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Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos voltar a falar um pouco do passado, a propósito da passagem de 90 anos das famosas entrevistas que António Salazar deu a António Ferro. Salazar já tinha dado umas entrevistas ao "Diário de Notícias" uns meses antes, quando tinha chegado à presidência do governo, mas eram entrevistas pouco características, pouco marcantes, até porque basicamente Salazar tinha passado um papel, um escrito ao chefe de redação do "Diário de Notícias", Armando Boaventura. Com António Ferro é tudo muito diferente. António Ferro é um jornalista mais vivo, mais colorido, mais o que quisermos. Alguém importante, já tinha desempenhado muitos papéis, já tinha entrevistado Mussolini, já tinha entrevistado Hitler. E quando vai entrevistar Salazar, em dezembro de 1932, ou melhor, as entrevistas são publicadas em dezembro de 1932, ele vai encontrar alguém que o fascina. E de alguma forma, essas entrevistas também vão marcar a relação não apenas de Salazar com António Ferro, António Ferro depois desempenharia funções importantes no Secretariado Nacional de Informação, e o chefe de governo, como dão uma certa imagem, uma certa marca do que vai ser a retórica de um Estado Novo que estava, na prática, a começar. Estava a acabar o período da ditadura militar e a começar o período do Estado Novo. Já me garanto. Qual é a importância destas entrevistas para Salazar?
Aliás, penso que são umas entrevistas relativamente trabalhadas, em que o entrevistador e o entrevistado combinam, articulam um bocado aquilo que vai ser dito e aquilo que vai ser tratado. E Salazar, nesta altura, pensa essencialmente dar linhas gerais do que vai ser o seu governo. É preciso ver que nestas circunstâncias temos que remontar sempre à época. O salazarismo ou o Estado Novo de Salazar é uma saída para a crise, para o interregno que tinha começado com o fim da Primeira República em maio de 26, com o movimento militar do 28 de maio, mas que era um movimento militar, era um movimento, como são muitas vezes estes movimentos, aliás, a história das revoluções portuguesas, era um movimento essencialmente contra. Eram essencialmente contra o domínio que o Partido Democrático, criado por Afonso Costa, que nessa altura estava dirigido por José Domingues Santos, que o Partido Democrático tinha uma espécie de monopólio do poder político em Portugal. E o 28 de Maio nasce muito, é uma coisa onde há uma ala civil que conspira e tem ideias, mas junto dos militares há mais a ideia. Aliás, um bocadinho o 25 de Abril também à partida é um bocado isso. Há mais a ideia do que não se quer do que a ideia do que se quer. E de facto, durante esses vários anos que decorrem entre o Maio de 26 e a nomeação de Salazar como presidente do Conselho em 32, há ali uma certa luta. Uma certa luta de forças, de ideias, quase todas com certo apoio nas áreas militares, mas há uma certa indefinição, porque na Europa da altura ofereciam-se várias perspectivas, várias soluções. A Europa tinha regimes liberais, constitucionais, democráticos, como era o caso da França, da Grã-Bretanha. Já tinha uma série de ditaduras mais ou menos militares ou outras em regimes monárquicos na Europa Central, tinha o governo comunista na Rússia. E tinha também o fascismo italiano. Nas definições possíveis de saída, o Salazar era uma solução, e acabou por ser uma solução, aliás, que eu diria, não sei se com alguma surpresa ou algum escândalo, foi na época uma solução centrista, porque havia elementos na geografia do poder, havia elementos que estariam mais inclinados para uma solução de tipo fascistizante, mais ligada às soluções de partido único, fascistizante, etc. E havia também elementos que queriam um regresso à Primeira República, embora afastando a hegemonia do Partido Democrático. E o salazarismo, de certo modo, acabou por ser uma saída, nesse aspeto, ao centro das forças políticas que nessa altura estavam em competição no terreno. Salazar também tinha a noção que ele estava onde estava porque Tinha resolvido, de certo modo, o problema financeiro, mas que uma vez resolvido o problema financeiro, talvez fosse dispensável. E, portanto, ele também procurou tornar-se indispensável. E não há dúvida que os discursos dele, que ele faz muitas vezes na qualidade de Ministro das Finanças, que é nessa qualidade que ele vai falando durante esses anos todos, vê-se que ele procura muito abrir um pacto de regime com os militares. Ele fala, por exemplo, para os militares da guarnição, os oficiais da Guarnição Militar de Lisboa. O Ministro das Finanças fala para os oficiais da Guarnição Militar de Lisboa e pensando bem, não teria muito sentido, o que os oficiais da Guarnição Militar de Lisboa tinham a ver com o Ministro das Finanças? Mas ele faz muito isso e de certo modo ganha apoio naqueles quadros médios do exército, que são nessa altura quem de certo modo tem o poder. E, portanto, ele aproveita. Ferro, como o José Manel estava a dizer, já tinha um nome consagrado, já tinha feito exatamente essas entrevistas numa coisa chamada Viagens à Volta das Ditaduras. Já tinha feito essas entrevistas, aliás, que estavam muito na moda. O Emil Ludwig também fez várias dessas entrevistas, etc. Estava muito na moda nessa altura haver conversas com esses chamados homens providenciais, etc. E o Salazar aproveita o facto de António Ferro ser um homem com prestígio no seu meio, inteligente, muito ligado aos grupos modernistas, com uma pedalada diferente. E penso que trabalha essa entrevista com ele, que é para duas coisas. Primeiro, aparecer com uma imagem mais humana, mais pessoalizada, à maneira dele. Havia muitas perguntas: quem é este homem? Como é que é? Quem é ele? O que ele faz? De onde é que ele vem? Ele quer ser ele a responder a essas coisas. E depois quer dar o testemunho das suas principais ideias sobre o país. E é fundamentalmente isso que ele vai fazer nessa série de entrevistas com António Ferro. É isso.
Jaime Gama, estas entrevistas marcam, de alguma forma, um momento diferente na relação de António Ferro com Salazar. Ferro, como já foi referido, tinha feito já algumas entrevistas marcantes, designadamente a entrevista com Mussolini, a com Hitler tinha corrido muito mal. Mas fica-se com a ideia de que dois espíritos muito diferentes, mas com pontos em comum, acabam por se encontrar naquelas conversas.
Sim, não está ainda bem esclarecido como é que ambos chegaram à fala e como é que negociaram a entrevista e o futuro da sua relação, possivelmente no decurso das entrevistas foi também sendo abordado esse assunto, mas a verdade é que vêm de caminhos perfeitamente distintos e diferentes. E ambos tiveram que fazer uma evolução para chegar um ao outro. Aliás, pouco antes ainda, Ferro dizia, quando Salazar foi nomeado Ministro das Finanças, que não sabia quem era Salazar, não conhecia quem é Salazar. Ferro vem de uma linha modernista e requieta, foi secretário do Orfeu, era muito amigo de Mário de Sá-Carneiro. Depois faz um percurso na República muito vinculado ao sidonismo, sobretudo ao pós-sidonismo. Ele gravita muito nos partidos e nas formações que se constituem após a morte de Sidónio Pais, o Partido Nacional Republicano, o Partido Republicano Conservador, tem uma proximidade imensa com o Filomeno da Câmara, com o Sinel de Cordes, com aqueles movimentos que estiveram no proto 28 de Maio. Depois tem a manutenção de uma relação muito chegada ao Homem Cristo Filho, que é alguém que se torna membro do partido fascista em Itália e que adquire um lugar de bastante relevo junto de Mussolini na animação de grupos no estrangeiro e que morre prematuramente num acidente de automóvel em Roma. E depois Ferro não se define muito durante todo o percurso da ditadura militar. E não toma desde o início uma posição clara a favor de Salazar. Mantém sempre mais proximidade com esses grupos, Sinel de Cordes, Filomeno da Câmara e com o que poderíamos considerar uma ala mais radical do 28 de Maio. O ano 32 é o ano que marca uma viragem, porque é o ano em que da parte dos militares que controlavam a ditadura militar, há uma opção por Salazar, que passa de Ministro das Finanças a chefe do governo, e há uma opção por consentir a elaboração de uma Constituição, que é discutida, a formação da União Nacional e a transição para uma institucionalização do Estado Novo, pondo fim à ditadura militar. Quando há essa clarificação e quando, porventura, António Ferro pressente que a escolha de Salazar está consolidada, ele dá alguns passos na imprensa pela primeira vez, espremir o seu acordo com a solução Salazar. Mas estão aí, Salazar. As entrevistas são cinco.
São publicadas em cinco dias seguidos.
Sim, mas depois são editadas no mês seguinte, só em 33, em livro, com o prefácio Salazar. E há uma entrevista posterior, que não faz parte do livro, e uma em 38. As entrevistas ao todo são sete, mas as do livro, as que constituem a peça essencial do livro, são essas cinco. Ferro muda bastante, porque faz a transição entre a sua admiração por caudilhos mais vibrantes para o que pode vir a ser uma política de relações públicas de um novo estilo de ditador. Penso que aí é que há uma negociação com Salazar, porque Salazar, que até aí tinha tido uma política pontual em relação à imprensa, passa, porventura, a considerar Ferro alguém capaz de montar uma política de relações públicas e de comunicação global, quer do ponto de vista interno, quer do ponto de vista internacional. Portanto, com a criação que se vem a dar depois da SPN, Sociedade de Propaganda Nacional, e depois que mais à frente evoluirá para Secretariado Nacional da Informação. Até à rutura de Salazar com Ferro nos anos 50 e ao afastamento de Ferro e depois o seu envio mais tarde para as ligações diplomáticas em Berna e em Roma. Portanto, estas entrevistas são muito importantes para Salazar, porque ele está a fazer a sua transição de ministro das Finanças para chefe do governo e para líder do Estado Novo, e elas manifestamente têm um papel central, quer perante a ditadura militar, quer perante a nova composição de forças em apoio do Estado Novo. Isso é muito importante e também Ferro joga a sua conversão de um radical futurista e modernista, em alguém mais do aparelho da propaganda, mais modulado a acomodar-se a um certo tradicionalismo, a uma certa visão do país que não era bem a que ele tinha quando era mais futurista, quando era mais modernista. Esse ponto intermédio para que um e outro convergem, é o que está neste primeiro lote de entrevistas. Destas cinco entrevistas que acompanham o quê? A formação do governo que vem a sair da nova Constituição, a elaboração da nova Constituição, a formação da União Nacional como organizador político da direita fora da ditadura militar, a acomodação da própria parte militar a esta nova ordem constitucional. Portanto, estas entrevistas são, de fato, importantes, são escritas no estilo modernista e irreverente das entrevistas da Annunzia Mussolini, mas o conteúdo já é muito distinto, porque o produto que agora está a ser tratado é um produto bastante diferente desse tipo.
Vou citar só aqui um bocadinho do texto do intróito de Ferro, que acho que dá uma ideia: "A imagem feita de Salazar é tão severa, tão distante, tão fria, que vou descendo as escadas do mistério como se as subisse, terrivelmente embaraçado com a ideia do primeiro contacto e da primeira pergunta. Chego ao último degrau. Já não tenho tempo para raciocinar mais e entro audaciosamente no automóvel, como se entrasse na gruta de um ermita ou como se me expusesse a um atentado pessoal." Isto, de facto, hoje em dia, é literatura, praticamente.
Sim. Aliás, o António Sérgio utiliza esse percurso da entrevista. Já antes disso, ele tinha um pouco justificado a necessidade de criar a imagem do novo chefe. Quando diz: "Se a natureza do chefe é avessa aos novos contactos que são exigidos, que se encarrega alguém de cuidar de encontrar o veículo de ação necessário para fazer isso." Ou seja, de certa maneira, António Ferro oferece para ser o homem da feitura da imagem de um Salazar mais enraizado na opinião pública do que aquele que existia até aí, mas que ele também cultiva e extrai
ditadura das finanças, o homem só, o homem vindo da província autêntica, da Beira Interior, para ser o salvador que o momento exige. Isso é uma construção de Ferro bem concebida em termos de articulação de uma comunicação política com as características da época, naturalmente.
José Manuel Pinto, Salazar, como eu disse, só tinha dado uma entrevista, tinha sido a tal entrevista dada a Armando Boaventura e, na prática, não era uma entrevista. Esta segunda entrevista e a abertura para a propaganda, que no fundo é aquilo que Ferro depois vai encarregar.
Propaganda nacional, aliás.
Propaganda nacional. Esta abertura é algo que Ferro consegue de Salazar. É que Salazar, a primeira vez que tinha chegado a Lisboa, naquele tempo em que tinha vindo efemeramente para Ministro das Finanças, nem sequer tinha querido falar com os jornalistas. Ele tinha um certo horror aos jornalistas. E é Ferro que o reconcilia de alguma forma, se bem que Salazar não era um líder político do tempo dos mass media.
Salazar não era propriamente um homem, como o José Manuel diz, que fosse um grande entusiasta da comunicação. Também temos que ver que nesta altura a comunicação estava, por exemplo, na Europa, e não só na Europa, os próprios bolcheviques tinham percebido isso, o próprio Stalin tinha percebido isso. Por exemplo, há nesta época um grande incremento na utilização do cinema. Todas estas figuras, estes novos ditadores europeus, Mussolini, Hitler, Stalin, todos eles têm, por exemplo, a noção de que o cinema é uma coisa muito importante na promoção dos regimes, na promoção das suas ideologias, na promoção dos seus mitos, na promoção das suas utopias. E o cinema, por exemplo, é de facto, e aqui também se vê, embora o regime do Estado Novo, curiosamente no cinema, praticamente só produziu, só fez dois ou três filmes daquilo que a gente poderia chamar, neste caso não era realismo socialista, era realismo nacionalista, ou realismo estadonovista, que foi a "Revolução de Maio" de Lopes Ribeiro, foi o "Chaimite" do Bruno de canto, e é um bocado também o "Feitiço do Império". Mas o cinema, por exemplo, e nisso o Ferro também teve uma presença forte no impulso que deu a essas atividades, fez muito aquela comédia ligeira portuguesa desses anos, os anos 30, 40, que acaba praticamente nos anos 50, os grandes filmes, que é, de facto, a ideia de um Portugal interclassista, a ideia de Lisboa, a ideia de que os bons podem estar numas classes e noutras, portanto, essa ideia também interclassista, a ideia de uma certa paz social, tudo isso aparece muito e Ferro tem importância nisso. O Salazar, de facto, também percebeu, é um homem inteligente e, portanto, percebeu a importância de dar exatamente essa imagem do país, uma certa imagem que depois, aliás, vai aproveitar aquelas grandes celebrações, os centenários de 1940, os centenários da restauração, da fundação. Isso não há dúvida que há, de facto, ali uma... Agora, não é claro aquela, de certo modo, muito mais intensa propaganda, exatamente dos regimes ou do regime soviético, ou do fascismo, ou do nacional-socialismo, quer dizer, que têm, de facto, a preocupação de canalizar permanentemente uma mensagem política, e até uma mensagem política de certo modo radical, que também tinham esse conteúdo radical que o Estado Novo não tinha. Aquela questão que o Jaime Gama estava a falar de uma certa simbiose entre o Ferro e o Salazar, não há dúvida que isso também foi surgindo. O Ferro vinha, de facto, muito mais daqueles ambientes modernistas, futuristas. É preciso não esquecer, por exemplo, que os futuristas em Itália foram um elemento importante na fundação do fascismo. Marinetti está ao lado de Mussolini na sessão inaugural dos Fasci di Combattimento em março de 1919, assina depois o manifesto dos intelectuais fascistas e está muito próximo do regime. Portanto, havia aí uma ligação da modernidade, uma certa modernidade artística, e o fascismo procurava apresentar-se como um modelo revolucionário, também queria uma outra revolução, uma revolução também muito mais populista, por exemplo. O salazarismo é mais uma combinação de elementos também alguns modernistas, de estética. Não podemos esquecer, por exemplo, todos os painéis do Almada, tudo isso. Quer dizer, há um aproveitamento, há um uso, há uma abertura grande para esse modernismo estético, mas ideias essencialmente conservadoras. Quer dizer, ideias conservadoras É muito importante, por exemplo, o elemento católico, o elemento conservador, a exaltação da história de Portugal, mas sempre com muito cuidado de não entrar em frenesis populares ou revolucionários que, por exemplo, apareceram muito, quer no fascismo, quer no nacional-socialismo. Essa é a simbiose. Salazar aí também cede, em determinados momentos, talvez não fosse um grande entusiasta, de facto, do diálogo com as massas e com a utilização desses meios, mas soube fazê-lo, ou melhor, nesse sentido, até de certo modo encarregou António Ferro de o fazer, porque percebeu que exatamente ele tinha esse sentido da modernidade, tinha mundo, tinha viajado pelo mundo, tinha entrevistado essa gente toda, o Hitler, o Mussolini, o Kemal Atatürk, etc. E tinha, de facto, um estilo talvez mais solto, mais liberal, mais modernista, liberal no sentido de não estar muito ligado a cânones pré-determinados. Portanto, ele fez aquilo que fazia sempre com as pessoas, que era procurar ver naquilo que podia ser útil às finalidades políticas que prosseguia e adaptá-las e adaptar-se também a elas. No fundo, foi o que ele fez. É o que ele faz com o Ferro.
Jaime Gama, o papel que desempenha neste processo um jornal como o "Diário de Notícias" acaba sempre por ter durante muito tempo e particularmente durante o período do Estado Novo. Podemos até continuar já para o período da Revolução. É um jornal que, não sendo um jornal tão entusiasta e tão propagandista como, por exemplo, chegou a ser o "Século", é um jornal que está sempre, de alguma forma, alinhado, oficioso. Isso tem a ver com o quê, na sua perspetiva? E até com a sua própria experiência, que passou pela redação do "República".
Talvez tenha a ver com a natureza societária. Tem a ver também com os diretores. Há uma certa alternância de diretores que representa alguma flutuação de nuances em relação à direção. E depois também tem a ver com a política de jornal, de querer ser um jornal de grande tiragem e, portanto, querer manifestamente sintetizar na capa três coisas: os títulos, as fotografias e depois algum conteúdo informativo sobre a hora e atualizado, dando relevo à cobertura de questões políticas nacionais e internacionais, diferentemente de outros jornais mais centrados em questões regionais ou em questões de âmbito até da própria cidade de Lisboa. Portanto, acho que a filosofia do periódico é algo que também permite ser uma plataforma onde produtos como produto grande reportagem e entrevista de António Ferro têm cabimento. Aliás, as anteriores entrevistas, muitas são lá produzidas e editadas e algumas posteriores, mesmo quando ele já desempenhava funções, digamos, paragonativas ou oficiais. Portanto, há aí uma adequação entre o gênero jornalístico e a plataforma editorial da publicação, que obviamente não colide com o interesse do grupo empresarial que está por trás do jornal. Isso é manifesto. Mas penso que é isso que explica predominantemente essa escolha do DN para a plataforma de lançamento dessas operações de Ferro e depois até no grupo editorial para o lançamento dos livros, porque os livros também são editados pela editora que está ligada ao jornal.
Jaime Grapião, como é que uma figura, apesar de tudo tão diferente de Salazar, já vimos que Ferro de alguma forma é enfeitiçado por Salazar, diz: "Este é este homem, é o homem que precisamos", de alguma forma. Mas como é que Salazar, que estava muito fechado, acaba por perceber que precisa de não só de Ferro, como, sei lá, por exemplo, dos filmes de Leitão de Barros, dos filmes do Afonso Lopes Ribeiro, depois mais tarde da exposição do mundo português. Como é que ele vai fazer esta evolução?
Ele é um homem inteligente, é um homem determinado e depois, além disso, é uma pessoa com uma grande autodisciplina. Portanto, as pessoas assim, não há dúvida que têm uma grande capacidade, mesmo quando não é muito a inclinação delas, têm um grande sentido de autodisciplina e, portanto, ele viu, ele percebeu a importância na época, aliás, porque estava rodeado disso. Ele percebeu a importância na época de chegar exatamente à população, chegar ao povo e, portanto, usar os meios que eram necessários para isso. Até porque Salazar sabia perfeitamente Que mesmo num Estado autoritário que pode reprimir, que pode proibir, que pode fazer essas coisas todas. Ele não tinha particularmente grande gosto, como ninguém, por essas coisas, tirando os sádicos. Sabia perfeitamente que aquilo que se ganha em adesão e em apoio natural é o que se poupa em repressão. Ele sabia perfeitamente isso e não sendo propriamente um grande entusiasta, não sendo à partida perfeito, era um homem bastante isolado, não é um homem que dê grande confiança. Tem os seus amigos, mas não é uma pessoa que desse grande confiança, que se expusesse muito, mas aí está numa função de Estado, está numa função política. Portanto, percebe perfeitamente o ar do tempo. Percebe perfeitamente que está numa época, é uma pessoa que está perfeitamente integrado e atento ao que se passa no mundo. Ele sabe perfeitamente que nessa época vê o que os outros estão a fazer. Quer dizer, percebe que é fundamental, de facto, criar uma ligação. Usa-se, por exemplo, muito o cinema, mas também, por exemplo, a rádio, a rádio também é usadíssima, a Emissora Nacional, tudo isso. Há uma programação muito virada e orientada, por exemplo, toda a recuperação das coisas portuguesas, das tradições portuguesas. O que talvez seja interessante é que quem estava a praticar isso com grande sucesso e grande intensidade e muito mais à vontade, de certo modo, até porque tinham toda uma estética voltada para aí, eram, de facto, os regimes mais radicais. Quer dizer, eram de um lado os soviéticos e do outro lado os alemães. Hitler estava a subir ao poder nessa altura, estamos a falar do fim de 32, Hitler vai ser nomeado chanceler em janeiro de 33. Esse período depois do Secretariado de Propaganda Nacional é já com Hitler no poder, é com Mussolini há 10 anos no poder e com o fascismo a fazer muito essas coisas. O fascismo, por exemplo, desenvolveu imenso. O Festival de Veneza é uma coisa que é criada no tempo de fascismo. Cinecittà, tudo isso, quer dizer, os filmes, as grandes produções históricas que os italianos fazem no tempo de fascismo, as evocatórias de Roma, etc. Claro que aqui foi-se para um modelo que é um modelo relativamente modesto, mas que servia pro gasto. Quer dizer, que são exatamente essa comédia ligeira, que ainda hoje as pessoas e até pessoas de outras gerações que não têm nada a ver com isso veem divertidamente. Com aqueles atores fantásticos, o António Silva, o Vasco Santana, Laura Alves, Beatriz Costa, tudo isso. Toda essa época, é uma época que depois se a gente for analisar com atenção esses filmes, têm um sustentáculo político importante, que é exatamente transmitir a ideia de uma sociedade relativamente livre, relativamente unida nos seus valores fundamentais, relativamente interclassista, muito a comédia urbana. Também havia ali uma linha, às vezes, do ruralismo, mas não triunfou, não é essa linha que se procura. Alguns filmes que vão para aí, alguns filmes que vão buscar clássicos portugueses, sei lá, "As Pupilas do Senhor Reitor", "O Amor de Perdição", a figura do Camões, também vão buscar isso, mas de um modo geral, é uma adaptação aos novos tempos e sem grandes alusões políticas. Portanto, é uma espécie que seria de propaganda cinzenta. E é isso que o António Ferro faz muito bem. Quer dizer, no fundo, é ele um bocado que superintendente nessas coisas. E de fato, encontrando criadores à altura, o António Lopes Ribeiro era um homem muito inteligente, com muita experiência de mundo, etc. Toda essa gente também vinha das coisas exatamente modernistas, mais radicais, mas de certo modo fizeram esse casamento e essa adaptação também à colaboração com o regime.
Jaime Gama, dessa colaboração com o regime, é uma colaboração de alguma forma suigeneris, porque António Ferro era um propagandista, como é óbvio, mas ao mesmo tempo que vai impondo uma certa estética, acaba por trabalhar com outros arquitetos, artistas, enfim, Almada Negreiros, Contarini, por exemplo, que têm linguagens diferentes, por exemplo, do português suave, que depois acaba por se impor nalgumas zonas de Lisboa e na criatura de outros locais mais ruralista, mais tradicionalista. Como é que este equilíbrio é feito? Há uma altura em que os intelectuais ainda não romperam com o regime?
Esse equilíbrio é feito, em primeiro lugar, dentro do próprio António Ferro, porque o António Ferro quando arranca, cria peças de teatro que provocam um escândalo em Lisboa, nos meios conservadores. Aliás, rutura, por exemplo, e protesto dos movimentos em que militavam Teotónio Pereira e Marcelo Caetano a essa data. Ferro vem dessa irreverência em matéria de costumes, de análise de sociedade e até do ponto de vista estético. Ele próprio é que vai fazendo uma modulação quando Deixa de alinhar com esses setores como de Homem Cristo Filho, Henrique Galvão e outros, e passa a visualizar, já só em 32, a possibilidade de vir a ser o homem da propaganda de um Salazar que já está consolidado. Portanto, aí há uma adaptação. E ele, na verdade, vai buscar os contactos que tinha feito anteriormente. Ele tinha visitado os Estados Unidos, Hollywood, tinha feito digressões no Brasil, digressões em França, o jazz, toda essa movida intelectual. E depois, nos próprios movimentos mais radicais europeus, designadamente em Itália, e ligado aos setores modernistas do fascismo italiano. Vamos a ver, ele depois traz a Portugal precisamente Marinetti, traz Pirandello. Ele manteve sempre um pouco essa relação. E também com a Espanha, ele reflete, e refletem na época, o que tinha sido o fracasso da relação de comunicação do General Primo de Rivera durante a ditadura e a Dita Blanda, houve ali um problema de relações de comunicação. E, portanto, ele vai construindo também uma justificação que apresenta a Salazar para a necessidade de haver alguém que se encarregue da propaganda, do que ele diz essa encenação que é necessária, já que o autor não tem muito talento para a comunicação de massas, ao menos que se atribua a alguém esse trabalho de encenação pública. E depois daí a mobilização de todas essas plataformas do teatro, do cinema, da rádio, da cultura popular, a aldeia mais portuguesa de Portugal, as marchas de Lisboa, o Galo de Barcelos, a reconstituição do Paço do Cal de Guimarães. E outras que são o Rancho Tamar, da Nazaré, portanto, todas essas plataformas. Embora, é interessante, eu estive a refletir, eu acho que apesar de tudo, Ferro mantém cuidado. Não sei se isso corresponderia a uma instrução de Salazar ou a um pressentimento de autodefesa do próprio. Ele nunca penetra muito o terreno da igreja, nem o terreno religioso, porque ele não tem essa origem, manifestamente. E, portanto, aí é cauteloso, é omisso. Deixemos que a igreja cuide do que é a sua propaganda, não vamos nós chamar a nós a gestão desse conteúdo. E também, embora haja todo o programa dos centenários e tudo isso, e haja um passado da militância de Ferro na Cruzada Nacional e na Cruzada Nuno Álvares de Filomeno da Câmara e de outros. Mas ele também é cauteloso em relação a fazer sobreposição na gestão de feitos militares, de heróis militares, deixando isso a uma esfera própria da força militar para evitar atritos na definição da mensagem exata. Isso é interessante, ver essas fronteiras. Mas, na verdade, Ferro constrói o denominador comum de maior alcance, precisamente para mobilizar simultaneamente a participação de intelectuais e artistas em eventos da órbita do regime. Não que fosse necessário glorificar ou aplaudir, mas estar nesses circuitos sem criar vetores de oposição antagónicos. E em segundo lugar, também definir uma mensagem da propaganda que não gerasse anticorpos fundamentais, isto é, que se inserisse num apaziguamento. Daí o papel, por exemplo, os serões para trabalhadores, certos espetáculos musicais, o teatro pro povo. Portanto, não havia a preocupação de fazer dos instrumentos de comunicação de massa, instrumentos diretos da propaganda constante de uma mensagem ideológica ou doutrinária, mas sim criar espaços de atenuação de um potencial conflito com o regime da autoridade. Aliás, num escrito prévio à sua contratação por Salazar, Sérgio define bem esse seu caderno de encargos, dizendo: "O que agora é preciso aqui é fazer com que o ditador seja povo, isto é, temos que humanizar um pouco esta figura do ministro das Finanças abstrato, e também fazer com que o povo se sinta ditador, através de uma assimilação de paralelismo, de par identidade com aquele que é um seu igual da beira e que agora está na governação suprema da nação", como se dizia na época.
Bem, nós entretanto terminamos o nosso tempo e reencontramo-nos novamente dentro de uma semana.