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Hoje na tarde em direto estamos à conversa com a atriz e encenadora Raquel André. Vai estrear o espectáculo "Coleção: Espectadores" no Teatro Nacional Dona Maria II, na sexta-feira. Este é um trabalho que resulta da recolha de testemunhos, de histórias de vários anónimos, não atores, até aos 70 anos. Testemunhos da forma como a arte marca a vida de todos nós. Raquel, bem-vinda, obrigada pela disponibilidade.

Olá, obrigada.

Raquel, este projeto já tem uns anos, começou em 2014, não é assim? E por quê? Qual era a ideia inicial e como é que isto se transformou neste espetáculo?

Isto começou em 2014, quando eu vivia no Brasil, no Rio de Janeiro. Percebi que era uma imigrante. Comecei a questionar-me também sobre o que é casa, o que me faz sentir em casa, quem é o outro para perceber quem sou eu. E nessas sensações todas, um dia pensei e propus-me artisticamente a ir a casa de uma pessoa desconhecida e a pedir-lhe que tirássemos uma fotografia como se eu pertencesse a essa casa, se eu pertencesse a essa intimidade. E realizei esse encontro com um desconhecido e foi aí que começou a Coleção de Amantes, que é a primeira coleção de pessoas. Neste momento já colecionei 279 amantes, portanto 279 pessoas desconhecidas e que me encontrei em apartamentos desconhecidos. Depois estreei em 2015 o espetáculo desta coleção e em 2016 decidi começar a segunda coleção, a coleção de colecionadores, porque comecei a perceber que uma coleção pode ser uma forma de nós contarmos a história da nossa vida a partir dos objetos que guardamos. Então em 2016 fomos para Paredes de Coura, estivemos a trabalhar nas Comédias do Minho, foi onde o espetáculo estreou e que depois vai circulando. E aí colecionei 36 colecionadores, pessoas que têm coleções, e uso o vídeo. Peço a essas pessoas que contem a sua história de vida a partir das suas coleções. Entretanto, pensando que já guardava pessoas e encontros com pessoas com fotografia nos amantes, com o vídeo nos colecionadores, decidi colecionar pessoas ou guardar pessoas através do meu próprio corpo. Então comecei a colecionar artistas e a pedir-lhes que me passassem um fragmento de uma das suas criações. Por exemplo, uma bailarina passou-me uma frase de movimento e eu guardei esse movimento com o meu corpo e foi uma forma de guardar essa bailarina. E em 2019 estreei a coleção de artistas, onde apresentei 18 fragmentos de 18 artistas diferentes de vários lugares do mundo. E quando percebi que queria colecionar artistas, pensei: "Então tenho que colecionar espectadores".

É lógico.

Sim, essa relação entre os artistas e os espectadores. O que é que faz de mim artista e o que é que faz de mim espectadora? E acho que é uma das questões que está presente neste espetáculo também, que vai estrear esta semana. Esta é a quarta e última coleção. Na verdade, eu tenho vindo a colecionar espectadores nos meus espetáculos, desde a estreia da Coleção de Amantes, desde 2015, mas aqui este espetáculo será sobre a memória dos espectadores, mas de várias coisas, não só dos meus espetáculos. São espectadores que trabalham a memória ou que partilham as suas memórias de cinema, da televisão. Como é que a televisão chegou às nossas vidas e mudou completamente a nossa relação como espectadores. De repente temos aquele objeto em casa, à hora marcada, depois a internet, que muda também radicalmente a nossa relação enquanto espectadoras. Espetáculos de dança, de circo, exposições, relações com obras plásticas, quadros, enfim. É uma grande viagem sobre a memória dos espectadores.

Certo, e portanto isto no fundo, Raquel, há aqui uma grande entrega também da sua parte, porque vai conhecendo todas estas pessoas e vai traduzindo estas histórias também naquilo que vai fazendo, que vai apresentando. Portanto, isto é quase um autoconhecimento através dos outros.

Sim, sem dúvida. Acho que colecionar alguém, para mim, é isso mesmo. É ter curiosidade pela história do outro a partir da minha história. Ao partilhar a minha história e ao ouvir a do outro, isso é sempre um processo de empatia e de transformação. Eu tenho crescido enquanto mulher, enquanto artista, através destas coleções. E acho que isso também está muito presente no espetáculo. Como é que o encontro com alguém nos pode transformar. E sim, esta é a minha coleção. É sobre essas transformações através destas pessoas.

Certo, isto inicialmente era para durar 10 anos. Esse projeto ainda se mantém de durar 10 anos ou como disse, esta vai ser a última coleção?

Não, o projeto vai durar 10 anos. Vou estrear agora esta quarta coleção neste sétimo ano, portanto estou há sete anos a colecionar pessoas, mas irei estar a colecionar durante os 10 anos Portanto, até 2024, pelo menos.

Certo. É engraçado, porque quem nos está a ouvir também pode participar. Há um site onde é possível também fazer essa partilha consigo. Explique-me um pouquinho como é que isto funciona.

Sim, desde já toda a gente convidada que nos está a ouvir a participar. É um site bilingue, português e inglês. O nome do site é www.collectionofspectators.com, portanto, Coleção dos Espectadores em inglês. Entrando no site, temos neste momento 23 instruções, das quais 14, qualquer pessoa que tenha acesso à internet pode participar em qualquer momento do seu dia. Nós estreamos este site em novembro do ano passado. Isto é um convite a pensar o que é ser espectador. E para mim é uma forma também de colecionar pessoas que eu não posso encontrar fisicamente agora, e unir esses encontros neste arquivo online. O site também está muito presente neste espetáculo que vai estrear esta semana, mas deixo o convite. Vocês podem participar enviando o resultado das instruções que eu lancei, mas também podem participar apenas visitando as galerias do que outros espectadores em vários lugares do mundo foram enviando. E tem instruções como: canta-me uma canção, manifesta-te, diz-me como é que estás agora, por exemplo, tira uma fotografia ao que estás a ver e grava o som do que estás a ouvir.

Certo, e como é que isto depois se traduz em palco, Raquel? Para quem nos está a ouvir, o que pode encontrar mais ou menos no Dona Maria? O que vai acontecer em palco exatamente?

No espetáculo em palco, Dona Maria, é importante referir que é sobre aquele lugar, ou seja, espectadores do palco da sala Garret, do Teatro Nacional Dona Maria II, e sobre aquela sala. Além de eu estar em cena, estão também 11 espectadores que vão contar e partilhar as suas histórias transformadoras através de eventos artísticos. Farei também uma viagem por aquele edifício, ou seja, nós enquanto espectadores, quando nos sentamos ali, a minha proposta é que as pessoas percebam ou pensem que para que eles possam ser espectadores durante aquela hora, hora e meia, quantas funções naquele teatro, quantos trabalhadores estão ali a trabalhar para que aquilo possa acontecer. E é isso, é uma grande viagem, tem um momento final em que eu proponho que as pessoas colecionem alguém que também esteja naquela sala. Não vou fazer spoiler, fica aqui só a pista. E acho que é um espetáculo sobre a memória, sobre empatia, e vão encontrar muita gente a contar muitas histórias que possivelmente vocês também viveram ou vocês também têm alguma parecida.

Certo, e de certa forma, Raquel, isto também é quase uma homenagem àqueles que neste momento estão a passar mais dificuldades. Nós sabemos que o setor da cultura foi muitíssimo afetado pela pandemia.

Sim.

E portanto, também é uma forma de os trazer para cena, para lhes dar palco também. Essas pessoas que estão muitas vezes atrás de palco, a ter essas funções que não são tão visíveis naturalmente, mas que enfrentam muitas dificuldades.

Sim, e que a maior parte das vezes são os primeiros espectadores.

Sim.

São eles que estão a testemunhar o processo de criação de um artista e dos criadores do espetáculo. E são eles que tornam possível, muitas vezes, as ideias dos artistas. E que são esses trabalhos invisíveis, é um trabalho invisível porque não é às vezes tão nomeado. Mas ele é tão necessário, é tão importante quanto o trabalho do próprio artista. E é muito interessante esta questão, porque eu já tinha esta vontade antes de acontecer a pandemia, eu já tinha esta vontade de trazer à luz, de mostrar estas funções e estas mãos todas que trabalham nesses bastidores. Mas agora, de facto, ganha uma outra dimensão. Pelo momento em que nós estamos a viver e pela falta de reconhecimento e de apoio que estamos a viver. Portanto, sim, ganha ainda mais essa dimensão e que para mim, fico muito contente. E é mesmo um manifesto também, um posicionamento político para que se possa alterar isso ou para que seja também toda a sociedade civil a tornar esta luta uma luta de todos e não só dos profissionais da cultura, mas que toda a gente tenha consciência da importância de todas estas profissões.

Sim, até porque essa reflexão do nosso papel enquanto espectador também nos coloca essa questão. A cultura é importante, se calhar muitos de nós deram conta disso de forma mais evidente durante a pandemia, da importância que têm esses momentos de partilha quando vamos ao teatro, quando vamos ao cinema ver um concerto, o que isso significa exatamente para nós. Raquel, mas como é que se quebra aquele gelo inicial de chegar aos espectadores? Porque há sempre uma certa retração de quem está a ver e depois é chamado a contribuir também. Como é que se quebra esse gelo e que histórias é que foi encontrando que a surpreenderam bastante nesta partilha e que a marcam profundamente?

Eu fiz este processo destes 11 espectadores que estão em cena, foi através de uma oficina. Eu tenho vindo a encontrar-me com eles, eles não vão ser convidados durante o espetáculo.

Isso é que é um trabalho.

Há uma preparação. Sim. As surpresas são enormes e uma das coisas que me entusiasmou mais mesmo é perceber a propriedade com que estes espectadores falam sobre trabalhos artísticos como sendo deles. E isso para mim é potente, no sentido em que a maior parte dos artistas falam dos seus trabalhos, como eu falo do meu trabalho, mas de repente quando ele se torna público e quando ele se realiza na presença de um espectador, ele já não é só meu. E depois os espectadores normalmente são anônimos. Os artistas têm nome, mas os espectadores são anônimos. Nós não sabemos os nomes deles, quem eles são, quais são as suas caras. E eu acho que é muito importante e urgente nós reconsiderarmos esta relação entre o artista e o espectador. Não só porque acho que muitas instituições engessam essa relação, quase arquitetonicamente separam o artista que está ali no altar, que é intocável, e o espectador que não tem acesso. Isso de uma forma mais física, mas depois também no processo de criação. Muitas vezes os artistas não pensam ou não incluem estes espectadores. E eu acho que é superimportante pensarmos nisso hoje. Lógico que a pandemia trouxe tanta coisa que já estava aqui presente na nossa sociedade, mas de repente nós olhámos com outra força, com outra urgência, porque para mim sempre foi muito claro a importância da arte e da cultura na minha vida. Quando é que não foi a arte que me salvou de momentos difíceis ou que me ajudou a comemorar momentos importantes? Acho que isso é tão evidente para mim que eu percebo que a pandemia tenha trazido isso de forma muito clara, mas já era muito claro. Acho que na nossa história, enquanto humanos, não há dúvida sobre isso. Aqui a minha questão é mesmo de aproximarmos aos espectadores e tem sido muito incrível ver essa apropriação. Não foi difícil pô-los a falar, pô-los a contar as histórias na relação com obras artísticas. Não foi difícil de todo. Às vezes foi até difícil de escolher os eventos artísticos, porque não têm tempo para estar a falar sobre tudo. Porque a proposta que eu faço é: façam um mapa cronológico da vossa vida, de histórias importantes da vossa vida através de eventos artísticos. Aquele filme que conta uma viagem, aquela música que conta uma história de amor, uma relação. Enfim, as pessoas pensarem em eventos artísticos para contarem alguma coisa pessoal. Acho que qualquer um de nós terá nem que seja cinco ou seis eventos artísticos que marquem.

Que nos marcaram.

Claro, aquele filme que viste três ou quatro vezes e que sabes de cor e que se calhar nem gostas tanto, mas era o único DVD que estava naquela casa de férias.

Certo.

Ou aquela música que podia ter sido a banda sonora da tua vida, aquele livro que tem uma citação, uma parte que é: esta história é minha, essa sensação de: isto é sobre mim. Então enfim, foi muito fácil chegar a essas histórias e acho isso muito incrível também para percebermos que de fato, essa relação entre o artista e o espectador tem que se aproximar.

Certo. Tem que se estreitar.

Nós enquanto artistas, não existimos sem espectadores, na minha opinião.

Eu acho que é um ótimo exercício e se calhar quem nos está a ouvir agora está precisamente a pensar nisso, em momentos, em músicas, em livros, em filmes que nos foram marcando. Acho que tens toda a razão, todos nós temos, de fato, esses momentos. Raquel, este espetáculo vai estar no Dona Maria até dia 18. Portanto, para quem nos está a ouvir, ainda há bilhetes. E depois vai partir quase que numa viagem, não é? Já há planos para o levar além-fronteiras.

Sim. A ideia é sempre em cada cidade, em cada teatro, nós trabalharmos com espectadores dessa cidade. Portanto, estes espectadores agora serão aqui de Lisboa, será sempre quase uma estreia. Nós a seguir vamos estar na Noruega, em Bergen. Depois vamos estar em Cabo Verde, na cidade da Praia. E a seguir, ainda não temos as datas completamente confirmadas, mas iremos estar no Centro Cultural da Mala Posta em Odivelas e no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães. Estas são pelo menos as cidades confirmadas agora, mas espero que hajam mais.

Portanto, o convite é passar também pelo site collectionofspectators.com para poder participar neste projeto da Raquel André, que se juntou hoje a nós e volto a recordar, esta coleção de espectadores estará no Teatro Nacional Dona Maria II. Este espetáculo vai estrear na sexta-feira. A atriz e encenadora Raquel André foi a nossa convidada. Raquel, muito obrigada.

Obrigada.

Até à próxima. Obrigada.

Muito obrigada pelo convite. Obrigada.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM. Na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.