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Bem-vindos de regresso a mais um "Conversas à Quinta". Hoje vamos falar da situação na Irlanda do Norte. Houve eleições na Irlanda do Norte recentemente e essas eleições trouxeram uma novidade importante. Como sabe, a Irlanda do Norte vivia uma paz praticamente desde 1998, há 24 anos, depois dos Acordos de Sexta-feira Santa. Isto a seguir a um período longo, um período de quase três décadas, de muitos problemas, aliás, conhecido pelo período de os Troubles, os Troços, digamos assim. Um período que deixou cerca de 3500 mortos devido à violência entre os vários grupos da Irlanda do Norte. Ora, o que aconteceu nestas eleições foi que depois de todo este período, sempre houve uma hegemonia clara dos partidos unionistas, isto é, os partidos que defendem a ligação ao Reino Unido, a integração na monarquia britânica. E desta vez, o partido que ficou em primeiro lugar, que elegeu mais representantes, mais deputados pra Assembleia da Irlanda do Norte, foi o Sinn Féin. Sinn Féin, que é um partido republicano, um partido que defende a independência e a união destes seis condados com a República da Irlanda. Portanto, um partido que durante muito tempo esteve ligado ao IRA, era visto como o braço político do IRA ou o IRA como braço armado do Sinn Féin. Bem, isto criou uma situação nova e muitas expectativas. Para muita gente, é o primeiro passo para mais de um século depois da República da Irlanda se ter separado do Reino Unido, na altura ainda como Estado Livre da Irlanda, se caminhar para a unificação da Irlanda e pra sua separação realmente do Reino Unido. Jaime Gama, acha que isso é quase inevitável depois deste resultado eleitoral?

Não, porque esta eleição é uma eleição cujo resultado não só acaba por deixar as coisas na mesma, como quase que acaba por piorar a condição em que cada um se encontrava. Todo este processo da Irlanda do Norte teve um desenvolvimento grande e foi um evento internacional de fantástico alcance em 98, quando se conseguiu os Acordos de Sexta-feira Santa, que são dois tipos de acordos, são um acordo bilateral entre o Reino Unido e a República da Irlanda, por um lado, e depois um acordo multilateral entre partidos da Irlanda do Norte, apoiados pelo Reino Unido e pela República da Irlanda, numa negociação que foi presidida por um senador norte-americano. E esse processo foi o que acabou por pôr fim à violência e por iniciar ali uma nova estrutura de governação da Irlanda do Norte. Bom, tudo acaba por ser alterado com o Brexit, porque enquanto o acordo de Sexta-feira Santa decorre num quadro em que Reino Unido e Irlanda são membros da União Europeia, a introdução do fator Brexit, depois a introdução do fator negociação entre Reino Unido e União Europeia para a transição do Brexit e o chamado Protocolo estabelecido entre a União Europeia e o Reino Unido em matéria de Brexit, mas para aplicação específica, o Protocolo da Irlanda do Norte, tudo isso acaba por ser posto em causa, porque o próprio Reino Unido acaba também por não respeitar o acordo Brexit quanto à componente Irlanda do Norte. E estas eleições decorrem nesse contexto.

É bom explicar que tudo isto é relativamente complicado, porque o que temos é um país que está fora da União Europeia, o Reino Unido, que tem um pedaço, uma ilha, sem fronteiras físicas com um país que está dentro da União Europeia, que é a República da Irlanda. Portanto, todo o problema é como é que circulam as mercadorias entre um lado e o outro da Irlanda e depois se podiam ou não circular livremente pro resto do Reino Unido. Há aqui um problema difícil de resolver, até porque os Acordos de Sexta-feira Santa implicavam que não haveria fronteiras entre a República da Irlanda.

O Reino Unido também não é uma entidade que possa variar a sua posição face aos tratados internacionais que assina, porque o Reino Unido é subscritor, primeiro, dos Acordos de Sexta-feira Santa. E em segundo lugar, é subscritor do protocolo sobre a Irlanda do Norte, que acordou com a União Europeia quando saiu da União Europeia Portanto, há aqui um quadro jurídico internacional que não pode ser mudado ao sabor do humor dos titulares políticos do momento. Esta eleição, a bem da verdade, é uma eleição que não é ganha pelo Sinn Féin. O Sinn Féin tem o mesmo número de deputados eleitos na Assembleia da Irlanda do Norte. Quem desce é o Democratic Unionist Party.

DUU.

O DUP, que perde lugares e por isso deixa de ser o primeiro partido. Mas há outros partidos que sobem, como o partido da Aliança, que é um partido que não é nem pela integração na República da Irlanda, nem pela permanência unionista no Reino Unido, é uma espécie de terceira linha que se tem vindo a afirmar. É preciso termos em conta que este DUP é um aliado essencial dos conservadores pró-Brexit, dos conservadores Major, e que foi o grande aliado para destituir a senhora May, conservadora anti-Brexit. Portanto, há aqui também uma imbricação entre o Partido Conservador antes e depois da posição pró-europeia e o DUP, que contrariamente ao que porventura seria a expectativa, depois dessa aliança não ganha, perde a favor do Sinn Féin e perde por decrescimento, porque é um partido que tem que se também registrar desde 2001 que tem vindo a baixar o seu posicionamento nas eleições que ocorrem na Irlanda do Norte. E na Irlanda do Norte ocorrem eleições locais, ocorrem eleições para o Parlamento do Westminster, ocorrem eleições para o Parlamento Europeu e ocorrem eleições pra Assembleia da Irlanda do Norte, da qual emana um executivo compartilhado, tal como estabelecido nos acordos de Sexta-Feira Santa. E esse espectro de decadência do DUP é algo que se tem vindo a confirmar, porque há três partidos unionistas na Irlanda do Norte. Há um que é o Ulster Unionist Party, que foi quem assinou os acordos de Sexta-Feira Santa. Há o DUP, que não concorda com os acordos de Sexta-Feira Santa, embora depois tivesse figurado na estrutura de governo. E há um partido ainda mais tradicionalista de unionistas. Portanto, esse campo é um campo que no fundo é aquele que se manifesta contra o protocolo da Irlanda do Norte, que está nas negociações que foram acordadas com o Reino Unido aquando do Brexit. Depois há o outro campo político, onde figura o Sinn Féin, mas também figura o antigo Social Democratic and Labour Party, que foi quem assinou os acordos de Sexta-Feira Santa, mas que hoje tem menos expressão eleitoral. E há a emergência desse outro partido, o Alliance, que é um partido mais liberal e que tem vindo a ocupar agora a posição de terceiro partido na Irlanda do Norte e que subiu nestas eleições nove lugares. É quem mais subiu nestas eleições e que capta um espectro mais moderado dos protestantes da Irlanda do Norte, que, aliás, são compósitos, porque nos protestantes da Irlanda do Norte há os presbiterianos, há os anglicanos da Irlanda Norte e República da Irlanda unidos numa igreja autônoma dos anglicanos chamada Igreja da Irlanda, e depois há ainda um pequeno grupo de metodistas. E esse espectro religioso também influencia o campo dos partidos que radicam mais na opção protestante, entre aspas, designando por protestante o conjunto dos cristãos não católicos da Irlanda do Norte. São fatores que ponderam, que fazem influenciar muito a política da Irlanda do Norte, bem como a forma como os próprios campos políticos se situam em relação à sua versão do que é a identidade da Irlanda do Norte, se é mais Irlanda do Norte, se é mais Irlanda no Norte, porque tudo isto tem uma história muito profunda por trás que não conseguiu ainda ser completamente digerida e que é difícil que venha a ser, porque é um dossiê muitíssimo complexo.

José Miguel Pinto, encarando precisamente esta realidade complexa, como olha para um país, para esta região do Reino Unido e para a forma como o nacionalismo se afirma dos dois lados, quer do lado irlandês, quer do lado britânico, sendo que há uma raiz religiosa para isto?

É evidente que aqui temos mais um caso de choque de nacionalismos. Aliás, isso é a questão principal da história da Europa e da história dos nacionalismos. Quer dizer, aqui temos, de facto, um nacionalismo católico irlandês de fundo, ou seja, que vive exatamente de uma tradição até de vítima da opressão, que já tinha começado antes, mas que se acentuou muito no século XVII com toda a invasão e repressão no tempo de Cromwell contra os católicos, que se seguiu depois no século XVIII, com a progressiva ocupação por famílias protestantes inglesas e irlandesas de praticamente domínio de toda a economia e, portanto, um certo sentimento de exploração por parte das massas católicas. Século XIX, a grande fome da Irlanda, as migrações para os Estados Unidos, tudo isso. E no século XX, de facto, uma história também longa de revolta, muito marcada pela chamada Revolta da Páscoa de 1916, em que os nacionalistas irlandeses, aproveitando o fato dos ingleses estarem envolvidos na guerra, na Flandres, tentaram um golpe. Só que foi severamente reprimido, com fuzilamentos de muitos dos responsáveis. E depois a guerra da independência, a guerra civil na Irlanda, ou seja, mais tarde, a partir dos anos 60, as chamadas Troubles, que já falamos aqui no princípio. E, portanto, é um nacionalismo que por um lado, assenta muito na identidade católica, embora, por exemplo, uma parte do pessoal do IRA, dos guerrilheiros, dos ativistas do IRA fossem marxistas. Portanto, não eram propriamente católicos, mas mantiveram sempre essa linha, que é a linha identitária. E depois, curiosamente, funcionando também um nacionalismo ao contrário, ou melhor, o nacionalismo do Ulster, nacionalismo da Irlanda do Norte, que pretende exatamente manter-se ligado à Coroa Britânica, que vê os irlandeses naquela linguagem bastante violenta do pastor Paisley, como representando o odioso papismo. E, portanto, há aqui, de facto, uma oposição histórica muito brutal, muito violenta e muito marcada a cada uma destas identidades. É evidente que o Sinn Féin, e talvez seja uma das razões do seu relativo sucesso, tem procurado, de certo modo, virar-se menos para essas questões da herança histórica e virar-se mais para as questões do momento político, as questões da inflação, da vida das pessoas, etc. Mas é evidente que também pelo próprio teor dos acordos de Sexta-Feira Santa e do sistema que instituiu, e que é um sistema em que cada um dos grandes partidos tem que fazer parte do governo, o primeiro-ministro é de um partido, o outro será obrigatoriamente do outro. Não há dúvida que, como em muitos outros casos, há aqui, de facto, uma grande dificuldade, mas talvez não houvesse na altura. Quer dizer, na altura, em 1998, a ideia era acabar com a guerra civil, para todos os efeitos. Isso embora praticamente só se tivesse acontecido e confirmado uns anos mais tarde, penso que em 2005. Não há dúvida que ninguém quer voltar a esse período. Mas vai ser muito difícil, porque vai haver aqui fortíssimos bloqueios, que são bloqueios que a própria legislação e a própria natureza das instituições, exatamente para as tornar vivíveis, consagra.

Tudo isso foi um pouco acentuado pelas tensões do Brexit e pelas negociações complicadas entre as partes.

Claro, tivemos aí outro nacionalismo, que foi o nacionalismo inglês respondendo de forma abrupta e popularmente abrupta à Europa, à União Europeia. E portanto, aqui não temos só dois nacionalismos, temos talvez três, porque temos também o próprio nacionalismo inglês, que por sua vez também, ironia da sorte, acaba por neste momento ter à perna um nacionalismo escocês de certo modo com uma tradição, embora modernamente menos violenta. Mas já foi no passado, já foi bastante armada e violenta. Portanto, o nacionalismo inglês também às voltas com o nacionalismo escocês, que quer nas votações, quer nas sondagens, também tem muita força. Portanto, temos aqui no chamado Reino Unido, temos vários focos

De desunião e de fragmentação. Enfim, com que vai ter que viver nos próximos anos e vai ter que negociar e vai ter que ver talvez a capacidade das elites políticas de negociar e de evitar que isto dê, de fato, rupturas violentas.

O que está passando no Reino Unido com a explosão dos diferentes nacionalismos, eles continuam unidos pela coroa, terá muito a ver com aquilo que se passou também em outros países. Quer dizer, a partir do momento que deixou de haver império, deixou de haver aquela cola. Em Espanha aconteceu o mesmo, a seguir à crise de 98.

Em Espanha aconteceu o mesmo, a França, enfim.

Há uma invenção, por exemplo, o nacionalismo basco é muito inventado depois da crise de 98.

Sim, o Sabino Arana aparece nessa época. Com as questões raciais, da identidade racial, até racial mesmo, racial física, racista mesmo, dos bascos.

Não tenhamos medo das palavras. Estamos na Irlanda do Norte e é um aspecto que muitas vezes é menos falado, mas que é também interessante. Como foi durante muito tempo, historicamente, os condados do norte, os condados da Irlanda do Norte, sobretudo Belfast e em torno de Belfast, eram os mais ricos da Irlanda. A Irlanda era historicamente pobre, enfim, um país de imigração, um país de grandes fomes, como foi o caso da crise da batata, mas a Irlanda do Norte teve indústria mais cedo, teve o porto de Belfast, tinha uma riqueza que o resto da Irlanda não tinha. Ora, isso modificou-se nas últimas décadas, alterou-se muito radicalmente. A Irlanda foi um fenômeno na União Europeia de crescimento econômico, de prosperidade e ultrapassou em muitos indicadores a Irlanda do Norte. Portanto, a República da Irlanda está à frente, por assim dizer. Eu gostaria de saber até que ponto, Jaime Gama, isto que no fundo é aquilo que hoje em dia também preocupa muitos eleitores, que é a economia, acaba por ser influente nestas eleições, porque não havendo o fator tão decisivo, tão pesado das identidades, a identidade que nós associamos aos protestantes e a identidade que associamos aos católicos. Eu estou a dizer associamos porque aquilo não era real, rigorosamente uma guerra religiosa nos termos convencionais do termo. Mas não existindo essas identidades, há pouco falou da subida do Partido Aliança, ele não poderá corresponder também a uma preocupação mais com aquilo que são os assuntos normais da política?

Sim. Aliás, a própria campanha do Sinn Féin não foi feita com base em nenhuma tematização do problema central da Irlanda do Norte. Sim ou não à integração na República da Irlanda. Foi muito centrada na questão condições de vida, porque isso é também o que faz um pouco atrair o eleitorado face ao que foi a governação do DUP e face também ao que é a governação do aliado do DUP em Londres, que é o Partido Conservador de Boris Johnson. É interessante ver que, na sequência destas eleições, o DUP já declarou que não integra o governo da senhora que ganhou em nome do Sinn Féin, a menos que Boris Johnson modifique o tratado, o protocolo sobre a Irlanda do Norte que ficou acordado no Brexit. E o governo de Londres, através do Secretário pra Irlanda do Norte, já iniciou um processo de apresentar ao Parlamento britânico, Westminster, a ideia de um projeto legislativo para romper com o protocolo da Irlanda do Norte em matéria de Brexit e de negociação com a União Europeia. Portanto, o que já levou a reações internacionais da União Europeia e da República da Irlanda, chamando a atenção pro caminho de instabilidade que tudo isso vai colocar sobre a mesa. Mas a realidade é esta.

Esse era um aspecto que o Jaime não referiu há pouco. O DUP sempre foi, de fato, contra o acordo do Brexit. Nunca achou que fosse um bom acordo.

Sim, também contra o acordo de Sexta-Feira Santa. Sim, é um fato. Embora tenha estado a presidir ao governo, quer com o acordo de Sexta-Feira Santa, quer com o protocolo que foi subscrito pra Irlanda do Norte aquando do Brexit. Portanto, é uma situação complexa, porque o quadro para constitucional, se é que se pode falar, o estatutário da Irlanda do Norte, é o de um governo compartilhado em que há um primeiro-ministro e um primeiro-ministro B, um primeiro-ministro número dois, e que praticamente têm que governar em conjunto e têm que assinar todos em conjunto. E o primeiro-ministro, a líder do Sinn Féin, que ganhou as eleições, não pode tomar posse sem que o vice-primeiro-ministro, o primeiro-ministro dois, também o faça. Portanto, até lá haverá um bloqueio das instituições que obviamente não será favorável pra resolver nada, nem a contento dos unionistas, nem a contento do Sinn Féin, nem possivelmente a contento da República da Irlanda, nem do Reino Unido. Portanto, vai haver aqui a previsão de um bloqueio. E também é preciso que se diga que verdadeiramente a favor De uma integração na República da Irlanda, só um terço da população da Irlanda do Norte é que está, porque há ali uma parte que é a favor da permanência no Reino Unido e há uma outra parte que balanceia, porque também tem questões em relação a ser governada pelo Sinn Féin, por um lado, na Irlanda do Norte, e por outro lado, também não tem uma visão bem clara sobre o que será a integração na República da Irlanda. Portanto, é um assunto não resolvido.

Até porque o Sinn Féin na República da Irlanda existe, subiu eleitoralmente.

Mas é diferente.

Mas é diferente e não é um partido do governo, não tem sido um partido do governo.

Exato, e é diferente. E também é preciso reconhecer que essa integração na República da Irlanda, pelo acordo de Sexta-Feira Santa, só será viabilizada quando o governo britânico constatar que há claramente uma maioria da população na Irlanda do Norte que o deseja e submeter isso a um referendo na Irlanda do Norte. Portanto, há aqui um processo que está muito longe de ser concretizado numa determinada direção. É preciso ter isso também em atenção. Portanto, nós estamos neste momento numa situação em que por virtude da situação interna inglesa, que também não é muito estável, por virtude da situação resultante desta eleição e do impasse político que ela leva, por virtude da não resolução definitiva da relação entre o Reino Unido e a União Europeia, tudo conduz a uma perpetuação da instabilidade. Será que essa instabilidade é suscetível de fazer gerar novos surtos de violência ou não? Bom, tudo leva a crer que não, porque há também uma mudança na vida das pessoas e nas expectativas. Mas a situação não é nada segura e os caminhos que são tomados são caminhos que não apontam pra assegurar, pelo contrário, assentam em que cada parte quer consolidar junto do seu campo. Como todos estão a perder ou a não ganhar, a tentação de radicalizar vai ser uma tentação grande.

Já me guio a pinto. Esta tentação de radicalização é feita num país, numa região, pelo menos, onde o radicalismo esteve quase sempre muito presente, até pela separação religiosa. Muitos destes habitantes da Irlanda do Norte têm origem na Escócia e daí serem protestantes. Na Escócia também há muitos católicos, mas é um pouco isso. Eu há pouco disse que isso não foi uma guerra religiosa, no sentido tradicional do termo, mas as identidades religiosas continuam a ser muito marcadas. E há aqueles movimentos que fazem provocações constantes uns aos outros, por exemplo, aquelas manifestações dos orangistas.

Exatamente.

Aquelas marchas que passam por bairros católicos. Tudo aquilo é sempre muito marcado.

Celebrar as vitórias. Exatamente, aquela vitória.

De Guilherme de Orange.

Exatamente, Guilherme de Orange. Aliás, temos que ver, mesmo numa época como é a nossa, sobretudo na Europa Ocidental, uma época de uma certa descristianização. Mas o que se passa, o que fica sempre e que é talvez muito importante observar nestes movimentos, é que a religião no seu aspecto transcendente, espiritualista, etc, pode, de facto, por certas vezes, até porque aqui haveria talvez uma grande contradição exatamente numa religião como o cristianismo, que é baseada exatamente no perdão, no amor do próximo, etc. Portanto, a interpretação das guerras religiosas é sempre complexa. E curiosamente, mesmo numa certa descristianização, que pode atingir com certeza os católicos, mas também atinge os protestantes. Não há dúvida que depois o clubismo, a parte política que fica disso, é fortíssima. A gente aliás vê, por exemplo, num outro fenômeno de radicalismo, uma série destes dirigentes, por exemplo, dos movimentos radicais ditos islâmicos ou jihadistas, eles próprios não são crentes. É uma bandeira política. A religião passou a ser, como no passado também foi muitas vezes, sobretudo pra líderes, um certo aproveitamento e uma certa determinação das bandeiras. Além disso, não há dúvida que o Sinn Féin, por exemplo, tem uma grande tradição. O Sinn Féin foi fundado em 1905, portanto, é um partido com uma longa história e o que ele quer dizer, aliás, Sinn Féin quer dizer "nós próprios sozinhos". Portanto, é aquela ideia exatamente da separação da Inglaterra, que foi sempre vista como um explorador permanente. Também há aqui um aspecto de classe muito importante, quer dizer, há aqui um aspecto do inglês visto como o opressor, não só político, mas depois explorando economicamente. Portanto, essa tradição é muito forte e é evidente que há uma tradição também de radicalismo, que aliás nem sequer desapareceu com os acordos de Sexta-Feira Santa. Muitos dos dirigentes do IRA passaram depois a ser dirigentes políticos com assento no Parlamento. Quer dizer, não se fez aquela divisão, por exemplo, em Espanha, apesar de tudo

Na altura que se fez algumas, ainda hoje em Espanha é muito comum a-

Já me garanto. Mas há uma coisa que, pelo menos diziam isso muito em Espanha, não tenho conhecimento tão detalhado, mas é que havia uma diferença importante na relação entre o IRA e o Sinn Féin e, no caso de Espanha, ETA e o Batasuna. É que enquanto em Espanha os líderes estavam na ETA, na Irlanda os líderes estavam no Sinn Féin.

Sim.

Portanto, a liderança era mais política do que era militar. E em Espanha foi mais militar, se calemos dizer assim.

E até porque a Espanha teve, sobretudo na primeira parte da coisa basca, tinha um regime autoritário, franquista, que não dava para ter partido.

Sim, mas eu estou a falar mesmo assim. Alguns anos antes dos golpes que levaram à queda da ETA, que permitiram resolver o problema.

Sim, mas de qualquer maneira, aqui na Irlanda, nunca houve muito a ideia de separação. Quer dizer, não se viu no Sinn Féin, não se viu muito a ideia de atacar ou criticar. Além disso, vamos lá ver, nos acordes de Sexta-feira Santa, de certo modo, houve uma paz, não chamaria uma paz dos bravos, mas houve uma paz, exatamente, para acabar com a guerra civil, digamos assim, tem que se negociar com os grupos armados. Portanto, é sempre aquela conversa que também houve aqui um bocado ilusória a seguir ao 25 de abril, que era no então Ultramar negociar com os grupos não armados, mas o problema são os grupos armados. Quer dizer, pra acabar com a guerra é preciso falar com os representantes dos grupos armados, não é com os representantes dos grupos desarmados. E eu acho que isso também não é, de certo modo, essa violência, até porque foi também uma violência correspondida, quer pelo lado inglês, quer pelas próprias milícias protestantes. Também não era uma violência unilateral, como a gente tem em muitos casos. Em Espanha houve um bocadinho isso com aqueles grupos anti-ETA. Depois deu aquele escândalo todo, até porque eram um bocado alimentados pelo próprio governo.

Um bocado a favor, eram basicamente eliminados todos.

Esses foram todos. Na Irlanda, essas milícias protestantes e exatamente esse ativismo, esse triunfalismo que nós ficamos, sobretudo a nossa memória, dos mais velhos, pelo menos, é aquele pastor Paisley, que era, de facto, um demagogo tremendo e um homem que falava ao modo dos antigos profetas bíblicos. Com uma linguagem de grande brutalidade, de grande violência, pregando exatamente a destruição do papismo e dessas coisas todas. Portanto, foi, de facto, um caso, a reversão e a reconversão de algumas dessas figuras. Digamos, no pós-acordos, foi, de facto, uma coisa muito importante e, portanto, também penso que haverá alguma dificuldade e bastante resistência em mover outra vez para uma linha de violência. Deve haver uma certa vacinação, digamos, antiviolência, porque a violência, melhor ou pior, durou praticamente mais de 30 anos. De 1969 até 98 e ainda se prolongou algum tempo.

Jam Gama, até que ponto é que isto pode influenciar a geometria das coisas no Reino Unido? O Reino Unido está com problemas na Irlanda, na Escócia. Se bem que na Escócia ninguém sabe quando é que será o próximo referendo. Sabe-se que vai haver um referendo, não se sabe quando. O país de Gales tem feito alguns avanços, bem que talvez mais modestos. A Irlanda do Norte pode criar aqui problemas novos?

Pode, porque, em primeiro lugar, a Irlanda do Norte ela mesma está dividida, embora haja uma maioria a favor da manutenção do protocolo da Irlanda do Norte no que foi negociado em matéria de Brexit, que é manter a Irlanda do Norte no mercado único e na união aduaneira. Mas isso, no fundo, traduz-se em quê? Em ter uma fronteira porosa e fluida com a República da Irlanda em terra, mas ter uma fronteira marítima quase bloqueada com um Reino Unido que entretanto saiu da União Europeia. Portanto, há aqui um extremar de campos, porque obviamente o grupo unionista, que são três partidos, põe facas ao peito ao governo inglês dizendo: "Agora tem que clarificar aqui o que é a nossa posição". E o governo inglês também está um pouco entalado na negociação que mantém com a União Europeia, porque apesar de tudo, tem tentado evitar uma negociação abrupta radical, porque isso tem implicações pra economia britânica que são bastante grandes e que à medida que o tempo passa, mais se verifica que são bastante grandes. Portanto, o que aparentemente está em cima da mesa é que a pressão Do grupo unionista da Irlanda do Norte sobre o governo de Londres está a levar o governo de Londres a ir radicalizar a sua relação com a União Europeia, porque tudo indica que vai querer romper o Protocolo da Irlanda do Norte através de legislação produzida pelo Parlamento de Londres. Isso tem implicações globais muito grandes na relação União Europeia-Reino Unido. E tem também implicações muito grandes na relação com os Estados Unidos, porque os Estados Unidos, atendendo à grande importância que tem a população irlandesa nos Estados Unidos, segue atentamente a questão da Irlanda e da Irlanda do Norte e considera-se quase parte da negociação e quase tutor da negociação dos acordos de Sexta-feira Santa. Portanto, há aqui um terreno que é muito minado. Não digo minado no sentido dos explosivos, mas muito minado no plano político. E é a isso que vamos assistir nos próximos momentos, ver se o caminho vai ser o dessa radicalização e quais as implicações para a própria existência de um governo na Irlanda do Norte, ou se vai haver um entendimento a todos esses níveis que no fundo leve a que na Irlanda do Norte se restabeleça a possibilidade de constituição desse governo partilhado entre o agora partido número um, que é o Sinn Féin, e o partido número dois, que é o DUP. Mas isso é o que vamos ver. Nada está definido e ninguém tem sobre isso uma varinha mágica que possa produzir a previsão definitiva.

Exatamente. Portanto, temos uma situação de alguma imprevisibilidade. Quem disse que isto era um caminho para uma independência inevitável talvez esteja a tomar a vontade pela realidade, mas há um quadro político que sendo novo, não é tão diferente como isso, devido muito ao quadro dos acordos de Sexta-feira Santa. Vamos continuar atentos à Irlanda do Norte e nós aqui pelo "Conversas da Quinta" reencontramo-nos dentro de uma semana.