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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta quarta-feira. Para entrar em direto e nos dar a sua opinião, só tem que ligar para o nosso número 91 002 41 85 ou então enviar-nos a sua mensagem de voz por WhatsApp. O número é sempre o mesmo: 91 002 41 85. Carla. Há dois meses o Ministério Público realizou buscas na TAP, precisamente no dia em que era publicado o caderno de encargos para a privatização de 49% da companhia. Ontem, o Ministério Público voltou a realizar buscas, agora na semana em que as empresas interessadas na privatização da TAP têm de apresentar as propostas e desta vez para investigar algo que aconteceu faz precisamente 10 anos. Aquando das primeiras buscas, considerou-se que devia ser coincidência, apenas isso. Mas à segunda coincidência, que pensar? E que pensar também do objeto de investigação, factos com mais de 10 anos, muitos deles do conhecimento público, também há vários anos. Queremos responder a estas questões no Contracorrente de hoje, assim como procurar avaliar o impacto que estas operações sucessivas podem ter no valor da companhia e no processo de privatização. Bom dia, José Manuel. A TAP não nos dá sossego.

Verdadeiramente não nos dá mesmo sossego. Esperemos que não seja por muito mais tempo e que este processo de privatização termine e a TAP passe a ser uma companhia normal. Sim, mas até lá vamos continuar a ter estas guerras, que umas vezes são jurídicas, outras vezes são políticas, mas eu diria que são quase sempre mais políticas do que jurídicas, porque este caso aconteceu porque houve uns membros do anterior governo que resolveram fazer uma queixa sobre algo que se passou há imenso tempo e, sobretudo, algo que era do conhecimento de muita gente, designadamente o Tribunal de Contas, e que não tinha suscitado este tipo de questões. Nós vamos falar um pouco do que estava em causa há 10 anos, porque parece que às vezes as pessoas esquecem. E, por exemplo, eu ontem vi regressar à discussão pública, ao tema público, à forma como as notícias eram dadas ou à forma como se debatia as notícias, a ideia de que a TAP foi comprada pelo David Neeleman e pelo Humberto Pedrosa, com o pelo do cão. E recordei-me de uma entrevista que David Neeleman deu aqui há uns tempos ao Expresso, em que ele diz: "Essa frase tem um problema, é que o cão não tinha pelo". E na verdade, na altura, o principal problema que havia com a privatização da TAP não era saber quanto é que quem a comprasse ia ganhar com ela. O problema que havia era encontrar alguém que conseguisse pegar naquela companhia no estado em que ela estava. Aquela companhia, naquela altura, sabes quanto é que valia? A avaliação é menos 400 ou 500 milhões de euros. Isto é, o Estado para privatizar teria que pagar a quem ficasse com ela entre 400 a 500 milhões de euros. Obviamente, ainda por cima no período da Troika, não ia fazer isso, era absolutamente impossível. Andou-se anos, era uma coisa decidida quando foi o protocolo assinado ainda pelo governo de José Sócrates, mas que só no final, mais de quatro anos depois, é que conseguiu fechar o processo para encontrar alguém. E isso implicou ir buscar alguém que é uma das poucas pessoas na aviação que tem conseguido inovar em vários locais do mundo. Inovou em Portugal, mas primeiro que isso, inovou muitas vezes nos Estados Unidos, inovou no Brasil e sempre com sucesso. Aliás, o senhor David Neeleman, que entretanto se foi embora, regressou aos Estados Unidos, fundou uma nova companhia de aviação, usou nessa companhia modelos e ideias que de alguma forma tiveram validade na TAP e já vai em 60 aviões, salvo erro, e vai a caminho das centenas de aviões. Tornaram aquilo numa companhia muito maior que a TAP, feita do zero, e que conseguiu resultados positivos ao fim de dois anos ou coisa assim do gênero, o que é absolutamente inédito nesta indústria. No entanto, não servia para Portugal. E agora os políticos, e particularmente aqui o principal é Pedro Nuno Santos, andaram a ver se arranjavam alguma forma de o destruir e para o destruir chegaram a fazer queixa. Agora, qual é o problema que isto tem? O problema é que as anteriores buscas, que ainda tinham a ver com aquela indemnização paga a uma administradora que saiu, é um tema que já sabemos tudo sobre ele, imaginamos que aquilo se fecha rapidamente. É um tema que não perturbará muito a privatização, é um tema que tem a ver com aquilo ser uma empresa pública e com os estatutos dos gestores públicos e coisas desse género. Aquilo vai deixar de ter esse estatuto, portanto, não vai voltar a ter aquele tipo de problemas. Mas este caso, não. Este caso tem a ver com compromissos que o Estado assume, com a forma como o Estado se relaciona com as empresas com quem faz negócios e que depois acaba em tribunal. E isto, obviamente, quem está interessado em fazer uma proposta para a TAP olha para isto e diz assim: "Isto muda o governo, muda os ministros". Não é só mudar o governo ou mudar o partido, porque já percebemos que os interessados na TAP também andam a falar com o Partido Socialista. Aí começam os problemas. Qual é a posição do Partido Socialista? Alguém sabe? Já teve para aí 10 ou 15 posições. Varia conforme os dias, varia conforme os ministros, varia conforme o tempo dos ministros. Varia. E isto dá uma insegurança política e jurídica grande, que só pode desvalorizar a TAP. E por isso, como é um tema que nunca sai da nossa discussão, porque há sempre o mesmo debate, sem olhar sequer para a realidade, para os números, para o que aconteceu, para o que é hoje aquela companhia, para todas essas coisas, sem conseguir olhar para isso e andar sempre com estas coisas do pelo do cão e do pelo do gato e de tudo o que nos vier à cabeça, não vamos a lado nenhum. E desta vez, o Ministério Público, que tem a obrigação de investigar, porque recebeu a queixa e não pode por isso simplesmente deitá-la para o cesto de papéis, ao menos podia ser mais discreto, fazer uma investigação prévia e acabar com aquilo. Mas não, teve que se fazer o espetáculo todo de ontem. Enfim, vamos falar um pouco disto tudo para ver se um dia destes nos vemos livres de ter que estar a discutir a TAP mês sim, mês não.

Mais uma vez, a TAP no Contracorrente. Até já.

Até já.

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