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Conversa de fim de tarde no Observador. Hoje recebemos Luca Argello. Tem novo trabalho.

"Almirante Negro", o primeiro single do trabalho Samba de Guerrilha, de Luca Argello, cantautor carioca que por cá anda há já 10 anos. É com ele que nos fazemos acompanhar nesta conversa de fim de tarde. Luca, bem-vindo. Olá, boas. Tudo bem por aí?

Bem-vindo.

Obrigado.

Luca, já concentrados neste teu novo projeto, Samba de Guerrilha, que vamos estar nesta conversa. Samba de Guerrilha, que já está disponível pra audição, mas não é só um disco de música, não é só um disco que faz este projeto, certo?

Sim. Pra além das músicas, a gente tem uma história que é contada. Na verdade, o que as músicas fazem são os entrelaçamentos entre cada um dos episódios, dos capítulos dessa história. É uma história que começa há mais de 100 anos, no Brasil, tem suas passagens por Portugal também e é uma história, na verdade, sobre a trajetória do samba no Brasil, que se confunde com a própria história política do Brasil.

Mas há uma ideia generalizada de que samba é apenas carnaval?

Existe um certo estereótipo de que o samba se resume ao carnaval, se resume aos desfiles. Acho que isso é um estereótipo que vai muito pra fora do Brasil. É muito exportado, porque, de fato, o carnaval é uma festa colossal, é uma coisa muito grande, movimenta milhares de pessoas, muito dinheiro, é um evento turístico muito grande. Porém, o samba não se resume, de forma alguma, ao carnaval. Carnaval é um dos momentos em que o samba protagoniza festas na cultura brasileira, mas ele é muito mais do que isso, e a história dele está aí pra provar.

E Luca, olhando aqui pro próprio nome do trabalho, Samba de Guerrilha, também nos remete aqui pra uma certa ideia de combate, que vai pra além do carnaval, lá está. O que o samba combate ou ajuda a combater?

O samba, pela própria história dele, é uma música que pode ser vista como um gênero de afirmação da identidade negra no Brasil, em primeiro lugar, porque é uma música que foi feita com bases musicais rítmicas do samba, que são africanas e são herança dos escravizados africanos e descendentes desses escravizados que passaram no Brasil e em contato com outras culturas, acabaram gerando o que hoje a gente chama de samba. E como a história dessas pessoas, dessa população negra, mestiça, que foi escravizada, depois se tornou mão de obra barata nas grandes cidades, é uma história de resistência. Então o samba acaba, de certa forma, sendo uma espécie de música de resistência também. Eu gosto de chamar o samba de estratégia de sobrevivência dessas comunidades, porque é através do samba que essas comunidades criaram seus laços afetivos e se fortaleceram coletivamente pra poder encarar todas as dificuldades enormes que foram obrigadas a encarar por causa da desigualdade social no Brasil. Sozinhos, eles não teriam conseguido. Juntos, conseguiram resistir um pouco melhor e o samba é um elemento muito importante de coesão dessas comunidades.

E essa questão das desigualdades sociais de que falavas, Luca Argello, é um dos temas principais deste projeto. Explica-nos um pouco, além do conceito, como é que nasceu, afinal de contas, também tudo isto em torno do Samba de Guerrilha. Como é que surgiu esta ideia? Em que momento, em que modelo, em que formato?

É muito engraçado, porque a gente está vivendo um momento hoje de muita crise política, de crise de representatividade. Um pouco por todo o mundo, a gente vê episódios bizarros acontecendo, e uma certa tensão política no ar. Isso no Brasil está muito forte também, especialmente nos últimos cinco anos, tem estado presente na esfera pública, com muita força, discussões, se politizando.

E este Samba de Guerrilha surge como uma reação à situação atual?

Ele surge como uma consequência disso, porque aconteceu em 2016 aqui no Porto, eu já vivendo em Portugal, uma semana de conscientização sobre a situação do Brasil, que estava acontecendo naquela altura, que foi o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Durante aquele processo de impeachment, aconteceu uma mobilização aqui no Porto, e eu fui convidado pra me apresentar. E eu, pra essa apresentação, resolvi criar um concerto justamente contando a história do samba de um ponto de vista político, apontando pra problemas estruturais que o Brasil tem desde a época da escravidão e usando o samba como fio condutor. E essa foi a semente do que veio a se transformar cinco anos depois nesse álbum, no "Samba de Guerrilha". Foi um amadurecimento dessa ideia.

E foi um amadurecimento dessa ideia que trouxe ao projeto mais do que a música, trouxe também poesia, ilustração. Como é que este diálogo se criou? Achas que foi uma coisa orgânica, que se transformou à medida que o tempo foi passando, ou foi uma coisa que tu pensaste e que estruturaste e que pensaste: "Não, agora vamos produzir este álbum assim, vamos pôr a dialogar todas estas formas de expressão pra que possamos dar uma noção maior daquilo que é a história do samba"?

Não, foi uma coisa construída aos poucos. Foi primeiro uma coisa pensada pra palco, em que eu me apresento sozinho, só com voz e guitarra. Depois, isso foi tomando outras formas, eu fui me desviando. Esse projeto Samba de Guerrilha chegou a ser, em um momento, um programa de rádio, chegou a ser também um seminário acadêmico, que eu apresentei na Universidade do Porto, em certa altura. E eu fui começando a agregar linguagens, a produzir um texto um pouco mais fixo pra que pudesse ser gravado. Nos concertos eu posso improvisar, mas num álbum não é possível. Então eu precisei fixar um texto. As ilustrações vieram porque eu fui convidado a publicar uma versão inicial do texto do Samba de Guerrilha numa revista, e a revista tinha um ilustrador residente que fez as primeiras ilustrações que vieram a ser incluídas no projeto também, a integrar a edição física do projeto. Então os elementos foram surgindo aos poucos, conforme o projeto foi amadurecendo.

Lucca, olhando aqui pra questão da ilustração. A história fica melhor contada assim? Há aqui a ideia de que ouvindo o disco, concentrados na ilustração e concentrados na música, acabamos talvez por não aproveitar nem uma coisa nem outra? Rejeitas completamente esta ideia, achas que as duas coisas se complementam ou de certa forma uma coisa nos distrai da outra?

Eu acho que pode acontecer as duas coisas, as coisas podem se complementar e podem distrair também. Às vezes eu próprio me distraio. Mas, ao contrário de um concerto, a vantagem de ter esse projeto finalmente transformado num álbum, é que quando você se distrai com elementos que estão fora do texto, você pode sempre voltar e ouvir de novo ou ler de novo. Está tudo ali muito bem registrado. E eu acho, por um lado, acho boa essa distração, porque é sinal de que o trabalho é rico, tem muitas camadas. Eu gosto muito de criar trabalhos que têm várias camadas de leitura. Você pode tanto ficar pelo superficial e ouvir aquilo como pano de fundo de uma outra atividade, enquanto está cozinhando, lavando louça, mas também se você realmente parar, tirar 40 minutos do dia pra ouvir de cabo a rabo o álbum concentrado, acompanhando os textos com o jornal, vendo as ilustrações, você também vai ter uma experiência igualmente agradável e a profundidade vai estar lá pra quem a procurar.

Lucca Argello, este é um projeto um pouco em contraciclo, tendo em conta aquilo que estamos a viver nesta altura, esta velocidade a que a informação vai sendo transmitida e se vai dispersando. Este é um trabalho e um disco, neste caso, um álbum, para ouvir com tempo, para, como dizias também, chegar ao fim, voltar atrás, ir mais fundo, recordar algumas passagens. É um trabalho para ir ouvindo e para ir descobrindo ao longo dos tempos?

Sem dúvida.

É esse o objetivo, pelo menos?

Esse é um objetivo colateral do álbum. Sim, com certeza. E vem da própria forma como ele nasceu. Foi um álbum que demorou cinco anos pra ser gestado. Foi uma coisa que eu próprio tirei tempo pra fazê-lo com calma e acho que ele ganha quando é apreciado com calma, porque pela própria natureza política dele, eu acho que hoje em dia os discursos políticos estão, por circunstâncias da atualidade, das redes sociais, da velocidade ser muito importante, o discurso político tem ficado muito superficial e as discussões têm sido muito superficiais, muito à base de slogans fáceis e rápidos, onde a reflexão mais profunda não é valorizada. E eu acho que a gente tem perdido muito, como sociedade até, por essa falta de reflexão. Então fazer um trabalho como esse, que tem mais profundidade, que puxa pra esse lado do tempo, da reflexão, do amadurecimento, ele é também uma resistência contra discursos fáceis, superficiais, populistas, rápidos. É um convite a um pensamento e uma postura um pouco mais generosa com relação à música e com relação a questões importantes da nossa história.

Lucca Argello, e veste como um músico de protesto, como alguém que representa uma espécie de movimento, veste como um cantor de intervenção?

Eu acho que não me vejo como um cantor de intervenção a tempo integral. Eu gosto muito de transitar entre registros diferentes e não escondo que tenho as minhas convicções, tenho as minhas opiniões, que estão transparentes no que é o disco. Mas não me considero um militante ao pé da letra, porque não estou organizado coletivamente com partidos ou movimentos sociais.

E este assumir de posições, este posicionamento claro sobre algumas matérias, nunca te trouxe dissabores?

Não, até hoje não, felizmente não.

Já te trouxe mais coisas positivas?

Sim, certamente o saldo é muito mais positivo. Acho que também porque a gente, quando assume as nossas posições, acaba atraindo ou afastando pessoas naturalmente. E felizmente, a força da atração de pessoas que dividem essas crenças comigo, que dividem essas opiniões, dividem uma certa fé em igualdade, solidariedade, humanismo, acabam se aproximando naturalmente de mim. Até hoje não tive muitos dissabores, felizmente. Posso vir a ter um dia, mas olha, paciência, acho que o saldo está positivo na mesma.

E Luca, tu há pouco falavas que exprimes as tuas opiniões, não tens problemas com isso, acabas por atrair as pessoas que se veem nelas. És também um pouco contra a cultura do soundbite, acho que todos somos um pouquinho, mas falavas aqui da questão da militância. A militância achas que pode prejudicar, por exemplo, um artista ou um músico que o seja em demasia, ou que leve demasiado a sério, que não tenha tanta atenção à expressão e muita atenção à mensagem? Achas que tem que haver aqui um equilíbrio?

Eu acho que depende de cada pessoa, depende do objetivo de cada pessoa. Às vezes a pessoa está fazendo o seu trabalho, construindo a sua carreira artística, com um objetivo político que ganha em prioridade dentro da cabeça dessa pessoa, do próprio objetivo da realização artística. A coisa da arte com uma função social, que é mais importante do que o próprio fazer artístico em si. Eu gosto de ter essas duas questões mais equilibradas no meu trabalho. E acho que a arte tende a ganhar em qualidade quando a gente está atrás desse equilíbrio, de não se deixar levar puramente pela função social da arte, não colocar ela acima de tudo, mas ter consciência de que todo fazer artístico é também um fazer político por excelência, e que mesmo que a gente até tente esconder posicionamentos políticos, às vezes a própria omissão deles já é possível, já revela algum posicionamento. Então é fazer o trabalho consciente de que o trabalho tem consequências, vai ser interpretado e está inserido num tempo que é sempre político. Se existir essa consciência, eu acho que já é suficiente.

E Luca, tu há pouquinho falavas que isto começou, o samba de guerrilha, na verdade. Estava a lembrar-me do Samba Invertido, uma canção tua que gosto muito, o samba de guerrilha.

E que passa muito também aqui na Rádio Observador.

Sim. Estava aqui a lembrar-me de que estavas a dizer que começou como um projeto ao vivo. Sei também que deves estar ansioso por apresentar este novo projeto, esta nova gama de coisas que tens para nós ao vivo. Ainda não podemos, para já, como é que estás a pensar fazê-lo? Já tens planos?

Eu ainda não tenho planos. Mas é muito difícil. Primeiro, eu nem consigo começar a pensar nisso, porque a gente não tem perspectiva de poder voltar aos palcos como deve ser, como eu gostaria, sem essas restrições todas.

Há que ser criativo.

Com certeza, mas eu tenho refriado muito esse ímpeto de ir logo para os palcos, porque isso durante o último ano foi muito frustrante, ter concertos marcados que iam sendo sempre adiados. Você marca uma data e tem que adiar o adiamento da data. É um processo muito desgastante, muito frustrante. Então eu estou agora com muita paciência, aguardando pra ver quando a gente vai ter um horizonte um pouco mais certo pra começar a planejar como isso vai ser no palco. Mas agora, nesse momento, eu ainda não tenho ideia, porque eu não gravei o álbum pensando no palco. Eu tentei, durante a produção do álbum, me dar o máximo de liberdade possível e usar todos os sons e instrumentos que eu achava que deveriam estar presentes, sem pensar muito em como traduzir isso no álbum. Agora que o álbum já está lançado é que eu vou começar a descascar esse abacaxi. Porque vai ser difícil fazer tudo como está no álbum. Provavelmente vou ter que adaptar muita coisa, mas vai ser um trabalho que eu quero fazer coletivamente com outros músicos e assim que for possível, vou começar a trabalhar nisso.

E relativamente às ilustrações, pensas de alguma forma incluí-las no teu espetáculo ao vivo? É possível? Eu lembro-me disto porque uma vez vi um concerto da Capicua, que é tua concidadã neste momento, em que ela ao mesmo tempo em que cantava, tinha alguém a fazer ilustrações numa projeção que depois aparecia no palco.

Eu já assisti a um concerto da Capicua, exatamente com esse ilustrador, que ia fazendo em tempo real os desenhos.

Exatamente.

Isso é incrível. Eu acho que no caso do Samba de Guerrilha não seria algo pra ser feito em tempo real. Eu acho que seria interessante, em espaços que possam contar com essa estrutura de projeção e de telas, usar as ilustrações do álbum ou até usar vídeos, talvez, pra compor o elemento audiovisual no espetáculo. Isso está na mesa.

Lucca, descascando aqui outros abacaxis, pra te roubar a expressão, e olhando aqui o teu percurso pessoal, eu tenho aqui uma pequena curiosidade: Lucca, o que é que há 10 anos te trouxe a Portugal? Vieste pra ser músico? O que te trouxe cá?

Eu não vim pra ser músico. Isso foi muito curioso, porque eu sou formado em música, eu fiz licenciatura em música e era professor de música no Brasil. Mas já estava um pouco afastado dos palcos, estava me dedicando só à sala de aula. E vim pra Portugal pra estudar, pra fazer um mestrado. Foi uma surpresa. Quando vim em 2012 pra Portugal, não imaginava que o meu futuro por aqui ia passar por retornar aos palcos como atividade principal e, ainda por cima, fazendo samba. Foi uma dessas brincadeiras do destino.

Acabas por te tornar, de certa forma, o embaixador do samba em Portugal. Aceitas esta condecoração?

Eu acho que é uma honra. Não sei se é merecido ou não, porque tem muita gente boa fazendo samba em Portugal. Jamais me autodeclararia embaixador do samba, mas quem é dessa opinião, me deixa muito honrado.

Lucca Riegel, vamos ficar por aqui. Tenho imensa pena, é uma conversa que poderíamos ter por longas horas. Apresentamos aqui o teu novo trabalho, "Samba de Guerrilha". É com um tema desse mesmo álbum que nos despedimos, com que também iniciamos esta entrevista, "Almirante Negro". Lucca, muito obrigado por te teres juntado a nós. Até a próxima.

Eu que agradeço. Um abraço.

Obrigado, Lucca. Um abraço.

O dragão do mar reapareceu. Na figura de um bravo marinheiro. A quem a história não esqueceu. Conhecido como Almirante Negro. Tinha a dignidade de um mestre-sala. E ao acenar pelo mar do seu corpo de fragatas. Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas. Jovens polacas e por batalhões de mulatas. Rubras cascatas jorravam das costas dos negros pelas pontas das chibatas. Inundando o coração do pessoal do porão. Que a exemplo do marinheiro gritava então. Glória aos piratas, às mulatas, às sereias. Glória à farofa, à cachaça, às baleias. Glória a todas as lutas inglórias. Que através da nossa história não esquecemos jamais. Salve o Almirante Negro. Que tem por monumento as pedras pisadas no cais. Salve, salve o Almirante Negro. Que tem por monumento as pedras pisadas no cais.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!