sozinhos, muito pequeninos, pra escola. Existe até aquela prática que é completamente insuportável para uma avó portuguesa, que é: as pessoas vão ao supermercado e os bebês ficam na rua, no carrinho de bebê. Que é uma coisa que para uma portuguesa isto é insuportável. Portanto, mesmo que não sejam os nossos que estão ali, temos quase que a ideia de ir ficar ali a tomar conta dos outros, o que por eles também é muito mal visto. Escreveu um livro, o dr. Luís Maia escreveu um livro que se chama "129", Maddie 129, portanto, serão os 129 dias que os pais de Madeleine McCann estiveram em Portugal. De fato, em 129 dias, sobretudo nos primeiros, eles agiram como os pais estrangeiros que eram. E depois, há aqui uma desadequação muito grande na maneira como os portugueses olham para aquele casal, para os comportamentos que eles têm e que aos nossos olhos são censuráveis, portanto, o ir-se jantar, deixar ficar as crianças no quarto sozinhas, sobretudo sendo crianças de uma idade tão pequena. Portanto, há aqui também este lado em que, e aí eu concordo absolutamente consigo, houve um tratamento diferenciado por parte das autoridades portuguesas em relação a estes pais, daquele que tinha havido, por exemplo, em relação à mãe da Joana. Portanto, há aqui também uma questão cultural, é isso que quer dizer.

Claro que sim, é mesmo isso. Eu escrevi um outro livro que é o "Crimes Sexuais e Violência Doméstica", um guia para vítimas, amigos e...

E familiares.

E familiares, exatamente. O "129 dias" do Luís Maia é de um colega vosso jornalista, não é meu. Os nomes são os mesmos, mas o 129 é do Luís Maia, jornalista, também.

Sim. Mas deixe-me pegar nesse guia que escreveu e que de fato nos orienta neste caminho. Há alguma literatura para as principais explicações para o desaparecimento de menores? A questão dos crimes sexuais está no topo dessas explicações, dessas razões.

O crime sexual, o que eu vou dizer, eu tenho toda a responsabilidade no que vou dizer. O crime sexual não está fora de casa, o crime sexual infantil. E eu sei que o que estou a dizer é muito grave, eu sei. Sei que vou ouvir, sei que vou receber muitas mensagens. Cerca de 60% dos casos de abuso sexual dá-se por familiar direto Mais de 20% por pessoas introduzidas pelos familiares diretos na família. Entendam-se amigos, namorados, namoradas. Veja bem, doutora Carla, qual foi a última vez, por exemplo, que noticiou: criança apanhada no caminho pra escola por um desconhecido, é violada e é deixada? Em comparação com aquilo que nós vemos todos os dias, o que é que nós vemos? Avô abusa sexualmente neta, mãe sabia, nada fez. Pai sabia, nada fez. O namorado. Ou seja, esta pergunta que me faz, é uma pergunta que remete pra algo que pode ser enganatório. Não a sua pergunta. A sua pergunta é perfeita. Eu vou vos contar, penso que pedagogicamente isto também é interessante para os nossos ouvintes. Em 2012, eu encetei uma recolha de assinaturas para o aumento da penalização dos crimes sexuais. Conseguimos, na altura, 8 mil assinaturas. Já dava para ir à Assembleia da República, mas coincidiu com o momento de doença minha, que se prolongou durante algum tempo, graças a Deus, agora está debelada, e portanto aquilo parou. E como sabem, os projetos têm sempre uma cabeça. O fato de eu ter parado, aquilo parou também. Mas repare, nós andamos meses em todo lado, em todas as mídias, em todos os meios de comunicação, por internet, e só recolhemos 8 mil assinaturas. E eu lembro-me de uma vez ter sido convidado para ir à televisão, eu fui durante alguns anos comentador televisivo, e eu lembro-me que quando um presidente da República se enganou e disse que não conseguia viver com os 10 mil euros, que se juntaram assinaturas, eu penso que foram cerca de 60 mil assinaturas, alguma coisa assim do gênero.

Portanto, há menos sensibilidade da sociedade para este problema. Não indigna.

Eu vou mais longe, que toca dois pontos. Olhe, não indigna a sociedade e não indigna o legislador.

Só mais uma questão, que talvez peque com isso que iria dizer, e que é isto: na prática, talvez nós seremos mais sensíveis aos casos de desaparecimento ou possível agressão sexual de crianças, quando a pessoa que pratica esse crime é alguém que passa num carro e chama a criança, um desconhecido que a leva, porque acabamos por ter alguma tolerância, ou pelo menos alguma cumplicidade, face aos casos, como referiu, do avô, do pai, do marido da ama, do amigo, do irmão, quando o agressor está dentro de casa?

Eu respondo-lhe diretamente. Ó doutora, imagine que eu perguntava aos nossos ouvintes: conhece ou não conhece, ouviu ou não ouviu já falar que o avô ou o tio, lá com a sua sobrinha, ou com a sua primita, ou com seu primito, às vezes tem comportamentos impróprios? Conhece ou não conhece, ouviu ou não ouviu falar? Ui, se fizéssemos esse vox populi. Repare, isto é muito grave. O que eu estou a querer dizer é isto: não se dá tanta atenção primeiro, dentro das famílias, primeiro porque não interessa. É das famílias que vem este flagelo. E eu penso que o senhor jornalista Luís Castro, nas investigações que fez, consegue corroborar estes dados que eu estou a dar. A maioria absoluta das crianças abusadas são abusadas por familiares e ou pessoas diretamente apresentadas pelos familiares. Portanto, não interessa. E depois também não interessa legalmente. Quando a pena vai a três anos de prisão e, ou eventualmente, se houver dolo, 360 dias de multa, e só sopra oito e 10 anos se houver morte. É claro que a maioria das pessoas que praticam e são apanhadas, e são julgadas e condenadas, a maioria, o que acontece? Nós sabemos, são os senhores jornalistas que noticiam. Saem em liberdade, em pena suspensa. Menos três anos, menos cinco anos, depois da grande reforma de 2017 da Justiça, até aos cinco anos é bem possível apanharem poucos anos de pena efetiva. Está a ver? Ou seja, nem o legislador dá importância a este fato, porque senão, não tínhamos uma pena de três anos, artigo 161 do Código Penal.

Esse dado aqui é importante também pra reflexão. Doutor Luís Maia, muito obrigada por ter vindo ao "Contra Corrente". É uma das hipóteses que vai sendo atirada para o desaparecimento, as razões para o desaparecimento de Madeleine McCann, ou da Maddie, como nos habituamos todos em Portugal a chamá-la. Vamos passar a palavra aos nossos ouvintes. Temos várias opiniões. A começar por partilhar um áudio que nos enviou o Fernando Estevão, que é arquiteto e que nos ouve em Cascais.

Olá, bom dia a todos. Gostaria de dizer o seguinte aqui sobre este caso, que eu acho que é muito interessante Eu acho que o caso Maddie é um caso de polícia por desvendar e muito interessante do ponto de vista da investigação. Depois, a opinião popular também faz a sua investigação, o que dá a grande popularidade a todo este caso e às várias teorias que o acompanham. Eu acredito que é mais do que certo que os detetives que investigam o caso trabalham num quadro com fotografias, aqueles pionetes e linhas ligados uns aos outros, como nós vemos muitas vezes nas séries policiais. Isto é quase como uma peça de um teatro onde se conhecem todos os atores, mas não sabemos qual é o criminoso. Destes atores há um deles que é criminoso e nós não sabemos qual é, mas sabemos que é um deles. Eu acho que a sociedade, por muito perversa que possa ser, não tem assim tantos criminosos que raptam crianças para abusos sexuais ou para uma adoção ilegal. Creio que é o móbil do crime que divide a investigação. Para os alemães, o móbil do crime foram os abusos sexuais de um pedófilo, enquanto para os ingleses o móbil do crime foi o rapto de uma criança para adoção. Faltam os portugueses, que defenderam até uma determinada data a teoria do acidente doméstico e que depois os pais tentaram esconder com o desaparecimento da menina. Eu tenho esperança que um dia este caso será desvendado. A polícia alemã tem um suspeito pedófilo criminoso, preso, que frequentava o local na altura que eles acreditam que possa ter sido o autor do crime. Já os ingleses, na minha opinião, devem continuar a investigar registros de nascimento das pessoas que circulavam na altura pelo local, pela Praia da Luz, e tentar encontrar uma linha para um rasto do desaparecimento. Quanto aos portugueses, não conheço qual é a linha de investigação atual, mas penso que provavelmente estarão muito mais inclinados para um crime sexual, tendo já abandonado oficialmente a suspeição dos pais. Pronto, era isto que eu queria dizer. Espero que um dia um detetive tenha uma luz, que o ilumine numa determinada linha de raciocínio, de investigação e consiga descobrir este caso policial. Pronto, bom dia a todos.

Bom dia. Obrigada, Luís Figueiredo. Fernando Estevão, à espera que este caso possa ter um fim. O Luís Figueiredo está já em linha, está ao telefone, é professor e ouvinte de Monte Gordo. Bom dia, Luís Figueiredo.

Bom dia. A água continua um bocadinho fria.

A sério? Nem acredito.

É verdade, mas está quente esta questão da Maddie. E eu queria recordar o seguinte: as autoridades portuguesas sabem o que se passou. A questão é política, nem sequer é jurídica. E eu recordo também que as autoridades portuguesas devem também aproveitar este momento para revelar aquilo que aconteceu ao Angoche e acusar a Rússia daquilo que aconteceu em 1971, há mais de 50 anos, e que também continuamos à espera de onde é que estão essas pessoas. É isso que eu tinha para dizer, porque nós entendemos que, de facto, se fosse com um casal português, já teria sido há muito tempo outra situação. Muito obrigado. Bom dia a todos os ouvintes.

Muito obrigada. É uma questão política. Deixa só fazer aqui dois esclarecimentos. Um ao Luís Castro, que é nós pedimos este nosso ouvinte que nos fosse informando regularmente a temperatura da água em Monte Gordo, porque temos a forte possibilidade de um dia fazer lá o "Contra Corrente", quando ela chegar ali a 20 e qualquer coisa.

Mas também vos convido a fazerem o "Contra Corrente" lá em cima no norte.

Está bem, eu gosto de água fria.

Gereiros. Cabreira.

Mas se estiver quente, é melhor. Em relação ao Angoche, é um barco, pois, onde iam portugueses, desapareceu, é uma das coisas que estará relacionada ou não com a guerra e com a intervenção ou não de países estrangeiros, mas há, de facto, um lado do desaparecimento das pessoas. E posso dizer-vos que a ideia de que as pessoas que estavam dentro do Angoche continuavam vivas, é uma coisa que é horrível ler nos arquivos em Portugal, que é os familiares. Depois vinha alguém que dizia: "Eles foram levados pra Tanzânia". E lá se via aqueles familiares, na época o lado era muito diferente de hoje, a escreverem para o presidente da República, Ramalho Eanes, a pedirem para ver se ele podia confirmar que eles ainda estavam vivos. Resolve as coisas quando se diz: "Não, estava ali, estava morto, está enterrado em tal sítio".

Mas também temos o Lama.

E também temos o Lama.

Mais recente.

É.

E ninguém o quis trazer à superfície. Ele está a 60, 70 metros de profundidade. E ficou lá alguém.

Exatamente.

Eu investiguei o caso Lama.

Foi?

Sim. E a certa altura bati na parede. É um dos dois casos que dificilmente terá uma resposta.

Claro. Como o Angoche.

E eu pergunto por que nunca o trouxeram à superfície.

Porque os barcos têm exatamente a mesma questão do quarto. É o espaço fechado. Aparentemente, o segredo tem de estar lá dentro, só que nós não o vemos. Daí também os barcos, os comboios, a Agatha Christie sabia das coisas. E é isso também que nós encontramos aqui neste caso da Maddie. No caso Maddie. Vamos continuar com ele, mas agora com a ajuda da Maria João Simões, vamos pensar as redes. Vamos aos comentários dos nossos ouvintes nas redes sociais do Observador. Nudo Borges escreve: "A PJ fez o que pôde, infelizmente a falta de meios não permitiu encontrar a Maddie". Paulo Pessoa diz: "O mais ridículo é a polícia portuguesa deixar virem alemães e ingleses cavarem, cortarem árvores, etc. Se fosse ao contrário, gostaria de ver se eles permitiam o mesmo. E como já foi mencionado, o caso Rui Pedro ninguém se interessa, pois é português, não é?". Opinião semelhante tem Carlos SC: "Não discordo com a procura, contudo temos o Rui Pedro que merece muito mais do que foi feito. Uma esmagadora maioria conhece o caso da menina em Portugal e Europa. E por que não o Rui Pedro? Porque tão pouco foi feito, porque não ultrapassou as fronteiras portuguesas, porque não se fez um apelo a nível europeu. O Rui Pedro merece muito mais. E a mãe, então, nem se fala. E Portugal pouco fez por esta mãe e pelo filho, e a isto sim, aponto o dedo". Margarida Olete Soares escreve: "Temos outros casos, porque não têm o mesmo interesse". O Rui Pedro, o Élder, a Tatiana, a Sofia, a Cláudia são os nomes de algumas das crianças que estão desaparecidas mesmo há muitos anos. E Luís Castro, jornalista da RTP, fizeste aqui na primeira parte, uma autoanálise ao jornalismo, aos caminhos muito condicionados pelas audiências e pelo efeito manada, mas ao nível da investigação também houve condicionamentos e circunstâncias diferentes no caso Madeleine McCann?

Sim. Eu tive uma longa conversa com o então diretor nacional da Polícia Judiciária, Olípio Ribeiro, um homem do Porto, ali do lado de Gaia, que é a melhor paisagem do Porto.

É o lado que é mais bonito.

É olhá-lo a partir de Gaia. E o Olípio Ribeiro explicou-me porque é que mudou toda a equipe de investigação. E eu, de resto, escrevo uma parte disso no livro, em que ele me diz: "A certa altura, nas equipes de investigação, é preciso mudá-las pra que elas possam voltar a olhar a 360°. Porque quando ficam demasiado tempo sobre o mesmo caso, começam a afunilar e começam a tentar que tudo vá justificar a sua teoria. E começam a deitar fora pormenores que podem ser importantes ou até vitais na investigação". Então ele disse: "Eu decidi mudar a equipe toda". E é quando ele depois mudou a equipe do Gonçalo Amaral por outra equipe, e provavelmente seguiram outras vias e outras técnicas, ou pelo menos outras linhas de investigação. E ele justificava isso. E houve esses constrangimentos. Carla, Helena e Maria João, a certa altura, os ingleses mandaram especialistas para Portugal para ajudar a polícia portuguesa, como se nós fôssemos uns mentecaptos. Reeditaram aquilo que nas cartas do Eça, quando ele diz que um dos jornais britânicos perguntava se seria possível sondar a profundidade da estupidez lusitana. Outro dizia que Portugal era um país excelente pra ele passar muito ao largo e atirar pedras. Fez lembrar essas cartas de Eça, da forma como eles nos depreciaram. Há um artigo num dos jornais de referência britânicos, em que um muito conhecido jornalista, articulista, diz ao embaixador português um palavrão, como quem diz: "Meta as tuas opiniões lá num sítio que eu cá sei, porque vocês não sabem do que dizem e na verdade, são uns incompetentes naquilo que fazem". Por isso, sim, houve um constrangimento, houve demasiada pressão e a polícia portuguesa não estava preparada pra isso. Sim, e depois a seguir, há o envio. E a certa altura, convém não esquecer que já estavam cerca de 250 pessoas a investigar na Praia da Luz. Cerca de 100 dessas 250 eram da Polícia Judiciária, o resto era GNR, Proteção Civil, Cruz Vermelha, tudo. Duzentas e cinquenta pessoas. Nunca poderão acusar Portugal de não ter empenhado todos os seus meios, e aí a tal desproporção em relação a outros casos. Naquele caso, sim, porque ele tinha o impacto mundial, sim, porque ele tinha o envolvimento político, sim, porque ele tinha o envolvimento-

Até impacto turístico.

Turístico, tudo. Ou seja, aquilo era importante. Dar aos ingleses uma imagem de que a Praia da Luz, o Algarve, era inseguro, era fazer com que eles no próximo ano procurassem outros destinos. Portanto, havia ali muitos interesses. O interesse não era só dos pais de encontrar a criança, já era um interesse muito pra lá da criança. E a certa altura, há um jornalista italiano que diz algo do gênero: "Quando eu não tenho nada pra dizer, entrevisto-vos". Entrevistamos uns aos outros e vamos enchendo conosco, encher chouriços. Ou seja, o que tu achas? Diz-me lá a tua opinião. Não há nada pra explicar. Quando os assessores, quando os spins do governo britânico, e do Ocean Club e dos pais perceberam isto, começaram a encher a agenda. Eles programavam o dia: "Hoje, o que é que vai acontecer pra alimentar toda esta turba de jornalistas que estão aqui sedentos e precisam de notícias?" E atenção, as televisões ainda não estavam em direto como estão agora. Imaginem o que seria quatro televisões, no caso, portuguesas, a noticiar em direto aquilo que estava a acontecer. Então o chorrilho de disparates, de erros e dasneiras, permita-me a expressão, que nós teríamos cometido, porque a certa altura nós temos que ir atrás, nós temos que dar aquilo que temos que encher. O que é que aconteceu? A certa altura, os ingleses contrataram equipes cinotécnicas pra levarem os cães. Os jornalistas passaram a ser os investigadores, quiseram estar um passo à frente dos investigadores, um passo à frente da Polícia Judiciária. Isto foi uma confusão enorme. Como é que a Polícia Judiciária consegue investigar com pacatez, com serenidade e com algum discernimento?

Investigação, até.

Não, não havia. Por isso eles questionavam a quantidade de garrafas que iam pra cima da mesa, de alguém que estava a almoçar ou a jantar. Por isso, tudo se questionava. No meio disso tudo é impossível. Não há serenidade.

Quando é que isto vira e os pais de Maddie passam a ser os principais suspeitos?

No início, houve uma certa benevolência para com os pais, porque quando desaparece uma criança, os pais não deixam de ser suspeitos.

Aliás, a mãe do Rui Pedro refere isso, que acha que foi perdido muito tempo nas investigações iniciais, porque passavam o tempo todo a tentar perceber se havia ali alguma circunstância familiar.

Por aquelas circunstâncias que a Luíz mãe há pouco falava, que muitas das vezes acontece no seio familiar.

Sim, claro. E também o mesmo, e aí o desfecho foi dramático, daquele jovem que foi sequestrado, mas que era filho de uma pessoa que estava ligada ao Ministério Público, e que depois é assassinado, aparece na Barragem do Roxo, e em que, como havia um divórcio entre a mãe e o pai

E aqui temos quase que um relato de alguém que vem de dentro, porque é uma pessoa que está ligada à magistratura e percebia que estavam a perder um tempo precioso, porque as perguntas tinham muito a ver, se teria sido o pai que teria levado, se teria sido um namorado. Aquelas coisas, porque era aí que estavam focados. Eu também penso que é preciso que se perceba que estes pais tiveram, não foi uma audiência com o Papa, mas houve até um encontro.

Houve uma digressão mundial. Zelensky, mesma coisa. Ou seja, nós encontramos nos spins os mesmos comportamentos. Nessa altura, os pais, já não havia muito aqui para alimentar. Atenção, permitam-me só voltar aqui um pouco atrás. Em Portugal, nessa altura, a criança só era considerada desaparecida ao fim de 48 horas.

Isso já mudou, não foi?

Sim. Durante 48 horas, já havia um retrato robô para alguém que tinha sido visto com qualquer coisa nos braços. E a polícia portuguesa não libertou esse retrato robô, foram os pais que libertaram. Primeiro grande choque. Então, lá está o anglo-saxónico e o de inspiração germânica, segredo ou mostrar. A polícia portuguesa achava que aquilo devia ser segredo para poderem ter as suas linhas de investigação. Os anglo-saxónicos achavam que deviam mostrar para pressionar e para tentar recuperar a criança. Houve um choque, há pouco um dos intervenientes, um dos ouvintes, falava sobre isto. Há um choque aqui. Nós não podemos olhar para os ingleses só do alto da nossa cultura e dos nossos hábitos. Eu não posso chegar à Inglaterra e porque eles deitam os filhos às 19h, eu deitar os meus. Eles não vão dormir, não têm hábitos. Uma coisa são os hábitos, outra coisa depois é a lei. E ele também referia isso. Por isso, nós temos que olhar para eles, para a polícia na sua especificidade, para os tabloides britânicos na sua componente, e depois também temos que olhar para nós. E nem a polícia se compreendeu, nem os jornalistas se compreenderam, nem as próprias opiniões públicas se entenderam. Todos nós olhámos para os outros do alto da nossa cultura, dos nossos hábitos e com sobranceria e com prepotência, nós em relação a eles, eles em relação a nós.

Alcides, desculpe interromper. Neste momento, está na Netflix uma série que é interessante porque mostra como a Segurança Social norueguesa tirou as crianças a uma família indiana e basicamente por uma incompreensão cultural, que passava por dar comida, por exemplo, com as mãos e pelos horários. E aí que nós temos países, Portugal é bastante mais tolerante com a diferença dos outros do que esses países.

Somos latinos.

Esses países aparentemente muito mais civilizados são em relação às nossas diferenças. Ou seja, a diferença de horários pode mesmo ser determinante para uma intervenção mais coerciva da Segurança Social nesses outros países. Agora, aqui é claro que há um choque muito grande. Nós, provavelmente, já não reagiríamos hoje do mesmo modo, porque nós vamos mudando ao longo do tempo para a forma como olhamos. Nós chegamos aqui com o lastro do caso Rui Pedro, em que de fato se percebe como ao longo do tempo houve ali um mal gerir da situação inicial por parte da polícia portuguesa. Chegamos também com o lastro do caso Joana, em que efetivamente há muita coisa que nós presumimos que terá acontecido, seja dentro da família, em relação àquela criança, seja depois na forma como as autoridades policiais abordaram, sobretudo, a mãe.

E os erros que a primeira parte da investigação cometeu sobre o caso Joana. Que é a segunda equipa. Depois há equipas que vão-

Portanto, nós vamos chegando às coisas com um lastro. E quando se chega ao caso Maddie, para lá de toda esta componente internacional que o Luís tem aqui trazido, nós chegamos a isto também com o lastro destes nossos casos e numa mudança, mas que eu acho que é uma mudança civilizacional em relação aos casos que integram crianças. Se nós formos ver, em diferentes países da Europa, nós encontramos com uma diferença de 10 anos, para menos, para mais, casos em que as crianças foram vítimas de desaparecimentos ou agressões que depois levaram à sua morte e que se tornaram grandes casos nacionais, e em que as pessoas todas começaram a discutir o que é que aconteceu à criança, quem é que foi o autor, como é que foi possível aquilo ter acontecido. Em França, nós temos um caso terrível, que inclusive mete uma fraude, quer dizer, com famílias destruídas, penso que até há um caso de suicídio, e em que, no fim, tudo aquilo estava montado numa fraude. Depois temos um outro desaparecimento que não é assim. Em Inglaterra, as pessoas passaram a discutir as crianças, passaram a olhar e passaram a discutir isto de uma forma apaixonada. Quando nós recuamos no tempo, vamos encontrar isto em relação a crimes de outra natureza. E portanto, este é o crime que nos podia ter acontecido a todos nós ou aos nossos filhos. E de repente, temos aqui depois também, o que eu acho que também reforça este lado. Nós não conseguimos, Luís, eu sei. Quando se fazem aqueles inquéritos, todos os telespectadores dizem que querem ver teatro, documentários sobre vida selvagem.

Mas depois não veem.

E concertos de música clássica. E depois não veem.

Mas fica bem dizer.

Mas fica bem. E nós também somos assim. Ou seja, se nós tivermos um monitor, quer dizer, estes dias, aquelas imagens daquelas buscas na zona da barragem do Arade, nós queríamos saber: "Mas já encontraram? Já encontraram alguma coisa?" Sempre é verdade, como diz o Daily Mail, que é o pijama.

Só que isto não é o CSI e não se resolve em 50 minutos.

Claro, essa é outra questão. A certa altura, eu estava a ver o Daily Mail a dizer que talvez houvesse um pijama, ou que se procuraria o tal pijama cor-de-rosa do Harrods. Poderia estar por ali qualquer coisa. O tempo da investigação não é o tempo dos jornalismo.

É uma novela. É como a guerra. Nós podemos ir de férias, voltamos e apanhamos o fio à meada. E foi o caso da cobertura da média, como é o caso da guerra, como é o caso de outras. É uma novela. E como alguém dizia com piada, ninguém tem o direito de interromper uma novela. Eu tenho direito de saber como é que ela acaba. Eu tenho direito de saber qual é o epílogo. Por quê? Isto é como os casamentos. Os casamentos quando correm bem, depois não tem história. Quando correm mal é que tem história, os casamentos sofridos, os amores traídos, matados.

Acho que é no caso Pia.

Junta-te só ao microfone.

Já percebi esses sinais misteriosos que me estavas a fazer.

Eu viro mais para a Helena.

Acho que é no caso Pia que isso acontece. Não tenho certeza se foi nesse, em que estão os jornalistas e estão pessoas para ver chegar aqui a Lisboa, à PJ, algumas pessoas que estavam a ser levadas. E há um jornalista, sabes que nós somos um bocado arrogantes e parvos, que pergunta a uma senhora que estava ali: "O que ela ali estava a fazer?" E ela olhou pra ele e disse: "Para ver, como o senhor, estou aqui para ver". Ou seja, a dada altura, as pessoas já dispensam quase o mediador jornalista, que lhe dá a informação como ele acha que deve dar, e elas também querem ver.

Abrandamos num acidente, porque queremos ver. Há isto, o belo horrível. Nós gostamos do que é mau. E por que gostamos do que é mau e não tanto o que é bom? Porque há aqui uma questão das neurociências. É que uma notícia má provoca-nos um desafio ao cérebro. Nós vamos questionar: matou, não matou, é culpado, não é culpado, ultrapassou e em excesso de velocidade. Uma notícia boa está resolvida, não nos provoca desafio nenhum e nosso cérebro precisa de desafios. Nós precisamos de perceber se há um bom, se há um mau. Nós temos esta tendência, isto é muito judaico-cristão, uma tendência de o pecado, quem é o culpado, e depois perdoamos. Há três deuses, nós sabemos, nas monoteístas, um pune, o outro julga e o outro perdoa. E nós perdoamos. O Torga dizia: "Nós acordamos indignados, mourejamos indignados, comemos e bebemos indignados, divertimo-nos indignados, somos uma comunidade de indignados". E depois quando nos perguntam: "Como estás?" "Tanto faz." "O que tu queres?" "Escolhe tu." "Como é que vais?" "Assim, assim." Por isso nós somos assim, assim. Isto não deixa de impactar na forma como nós hoje estamos a discutir este caso, porque nós queremos saber quem é o culpado, quem é que falhou, onde está a culpa. Sempre esta questão do pecado, da culpa, de fez mal, fez bem. E depois, lá no final, lá perdoamos e somos condescendentes. Ora, há aqui questões sociológicas, culturais, muito díspares num continente que é o velho continente, mas com realidades muito diferentes entre latinos e anglo-saxónicos. E tudo isto impactou na forma como nós nos relacionamos e a forma como nós estorricamos este caso, ao ponto de ele acabar queimado, mas sem um fim.

Queimado, não completamente.

Estorricamos o caso, como eu digo.

Continuamos a querer saber. E agora estes dias com estas investigações.

E agora aqui mais um episódio. Fomos entretanto ao café e voltamos e há mais um episódio que nos puseram na Netflix. Há aqui mais um episódio. E num destes dias pode haver mais uma temporada e nós vivemos nisto, nós precisamos de ser alimentados. Depois há mais um documentário, depois há mais uma notícia e é preciso continuar. E depois há um fundo, depois há um dinheiro, e depois gastar um dinheiro.

E há muitos desaparecimentos de mídias também. Tem havido vários.

E quantas crianças entretanto desapareceram e nenhuma mais teve este impacto. Por quê? Porque nenhuma mais teve estes condimentos todos de silly season. Não há notícias, envolvimento de pessoas famosas, notoriedade, uma criança bonita. Porque se a criança, e perdoem-me a expressão, tivesse pele escura e olhos castanhos, provavelmente não tinha tido este impacto.

Quando eu falava com uma pessoa do meu agregado familiar, dizendo que íamos fazer um programa sobre isto e a dado momento, ouvi esta observação, que é: não é por acaso que os autores policiais escolhem, em geral, estamos a falar dos policiais clássicos, Agatha Christie, o Simenon um bocadinho menos, mas também, o Sherlock Holmes. Tu acabas por ter os crimes a acontecerem, ou mesmo determinado tipo de dramas a acontecerem nas classes altas, porque quando os fazemos nas classes baixas e nas casas dos pobres, nós já não queremos ver.

Sim. O problema é que o Walter Benjamin falava da aura. E a verdade é que o palácio veio pra rua e a rua entrou no palácio.

Claro.

E depois vamos à teoria da mediocridade e da mediania. Por isso o povo, e em muitos casos bem, tomou o seu espaço. E o critério valor notícia desce às pessoas. Por quê? Porque nós precisamos das pessoas. Já não estamos no alto da nossa sobranceria, da nossa prepotência. A televisão já não é o grande educador do povo. Nós precisamos do povo. Por quê?

Sem povo não há audiências.

O povo não dá audiências?

Sem povo não há audiências.

Mas depende do povo, porque depois há as faixas comerciais. Há aquelas que depois podem ver muito, mas só vendem o sabão, não vendem o grande detergente.

Esta novela é esta transformação.

Esta novela interessou a toda a gente em todo o mundo. E reparem, o David Beckham levantou cartazes. Ela apareceu com a camisola do Everton. No final da Taça da Liga, dois minutos, um vídeo em Wembley a lembrar os Simple Minds com a música "Don't Forget About Me", acho que é assim. O título que deu origem a uma campanha, ao fundo, para as crianças. Tudo isto ganhou essa Essa grandiosidade através da notoriedade. E as pessoas gostam dos seus ídolos e seguem os seus ídolos.

Diz-me uma coisa, e se a Madeleine tivesse desaparecido em Inglaterra?

Não, porque as outras 800 não tiveram esse impacto. Houve duas que desapareceram, depois foram mortas, mas houve um princípio e houve um fim. Elas foram raptadas e depois foram encontradas mortas. Esta mantém-se o suspense. "Twin Peaks", lembras-te de "Twin Peaks"? Quem matou, a música. Aquilo ficou anos. Foi das primeiras séries que nos prendia, mas era só um episódio por semana. E isto não nos apelava muito. Claro que as outras 800 crianças que desapareceram em Inglaterra não tiveram este impacto. Algumas delas voltaram a aparecer, naturalmente. Por quê? Porque não tinham todos estes condimentos. E a partir do momento em que alguém pega a notícia, a notícia ganha este impacto mundial, já ninguém quer sair de cima. Todos querem estar lá. Eu recordo, quando foi Timor, eu passei muito tempo em Timor, e a certa altura, e atenção que satélites de Timor são muito caros, porque tem duas idas a satélite, daí aquele atraso na pergunta e na resposta. E a RTP entendeu, e bem, que já estávamos a gastar muito dinheiro ao erário público, ao contribuinte, em satélites. E começámos a tirar tempo que dedicávamos no "Telesjornal". Começámos a baixar nas audiências. Tivemos que voltar a subir. Tivemos que voltar a dar mais tempo. Por quê? Porque as pessoas queriam saber mais. E se querem saber mais, quem somos nós para lhes não dar aquilo que elas querem saber mais? E é este equilíbrio que falávamos no início, entre aquilo que eu acho, aquilo que quem está do outro lado acha, e o que os outros fazem. É um triângulo das Bermudas.

Sabemos que não é nada fácil. Vamos ouvir o que pensa o Mário Clara, que deixou uma mensagem de áudio.

Olá, bom dia, meu nome é Mário Clara. Quanto ao caso de hoje, em relação à Madeleine McCann, isto reflete muito o que aconteceu a nível da nossa impreparação, da própria comunicação da Polícia Judiciária. Eu, na altura, critiquei bastante as posições do inspetor da Polícia Judiciária. Cheguei até a ler o livro dele e aquilo era um monte de indícios, suspeições e histórias. Parecia uma teoria da conspiração, mas provas é que ele nunca pôde apresentar. Ouvi também muita gente em Portugal a confundir negligência dos pais em deixar os filhos sozinhos com condená-los pelo crime da morte. São duas coisas completamente diferentes. E sim, ouvindo o psicólogo que falou antes, eu vivendo há muitos anos em Inglaterra, se isso acontecesse em Inglaterra, não é habitual as pessoas deixarem os filhos com determinada idade sozinhos em casa. Se fosse, por exemplo, um casal inglês ou até mesmo um casal de imigrantes que aqui estivesse, se deixasse os filhos sozinhos em casa e acontecesse alguma coisa, de certeza não só levava um processo por abandono das crianças ou negligência, e os outros filhos seriam retirados até da guarda dos pais. O sistema inglês em relação a essas coisas até é bastante draconiano, até passar muitas vezes causando isso a pessoas inocentes. E é o que eu tenho a referir. Acho que a nossa impreparação da comunicação, e lamento também o comportamento do Gonçalo Amaral, não só pelo livro, quando as coisas ainda estavam um bocado a quente, nunca ter apresentado provas. Lamento muito o Ministério Público não ter instaurado também um processo aos pais por negligência. E depois também a nossa subserviência em aceitar com que a polícia britânica também interferisse no caso, embaixadores interferissem no caso. Mas acho que é também a nossa pequena pequenez que não está preparada para lidar com este tipo de coisas. Muito obrigado, bom dia.

Muito obrigada, Mário Clara. Bom dia também. E bom dia, Henrique Pinto. Está ao telefone de alta de Lisboa, é empresário.

Olá, bom dia, Carla. Bom dia, Helena. E bom dia a todos da Rádio Observador e aos ouvintes. Helena e Carla, não me perturba nada que as polícias portuguesas sejam mobilizadas para, em conjunto com as polícias alemãs e britânicas, continuem a investigar o caso. Porque, obviamente, todos nós gostaríamos de saber o que é que sucedeu à menina. Nada me perturba, bem pelo contrário. Eu acho muitíssimo bem que as nossas polícias sejam mobilizadas, que os alemães venham, investiguem, até chegarem a uma conclusão, o que é que aconteceu na verdade à menina. Eu, na altura, quando aconteceu esse caso, nem estava cá, estava em Moçambique, mas quando cá cheguei fiquei perplexo. Mas aconteceu isto em Portugal. Agora, há uma coisa que me perturba, e muito. E eu como avô e pai, mas sobretudo como avô, é que nós não podemos, de modo algum, perder de vista os nossos filhos e os nossos netos. Eu, como avô, estou constantemente a dizer aos meus filhos: "Olha, cuidado com os meninos, de mãos dadas. Não percam um segundo ao desviarem o olhar". E eu acho que os pais, os avós e todos nós, família, temos que estar muito atentos, porque o mundo hoje é um mundo, costuma-se dizer que o diabo está sempre atrás da porta. E preocupa-me bastante. Eu, como avô, Deus me livre, Deus me perdoe Que algo de mal lhes aconteça aos nossos filhos e aos nossos netos. Isso é que me deixa perturbado. Agora, em relação à investigação, Carla, eu acho que sim. Repare, se fosse uma criança portuguesa que desaparecesse no Reino Unido, havendo um intercâmbio entre as polícias, eu acho que a Judiciária também iria fazer o mesmo, iria ao encontro das polícias britânicas. Isso não me deixa preocupado, muito pelo contrário, o que me preocupa é-

É a possibilidade de se perder, de desaparecer uma criança.

Nós temos filhos e netos, Carla, e estamos sempre com o coração na mão. Há mais quem nos queira mal do que bem. Isso é uma grande verdade.

Muito obrigada. Um bom dia.

Um bom fim de semana à Helena também e a todos vós.

Obrigada. Um bom fim de semana. É muito curioso, Luís, o que acabámos de ouvir deste ouvinte, porque este caso, apesar de vivermos num país seguro, e são as estatísticas que o dizem, deixou uma marca nos pais, nos avós, em relação a todas as suas crianças. Deixa-me só ligar teu microfone. Escuta, Luís.

Não tem problema. O mundo não está mais perigoso, está é mais mediático. As crianças sempre desapareceram, as guerras sempre aconteceram. E estes conflitos agora são mediáticos. E no dia, no momento, na hora em que tudo está a acontecer, nós estamos a receber.

Estão em nossa casa.

Antigamente esperávamos pelo telejornal para ver uns minutos do que tinha acontecido. Agora nós vemos as novelas completas durante todo o dia, com CPIs, com desaparecimentos. Está tudo a acontecer nos nossos ecrãs, em direto. Começou a guerra, havia pessoas que ficaram noites, dias seguidos agarrados ao ecrã, cheios de medo que a guerra vinha aí, os russos vinham aí. Ou seja, nós estamos muito mais cheios de medo. Mas o mundo mudou assim tanto? Não. Eu sou do tempo, eu tenho 56 anos. Eu subia às árvores, eu partia braços, eu chegava à casa cansado. Agora nós fechamos os nossos filhos numa redoma de vidro. Nós estamos a criar seres que um dia, quando precisarem de voar, e cada vez estão a voar mais tarde, não têm asas, não têm capacidade. As crianças desapareceram, vão continuar a desaparecer. As guerras vão continuar a existir, as pessoas vão continuar a matar-se. O mundo vai continuar a ser assim, é do ser humano, é das sociedades. Temos que estar atentos, sem dúvida. Temos que ser responsáveis, sem dúvida. Temos que ter mais atenção para com as nossas crianças, sem dúvida. Na minha aldeia, estes casos aconteciam. Só que normalmente, como dizia há pouco o Luís, ficavam lá dentro. O desaparecimento, a suspeita de que havia um pai que teria violado a sua filha. Agora tudo é conhecido, mas não deixava de existir. Eu comecei a trabalhar muito cedo e nas minhas férias ia trabalhar para as juntas de freguesia. Eu cheguei a uma junta de freguesia e quando fui aos arquivos, era só filhos de pais incógnitos. Não é de agora. As coisas existiam, só que não havia televisões, não havia este impacto mediático. Por isso, não podemos é cair no exagero. Como eu ali no Parque das Nações, vejo os pais a chegar. Eles não deixam as crianças à porta do colégio. Eles entram no parque com os filhos, não largam os filhos no parque, eles vão com os filhos pela mão até à porta, até à entrada, e só não se sentam ao lado deles na sala de aula porque não podem. Isto é um exagero. Deixem as crianças brincar, ter o seu espaço, a sua liberdade, porque um dia vão lhe fazer uma pergunta sobre qual é o ruído que faz um sapo cego ou uma minhoca, e eles não sabem. Mas o que acontece nos países nórdicos que têm neve, não têm sol como hoje? As crianças vão aprender para a floresta. É que as nossas estão fechadas numa sala de aulas e estamos com elas por uma tela.

Mas nós temos muitas correntes de ar, já devias saber.

Temos muitas nortadas.

Eu acho que houve uma mudança de olhar e eu percebi isso. Eu tenho 61 anos e a própria forma como olhamos para as crianças ao lado dos adultos, mudou. Eu quando fiz a consultoria histórica para uma série que a RTP exibiu, que foi o "Depois do Adeus", tinha a ver com os retornados. E a dada altura, propusemos uma criança que era inspirada em factos reais. Portanto, tudo que ali está não aconteceu àquele protagonista, mas aconteceu. Houve crianças que os pais, as famílias, empregados, enfiaram em aviões e vieram para Lisboa e que alguém os encontraria. E nós tínhamos uma criança na série que tinha vindo nessas circunstâncias, vai para uma pensão onde o dono da pensão, para receber o subsídio do apoio do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, ficava com o dinheiro e pôs o miúdo a trabalhar. E há um militar nessa pensão, uma figura um pouco azougada, que resolve tomar o miúdo sob a sua proteção. E o que é que acontece? Nós tínhamos o miúdo e o militar a dormirem no mesmo quarto e achávamos nós que ficava bem ali uma cena do miúdo com o militar na cama. E houve pessoas mais jovens da equipa que olharam para nós e pensaram:

"Estão doidos".

"Estes velhos estão doidos, não sei encher". E nós percebemos, nós tínhamos um olhar perante aquela cena, em termos cinematográficos, que era claramente geracional.

Da nossa geração.

Era claramente geracional. Nós não víamos ali nada de errado. E claro que a cena não ficou naqueles termos. É uma cena comovente entre o militar e o miúdo, mas não ficou naqueles termos.

Por isso é que nós achamos e estranhamos que governantes comuniquem por WhatsApp. Porque nós não comunicávamos por WhatsApp. Mas já comunicamos também. Por isso, há aqui diferenças quando nós olhamos para os comportamentos das outras gerações.

Há uma questão.

E as coisas mudaram.

E no caso da média, eu acho que há um novo olhar sobre a questão da criança, mas há depois também um olhar estrangeiro sobre o pai e a mãe. E há um olhar estrangeiro dos ingleses sobre nós Então eles todos tão loirinhos, tão bonitos, agora aqui perdidos, a serem investigados nesta terra de gente.

Mas quem diria haver esse problema de tradução no Algarve sem inglês?

Houve problema de tradução. A criança, não esquecer que a menina ia fazer quatro anos daí a poucos dias, daí a poucos dias foi o Dia da Mãe e logo a seguir foi 13 de Maio. E o Scolari veio pedir aos portugueses que rezassem para que Nossa Senhora de Fátima iluminasse os investigadores para que eles encontrassem a criança. Nós somos o país dos três F, dizia-nos o Salazar: Fátima, fado e futebol. Agora somos o país dos quatro F: Fátima, fado, futebol e festivais. E o Benfica vai ser campeão, o Papa vem aí e vem o verão e vamos todos para os festivais e está tudo bem.

Só uma coisa, achas que com a experiência que tens de jornalismo, que o caso Maddie vai continuar a fazer títulos?

Vai continuar a fazer títulos, mas também devia fazer-nos pensar. Nunca houve, e já há distância suficiente para nós pensarmos sobre as nossas práticas. Nós jornalistas também temos que pensar o que estamos a fazer e de que forma é que estamos a impactar. E os média também têm que se organizar.

Porque os polícias mudaram.

Tudo mudou.

Mais do que os média, acho eu.

E nós mudámos? As nossas práticas mudaram?

Pois, parece-me que os jornalistas mudaram menos que os polícias.

Eu continuo a cruzar informação, fontes, ou eu tenho que rapidamente pôr no ar e não vou contactar uma das partes porque me vai estragar o noticiário.

Se a Maddie fosse hoje, se calhar a cobertura não era muito diferente.

Era pior. Por quê? Porque temos mais horas para encher.

Mas eu acho que os polícias investigavam melhor.

Sem dúvida, porque eles evoluíram. E nós teremos evoluído? Um dia teremos que discutir a nossa profissão. Há uns anos eu lancei o debate para a possibilidade de discutirmos uma ordem de jornalistas e rapidamente apareceram uns setores a dizer: "Não nos metam na ordem". Por quê? Porque ninguém quer entrar numa ordem, porque assim é uma enorme desordem, todos se usam. E antigamente dizia-se que o jornalismo é o quarto poder, ele agora dorme no quarto com o poder.

E nós terminamos assim este "Contracorrente".

Meu Deus.

Luís Castro.

Helena, é melhor eu ficar por aqui.

Mais um quarto. Luís Castro, muito obrigada. Foi mesmo importante fazermos esta viagem por 16 anos e uma autoanálise profunda que, de facto, nem se faz num estúdio de rádio, mas lançaste aqui muitas achegas. Helena Matos, bom fim de semana. Até segunda-feira.