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Começa na próxima semana mais uma reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas e não se sabe se Portugal aproveita ou não essa oportunidade para reconhecer o Estado da Palestina, pois o ministro Paulo Rangel disse que haveria novidades e que até agora não há nenhum facto que vá interferir no caminho para o seu reconhecimento. A reunião em Nova Iorque acontece numa altura em que as negociações para um cessar-fogo e para a libertação dos reféns que o Hamas ainda detém parecem estar paralisadas, apesar do mediador norte-americano Steve Witkoff estar na Europa e ter se encontrado ontem com responsáveis israelitas em Londres. Também ontem a Comissão Europeia anunciou que vai propor sanções económicas, que no entanto precisam do apoio de todos os Estados da União Europeia e serão mais simbólicos do que reais. Entretanto, no terreno, começou a batalha pela cidade de Gaza, de onde já saiu a maioria dos habitantes. Vamos, por isso, regressar no Contracorrente de hoje a esta crise, começando precisamente por tentar perceber se as reuniões que aconteceram em Nova Iorque, no quadro da ONU, podem ou não ter algum resultado. Bom dia, José Manuel.
Bom dia.
Deste já, as Nações Unidas ainda contam alguma coisa no Médio Oriente?
Olha, Carla, eu infelizmente acho que contam cada vez menos e, na verdade, começaram a não contar praticamente desde a sua fundação. As pessoas já não se recordam, mas uma das deliberações iniciais das Nações Unidas era criar dois Estados naquilo que era, na altura, a Palestina administrada ainda pelo Reino Unido. Logo nessa altura, não foi possível porque os países árabes e os árabes da Palestina não aceitaram. Houve imediatamente uma guerra. Dessa guerra resultou a independência do Estado de Israel, mas não resultou nenhum Estado palestiniano, porque os territórios que eram para ficar para os palestinianos foram incorporados uma parte na Jordânia e outra parte no Egito. Ora bem, eu não vou continuar o resto tudo por aí adiante, mas a verdade é que a partir daí praticamente nunca as Nações Unidas tiveram qualquer papel relevante. Os acordos que houve ou as tentativas de acordo que houve desde então, os acordos de paz de Camp David entre Israel e o Egito, os acordos de Oslo entre Israel e, na altura, a OLP, foi tudo noutros palcos que não o palco das Nações Unidas, porque infelizmente as Nações Unidas não têm sido capazes de ter o mínimo de equilíbrio naquele conflito. E há aqui um dado que eu posso dar-te e que é bastante impressionante. Desde novembro de 23, o ataque do Hamas foi em 7 de outubro de 23, desde essa altura até agora, discussões referentes à situação humanitária no Conselho de Segurança, já houve 60 discussões sobre Gaza. Em Gaza há cerca de 640 mil pessoas deslocadas. Talvez agora nestes dias haja mais, por causa da batalha pela cidade de Gaza, mas é a dimensão do drama. No Sudão há 24 milhões de deslocados, quatro milhões no estrangeiro. A guerra tem 150 mortos no período equivalente, portanto, mais do dobro dos que estarão registados na faixa de Gaza. E relativamente ao Sudão, houve 19 discussões. O que mostra claramente que não há a mesma preocupação da comunidade internacional ou pelo menos dos países representados. E estamos a falar do Conselho de Segurança, se formos para a Assembleia Geral, o abismo é ainda maior. Poderia dar muitos outros exemplos de como as Nações Unidas têm vindo a perder qualquer capacidade de mediação. Falaremos um pouco disso, também a propósito deste relatório recente, que é atribuído às Nações Unidas, no entanto, não é das Nações Unidas, não é um relatório das Nações Unidas. Também aqui há uma grande cumplicidade de políticos e também de muitos órgãos de informação. É um relatório do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, que é aquele Conselho de Direitos Humanos onde estão praticamente todos os ditadores do mundo. A mim não me merece respeito nenhum e não merece respeito nenhum a ninguém. Aliás, é uma comissão que foi constituída ainda antes dos acontecimentos do 7 de outubro e foi constituída, só para teres uma ideia, com o voto contra da maioria dos representantes europeus no Conselho de Direitos Humanos. A Áustria, a Bulgária, a República Checa, a Alemanha, o Reino Unido, todos esses países votaram contra a constituição desta comissão por não considerarem que ela tivesse mínimas condições de independência. Mas lá iremos, até porque uma das coisas que eu gostaria de discutir no Contracorrente de hoje é tentar perceber duas coisas ou, se quiseres, três coisas. Primeiro, o tema do reconhecimento do Estado da Palestina. Neste caso, sobretudo por Portugal, revisitar as condições que Portugal colocava há dois meses, que aparentemente se esqueceu delas. Depois, falar destas acusações que resultam desse relatório relativamente a haver ou não haver um genocídio, não é um detalhe. Nós quando falamos de genocídio, falamos do Holocausto, falamos do genocídio arménio, falamos do genocídio de Ruanda, podemos falar do genocídio do Camboja, mas estamos sempre a falar de milhões. Estamos sempre a falar de ações deliberadas para extinguir comunidades. Eu repito, ações deliberadas para extinguir comunidades. Eu vou dar alguns dados sobre isso, para perceber se é isso que se está a passar ou se isso é mais uma daquelas armas de arremesso político, daquelas palavras que se usam porque ficam bem e porque permitem flotilhas andarem por aí. E finalmente, outra questão que também é muito relevante, e é talvez a parte onde Israel sai menos bem na fotografia ou sai mesmo mal na fotografia, que são os planos. Mas o problema é que não é só Israel que não tem planos para o dia seguinte, ninguém tem. Neste momento, ninguém tem. E isso é, porventura, um dos grandes problemas dos dias que vivemos, porque ninguém acredita na Riviera do Médio Oriente passada por Trump, mas também ninguém acha que seja possível manter uma situação em que o Hamas continua a governar a faixa de Gaza e em que a autoridade palestiniana é o quê. Falaremos um pouco disso tudo, é uma situação muito complicada, muito divisiva, mas que não podemos ignorar, quanto mais não seja, porque aparentemente é uma das situações que é o foco de discussão em todo o mundo.
Claro que sim. Até já.
Até já.
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