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Que flor se abre no peito, minha voz amanhecida. Uma flor de amor refeito, proa de fogo no leito, leva a barra de vencida. Minha voz abandonada, pela noite se faz tua. Ecos de casa fechada, nos teus beijos encontrada, em vertigem de loucura. Traz a noite à minha porta, corpo a corpo abençoado. Vem beijar-me de volta, um verão com névoa solta, do teu beijo não me aparto. Campo grande dos meus olhos, pecado em porto escondido. Barco que traz o teu nome, aporta em mim, o cio. Esta noite vou contigo.
E hoje, na tarde em direto, estamos à conversa com o Camané, tem disco novo, chama-se "Horas Vazias", o disco que começa com esta canção que estamos aqui a ouvir, "Que Flor Se Abre No Peito". Camané, bem-vindo, obrigada pela disponibilidade, por estar connosco.
Muito obrigado pelo convite, é um prazer estar aqui.
Nós não conversávamos desde 2019 e estávamos aqui em off a comentar os novos estúdios da Rádio Observador, que vamos mostrar muito em breve também. Mas, Camané, esta conversa já estava planeada há algum tempo. Isto de dar entrevistas para promover trabalhos novos é algo que lhe dá especial gozo ou estar a explicar repetidamente o processo criativo é algo que não acrescenta muita magia ao processo?
Sim, mas faz sentido. Acho que as pessoas têm essa curiosidade de perceber como é que as coisas foram acontecendo. E faz sentido falar sobre isso. Embora não seja uma coisa que eu faça com muita facilidade. Mas eu gosto e acho que é importante de fazer. E este disco é um dos que eu adorei fazer.
Não faz com facilidade, por quê, Camané?
Porque tenho sempre medo. Tenho alguma insegurança.
Timidez?
Sim. Aliás, eu no palco fui me habituando a lidar com a timidez.
Era isso que lhe ia perguntar. Ainda sente algum receio ou nem por isso? Não sei se receio é a palavra certa.
Sim, é um estresse, duas horas antes, achar que não vai acontecer nada. Mas depois realmente aprendi a lidar com isso. Não quer dizer que eu tenha perdido o medo, não perdi, continuo a ter medo, mas aprendi a lidar com uma certa coragem, uma humildade de tentar sair cada vez mais de mim e não ficar tão centrado em mim mesmo e por dentro dos textos e dos fatos que vou cantar. E aprendi a lidar com isso, aprendi a conseguir libertar-me. E muito mais no cantar do que no resto.
Mas há o medo de falhar associado a esse receio de não estar à altura da expectativa?
Sim.
O embate com o público.
Sim, tenho medo de não conseguir transmitir a mensagem bem. Mas isso foi uma coisa que eu, com o tempo, lembro-me que os primeiros concertos eram difíceis, extremamente difíceis. E lá pro quarto, quinto, sexto tema, eu começava a libertar-me de mim. E depois, com o tempo, as coisas começaram a acontecer muito mais depressa e muito melhor. Acho que tem a ver com uma responsabilidade de dar o melhor.
Um sentido de responsabilidade.
Sim.
E cantava de olhos fechados ou não, Camané? Há quem faça isso. Não sei se no seu caso ajudava.
Eu cantava muito mais de olhos fechados quando cantava nas casas de fado. E depois comecei a aprender a olhar pra toda a gente. Não estou a olhar pra ninguém fixamente, mas olho e já abro os olhos.
Nas casas de fado intimidam muito.
Nas casas de fado ficava muito intimidado com o olhar, era tudo muito próximo. Mas a verdade é que já desde 98 que deixei de cantar em casas de fado. Mas a melhor coisa que eu fiz foi cantar nas casas de fado, foi aí que eu aprendi tudo, foi a minha escola, porque não há escola de fado. Foi muito importante pra mim aprender, estar com outras pessoas, músicos, fadistas, pessoas que me ensinaram tudo, porque foi um percurso fantástico pra depois transportar isso pro palco.
Mas não canta em casas de fado desde 98, mas continua a frequentá-las. O ambiente que se vive hoje em dia é igual, é diferente? Não sei se tem algum termo de comparação com aquilo que era.
Eu acho que as casas de fado, mesmo na altura em que eu cantava, era sempre uma incógnita. Havia noites em que havia um ambiente fantástico e noites em que as coisas não aconteciam. Porque é muito importante as pessoas que estão a cantar, mas também a relação com o público e o tipo de público que lá está. E há público que não tem a capacidade também de se deixar envolver e as razões porque uma casa de fados às vezes são-
Outras que não aquelas que deviam ser.
Não são aquelas que deviam ser. Mas a verdade é que eu é raríssimo sair à noite. Só saio à noite pra cantar. É raríssimo. Há anos que não saio à noite. Saio de vez em quando, mas é muito raro. Há meses que eu não vou a uma casa de fados, é verdade, tenho que ser honesto. Mas saio e tenho amigos que cantam nas casas de fados. Tenho dois irmãos que cantam nas casas de fado, um deles tem duas casas de fado e sei que o ambiente é fantástico, sei que eles têm noites fantásticas e falam-me disso. Eu não tenho saído muito, não tenho saído à noite. Especialmente os últimos dois, três anos.
Claro. Enfim, a pandemia impossibilitou tudo isso. E já vamos falar também um bocadinho deste regresso aos palcos e este contacto com o público que é tão importante e que não aconteceu durante este tempo. Mas esta primeira música que ouvimos deste novo disco, "Horas Vazias", esta primeira música que "Flor se Abre no Peito", era pra ter sido pro Carlos do Carmo, não era, Camané?
Era. Foi um tema que o Pedro Brunhosa fez pro Carlos do Carmo, tem a ver com o Campo Grande também, tem a ver com uma Lisboa que faz parte da vida do Carlos também, e da minha também, mas mais do Carlos. E o Carlos não gravou, não chegou a gravá-lo. E há cerca de quatro, cinco meses, o Pedro ligou-me a dizer que tinha um fado, se eu queria ouvi-lo. E eu ouvi. Tinha sido feito pro Carlos do Carmo. Ouvi, gostei imenso. E mais do que era a possibilidade que esta música e este poema têm de transportar pro meu registo, que é o fado. E foi fantástico fazer.
E o facto desta música ser a primeira no alinhamento do disco é uma forma de homenagem a Carlos do Carmo?
Também. Embora o Carlos do Carmo não chegou sequer a cantá-la, não teve tempo pra isso, não teve a oportunidade. Mas é uma forma também de homenagear. Porque eu conheço o Carlos do Carmo desde que eu tinha 10 anos. Havia uma proximidade muito grande, porque eu ouvia os fados em casa e depois fui com os meus pais ao Faia e o guitarrista que lá estava perguntou se eu queria cantar, e eu disse: "Só cantava se o Carlos do Carmo fosse ouvir". E sei que ficamos amigos, e ele foi das pessoas mais generosas comigo a vida toda. Ficamos amigos pra vida. Era uma pessoa que eu gostava imenso, tínhamos uma relação de grande amizade e eu aprendi muito com ele. Porque ele tinha essa capacidade de ensinar. Essa generosidade que ele teve comigo a vida toda foi fantástica.
E, portanto, está também neste gênero de homenagem a começar este disco. Mas, Camané, como é que foi gravar também sem poder mostrar o resultado ao José Mário Branco?
Eu acho que toda aquela aprendizagem que eu tive com o José Mário. O José Mário foi das pessoas que se apercebeu e que se rendeu ao fado muito cedo. E que percebeu que o fado era uma música com uma grande expressão, e eu acho que esse lado que eu sempre vivi com o José Mário está neste disco. Tanto nos fados tradicionais, como no transportar estas músicas, que algumas não eram fados, e que eu transportei pro meu registo. Isso é uma coisa que eu aprendi com o José Mário. A guitarra responder à palavra, ir por dentro do texto, contar a história de uma maneira sem exibição, tudo isso está lá.
José Mário Branco era um cantor de intervenção. Também há espaço no fado para essa intervenção através da música?
No meu caso, a intervenção é mais social, é uma intervenção de contar histórias de fado. E o José Mário percebia, era mais do que um cantor de intervenção, muito mais, era um músico extraordinário, que fez músicas fantásticas e que tinha uma capacidade de perceber as músicas fantástica. Uma das coisas que, por exemplo, me aconteceu na vida, quando comecei a ouvir fados, foi perceber que os fados viviam muito do intérprete e guitarra, porque havia fados tradicionais, há pra aí 100 e tal. A mesma música era cantada pelo Carlos do Carmo, pela Amália, pelo Rodrigo, pelo João Braga, o João Ferreira Rosa, a Teresa Tarouca, e depois elas próprias a cantar. A Maria Teresa Lonha, por exemplo, estilizava os fados tradicionais, fazia coisas incríveis. Era como se estivesse a criar novas músicas. E tinha a ver com o texto. E essa coisa o José Mário percebeu perfeitamente, porque os fados, normalmente as quadras, tilhas, quintilhas, decassílabos, quando são colocadas nos fados tradicionais, é preciso encontrar o registo emocional de cada poema e depois fazer uma recriação. Isto tem muito a ver com o intérprete. E ele percebeu sempre isso. E ajudou-me sempre nisso, para que eu fosse o mais honesto e verdadeiro naquilo que estava a fazer. Que ele percebeu, inclusive, é porque ele já tinha tido, antes de mim, com outras pessoas que ele gostava imenso no fado. E depois percebia como é que a música podia ser renovada de uma maneira de dentro pra fora, portanto, mantendo a característica desta música que é o fado. Ele sabia muito bem o que era o fado.
E é engraçado que fala essa questão do tom certo. A forma como às vezes falou, por exemplo, da Amália, falou de Carlos do Carmo. Já se sente confortável completamente no tom que encontrou pra si? Até neste disco, já sem o José Mário Branco, mas como disse, com essas indicações que guarda e que gravou agora, já se sente totalmente confortável no seu registro? Acha que a sua voz já está no ponto que sempre quis estar ou não?
Acho que não.
Acha que não?
Acho que é uma maratona, é pra vida.
Se calhar, nunca se fica satisfeito.
Não sou capaz de ficar satisfeito quando me ouço.
Não gosta de se ouvir?
Não. Aquilo que me dá mais gozo é ir pro palco, porque tenho sempre aquela perspectiva e aquela ideia de que vou melhorar o que fiz no disco. Porque eu ouço muito os erros e os defeitos. Não estou a me ouvir muito contente, não sou capaz. Mas há uma série de coisas que eu acho que consigo dar às pessoas, que têm a ver com a minha verdade e com a minha forma de estar, que isso eu tenho certeza que é honesto. Porque toda esta coisa do fado, quando eu pego nos tradicionais e quando eu os canto, os fados tradicionais, quando eu pego nas músicas e consigo transportá-las pro meu registro musical, que é o fado, isso é aquilo que mais me agrada. Isso tem a ver com a vivência que eu tive desde muito novo, ouvir os fadistas e a cantar, e a experimentar. As casas de fado foram importantíssimas pra eu conseguir desenvolver isso. Como não há escolas, foi um caminho que eu achei que foi bom pra mim. Mas, se calhar, como tenho um defeito de caráter que é o perfecionismo, quero fazer o melhor possível e se calhar ainda não me sinto no melhor.
E como é que se trava essa procura constante pelo erro, Camane, em gravação? Esse perfecionismo extremo.
É isso, é como no palco. É esquecer de mim. Ir por dentro do texto, depois ouvir, e pronto, depois escolher a melhor versão. É assim que se trava.
O fato de sentir que toca as pessoas não ameniza esse sentimento de perfecionismo e essa busca incessante pelo perfecionismo?
Sim, ameniza. Aliás, eu fico muito contente quando chego ao final dos concertos e as pessoas estão a pedir mais, depois de uma hora e meia de concerto. Isso dá-me um gozo, é fantástico, é uma sensação muito boa. É fantástico isso.
E como é que foi viver este tempo também afastado, sem concertos? Agora já retomou mais ou menos a normalidade, não é, Camane? Temos, por exemplo, um concerto aqui no dia 19 de dezembro, no Centro Cultural de Malaposta com o Mário Larginha, mas como é que foi esse regresso também ao palco? Era algo que sentia falta?
Assim, eu pra ser honesto, eu não tive tanto tempo assim sem concertos. Eu tive naqueles momentos de confinamento em que não tive concertos, mas depois eu tive sempre. Aliás, nos últimos tempos tive desde Madrid, sei lá, há muitos concertos que foram adiados. Eu já tenho vindo a incluir alguns temas deste novo disco. Os concertos deste novo disco vão passar pro ano que vem, precisamente por isso, porque de repente foi Madrid, depois foi Funchal, depois foi Istambul. E antes disso, tinha sido o ano passado, Luxemburgo, sei lá, uma série de salas que eu fui fazendo e cá e lá e em todo lado, tenho estado sempre a tocar. Não fiz os 90 concertos ou 80 que poderia fazer num ano, mas fiz quase metade. Portanto, não posso ser desonesto ao ponto de dizer que foi realmente muito mau. Houve pessoas que passaram por momentos muito mais complicados do que eu. Estive em Bragança este fim de semana também e agora vou estar em Águeda, depois mais uns concertos, Malaposta.
Sim, exatamente no dia 19 de dezembro.
E depois pro ano, começam os concertos deste disco. Eu sempre tive o sonho de fazer um espetáculo só com um disco, que vi alguns artistas que o fizeram e que sempre achei que era fantástico fazer um espetáculo só com um disco. E acho que chegou a altura que é possível, porque este disco tem 16 temas, é um disco grande.
É grande.
E dá pra arriscar.
Pra fazer o alinhamento de um concerto completo. Já agora, Camane, há pouco estávamos a falar dessa questão das gravações. As gravações da Amália vão ser candidatas à Memória do Mundo pela UNESCO. E nós falávamos há pouco tempo com o Frederico Santiago, que se dedica a estudar o arquivo da Valentim de Carvalho, enfim, e falávamos da necessidade, se calhar, de ter um plano nacional de escuta. Não sei se concorda com isso. Qual é a sua opinião? Acha que nós, se calhar, não estamos a ouvir música como deveríamos, não damos importância à música como deveríamos, por exemplo, no plano escolar, até?
Sim, eu acho que Eu tive uma sorte enorme, eu vi fadistas fantásticos. Há discos da Amália que são fabulosos. Há um disco, posso dar um exemplo, o "Com Que Voz", que é dos discos mais incríveis da música portuguesa. É fabuloso. Ainda hoje, muitos dos músicos que tocam alguns desses temas, tocam com aquele ambiente musical que eram tocados nessa altura. E no fado existe um passado fantástico de grandes intérpretes, de músicos com uma expressão incrível e depois há esta geração de guitarristas novos, como o caso do José Manuel Neto, por exemplo, que é um guitarrista que toca comigo há 30 anos, que ganhou essa expressão que vem de trás. Mas se formos olhar para trás, para o Fontes Rocha, a forma como ele fez o "Com Que Voz" é uma coisa do outro mundo, porque conseguiu transportar para a guitarra portuguesa aquelas músicas do Ullmann que eram tocadas ao piano. Uma coisa incrível. Eu acho que é fantástico e ainda bem que a Amália vai continuar a ficar e vai ser um exemplo incrível.
Portanto, poderia fazer sentido, a par de um plano nacional de leitura, ter um plano nacional de escuta?
Sim, mas as pessoas têm as suas escolhas. Eu, quando comecei a cantar fado, e o fado demorou muito tempo, porque eu quando comecei a cantar fado, o fado era considerado uma música de má qualidade, eu lembro perfeitamente. Diziam isso. Eu era um bocado gozado até por cantar fado. Eu lembro quando eu fui cantar ao fim de semana para uma casa de fados e quem tocava era o Martinho da Assunção, que é um músico incrível de guitarra clássica, e a guitarra portuguesa era o António Bessa, que tocavam ao fim de semana. Eu lembro-me quando os ouvi tocar, quando eles tocavam para mim, eu tinha 17 anos. E foi quando eu tomei a decisão: "Eu vou cantar fado". Eu pensei na altura: "Eu vou me vingar destas pessoas que disseram mal do fado. Vou me vingar". Lembro-me perfeitamente disso. Os incríveis intérpretes, o Carlos do Carmo, o João Ferreira Rosa, o João Braga, a Maria Teresa de Noronha, a Teresa Tarouca. E a Amália. A Beatriz da Conceição. Eram incríveis pessoas.
Conseguiu vingar isso, Camané?
Tem hoje um estatuto diferente na cena musical. Hoje em dia já não é para vingar. Hoje em dia já não é preciso, mas na altura eu lembro-me perfeitamente que de repente ouvir aqueles músicos a tocar, com uma expressão incrível, com bom gosto, que não havia mais música nenhuma. Eu disse para mim: "Não, isto tem que mudar". Eu lembro-me dessa altura, eu achava que me estava a vingar.
Mas correu bem. Camané, vamos terminar esta nossa entrevista, porque enfim, o tempo passa a correr. Uma das canções deste disco chama-se "Tenho Dois Corações".
Sim.
E vamos terminar com ela esta nossa entrevista, pode ser?
É um poema da Amália. E uma música do José Mário Branco.
Pronto, eu gosto muito e portanto escolhi esta canção para terminar. "Horas Vazias" é o novo disco do Camané, está nas plataformas digitais, está disponível. No próximo ano temos concertos de apresentação deste disco, portanto vamos estar muito atentos e voltaremos a conversar muito em breve. Camané, muito obrigada.
Muito obrigada. Eu tenho dois corações dentro e fora do meu lar. Eu tenho dois corações, já não me podem bastar. Quando a tristeza é tão triste, qual dos dois sofrerá mais? O que é real não existe. Eu tenho dois corações, ambos eles irreais. Eu tenho dois corações, qual dos dois sofrerá mais? Dois corações, o primeiro pertence à rua e ao pecado. O segundo é cativeiro de quem me fez caminheiro, sem nunca ter caminhado. Eu tenho dois corações dentro e fora do meu lar. Eu tenho dois corações, já não me podem bastar. Quando a tristeza é tão triste, qual dos dois sofrerá mais? O que é real não existe.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.