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Bem-vindos de regresso ao Conversas da Quinta. Hoje vamos falar um pouco sobre a monarquia inglesa de novo. Já falamos sobre ela não há muito tempo, mas agora que morreu a rainha Isabel II, depois de um longo reinado de mais de 70 anos. Um funeral impressionante. As cerimônias estão ainda a decorrer na altura em que estamos a gravar. Há filas de quilômetros pra poder prestar uma última homenagem à rainha. E ao fim destes anos todos, já temos no trono inglês aquele que durante muitos anos habituamos a tratar por Príncipe Carlos, príncipe de Gales, agora Carlos III. Carlos III chega ao trono com 73 anos, não é propriamente um jovem. Ele tem capacidade pra manter o elã da monarquia inglesa, Jaime Gama?

Eu acho que sim. Acho que está bem treinado. Acho que viveu dificuldades suficientes e enfrentou-as pra saber gerir a sua assimilação. Acho que geriu bem o problema mais complexo que ele tinha, que era o da relação com a mãe, que nunca abdicou. Encontrou problemas também complexos ao longo da sua vida com os dois casamentos.

Um pequeno parêntesis. Acha que ela podia abdicar depois daquele discurso famoso de 1921, em que disse que serviria o país até à morte?

Pois.

Todos estão a recordar esse discurso destes dias que correm.

É uma concessão, é um conceito. Ela quis assumir inteiramente a Coroa Britânica, nunca quis que o marido fosse rei, nem rei consorte, mas só príncipe. Ela foi sempre muito reservada em relação à gestão da Casa Real e, portanto, assumiu em pleno essas funções de soberana da Coroa Britânica. Ela, que não estava preparada, nem destinada a ser.

Sim, destinada.

Porque o pai-

Mas teve, apesar de tudo, alguns anos pra se preparar.

Sim, seguramente, mas podia não ter funcionado. Ela podia não ter resistido às provas do tempo, mas ela desde muito jovem resolveu ser uma verdadeira profissional. E uma profissional não só competente, mas alguém com valores, alguém com convicções, alguém com sentido também de adaptação à modernidade, sem entrar em rupturas. Alguém dotada para entender que a monarquia é uma gestão de símbolos na relação com a história do país e com o conjunto do povo, com a comunidade internacional. E, portanto, alguém que teve agora a sua verdadeira coroação, isto é, o enterro da rainha é a sua coroação final.

Sim, aliás, porque a coroação inicial foi num momento-

É uma coroação por mérito, é um reconhecimento do povo, é uma despedida.

Mas até a própria coroação foi num período de austeridade, um pós-guerra ainda difícil.

Sim.

Portanto, não foi uma festa grandiosa como costumam ser as coroações.

Já o casamento também não tinha sido. Mas a verdade é que agora o funeral tem uma dimensão que é a de uma segunda coroação por mérito. Ou seja, as pessoas que ali estão, até muitas se calhar nem são monárquicas. Muitas, se calhar, representam correntes de opinião em Gales, na Escócia, na Irlanda do Norte, que convivem mal com a pertença ao Reino Unido e que porventura, no passado, até também tiveram, e no presente têm, alguma crítica sobre a rainha, mas que quiseram prestar-lhe homenagem para além do ritual, para além das formalidades oficiais, no fundo, dizendo: "Aprovamos o teu mandato na Coroa Britânica." Portanto, é um endosso democrático, em sentido geral, do que foi o desempenho de uma função de serviço público. E isso também é interessante verificar, porque é algo que também distingue culturas, distingue instituições. A rainha esteve sempre a bater-se por uma visão da Inglaterra acima da confusão, acima das disputas, até sublimando um pouco o que tem sido a erosão da Inglaterra no mundo, a erosão do Império Britânico.

Sim, ela presidiu ao fim do Império Britânico.

Sublimou o fim do Império Britânico.

Ela estava no Quênia quando soube que era rainha.

Esse ritual.

E depois bateu-se muito pela Commonwealth.

Essa capacidade também para fazer do sofrimento uma virtude e para amparar o povo na gestão da sua percepção das coisas políticas acima da política, é algo que a Inglaterra lhe deve, seguramente

Isso muitos outros aprenderam, mas os alunos não são numerosos, os alunos são muito escassos.

São escassos. Já me engarapinto. Como eu disse, Carlos III chega ao trono com 73 anos, teve que passar por algumas provas. Pensou-se que ele podia abdicar, nomeadamente pro filho mais velho, muito por causa dos problemas com o seu casamento. Camilla Parker Bowles acabou por ter o estatuto pleno de consorte. Este último ano, o discurso da Coroa, que é sempre dito pela rainha. A rainha só não o disse três anos. Dois, porque estava grávida e este porque estava frágil. E ele já foi feito por ele. Ele escolhe o título de Carlos III, quando o nome Carlos não tem uma-

Na Inglaterra é complicado

Na Inglaterra é um nome complicado. E ele podia ter escolhido outro, porque ele tem vários nomes próprios.

Normalmente os reis todos têm, de facto, muitos nomes próprios.

Ele poderia ter escolhido outro, em nome de Carlos.

Sim, vamos lá ver. Por exemplo, o Carlos I foi decapitado.

Tentou criar uma monarquia absoluta e foi decapitado.

Tentou voltar àquilo que, na altura, os que se insurgiram tentaram de certo modo acabar. Era a tal ideia de quando se chama Revolução Inglesa. A ideia da revolução era exatamente a revolução dos astros. Os revolucionários ingleses do século XVII queriam voltar exatamente aos bons costumes ingleses, políticos, do poder do Parlamento, que eles achavam que os reis Stuart estavam-- e o rei Stuart era o Carlos I, que foi decapitado. Depois o Carlos II, filho do Carlos I, a quem aliás chamaram Mary King. Também voltou e esse primeiro ajustou contas com os regicidas, porque vários deles, alguns que estavam ainda vivos, foram julgados e uns enforcados, outros decapitados, não sei. E até mandou, se não estou em erro, desenterrar, até o próprio Cromwell acho que foi desenterrado e o cadáver também foi bastante maltratado.

Profanado.

Não foi o Cromwell, foram vários dos regicidas. É um período particularmente conturbado. Mas eu acho que ele até naturalmente assumiu, exatamente porque se lembrou que se não assumisse, as pessoas iam achar que ele estava com medo disso e acho que nesse aspecto mostrou uma determinada vontade, até porque como havia a ideia que ele, por causa das preocupações ecológicas, por causa daquelas ideias que ele tinha também um bocadinho sobre a homeopatia, etc. Havia ali a ideia de que tinha uma personalidade um bocadinho fora dos conformes.

Ele foi um príncipe com algumas causas quase militantes sobre a arquitetura, sobre o ambiente. E ele agora já disse, já deu a entender, penso mesmo que disse, que sabia qual era o lugar de rei.

Pois, mas agora essas causas que dantes eram um bocadinho marginais, agora são causas de salvar o planeta.

Salvar o planeta, seguramente. Ser contra a arquitetura moderna, talvez não.

Pois, isso aí já é mais complicado. Mas algumas das causas dele tornaram-se bastante populares. Aliás, eu acho que nesse conjunto, a monarquia inglesa, a sociedade inglesa, a corte e todo aquele establishment, de certo modo acabaram por funcionar com alguma, não sei se é sorte, mas como acabaram por ter casos dentro da própria família real, exatamente divórcios, situações mais complicadas, que também se reproduziram na própria sociedade inglesa. De certo modo, sendo a rainha e o Duque de Edimburgo, de facto, ali as figuras mais ou menos constantes e segundo os costumes antigos. Depois, no resto da família, alguns casos que foram surgindo também de certo modo contribuíram um pouco pra essa representatividade que a Casa Real ou que a família real foi acabando por ter. Eu acho que a rainha nisso também foi muito sábia. Teve bom senso e pra além de bom gosto, também teve bom senso nesse equilíbrio que ela foi, sem se deixar ela própria, nos seus aspetos, nas suas convicções, por exemplo, convicções religiosas profundas e tudo isso, sem ela se deixar alterar nisso, mas foi, de certo modo, fazendo uma evolução na continuidade, essa, por acaso, bem-sucedida. Conhecemos outras que foram mal sucedidas, mas essa foi uma evolução na continuidade, de facto. Agora, o Rei Carlos III vai ter também esse problema, quer dizer, que é o suceder alguém com quem fatalmente, de vez em quando, vai estar um bocado em comparação, que isso também pode ser uma liability, pode ter algum problema com isso.

Acha que sim, Jaime, que ele pode ter problemas por estarem a compará-lo com a mãe? Aliás, porque há aqui um primeiro Primeiro dilema, chamemos assim, ou um primeiro ponto de interrogação, que é: não havendo questão de regime no Reino Unido, os contestatários da monarquia são poucos, os que defendem uma república, mas ele é rei de mais 15 países. Alguns deles já houve referendos pra acabar com a monarquia, que até não foram por diante muito por via da figura da monarca, da Isabel II, eu estou recordando da Austrália, mas agora países como a Austrália, como o Canadá, como a Nova Zelândia, como a Jamaica, como é que vai ser? Como é que prevê que possa ser?

Estas cerimônias fúnebres têm sido as cerimônias fúnebres de Isabel II e a entronização gradual de Carlos III. E o cuidado com que tem sido preparado também o envolvimento desses problemas é notável, porque, em primeiro lugar, a relação interna com o Parlamento, a relação interna com a população em geral. A monarquia britânica é muito enraizada no povo, através de um vastíssimo conjunto de organizações mutualistas, charities, de associações que são presididas pelo soberano ou por membros da Casa Real e que, portanto, também vibram com isso. Depois também um grande papel às forças militares e à Igreja Anglicana, que estão bem presentes. E a liturgia civil do Estado inglês é uma liturgia onde a tradição militar, a tradição da coroa, a tradição religiosa estão permanentemente em ação e com a visibilidade suficiente para não deixar dúvidas. E também com isso há uma acalmação, se quiser, de tudo o que é antissistema, que não tem grande margem pra funcionar com essa assunção pelo topo de um ritual de Estado muito abrangente, muito envolvente e muito convalidado pelo povo como tal.

O rei é o chefe da Igreja Anglicana, que é uma situação que até nos pode parecer a nós um pouco estranha, em termos de separação. Mas é uma coisa mais simbólica, não é?

Tem sido atenuada a vinculação à Igreja Anglicana, por exemplo, no juramento em relação à Igreja da Escócia. Já um antepassado, a Rainha Isabel, recusou-se a jurar as frases mais combativas.

Mas este juramento, não sei se ouviu, o juramento é feito com muito cuidado.

É um juramento de proteção também às outras religiões.

Isso não tem a ver com o século XVII. Estamos no século XXI.

Estamos já noutra. E esse é um problema interessante da nova sociedade inglesa, que não é aquela que a Rainha Isabel encontrou quando foi coroada, que é da pluralidade de pontos de vista, várias religiões, não religiões, diversidade cultural. Portanto, tudo isso é uma Inglaterra diferente. Agora, na construção da realeza, da Casa Real, da monarquia constitucional, não há dúvida que a Commonwealth tem um papel muito importante como sucedâneo mítico do Império Britânico. E aí há vários problemas. Há uns países que querem proclamar-se república, mas não querem sair da Commonwealth.

Há repúblicas na Commonwealth, aliás.

Sim, mas depois há um problema, que é o problema da presidência da Commonwealth ser sempre do rei, rainha de Inglaterra. Isso também é posto em causa.

No atual regime, não sei se é a maioria, mas uma parte substancial da Commonwealth ainda são países de que ela é rainha.

Sim, mas há o problema da Commonwealth ter estatutariamente como presidente da organização internacional o soberano britânico. E nas outras organizações internacionais congêneres, isso é rotativo e é por eleição. E essa questão também tem aflorado. Não nos esqueçamos que da Commonwealth não fazem parte os Estados Unidos. A Commonwealth tem esse ausente.

Foi o divórcio mais litigioso.

Estados Unidos, ausente.

Foi o litígio mais litigioso do império. Porque até a própria Índia, que foi um divórcio difícil, não teve aquela dimensão.

Não, nada disso. E depois há os problemas das causas de reparações com minorias, há todos esses problemas. Aquilo que a sociedade britânica e as universidades britânicas têm dado imenso relevo e que também vão recair em relação à figura da rainha, agora do novo rei da Inglaterra. Portanto, a gestão dessa questão é uma questão bastante importante. E depois há também outra coisa, a Inglaterra já não está na União Europeia, isso ainda provoca algumas atrações de saída. Tem um problema da redefinição da sua relação à escala global. Coincidiu esta sucessão dinástica com a mudança de governo na Inglaterra, portanto, são dois ajustamentos. É interessante, sai uma rainha, entra um rei, sai um primeiro-ministro, entra uma primeira-ministra, há uma espécie de cruzamento Equilibrante quanto a essa questão de gênero, mas depois há o problema da execução da política, o que vai ser e tudo isso.

Já vamos a isso. Já, mas estava a falar dos desafios que coloca, para todos os efeitos, um novo governo ao novo rei.

Bom.

Vamos lá ver. Não é algo que o rei tenha uma tutela direta, mas há sempre algo que vai ser novo. Quando a rainha Isabel II chegou ao trono, tinha uma espécie de mestre de cerimônias para lhe indicar qual era o seu papel, que era o Churchill. Agora é um pouquinho ao contrário, temos dois novatos naquele lugar.

Bom, até temos uma que foi feroz republicana.

Sim, exato. Mas já não é.

Espero que não. Mas o príncipe Carlos não é um novato. Setenta anos de escola. Desde a terrível escola na Escócia, de que ele não gostou muito, do colégio, porque era um bocado duro para o membro da Casa Real, mas ele soube resistir e sobreviver.

Lord Mountbatten foi muito importante na sua formação quando ele era novo.

Sim, era tio-avô.

Tio-avô, mas era muito próximo.

Sim, e um personagem brilhante, muito interessante, embora sempre numa linha um pouco diferente dos Windsor. Porque os Windsor Mountbatten não são bem os Windsor. Portanto, sempre também uma flutuação ambígua. Aliás, como é interessante verificar que toda esta Casa do Windsor tem origem alemã.

Alemã, claro. Eles mudaram o nome para Windsor por ficarem em Gottburg.

Por causa do bombardeiro Gotha.

Era o mesmo nome da nossa Casa Real.

Foi muito poderoso para levar à modificação de nome. Mountbatten é Battenberg, e os Windsor são Saxe-Coburg-Gotha e, portanto, Hanover também.

Exatamente. Saxe-Coburg-Gotha como era o nosso rei Dom Carlos.

Sim, e os anteriores.

Os anteriores, claro.

O marido da rainha Vitória, que era o Saxe-Coburg-Gotha, era um dos grandes conselheiros do nosso Dom Pedro V.

Aliás, dizia-se que o Dom Pedro V era o filho que eles gostavam ter tido.

Sim. E, portanto, isso também é uma sublimação magistral em termos de reencenação da legitimidade e de endosso a uma dinastia. Mas depois de ter estado na prática e consequentemente provado na Primeira Guerra Mundial, na Segunda, isso também tem um peso e é verdadeiramente muito forte. Agora, como vai ser o convívio? Vai ser o convívio normal. Portanto, a regra é de uma audiência semanal entre o primeiro-ministro e o soberano. Essa audiência é secreta, não houve nunca um leak sobre esse encontro. O soberano é aconselhado, pode fazer aconselhamento ou avisos. E, portanto, é uma relação em que os espaços estão inteiramente respeitados e em que é articulada uma posição, que é a posição que se sente ou que se deduz, que é aquela que melhor serve na ocasião os interesses da Inglaterra. Isso aí não haverá coordenação. A rainha Isabel, aliás, foi quem soube gerir dois fenômenos interessantes. Foi um pouco a moderação dos trabalhistas, que já tinha começado um pouco com o pai. E depois a popularização dos conservadores, a transformação de um partido baseado na aristocracia, num partido baseado nas classes médias e nas classes emergentes. Portanto, essa transformação também está feita na Inglaterra. E a Coroa lidou bem com isso, assim como a Coroa lidou bem com a transformação do mundo em que o polo, as corridas de cavalos, o tênis, tudo isso era o core business da aparição real, da realeza e da aristocracia, para um mundo em que a cultura pop também teve o seu lugar, até o lançamento paraquedas com o James Bond da própria rainha Isabel.

Isso é uma transformação muito profunda. Há pelo menos dois desafios, ou melhor, há os desafios familiares que podem ser complicados para o rei Carlos, até porque não tem a mesma gravidade, autoridade da mãe.

Tem dois terços de apoio popular, mas abaixo da mãe e abaixo do filho, que agora é o príncipe de Gales. E sobretudo nos jovens, por causa do dissídio com Diana.

Tem feito seu caminho, não é?

Sim. E se reparar, ele e a mulher estavam e estão muito seguros nestas cerimônias. Eles não têm vacilação no grande protocolo Não tem vacilação na prática dos rituais. O rei dá sempre o tom de alguém que, cumprindo o protocolo, o domina. E também nos espaços populares, na relação, por exemplo, com os parlamentos da Escócia, da Irlanda do Norte, em Westminster. Portanto, há um bom handling de situação e depois também uma boa figuração no que é o uso dos trajes régios, que tem a componente militar, a relação com a instituição militar.

Uma coisa que, por exemplo, que se nota.

Ele tem toda a vida pra isso.

Sim, claro. Mas ele tem o problema do irmão.

Sim.

Que não pôde usar os trajes militares, é o único que não pôde usar. A irmã aparecia com trajes militares, o irmão não. E tem aquela relação um pouco mais complicada com o filho mais novo. Como é que acha que ele vai conseguir gerir? Porque isso são tensões.

São, e vamos lá ver. Normalmente, nestas coisas, há uma certa euforia e um certo esquecimento das coisas negativas nestes momentos da transição. E depois, por uma própria lógica do sistema midiático e também porque haverá sempre interesse em perturbar as coisas, essas coisas poderão começar a aparecer. E aí, sobretudo, de fato, aquela questão do irmão e aquela história do Epstein e dos assédios e tudo isso, é uma história bastante-

Pesada, não é?

Pesada. E as explicações, vamos ver tanto quanto se pode julgar, não são muito convincentes. Normalmente essas pessoas têm bons advogados e parece que estamos ouvindo os conselhos de um advogado dizer: "Não diga isto, não diga aquilo, esteja calado". Tudo isso, do ponto de vista de opinião, é mau, porque estraga. As pessoas não têm culpa dos irmãos que têm. Às vezes poderão ter um bocadinho de culpa dos filhos, porque tiveram alguma tutela deles. Agora, dos irmãos, não têm propriamente culpa, mas não deixará de ser, como, de fato, todo esse aspecto. Mas eu penso que não, apesar de tudo, até pela experiência que ele já teve de coisas dessas com o seu divórcio, com a sua relação com a atual mulher, etc. Antes de tudo isso, ele já passou por situações complexas e, portanto, também tem uma certa capacidade e rodagem nessas coisas. Agora, vai ter sempre, de fato, essa questão também de ser comparado com o predecessor. Não sei até que ponto. A gente hoje vive, aliás, esses julgamentos são emitidos talvez por aquele conjunto que é mais volúvel ainda que os seres humanos, que é os coletivos. É a opinião pública, aquela coisa que a gente vê como muda, como às vezes é extremamente contraditória, como é manipulável. Não parece que ele tenha, por exemplo, esqueletos escondidos nos armários. Não parece haver nada desse tipo. Portanto, serão sempre coisas indiretas, através de um filho, através de uma nora, através de um irmão. São coisas com que eu acho que pode perfeitamente lidar. Não acho que seja crucial, que vá levantar problemas de grande risco.

Desse ponto de vista, ultrapassando essas questões, que têm sido as questões mais difíceis para a monarquia inglesa, onde é que se vê que ela possa influir?

O príncipe Carlos é alguém que tem densidade quanto ao seu próprio pensamento. Nós não estamos perante um figurante de um ritual de corte, porque as opiniões que ele foi tomando ao longo do tempo sobre patrimônio arquitetônico, sobre defesa do ambiente, da biodiversidade, dos oceanos, sobre defesa das comunidades tradicionais e da vida tradicional inserida num desafio de modernidade, são posicionamentos que ele assumiu não em virtude de nenhuma pressão ou em virtude de nenhuma necessidade de figurar uma linha de marketing pra agradar, mas fruto de um desenvolvimento pessoal, até muitas vezes antes do tempo, antes de outras lideranças políticas, antes dos próprios governos. E os trabalhos estão escritos, estão feitos, as cartas que ele redigiu até em alguns momentos aos governantes sobre, por exemplo, a salvaguarda do salmão nos rios da Escócia ou sobre a necessidade de proteger esta ou aquela espécie, ou de fazer convergir a ação internacional pra defesa do clima e outros pontos dessa agenda, e a participação que ele teve na conferência de Londres, fazem com que a opinião dele seja algo que lhe dá Densidade e substância.

Desse ponto de vista, até mais que a mãe. Porque a mãe nunca se conheceu.

O príncipe Carlos não teve uma educação formal, mas ele frequentou um colégio com um currículo muito exigente.

Ao contrário de Isabel II, que não teve esse tipo de formação, de maneira nenhuma.

Não teve preceitores em casa. Ele foi para um colégio, depois esteve em Cambridge, estudou arqueologia, estudou antropologia e é uma pessoa que tem uma base sólida e quando se conversa com ele, tem-se essa noção.

Essa experiência.

Sim, é uma pessoa que mantém uma conversa com substância, não é uma pessoa que está ali para fazer apenas um papel no protocolo ou um número social. E isso é uma coisa importante. Aliás, as coisas que ele tem dito nesta transição, para quem não acompanhou as coisas que ele disse antes em inúmeras ocasiões, são coisas que se vê que estão muito trabalhadas, muito bem construídas e que representam uma assunção muito aguda do que é o momento presente da transição da coroa britânica e a própria forma como ele figura nos eventos. É uma pessoa que é mestre e senhor do domínio do espaço, que na área protocolar dos grandes gestos do Estado tem essa relevância, mas como também do conteúdo da sua mensagem a transmitir e do seu papel pedagógico na autodefinição do que é a sua função. Isso é admirável. Se reparar, ninguém, nem os mais acérrimos detratores, explícitos ou ocultos da monarquia britânica, levantou a voz a dizer: "Agora a coroa britânica cai na lama ou cai numa pessoa que não está capacitada para ser o rei da Inglaterra." Não. Ele tem tido uma aprovação que ele vem a consolidar pela solenidade, até do vazio que na circulação da paisagem na Escócia era deixado pelo cortejo fúnebre, simples também, que ele tem vindo a capitalizar para construir uma liderança de Estado e internacional bastante significativa, densa e positiva. A coroa britânica não está entregue aos bichos, longe disso.

Falou da Escócia, já me garanto. A rainha morreu na Escócia, há quem diga que ela fez de propósito. Enfim, não creio, porque é onde ela estaria nesta época do ano. Não parece haver aqui uma premeditação em função do estado de saúde. Mas precisamente esta cenografia, a passagem pela Catedral de Edimburgo. Um dos desafios que se coloca ao novo rei é a manutenção do Reino Unido.

A unidade do Reino Unido.

A unidade do Reino Unido, porque tem várias forças centrífugas.

Exatamente. Muito forte.

A Escócia, a Irlanda do Norte, sobretudo estas duas. Não são as únicas. Também há todas as questões levantadas pela diversidade da sociedade inglesa, que evoluiu muito nos últimos anos. É uma das cidades mais multiculturais e mais multiétnicas da Europa, hoje em dia.

Viu-se isso na concorrência para a liderança do Partido Conservador.

Conservador.

Uma coisa extraordinária.

Estava lá o mundo todo, quase.

Ingleses de susto, havia dois.

Ganhou uma delas.

Exatamente, ganhou uma delas. Mas de qualquer maneira, é muito interessante. A questão da Escócia, eu lembro-me de ter lido e até de certo modo, conhecendo a obra, concordo. A Escócia de certo modo foi reinventada e ressuscitada pelo Walter Scott no século XIX, quer dizer, aquela Escócia, aquela ideia da Escócia dos castelos, das brumas, tudo isso que aliás já estava muito na tradição inglesa. Já estava no Macbeth, por exemplo. E aquela ideia sempre dos escoceses, também que ali na guerra civil inglesa são altamente amigos sempre, são eles que entregam o rei, o Carlos I, são os escoceses que o entregam.

Depois, a seguir, em tempos da Crise dos Jacobitas.

Exatamente, depois as insurreições jacobitas. Há ali sempre a ligação à França. E nós estamos, de facto, numa época em que os Estados que não são nacionais têm que se acautelar. Os Estados que são plurinacionais, a gente vê aqui o nosso caso aqui ao lado com a Espanha.

Mas em Espanha, claramente a Casa Real procura funcionar.

E é uma Casa Real restaurada ou instaurada.

Instaurada, mas uma política até de casamentos, no sentido de integrar todas as nacionalidades. A história da Casa Real Inglesa também não tinha essa necessidade.

Sim, não tinha essa necessidade. Claro que este vai ser um problema, que eu penso que agora, exatamente como outras coisas, este período de morte da rainha, de luto, de transição, de celebração, de certo modo, todas essas coisas, celebração com respeito, vai aquietar um bocadinho, mas é um problema que está vivo e que é fortíssimo.

Com aquela acusação aos brexiters de que, com a história da saída da União Europeia, podem ter posto em causa o que seria um efeito, de certo modo, paradoxal e até perverso. Porque, no fundo, a ideia era exatamente preservar a soberania, a independência inglesa, a identidade e todas essas coisas. E o que vem atrás, ligado a isso, de interesses económicos e políticos, de certo modo lhes poderia sair o tiro pela culatra, acelerando ou despertando, ou acordando exatamente esses riscos de fragmentação que estão presentes. Agora vai ser, mais uma vez, um jogo de forças. Não sei até que ponto. Eu penso que, melhor ou pior, o atual rei Carlos III teve, de facto, décadas de aprendizagem e de observação política. E sendo, como o Jaime Gama estava a chamar a atenção, uma pessoa com uma boa cultura, pensamos que também histórica e substancial desses problemas, também não vai ser, com certeza, colhido de surpresa por eles. Não tendo poder executivo, e até talvez por não ter poder executivo, curiosamente, às vezes a influência de quem não tem poder executivo. Poder executivo tem sempre limites, porque estamos a falar de monarquias constitucionais. Portanto, qualquer poder executivo tem limites. Aqui é uma espécie de influência que se ele souber exercer e usar, digamos, positivamente, um certo glamour que melhor ou pior a Coroa ainda tem para muita gente, se for de uma forma prudente e inteligente poderá ajudar a manter a unidade.

Poderá ajudar a manter a unidade.

Porque aqui não se trata de criar nada de novo, é manter o que está.

Manter o que está. Bem, nós terminamos o nosso tempo, terminamos mais um "Conversas à Quinta", reencontramo-nos dentro de uma semana.