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Hoje o que sou cabe na palma. Que nem a alma quer morar. O peito rasga, bate prato. Um desalento que não dá. Eu vim pra ver se o mundo é grande. E me enganei. Maior é o eu a ser pra explorar. Preso num corpo tão pequeno. É de espantar. O caminho se faz ao caminhar. Hoje o que sou me traz a calma. É tanta água pra esse mar. Em cada canto que se aclara. É labirinto a decifrar. Eu vim pra ver se o mundo é grande. E me enganei. Maior é o eu a ser pra explorar. Preso num corpo tão pequeno. É de espantar. O caminho se faz ao caminhar.

A música chama-se "Caminho", é da Tainá, nossa convidada de hoje está conosco e na semana passada venceu o Prêmio Play, os prêmios da música portuguesa na categoria lusofonia. Tainá, bem-vinda, muitos parabéns. Olá, estás aí?

Olá.

Muitos parabéns, Tainá, por esse prêmio e não só, por este trabalho também que lançaste no ano passado, que se chama "Sonhos". Tainá, vamos falar precisamente de "Caminho". É por aí que eu gostava que começasses, por nos contar um bocadinho da tua história. Tu estudaste música ainda no Brasil. Aos 21 anos estavas a gravar este teu primeiro disco em Portugal. Como é que vieste cá parar?

É uma história muito longa. O meu padrasto é português, mas ele mora no Brasil desde os 18 anos e ele se aposentou lá e resolveu voltar pra terra dele, que é Macedo de Cavaleiros.

E tu vieste também, foi isso?

Sim, eu resolvi vir, mas fiquei em Lisboa, fiz um curso de desenvolvimento artístico e foi lá quando eu conheci o meu produtor, Mickel Solnado, que me convidou pra ser compositora no estúdio dele, na Great Pain. E também foi a primeira pessoa que acreditou no meu projeto aqui e começou a me gravar também as minhas músicas e me lançar como artista.

E tu sempre soubeste que era este o teu destino, no fundo? Qual foi o teu ponto de viragem, quando percebeste que era música que querias fazer?

Desde muito pequena eu sempre gostei muito, muito de cantar. Aos 11 anos, eu vi uma senhora tocando num programa de TV e pensei: "Uau, que bonito que é uma mulher tocando guitarra". Então pedi à minha mãe uma guitarra, ela não me deu, mas a vida me ofereceu, por acaso. Aprendi sozinha em casa, aos 11 anos, então comecei a compor coisas também, mas nunca mostrava a ninguém. E aos 16 anos eu mudei pra São Paulo e entrei no instituto de música e comecei a trabalhar lá e gastava todo o meu dinheiro em cursos. Eu fazia aula de piano, aula de canto e aula de guitarra. E foi quando eu fui conhecendo lá músicos e professores e comecei a ver que era possível viver da música. Então, aos 16 comecei a namorar também com um pianista e comecei a cantar covers. Cantava bossa nova em casamentos, em eventos. Então foi aí que começou. Depois, logo quando eu saí da escola, já fazia 18 anos, fui pra faculdade de música e ganhei uma bolsa também, estudei. A minha família sempre fala: "Ela estudou a rivalia da família".

Eles não queriam que tu seguisses música?

Não, porque eu tenho uma família muito grande e nunca ninguém foi da área da arte e da música, então era um assunto muito desconhecido pra eles.

Portanto, tinham medo que seguisses uma carreira que não fosse relacionada com uma profissão mais convencional.

Sim. E claro que tem aquela preocupação dos pais. Mas eles perceberam que era mesmo o que eu queria, porque mesmo eles não aceitando e não apoiando de princípio, eu fui, estudei, ganhei a bolsa Quando eu voltei para cá, quando eu conheci Lisboa, eles acharam que eu ia parar, porque inicialmente, como eu não conhecia ninguém da música, trabalhava em cafés e restaurantes. E só depois que eu fiz esse curso de desenvolvimento artístico que as portas foram abrindo e fui conhecendo pessoas da música e hoje vivo só de música.

E como é que foste parar ao palco com os Kings of Convenience? Eu li isto. Como é que isto aconteceu, Tainá?

Sim, eu estava na Rua da Bica com uns amigos comendo coxinha brasileira.

Tão bom.

E estavam lá os músicos do Erlend Øye, que são três músicos incríveis que amam bossa nova, e estavam tocando música brasileira e a princípio eu achei que eram músicos brasileiros. Eu me juntei a eles e toquei a música Corcovado, do Tom Jobim. E logo em seguida eles me convidaram pra ir no show deles. Eu não conhecia a banda, também não conhecia eles, e aceitei. No dia seguinte fui com uma amiga e no final eu disse: "Olhe, vamos ficar pra agradecer, porque o show foi incrível". E eles já tinham falado pro Erlend Øye que tinha tocado comigo na rua. Então ele veio no final, não disse nada e só me deu a guitarra. Eu toquei e cantei uma música minha, Deserto.

Que vamos ouvir já agora, que eu admito que é uma das minhas favoritas e já tenho aqui pra passar. É com ela que vamos terminar, fica já prometido. É muito engraçado, tu há pouco falavas da tua mãe, da questão de lhe teres pedido uma guitarra e ela nunca te ter dado, da certa resistência que tiveram em relação àquilo que tu escolheste fazer. Tu publicaste até, acho que foi antes da pandemia, uma fotografia com a tua mãe, onde contavas que foi se calhar o primeiro concerto que ela viu na primeira fila e o ar vidrado dela olhar pra ti e perceber como é que tinhas coragem. Se calhar era esse o receio, não é? Da exposição também.

É verdade. E a seguir a isso, ele disse que não entendia o que a música dizia, mas sabia que era algo muito profundo e que queria que eu fizesse parte do próximo show deles, que seria em Guimarães. E eu fui. E foi também um momento em que abriram muitas portas na minha vida. Eu conheci a minha agência através disso, que a minha vida musical deu um up.

Através desses concertos. A pandemia, tu gravaste um disco, já aqui dissemos, no ano passado. Tinhas uma agenda recheada de concertos pra este ano, não era, Tainá? E esta pandemia veio aqui estragar, de facto, teus planos.

Sim, foram muitos planos estragados, mas assim como eu já disse pra algumas pessoas, eu acredito que tiramos muitas coisas boas daí, porque nenhum artista faz só um tipo de arte. E eu, por exemplo, queria explorar mais coisas e nunca tinha tempo. E foi um momento em que a gente tinha que fazer algo, senão o nosso lado criativo ia morrer um pouco. Então eu fui aprender a pintar, bordar. Comecei a vender doces brasileiros também, que eu amo cozinhar. Então tive que me reinventar um pouco e eu achei também esse momento importante.

E acabaste por criar um festival, desculpa, João. Um festival também, não é? Um festival online, o Compor em Casa.

Sim. Eu criei esse festival porque eu reparei que quando eu comecei, eu tenho grande fluência pra compor músicas. Muito forte, algo que estava me bloqueando. Claro, não estava na natureza, estava só em casa, então não tinha muita inspiração e falei com uns amigos e acontecia o mesmo com eles. Então tive essa ideia do festival pra que me trouxesse inspiração e ajudasse outras pessoas também que estão começando a compor. E foi incrível porque vários artistas que eu convidei logo aceitaram, artistas que eu admiro do Brasil e daqui. Então ajudou muito. Depois recebi mensagens de pessoas falando que começaram a compor através desse festival. Então foi um momento que me ajudou a desbloquear.

Sendo que tu tens também uma música que se chama Peito Dividido e que vai estar no teu próximo trabalho. Portanto, eu não sei se esta música surgiu também durante este período ou não, que fala desta questão das saudades do Brasil que tens também.

Essa música surgiu um pouco antes da quarentena, mas na quarentena eu toquei algumas vezes. E ela fala sobre esse meu peito que está sempre dividido. Eu amo Portugal, mas também os que estão lá. Então eu nunca consigo escolher entre um e outro. Estou sempre com esse peito dividido.

Sempre com alguma ansiedade também. Como é que tu olhas pra situação no Brasil nesta altura, também com a pandemia, mas não só, pra situação política atual do Brasil, à distância?

Sim, eu acho que desde o começo eu já previa que isso ia acontecer. Ele não me enganava. E eu tenho muita pena, porque o Brasil é um país que tem tudo, é tudo muito bom, é muita riqueza, muita fartura e as pessoas são incríveis. E estar com alguém no poder assim, que tenha tanto preconceito e age dessa maneira, não é algo que o país merece, realmente. Mas eu acredito que assim como a justiça já foi feita algumas vezes com outros presidentes, vai ser também e eu espero que não seja tarde.

E já agora, faz-te aflição a forma como tem sido gerida também a questão da pandemia, da Covid-19 no Brasil? Tens acompanhado também esses momentos vividos pelo povo brasileiro?

Sim, eu tenho acompanhado. Eu tenho uma irmã lá que também é enfermeira e não para de trabalhar.

E o que a tua irmã enfermeira te tem contado?

Ela trabalha num hospital privado, então a situação não está tão ruim quanto os hospitais públicos. No Brasil, diferente de Portugal, a saúde é muito precária, a saúde não é para todos. Aqui eu acredito que é para todos. Você consegue com pouco dinheiro pagar um plano para ter acesso ao hospital privado. E no Brasil não é assim. Eu acredito que está afetando não só as pessoas mais carentes, as favelas e tudo, mas a minha família tem se guardado muito, tem se cuidado, mas a situação está muito precária. Eu tento não assistir muito jornal, porque eu fico realmente triste e choro, mas nos causa muita ansiedade. Porque não sabemos como vai ser o futuro. Mas é pensarmos positivo e esperarmos.

E Tainá, os planos são para ficar por cá. Está a correr tão bem, não é? Ou não?

Sim. Eu amo Portugal e quero ficar aqui um tempo e criar raízes aqui.

E, portanto, continuar a escrever músicas novas, a compor e lançar um novo trabalho em breve?

Sim, já estou preparando tudo.

Ainda bem. Tainá, fica o convite, quando tudo isto passar. Tu já estiveste nos estúdios da Rádio Observador, já foste convidada nas manhãs 360, mas convidamos-te novamente, quando tudo isto passar, a juntares-te aqui à nossa equipa, que isto ao vivo e a cores tem outra graça. Mas como eu prometi, vamos ouvir o "Desertos" para terminar esta conversa com a Tainá, a nossa convidada de hoje. O que é que nos podes contar sobre esta música?

Essa música eu fiz num período em que eu precisava aprender a estar só. Estava longe da família, dos meus amigos, e eu percebi que eu não sabia estar só. Então fiz depois, mas em que eu estava aprendendo ainda. E acredito também que foi uma música que tocou muitas pessoas agora na quarentena. As pessoas precisavam passar por esse processo também. E eu também, mais uma vez. É uma música que não fala sobre estar só, mas que traz esperança para quem quer aprender a estar só.

Vamos ouvi-la. A cantora e compositora Tainá foi a nossa convidada de hoje. Tainá, obrigada. Até à próxima.

Muito obrigada.

O meu espaço invade a sala de estar. Me encontro só e só sou eu para amar. É no silêncio que encontro a canção. Que vem das veias e o pulsar do meu pulmão. Explorador de mim, ainda aprendiz dos meus desertos. De dia sou o sol, à noite escuro, é só tão incerto. A solidão é a arte de aprender. A dançar no compasso que o corpo dá. É tão estranho observar e me sentir. Eu, forasteiro, mas agora estou aqui. Explorador de mim, ainda aprendiz dos meus desertos. De dia sou o sol, à noite escuro, é só tão incerto. Lindo é o sorriso maior que a cicatriz se acompanhar. Lindo é o sorriso maior que a cicatriz se acompanhar. E se basta. Há tanto tempo que não paro aqui. Há tanto tempo sou visitante de mim, mas agora resolvi ficar. Preciso aprender a ser só, preciso aprender a me encarar, a me consertar e me aceitar. Saber morar em meu lar e a minha alma inteira desnudar. E me explorar. Explorador de mim, ainda aprendiz dos meus desertos. De dia sou o sol, à noite escuro, é só tão incerto.

A música chama-se "Desertos", é da Tainá, foi a nossa convidada de hoje. Se quiser voltar a ouvir esta conversa vai ficar disponível daqui a instantes nas plataformas habituais de subscrição de podcasts e também no site. Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a rádio Observador. Estamos on-line, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada!