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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta sexta-feira. Se nos quiser dar a sua opinião, só tem que ligar 910 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número, 910 002 41 85. Carla.
Primeiro veio o anunciado Dia da Libertação, sublinhado com promessas de inflexibilidade. Depois as bolsas caíram e pior do que isso, o custo da dívida americana disparou. Trump veio então anunciar uma pausa, uma trégua, mas não para a China, onde se vão sucedendo os anúncios e a escalada já vai em tarifas de 145%. Pequim retaliou, a Europa deu abertura à negociação. A aparente calmia permitiu a recuperação das bolsas, mas ontem estavam de novo em queda. O nervosismo é grande, a incerteza maior ainda. Multiplicam-se as tentativas para tentar explicar a estratégia da Casa Branca. Em Portugal, o governo esteve reunido e anunciou um pacote de medidas de apoio aos setores da economia que possam vir a ser mais atingidos, mas parece não haver muito dinheiro novo. Haverá, antes, uma antecipação dos calendários. Não há, por isso, forma de evitar regressar a este tema, mesmo quando ele pouco tem contado para as trocas de argumentos da campanha eleitoral em curso. Bom dia, José Manuel. Os candidatos andam distraídos ou foi o governo que se precipitou? Até porque agora, fora a China, estão reabertas as negociações.
Com toda a franqueza, acho que as duas coisas. Ou melhor, para ser franco, acho que este tema devia estar mais presente nas legislativas. Este vai ser o tema dos próximos tempos. Não é possível abrir qualquer jornal internacional sem que isto esteja nas manchetes. Não é possível deixar de estar preocupado sem perceber o que se vai passar. Acho muito extraordinário, por exemplo, que não haja debate sobre o tipo de relação que nós devemos ter com os Estados Unidos e com a China, que a Europa deve ter com os Estados Unidos e com a China. Ainda hoje, por exemplo, temos o primeiro-ministro de Espanha, o nosso principal vizinho, de visita a Pequim, a dizer que a China é que deve ser o nosso parceiro. Portanto, vamos trocar uma democracia dirigida por uma pessoa de que não se gosta, por uma ditadura como não houve outra nos últimos tempos. A coisa mais parecida que há com o totalitarismo atualmente é a China, onde cada cidadão é vigiado, tem uma carta social, tem sei lá quantas outras coisas, e é a grande ameaça para a economia mundial em termos daquilo que está a acontecer. Basta falar com um alemão, por exemplo. Isto não está presente na campanha, mas eu também não creio que o governo se tenha precipitado muito, porque, na verdade, o que apresentou ontem pareceu-se muito com aqueles pacotes que António Costa apresentava, que vinham com números muito grandes, somavam umas parcelas que já lá estavam e dizia que vinha ali imenso dinheiro. Na prática, o que vem ali são garantias, na prática o que está a ligar o Banco de Fomento. Sim, há uma reorientação, há uma negociação com Bruxelas, há alguns caminhos possíveis. Para já não é nada especial. Pode ser que venha a ser alguma coisa, mas para ser alguma coisa é preciso que se perceba melhor onde é que tudo isto vai acabar. E neste momento nós não percebemos. Percebemos que está de facto aberta uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, são as duas maiores economias do mundo, e isso não pode deixar de ter consequências. Se essa guerra comercial continuar, nós não vamos poder ficar indiferentes. Não podemos num dia achar que a Europa está a ser traída por Trump porque não está a apoiar a Ucrânia e no dia seguinte achar que temos que estender o braço à China, que tem soldados a combater na Ucrânia do lado da Rússia, como se soube esta semana. Portanto, é preciso se ter claridade nestes temas, isto devia estar na campanha eleitoral, devia estar no nosso debate e devia tentar perceber melhor o que se vai passar. Nós já tivemos debates no Contracorrente e algum debate sobre o papel da China. Temos que falar agora também um pouco do papel da Europa e como é que Portugal se deve colocar nestes tempos incertos, porque estamos, sobretudo, a falar de tempos incertos. A pausa nas tarifas de Donald Trump é uma pausa por três meses, mas conhecendo o passado, e ele anda a falar de tarifas desde a década de 80, portanto, ele fala de tarifas há 40 anos. Não é uma coisa que tenha caído do céu. Há claramente orientações diferentes dentro da sua equipa, mas de uma forma genérica é preciso perceber o que em Trump é para levar a sério, o que não é para levar a sério, o que é só retórica. E na verdade, isso tem-se tornado um pouco mais difícil desta vez, talvez porque ele tem transformado em medidas a sua retórica, coisa que antes fazia menos. Todos se recordam, será, por exemplo, do muro.
Do muro com o México.
Ele nunca deixou de falar do muro. O muro não chegou a ser construído, mas na verdade, teve um efeito político, que foi diminuir a dimensão da vaga migratória, que aumentou logo a seguir a ele deixar de ser presidente em 2020. Há um lado da retórica que tem efeito político e efeito prático. Há um outro lado quando a retórica se transforma em medidas que pode ter um efeito devastador. E portanto, temos que também tentar perceber isso, o que devo dizer, não é fácil.
Não é fácil, mas o exercício vamos fazer.
Lendo o que se anda a escrever pelo mundo, percebe-se que ninguém está muito bem a perceber o que se está a passar em lado nenhum. Toda a gente anda um bocadinho aqui na adivinhação, mas vamos entrar também nesse jogo, porque é importante. Temos de tentar perceber com que armas é que nos cruzemos.
Quase que não se fala de outra coisa. Até já, José Manuel.
Até já.
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