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Vamos lá conhecer o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Se quiser entrar em direto para nos dar a sua opinião depois do jornal das 10:00, só tem que ligar para nós 91 002 41 85, ou então também nos pode enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo 91 002 41 85. Carla. À primeira vista, os números da economia não são maus, sobretudo se olharmos para 2025. Portugal criou emprego e cresceu acima da média europeia, mas parece cada vez mais verdadeira aquela frase de que a economia vai bem, as pessoas é que nem por isso. Quando saíram os últimos números da população residente, percebemos que a riqueza por habitante pode não estar a crescer, mas há outro indicador importante para a criação de riqueza que está mesmo a piorar. Estamos a ficar para trás na produtividade. Foi isso mesmo que concluiu um estudo da Business Roundtable Portugal, um estudo que ontem esteve a ser discutido e nós hoje também vamos querer discutir no Contracorrente. José Manuel, bom dia. Isto são boas ou más notícias?

Bom dia. As notícias da economia, se pensarmos em Portugal comparando com o conjunto da União Europeia, até poderíamos pensar que tínhamos razões para estar contentes, porque nos últimos anos, como muitas vezes é repetido, temos crescido um pouco mais depressa. Só que quando, em vez de nos compararmos com o conjunto da União Europeia, nos comparamos com os países com os quais nos devemos comparar, a coisa muda um pouco de feição. Isto tem muito a ver com o facto de os grandes países da União Europeia, aqueles que pesam mais nas contas da União Europeia, como por exemplo a Alemanha, como por exemplo a França, como por exemplo a Itália, estarem com prestações económicas muito medíocres e, portanto, já não serem as locomotivas da Europa como foram noutros tempos. E por isso talvez não sejam o melhor ponto de comparação, sobretudo se pensarmos que nós, como estamos um bocado para trás, convinha que nos chegássemos mais depressa à frente. Quando nos comparamos com outros países, nós falamos muitas vezes disso, sobretudo com os bálticos, com a Polónia, com países do antigo bloco de Leste, vemos que há diferenças. Se bem que haja países do nosso campeonato com que também vale a pena comparar, os países do sul, a Grécia, a própria Itália, a Espanha. E o que nós notamos é que, de facto, olhando, por exemplo, para o crescimento da economia, nós temos alguns dados que são aparentemente positivos. Agora, quando olhamos para outros indicadores, percebemos que o nosso principal problema é que nós trabalhamos muitas horas, mas a produtividade, a riqueza criada é insuficiente para nos aproximarmos da média europeia um pouco mais depressa, ou então em termos de produtividade, até para mantermos os lugares. Nós hoje em dia temos uma produtividade que é, em termos de média europeia, inferior à do ano 2000. É mau, como é óbvio. Estamos com 66,9% da produtividade em 2025. Em 2000 era 67,6% em termos de comparação com a média europeia. A nossa produtividade no ranking europeu é 24ª, estamos mesmo encostadinhos ao fim, era a 17ª em 2000. Há muitos bloqueios que convinha desbloquear. E alguns deles até podem ser, por exemplo, com boas intenções, só que depois há outras coisas no sistema que complicam isto tudo. Nós temos, neste momento, 21% dos contratos de trabalho por conta de outrem com salário mínimo. É uma barbaridade em termos de proporção. Eram apenas 5% há 25 anos. De repente, temos uma quantidade enorme de trabalhadores que ganham o salário mínimo. A Business Roundtable Portugal, pode ser que não é uma organização muito conhecida do público em geral, mas é uma organização importante porque junta 46 dos maiores grupos empresariais portugueses que, no fundo, financiam estudos e financiam formação para tentar puxar a economia portuguesa para cima. É basicamente isto. E isto em alguns trabalhos que fazem este. Mas voltando a este ponto, uma das contas que eles lá têm e que eu achei particularmente reveladora foi aquilo que eles chamam garrote fiscal, garrote fiscal marginal, para ser mais exato, à saída do salário mínimo. Temos 21% dos trabalhadores que recebem o salário mínimo e eu quero dar mais algum dinheiro a essas pessoas. Se eu aumentar o salário de um trabalhador com salário mínimo em €150, salário bruto, a empresa tem que gastar com esse aumento €136 por causa da segurança social. Sabes quanto é que recebe o trabalhador a mais no recibo de vencimento?

Não.

€68. A empresa gasta €136 e o trabalhador recebe €68 no recibo de vencimento. Isto é um desincentivo brutal a tirar pessoas do salário mínimo. Repara o nível de esforço que é necessário fazer para depois a pessoa receber umas migalhas. É este algum dos fatores, como é óbvio, que ajudam a explicar por que Portugal não sai da cepa torta em termos de produtividade. Os outros têm a ver com um investimento insuficiente, o investimento público tem sido mais do que insuficiente, vemos com o PRR. De facto, temos praticamente pleno emprego, mas estamos a criar os empregos em setores menos produtivos, sobretudo setores ligados ao turismo e à construção, não nos outros setores em que o valor acrescentado por hora de trabalho pode ser cinco, seis vezes superior. Estamos, em contrapartida, a perder. Temos mais imigrantes, mas temos uma parte dos nossos jovens a irem-se embora, mais qualificados, com capacidade para gerar mais valor. E claro, temos duas grandes barreiras, temos falado muito delas, mais uma do que outra, devo dizer. Uma tem a ver com a burocracia e outra tem a ver com um tema que não é propriamente o preço do combustível nas bancas, mas é o preço da energia nas empresas. Nós falamos muito daquilo que custa um litro de gasóleo ou um litro de gasolina, falamos menos da diferença que se paga, por exemplo, na conta de eletricidade ou nas outras contas de energia das empresas, e aí a concorrência com a Espanha é mais crítica. Vamos falar um pouco disto tudo, tentar perceber o que pode ser feito ou não pode ser feito para que nós não tenhamos só uma economia com bons números, tenhamos também uma população satisfeita, porque os bons números traduzem-se realmente em mais riqueza e em mais poder de compra.

Que o país esteja bem, mas os portugueses também. Até já.

Também, exatamente.