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De gelo, e ele tem uma roupa quentinha para não ficar congelado.

E é o Pai Natal que traz as prendas.

Sim, no seu trenó.

Qual era o presente perfeito para ti neste Natal?

Que o Pai Natal resolvesse o coronavírus. É poder estar com a minha família e comer filhós e muitos borrachões.

Uma consola para o meu quarto. Não era uma coisa só para mim, era para toda a humanidade. Era que o coronavírus acabasse.

E o que é que não queres receber neste Natal?

É que o Covid estragar a festa.

Não queria receber roupas neste Natal.

E o que é o Natal para ti?

É uma data de presentes.

É feliz. É estar com a família, estarmos todos juntos.

Tenha todos boas festas. Aconteça o que acontecer. Tan tan tan tan.

Boas festas na companhia da Rádio Observador. Vem aí a conversa de fim de tarde de hoje. Quinze músicos emprestaram o seu talento para a gravação do hino da organização não governamental Aid Global. Joana Amendoeira, Paulo de Carvalho, Rodrigo Costa Feliz, entre outros portugueses e os moçambicanos Selma Uamusse e Stuart Sucuma, são alguns dos músicos que participaram na gravação de "Para Quem Depois Vier", que já estamos a escutar em fundo. É nossa convidada, Susana Damasceno, fundadora e presidente da Aid Global. Susana, bem-vinda à conversa de fim de tarde da Rádio Observador.

Olá, boa tarde.

Susana, antes de tudo, parabéns, porque a Aid Global celebra 15 anos de atividade. Já lhe vou pedir um balanço da última década e meia. Para já gostava que me falasse desta música, que está no YouTube, cujas visualizações revertem a favor da organização que preside. É isso?

É isso mesmo. O hino da Aid Global, "Para Quem Depois Vier", escrito e composto pelo grande e talentoso Sebastião Antunes, é um projeto muito bonito que reuniu, de facto, este conjunto de vozes solidárias, muitas delas que acompanham já há muitos anos o trabalho da Aid Global, porque grande parte destas vozes são fadistas e habitualmente a Aid Global leva ao Cinema São Jorge um espetáculo de angariação de fundos que se chama O Fado Acontece. E foi muito bonito ver vozes de artistas tão diferentes, de vários cantos do mundo, reunirem-se para uma só voz cantarem este tema, que é um tema que simboliza tão bem o trabalho da Aid Global, cuja missão é agir, incluir e desenvolver através da educação. E o Sebastião Antunes teve a capacidade, o talento e a sensibilidade, em versos tão bonitos, conseguir descrever o que é o trabalho da Aid Global e a alegria com que nós o fazemos. E por isso estes 15 anos de Aid Global não poderiam ter sido mais bem celebrados com o lançamento de um hino, que não é só um hino que retrata a história da Aid Global, a missão da Aid Global, é também um hino que tem a doação dos direitos de autor por parte do Sebastião Antunes, e por isso cada visualização, cada partilha conta.

E portanto, onde é que se pode encontrar também este hino, para que todos possam ver, partilhar, para que todos possam, no fundo, ser solidários?

É muito fácil. É ir ao canal oficial de YouTube do Sebastião Antunes, é ir a todas e quaisquer plataformas streaming, porque este hino está em todo o mundo. Só basta procurar, clicar, ouvir, cantar e dançar.

Então vamos escutar um pouco deste hino da Aid Global. "Para Quem Depois Vier", o hino da Aid Global, que acaba de ser lançado. Susana Damasceno, que balanço faz de 15 anos de atividade da ONG que preside?

São todos eles muito positivos. São 15 anos de muito empenho, muito trabalho, mas também muitos resultados. E esses resultados são visíveis quando olhamos, por exemplo, pra Moçambique, país onde temos vindo a promover a literacia e país onde já criamos uma rede com 27 bibliotecas. Estamos agora a alargar pra 30 bibliotecas escolares. Já equipamos também e apoiamos o equipamento de bibliotecas municipais. Temos feito várias atividades de animação da leitura em escolas, trazendo o livro pra dentro da sala de aula e criando este acesso ao livro, que é um objeto tão raro em países como, por exemplo, Moçambique.

Susana, já vamos ter a oportunidade de detalhar melhor o vosso trabalho em Moçambique, até porque há dois assuntos sobre este país que importa tratar nesta altura. Um que está relacionado com a violência em Cabo Delgado, na região norte de Moçambique, e outro que tem a ver com a chegada das vacinas aos países africanos. Gostava de a ouvir sobre este assunto. Mas em Portugal, a Aid Global atua onde e como?

Em Portugal, a Aid Global atua desde norte a sul do país e na região autónoma da Madeira, onde temos na Ilha de Porto Santo uma delegação desde 2018. Por isso, a Aid Global tem vindo a trabalhar com escolas, com professores, com alunos, não só capacitando os professores pra trazer o mundo pra dentro da sala de aula e articular com os temas dos diferentes currículos das disciplinas, estas questões da promoção da cidadania, convidar a um pensamento crítico, convidar a um posicionamento por parte dos nossos alunos pra que sejam cidadãos mais atentos e também mais participativos. Vamos lançar agora, a partir de janeiro, uma campanha de promoção do voto presidencial. Por isso, em as presidenciais, queremos que os jovens, de facto, saiam do sofá e que vão votar. É esse o apelo da nossa campanha, que se chama "Bora lá, sai do sofá", porque um voto presidencial é um voto global. E isto é importante, despertar nos jovens esta consciência de que cada voto vale e vale muito para um país que se chama Portugal, mas que é um país que está no mundo, num mundo global e interdependente.

Na verdade, é a forma mais básica de exercer a nossa cidadania básica, porque o gesto muitas vezes é fácil.

Muitas vezes esquecida.

Exato, porque o gesto é fácil, mas com implicações enormes.

Com implicações de posicionamento, de informação, de perceber onde é que eu me quero posicionar perante as políticas que me são apresentadas. Por isso, este é muito o trabalho da Aid Global. Temos também trabalhado ao nível da promoção do tema das migrações, não só através da criação de recursos pedagógicos, mas também a capacitação de técnicos municipais para acolher melhor os imigrantes. Temos feito muito trabalho também nesta área da criação de recursos pedagógicos para que os professores tenham rapidamente acessível recursos que os permitam apoiar neste capacitar da escola como balão de ensaio do mundo e que eles sejam, de facto, agentes de mudança através da educação que fazem junto dos seus alunos.

Já agora, sobre esse capítulo, já se adaptaram às novas circunstâncias de o ensino estar mais virado agora para o ensino à distância com recurso à tecnologia?

Posso lhe dizer, João, que nós tivemos agora, semana passada, a nossa escola de inverno, que reúne os jovens do Conselho Municipal de Vila Franca de Xira. Nós estamos a fazer um projeto europeu que se chama Walk the Global Walk. O ano passado tivemos que fazer a nossa caminhada, a nossa segunda caminhada global, tudo através da plataforma Zoom, do Instagram, do Facebook. Por isso, já nos adaptamos e agora tivemos uma escola de inverno em que reunimos alunos da Romênia e alunos portugueses. E tudo isto acontece através destas plataformas digitais, que têm vantagens e desvantagens, que nunca, em momento algum, irão substituir o calor humano, o abraço, o sorriso. Mas, de facto, é o mundo em que estamos e é por isso que a escola precisa de ser tão inovadora. E nós estamos a fazer esta inovação com as escolas que participam neste projeto e tem que ser inovadora, porque os tempos mudaram de uma forma acelerada.

E já agora, a questão das escolas e da educação numa altura de pandemia e em que há estas restrições, mas numa altura em que também estávamos aqui a avançar a passos largos também para esse processo de maior digitalização. Esse processo de digitalização pode ficar de alguma forma, podem ser criados maiores obstáculos a que se cumpra aquilo que era pretendido, tendo em conta a situação que estamos hoje a viver, ou não vai identificando nos vários projetos que vão tendo essa dificuldade?

Nós tivemos que reajustar todos os nossos projetos, que nós trabalhamos essencialmente em escolas, com professores e com alunos, dentro da sala de aula, através da educação não formal, através de metodologias participativas em que o aluno é o centro.

Presenciais, na maior parte delas.

E todas elas presenciais. Por isso, foi um desafio enorme que nós Aceitamos porque gostamos de desafios, não fôssemos nós a Aid Global, mas de fato, obrigou-nos a repensar, a encontrar parceiros tecnológicos que tenham capacidade de resposta para, por exemplo, reunir 30 jovens que acontece em Portugal e na Roménia. Vamos encontrando, porque há gente que pensa a tecnologia de uma outra maneira. Que o trabalho deles, que o estudo deles é, de fato, encontrar respostas tecnológicas para aspectos como este, da educação, mas também para aspectos do desenvolvimento. Neste momento é fundamental.

E encontrar soluções para problemas complexos.

Tem que ser, a tecnologia é criada pelo homem e tem que servir o homem, acima de tudo. Por isso nós temos tido essa capacidade. Agora, perguntam-me: é difícil? É, mas é possível.

Muito bem. E em Moçambique, que projetos a Aid Global tem a funcionar neste país africano?

Neste momento temos um projeto que nos encanta, que nos enche o coração e que está parcialmente parado, que é a criação de escolinhas rurais debaixo de um cajueiro. São escolinhas que respondem à demanda do governo moçambicano para a promoção de uma educação para a primeira infância. É um projeto que se chama Educadores em Movimento. E estes Educadores em Movimento, para além de terem recursos pedagógicos, todos eles construídos localmente, por exemplo, livros feitos de capulana. Capulana, para quem não sabe, é o tecido, é um pano moçambicano que nós a partir dele criamos livros. Estamos também a adaptar uma bibliotxova. Para quem não sabe, um txova é um carrinho de mão que nós adaptamos e criamos uma biblioteca. Neste momento está a ser também adaptado para andar nestas comunidades e levar as atividades para a primeira infância, de comunidade em comunidade. Chegou em março, um contentor com 33 mil livros e muito material escolar, que está ainda parado à espera da reabertura das escolas, que vai acontecer agora em janeiro do próximo ano, para que possamos então alargar a rede de bibliotecas e distribuir material escolar.

Susana, estamos no ano de 2020, estamos já em pleno século XXI. A ajuda ao desenvolvimento ainda é feita como há 30, 40, 50 anos, ou seja, o nível de carência ainda é o de 1960, 1970, 1980?

Essa é uma pergunta muito atrevida, porque o mundo avança em vários campos, mas há outros que parece que a mudança não chega lá.

E não avança ao mesmo ritmo nos diferentes países.

Não, dentro do próprio país, não avança ao mesmo ritmo, mas não é preciso ir para um dos países mais pobres do mundo, que é Moçambique. Basta olhar para a insularidade do nosso arquipélago da Madeira e do nosso arquipélago dos Açores.

Durante anos falava-se, por exemplo, da questão do desenvolvimento, em particular no arquipélago dos Açores, que se dizia que estava muito atrasado em relação ao continente, por exemplo.

A insularidade, a questão da mobilidade, é gritante. Por isso, quando nós olhamos para fora, devemos também olhar para dentro, porque as desigualdades não são só entre países, são também dentro das nossas próprias fronteiras. E este é que é o grande desafio que a Aid Global chamou até si, que é capacitar os jovens, que vão ser os grandes decisores do amanhã, para desde muito cedo começarem a olhar para a realidade que os rodeia. E esta realidade transcende as redes sociais, transcende o telemóvel. Nós temos que conhecer o mundo, factualmente, o nosso local e o nosso global. Por isso é que é tão importante este trabalho de dar a volta ao mundo, começando no nosso quintal e acabando novamente no nosso quintal, porque o que vale a pena é viajarmos e conhecermos tudo o resto, para que depois, aqui localmente, possamos também ser agentes de mudança.

Susana, o tempo voa e já estamos quase no final do nosso tempo. Ainda assim gostava de a ouvir sobre dois temas que estão na ordem do dia. A Aid Global tem projetos a funcionar em Moçambique. Tem recebido notícias da região de Cabo Delgado, onde nesta altura a violência por motivos religiosos está bem acesa na região?

Eu não sei se a situação de Cabo Delgado é estritamente relacionada com assuntos religiosos. Quem está mais a par do que se passa verdadeiramente em Moçambique, sabe que não é só uma questão religiosa. De fato, estamos a falar de uma das zonas mais ricas de Moçambique e por isso há interesses ocultos naquela zona.

As explorações também ligadas aos recursos naturais.

Muito. Efetivamente, está mais do que provado que estes países em desenvolvimento, quando têm recursos naturais que são apetecíveis, acaba sempre acontecendo alguma coisa que os manda para este tipo de circunstâncias que são tristes.

Uma espécie de forças centrífugas que colocam estes países também no olho do furacão.

Infelizmente, a história repete-se muitas vezes. Agora, Cabo Delgado está muito longe da província de Gaza, que é a província onde a Aid Global atua. Nós estamos no sul e Cabo Delgado é no norte.

Na fronteira com a Tanzânia.

Na fronteira com a Tanzânia e de fato estamos muito longe, mas o que se passa é que Moçambique tem, de facto, um problema gravíssimo, não só a pobreza extrema. Agora o Covid está a agravar a situação da segurança alimentar. Há pessoas que estão, de facto, gritantemente com fome em Moçambique.

Porque os alimentos não chegam, é isso?

Porque não chegam, porque as pessoas não têm dinheiro para os comprar, porque a mobilidade em termos de distribuição de mantimentos também está muito limitada, porque houve imposições da parte do governo, como fechar os mercados, o que dificulta o acesso a bens de consumo e por isso há várias razões que colocaram Moçambique nesta situação. O norte de Moçambique é uma situação muito sensível, que está por resolver e que vai levar algum tempo a resolver, se é que vamos conseguir resolver, porque há tantos focos de guerra e de situações de guerrilha, de guerra de guerrilha e de fundamentalismos por este mundo fora, não é só no norte de Moçambique. Claro que Moçambique está mais próximo do nosso coração.

Susana Damasceno, deixe-me só perguntar-lhe se a situação que está a acontecer no norte de Moçambique, agora e depois também de muito tempo, quase três anos, começa a ser falada também a nível internacional.

Finalmente.

Finalmente, mas dentro do próprio país, há a noção por parte da população que não vive, por exemplo, no norte, daquilo que está a acontecer em Cabo Delgado?

Primeiro estamos a falar de uma população que nem sequer-

No fundo, se aquilo que não é nos meios mais urbanos, se a informação circula dentro do próprio território.

A circulação da informação em Moçambique é condicionada por vários factores. Alguns intencionais, outros circunstanciais e outros decorrentes da pobreza. Quer dizer, estamos a falar, por exemplo, no distrito de Chibuto, que é o maior distrito da província de Gaza, pergunte-me onde é que há eletricidade.

Se não há acesso à alimentação, à luz elétrica, às condições básicas, também não há acesso à informação.

Não há eletricidade, não há televisão. Os rádios são a pilhas, quer dizer, estamos perante uma população que não pode estar informada porque não tem recursos, como nós temos, de acesso rápido à informação. Por isso é muito mais difícil ter uma perspectiva de um país tão grande como aquele, do que é que se está a passar em todo lado.

Acresce que o continente africano tem nos próximos meses e nos próximos anos um desafio extra, chamado vacinação contra a Covid-19. Susana, como é que tem acompanhado as notícias que dizem, ou pelo menos que referem, que as vacinas vão chegar ao continente africano lá pra 2023, 2024?

A vacina contra a malária nunca chegou a lado nenhum. E a malária mata muito mais pessoas por dia do que alguma vez o Covid irá matar. Por isso, eu ficaria muito mais feliz se encontrassem uma vacina que nos protegesse daquele bichinho que pica, que é quase invisível, mas que mata tanta criança em Moçambique e que mata tanta gente e boa gente em Moçambique. Em Moçambique e não só. Há tanta coisa a acontecer em torno desta pandemia.

É importante que houvesse uma vacina cedo contra a Covid-19, mas neste momento não é prioritário.

Eu não disse isso. O que eu disse é que há anos que é prioritário haver uma vacina contra a malária.

E também não chegou.

E nunca chegou.

Portanto, as esperanças de que esta chegue em tempo útil também são reduzidas.

Estamos a falar de 57 países, o continente africano. Muitas das vezes as pessoas têm esta ideia, África. África são 57 países, todos eles muito diferentes.

E todos eles de grandes dimensões, muitos deles são territórios muito vastos.

Muitos deles muito pequeninos, muitos deles muito grandes, com desafios muito próprios, que eu espero que internamente estes 57 países encontrem respostas para os seus próprios problemas, porque os desafios têm que vir internamente. Os nossos desafios somos nós que os temos que vencer.

E já agora, Portugal tendo uma relação histórica muito antiga com Moçambique, deve ter uma palavra a dizer, deve ajudar, por exemplo, na distribuição de vacinas contra a Covid-19? Com Moçambique e também com os outros países africanos de língua oficial portuguesa.

Eu acho que sim, mas primeiro Portugal, ele próprio, tem que pensar como é que vai distribuir as suas vacinas. Quer dizer, cada país é responsável por si. Esta questão dos laços que nos unem traz responsabilidade, naturalmente.

Eu fazia a pergunta sem qualquer paternalismo.

Eu compreendo, mas geralmente nós temos esta ideia de que queremos ajudar os outros, mas primeiro vamos olhar pra nós, ver como é que nós próprios vamos lidar com esta logística toda e depois da casa arrumada, vamos também partilhar com os outros caminhos que percorremos e que foram bem-sucedidos. Eu acho que isto é que é importante.

Muito bem. Agradeço-lhe, Susana Damasceno, ter vindo à tarde em direto desta quarta-feira. Susana Damasceno, fundadora e presidente da ONG Aid Global, que celebra 15 anos de atividade. Já agora, feliz Natal.

Boas festas pra todos.

Obrigado.

E obrigada. Foi um gosto.

Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.