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Sejam bem-vindos. A viajante desta semana fez uma pausa na vida e lançou-se numa aventura: viajar para a América do Sul num ano sabático que a levou a outras paragens. A nossa viajante fez voluntariado, viu coisas maravilhosas, viveu experiências que a marcaram para o resto da vida. Parte dessas experiências foram agora passadas para livro, numa edição de autor, a que a nossa viajante deu o título de "Ahorita". Ana Rita Cunha, bem-vinda às Conversas do Fim do Mundo.
Obrigada, João. Boa tarde.
"Ahorita" é o título do teu livro, mas é também o título do teu site, onde tu foste despejando, digamos assim, debitando os textos que tu ias escrevendo. É uma expressão muito venezuelana, não é?
Sim, da América do Sul, Venezuela e Colômbia. Não tem propriamente um significado definido. Temos o ahora, que é agora, e depois eles usam muito: "Ahorita." Mas nunca se sabe se vai ser naquele momento, se vai ser daí a um mês, se nunca vai acontecer. Era uma expressão que eu comecei a usar porque achei muita piada quando percebi que eles usavam para quase tudo.
Muito bem. E faz um belo trocadilho com o teu nome, Ana Rita.
Sim. Sim.
Piada óbvia. Desculpa. Conta-me lá, tu és médica, não é?
Sim.
E depois da especialidade, pensaste: "Isto de andar a curar pessoas pode esperar mais um bocadinho, eu vou mas é viajar." Foi?
Sim.
Não foi assim com esta leviandade, não é?
Não foi assim tão fácil, não. O curso de Medicina é bastante longo e mais a especialidade. Foram uns 11 anos a estudar. E depois, em vez de escolher logo uma vaga para começar a trabalhar a todo o gás, decidi parar durante um ano. Foram uns 11 meses, e ter experiências diferentes. Além de uma viagem na América do Sul de seis meses, também fiz um caminho de Santiago, também fiz um curso de kitesurf.
E praticas hoje kitesurf?
Agora nem tanto. Naquela altura, ainda.
Foste mãe, não foi? Tens uma bebê linda.
Exato. Sim, fui mãe. Também fiz uma viagem com a minha mãe nessa altura, à Itália. Porque a minha mãe, antes de eu partir, estava muito desgostosa e devia pensar que se me acontecesse alguma coisa, nunca ia viajar comigo. Então acabei por levá-la à Itália e também foi uma viagem curtinha, mas boa.
Nesses 11 meses.
Nesses 11 meses, sim.
Ok. Não aconteceu nada, pois não? Portanto, regressaste sã e salva para os braços da tua mãe.
Exatamente.
Boa! Vamos começar pelo início, que é por onde se meça sempre. Foste daqui para onde? Para a Colômbia, não foi?
Sim.
Fazer voluntariado. Explica-nos lá o que foste fazer e o que é que foste encontrar, Ana Rita.
Na verdade, eu nesse ano tinha o plano de ir pra Ásia, só que eu fui em 2021 e portanto as fronteiras, por causa da pandemia, ainda estavam todas fechadas. Acabei por ter de mudar os planos e a zona do mundo que estava mais receptiva era a América do Sul. Eu já queria há bastante tempo conhecer o Peru, o Brasil, a Colômbia não estava propriamente nos planos, mas também já tinha feito voluntariado antes, em Portugal, em vários projetos, e pensei: podia também aproveitar que tenho este tempo para dedicar-me a um outro projeto. Ao procurar na internet, apareceu-me um projeto na Colômbia. A Colômbia não estava nos meus planos, mas como esse projeto estava à procura de voluntários, que era para apoiar os caminhantes da Venezuela, ou seja, as pessoas que vêm da Venezuela.
Que fogem da Venezuela, não é?
Exatamente, sim. Por causa das condições de vida. Não há muitos meios económicos, então começou a haver menos segurança, medicamentos, comida.
Falta muita coisa na Venezuela. Acho que é chamado já o maior êxodo da história da América Latina. Sete milhões de pessoas em fuga. A maior parte passa ali para a fronteira, passa pra Venezuela. E depois dali, ou vai para baixo pro Chile e pra Argentina, ou sobe, mas a maioria sobe. América Central e depois tentar entrar nos Estados Unidos. México, Estados Unidos.
Sim, muitos ficam também na Colômbia.
Portanto, tu tiveste a trabalhar pra uma fundação que presta apoio às pessoas em trânsito, é isso? A pé.
Claro que havia também organizações internacionais no local, mas a organização que eu encontrei era uma organização pequenina, que basicamente está pela estrada. Nós íamos com o carro, com um dos motoristas da organização, entregar comida, meias, água, às pessoas que estavam a caminhar. E havia crianças a caminhar, grávidas, homens, mulheres e toda a gente com as suas mochilas, com aquilo que conseguiam carregar. Claro que quem pode, sai do país de avião, mas quem não tem mesmo meios para o fazer, caminha. É a opção que eles têm.
Caminha. Estamos a falar de muita gente.
Sim, muita gente, todos os dias. E ainda continua, porque eu continuo a acompanhar a organização e eles, ainda agora, passado quatro anos, ainda estão no terreno e continuam a apoiar as pessoas no local.
Que continuam a fugir da Venezuela e a procurar melhores condições de vida, não é?
Sim. Continua sempre.
Fizeste isso durante quanto tempo?
Eu estive um mês nessa organização. Estive lá um mês.
Sentiste-te útil, Ana Rita?
Sim. Naqueles dias, uma pessoa sente mesmo muito útil, porque é aquilo mais básico. Há pessoas a caminhar que estão com fome, que estão cansadas, que têm os sapatos muitas vezes rotos e nós estamos mesmo a dar comida, a dar sapatos.
A dar o básico.
Exatamente. Sim.
Lembras-te de alguém, de alguma história de uma pessoa que transportava consigo uma história incrível de superação e de sobrevivência?
Há muitas histórias. Acho que as que me marcaram mais, se calhar, foi mesmo das grávidas, porque havia muitas mulheres a caminhar e lembro-me de uma delas. Claro que depois, para passar a fronteira, começam a surgir organizações ou pessoas que dizem que são organizações para ajudar a passar a fronteira. Muitas vezes a fronteira também está fechada e eles têm que passar por um rio. Então essas pessoas que supostamente estão a ajudar, às vezes também assaltam estes caminhantes. E eu lembro-me então de uma grávida, que ela e o parceiro tinham bilhetes de autocarro para as etapas já na Colômbia e foram assaltados. Ficaram só com a roupa do corpo, ficaram sem os telemóveis, sem os bilhetes de autocarro, sem as malas. E então ela chegou ao abrigo onde nós estávamos a dar apoio e estava a sangrar. Depois eu acabei por levá-la ao hospital.
Portanto, estamos a falar de uma grávida, visivelmente grávida.
Sim, já estava há cerca de oito meses.
Era impossível não perceber que estava ali uma grávida. Caramba, que crueldade. Histórias cruéis, essas.
Foi um mês intenso. Não estava a ver paisagens incríveis, não estava a ter momentos espetaculares, mas ao mesmo tempo, foi um mês que eu achei importante.
Não foi turismo, digamos assim.
Sim, esse mês não.
Muito bem, mas o mundo é isso. Também é feito disso. Mas não é isso que procuramos nas viagens. O que procuravas nesta viagem, Rita? Ou neste ano sabático.
Sim. No fundo, é o que eu procuro em todas as viagens. É a minha curiosidade, é conhecer, é ver sítios novos, acho que é descobrir os sítios que eu lia nas enciclopédias em criança.
Ah, ok.
E então eu via e pensava: "Um dia quero ver isto ao vivo, quero ver como é mesmo." Acho que o objetivo das minhas viagens é esse, é ir aos sítios.
Muito bem. Então conta-nos lá por onde é que andaste na Colômbia, porque depois aproveitaste também para viajar e para conhecer este país, certo?
Sim. Quando eu fui pra Colômbia, como não era assim muito planeado, eu tinha bilhete de saída da Colômbia pro dia a seguir a terminar o voluntariado, e eu era pra ir pro Peru logo. Mas houve ali uma situação no aeroporto, era preciso apresentar um teste de Covid e eu não tinha feito porque achei que já não era preciso. Então tive que ficar mais duas semaninhas na Colômbia. Eu fiz o voluntariado numa cidade pequenina, Pamplona, mas depois nesses 15 dias que lá fiquei visitei Bogotá, Salento e Medellín. Daí fui então pro Peru. Estive dois meses no país, andei pelo norte, pelo sul, pelo centro, por todo lado. Depois voltei à Colômbia e então fui visitar a zona da costa, do norte, Cartagena, Santa Marta. Fui até La Guajira, a península mesmo a norte, e depois fui para o sul, Cali, o deserto de Tatacoa.
Uau.
E voltei a passar em Bogotá e Medellín também. E daí voei pro Brasil. No Brasil, estive em São Paulo, no Rio de Janeiro e nalguns sítios ali pelo meio, Ilha Grande, Ilha Bela, e voltei pra Portugal.
Ok. Colômbia é um país mal afamado, não é? Para o país que é.
Sim.
É um país com péssima reputação, mas depois toda a gente diz, toda a gente que por aqui passa e todas as pessoas que eu conheço que já foram à Colômbia, dizem que é um país extraordinário, super seguro, tranquilo, não se passa nada.
Sim.
Não faz jus à péssima reputação que tem.
Não, e eu quando fui, eu nem sequer tinha visto aquelas séries mais conhecidas, portanto, eu não tinha uma grande imagem da Colômbia, nem má, nem boa. Não tinha como objetivo visitar, mas também não era que tivesse medo, mas toda a gente à minha volta me dizia: "Então, mas tu vais pra Colômbia?" Porque de facto a fama não é boa. A verdade é que depois de lá estar, e sobretudo aquele primeiro mês que estive numa cidadezinha, toda a gente é muito amável, tratam-nos, mesmo no autocarro, de "mi reina, mi amor".
São muito carinhosos, não são, os colombianos e as colombianas. Falam muito com diminutivos.
Sim. E convidam sempre pra casa também.
Não percebi.
Convidam-nos sempre pra casa deles. Eu conheci vários colombianos, famílias e tudo, e cruzava-me com eles em tours, e depois eles diziam-me sempre: "Olha, quando fores a Bogotá, quando voltares, vai à minha casa." São muito simpáticos mesmo.
Muito bem. Sentiste-te bem acolhida na Colômbia, não é?
Sim. Gostei muito.
Olha, tu tinhas um sonho, foste ao Peru. Tinhas um sonho, pelo menos expressaste esse sonho no teu livro "Ahorita" Que era ir ver Machu Picchu.
Sim.
Depois acabaste também por fazer aquele, como é que se chama aquele trekking?
O Salkantay. Sim, o Salkantay.
Exatamente. Foram quantos dias a pé?
O Salkantay foram cinco dias.
Cinco dias?
Sim.
Uau! Conta-nos como é que é.
É intenso, é duro. É caminhar em altitude. Eu nunca tinha estado em altitudes do género, 4 mil, 5 mil metros, mas passamos por paisagens incríveis. Lagoas, aquele azul intenso glaciar. Passamos também pelas montanhas completamente brancas. Depois tem outra parte que é descer no meio da selva.
Brancas de neve.
Sim, brancas cheias de neve. E dorme-se bem. Pelo menos eu na minha tour dormia assim num penhasco com vista pro glaciar. Depois passamos também por selva, portanto há um dia em que a temperatura começa a subir e já é só vegetação. E depois no último dia, subimos ao Machu Picchu. Pode-se fazer de autocarro, eu decidi ir a pé também, por isso no último dia ainda subi as escadas todas para subir ao Machu Picchu e depois voltei a pé também. Muita gente também apanha o comboio. E eu vim a pé pela linha de comboio. Para lá tinha ido com o grupo todo, para cá vim sozinha e foi muito bom fazer aquele caminho depois de ver Machu Picchu sozinha.
Ias a digerir o que viste.
Sim.
Portanto, chama-se Salkantay Trek. Cinco dias. Um carrossel, estou a ver. Apanha-se tudo.
Sim. Eu também não tinha ideia de fazer esse trekking. Ou seja, eu queria visitar o Machu Picchu, mas em viagem nós conhecemos muita gente e as pessoas vão dando dicas e toda a gente me aconselhou a fazer e sem dúvida que valeu a pena. Muito melhor do que apanhar só o comboio, sair em Machu Picchu.
Que é o que a maior parte das pessoas faz.
Sim, e quando não há tanto tempo é normal, mas eu gostei de ter esta experiência assim mais prolongada.
Muito bem, tinhas tempo e isso é bom, não é?
Sim.
Olha, Rita, estamos a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem? Rita, tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?
Que tenha trazido das viagens, não. Mas há um objeto que eu levei nas viagens.
Levaste e trouxeste.
Sim, mais ou menos. Quando eu fui pra América do Sul, a minha irmã desenhou-me um trevo de quatro folhas, que eu já tinha num quadro em casa, e escondeu na minha carteira com uma mensagem. Eu só vi no avião. E esse desenhozinho acompanhou-me e entretanto eu acabei por tatuá-lo, por isso acaba por estar sempre comigo.
Com a mensagem também?
Não, tatuei só o trevo.
Só o trevo. Queres dizer-nos o que a tua irmã te escreveu? Ou podes dizer? Queres guardar pra ti, é isso?
Era só aquele carinho de irmã.
Ok.
Sim.
Já percebi, queres guardar pra ti. Olha, és supersticiosa, Ana Rita Cunha?
Eu diria que não.
Não. Mas à cautela tatuaste o trevo.
Foi pelo significado.
Claro, e fizeste bem. É a tua única tatuagem ou tens mais?
Tenho outra de um globo terrestre.
Ah, boa.
Que é o que aparece na contracapa do livro também.
Aqui está ele. Ah, boa, esta é a tua tatuagem. Esta é a tua tatuagem, não é?
É, também.
Fantástico. Portanto, aí tens. Não se pode dizer que não tenhas vontade de viajar. Tens, sim. Tanto assim é que tens um globo tatuado. É onde? No braço, na perna, nas costas?
Não, é no pé.
No pé. Muito bem. É no pé porque o pé é feito pra caminhar. Vamos caminhar na segunda parte através das histórias da Ana Rita Cunha, a viajante desta semana. Na internet chama-se Aurita e Aurita é também o nome do livro que ela acaba de editar, uma viagem de 171 dias pela América do Sul. Fazemos aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Até já. Estamos de regresso pra segunda parte das conversas do Fim do Mundo, esta semana com a viajante Ana Rita Cunha, que decidiu, depois de terminar a sua especialidade em Medicina Geral e Familiar, tirar um ano sabático. Andou 11 meses, realizou algumas viagens, andou seis meses pela América do Sul, mas também foi à Ásia. Tu na primeira parte já nos falaste um pouco dessa viagem na América do Sul. Onde é que foste à Ásia? E fazer o quê, Ana Rita? Ver o resto do mundo.
A Ásia veio depois, não foi no ano sabático.
Ah, ok.
Sim, foi agora mais recente, mas foram três meses e andei pela Índia, depois pela Tailândia brevemente, Camboja, pelo Vietnã e no Japão. Foram uns três mesinhos, assim, de contrastes.
Ah, boa. De contrastes como assim? Explica-nos.
Bem, começamos na Índia e terminamos no Japão.
Começamos já tu e o teu marido, é isso?
Sim, eu e o meu namorado. Sim, fomos os dois. Esta viagem fomos os dois.
Porque a outra viagem que tu fizeste pela América do Sul, essa foi sempre sozinha, não é?
Essa foi sozinha, sim. Aí fui sozinha e depois fiz umas outras sozinha. Também fui ao México e Guatemala, depois fui à Argentina e Patagónia. Essas foram viagens de um mês. Agora mais recentemente, foram uns três mesinhos pela Ásia, que era o plano inicial do meu gap year, do meu ano sabático, mas na altura não se concretizou, então guardei. Foi no ano passado.
Fizeste no ano passado. Boa, muito bem. Que diferenças é que tu encontras, do ponto de vista pessoal, entre viajar sozinha e viajar acompanhada?
É muito diferente. Viajar sozinha tem bastantes vantagens, eu gosto muito. É aquela liberdade de acordar a hora que se quer, fazer as refeições quando se quer. Ou seja, mesmo quando os planos não correm bem, sou só eu que fico frustrada. Porque fui eu que fiz os planos e, portanto, não há nenhum problema, faço novos planos a seguir. Quando vamos em casal ou quando vamos com amigos, aí há sempre algum esforço pra tentar cumprir alguns planos.
É o compromisso.
Exatamente, estão duas pessoas. Também tem a parte positiva, que é estarmos a partilhar os sítios que estamos a ver, as experiências, as histórias ficam partilhadas, então também é muito bom, claro.
Pois. Tu tiveste uma experiência do ponto de vista humano muito intensa na Colômbia. Já nos explicaste aqui na primeira parte. Estiveste a viajar e também a trabalhar para uma ONG que presta apoio às pessoas que tentam sair ou que saem da Venezuela em busca de melhores condições de vida. E a Ásia, Ana Rita, é diferente da América do Sul? É mais esmagadora?
Sim. Na América do Sul também tem a vantagem de ser falado espanhol ou português no Brasil, e então isso se calhar aproxima-nos um bocadinho mais. É mais fácil ligar automaticamente com as pessoas, começar uma conversa, e conversas se calhar mais longas e mais profundas.
O fato de eles falarem a língua castelhana faz-te sentir numa espécie de segunda casa?
É, sim, um bocadinho. Eu também fiz Erasmus em Madri, portanto, o espanhol pra mim já era uma segunda língua. Então, sim, um bocadinho mais fácil do que na Ásia, em que temos que comunicar em inglês e não é geralmente a língua materna nem de nós, que estamos a viajar, nem das pessoas locais, e por isso, se calhar é um bocadinho mais difícil a experiência.
Pois. Não é tão autêntica a comunicação, se calhar.
Sim.
E as relações e as ligações que se estabelecem, é isso?
Sim, diria. Diria que a língua acaba por ser a principal barreira. Depois, mesmo a alimentação também é muito diferente. Por exemplo, na Índia, o picante é impossível fugir dele. E no início, eu gosto de experimentar todo tipo de comida, então até é interessante, mas depois de três semanas sempre a comer picante, mesmo quando se pede uma pizza, começa a ser um bocadinho difícil. Isso também não acontece na América do Sul, porque a comida é mais semelhante à nossa.
Pois. Muito bem, mas gostaste mais de viajar na América do Sul ou na Ásia?
Não sei se consigo responder essa pergunta.
Sim.
É difícil, porque eu também adorei a Índia. Ou seja, apesar de ser difícil e ter muitos desafios, eu adorei. Em termos de experiência social, por ser uma cultura tão diferente, tanta gente, também é interessante.
Ok. Coisas extraordinárias que tenhas visto na Ásia, Ana Rita, partilha conosco.
Em termos arquitetônicos-
Tudo
...na Índia vi o Taj Mahal, que pra mim é um highlight, sem dúvida. É um dos momentos altos da viagem. E mesmo a arquitetura em Mumbai, é engraçado ver edifícios que se calhar associamos à Inglaterra, por causa da história, mas ver inserida naquele contexto, com um calor impressionante, com muita gente à volta. Depois, na Tailândia, Bangkok, também adorei a cidade, é uma cidade muito grande. Eu não tinha grande interesse em ir à Tailândia, por ser um destino muito turístico. E por ser dos mais visitados, Bangkok é das cidades mais visitadas do mundo, mas a verdade é que uma cidade tão grande com tanto pra oferecer, os templos são muito bonitos, por isso entrou também pro meu top, Bangkok. No Camboja, o Angkor Wat, também ver o nascer do sol nos templos foi outro momento alto da viagem. E o Vietnã, no norte, fizemos um tour de mota, o Ha Giang Loop. Andamos quatro dias de mota pelas províncias do norte e aí as paisagens verdejantes também são espetaculares.
Espetaculares, muito bem. Quem é que ia conduzir a mota, tu ou o teu marido, o Pedro?
Não. O Pedro ia numa mota sozinho, ia conduzir a mota dele, mas eu ia com um driver Porque toda a gente diz e nós vimos que as estradas são bastante perigosas. Ele, como já tinha carta de moto e tinha moto, tinha confiança para conduzir, mas mesmo assim, levar uma pessoa atrás em estradas em que por vezes era terra batida, achamos melhor eu ir com um condutor experiente na zona e ele foi conduzir a mota dele.
Não aconteceu nada?
Não, não aconteceu nada.
Ok, pronto. Ainda bem.
Sim, mas recomendo.
Recomendas?
Recomendo o norte do Vietname.
O norte do Vietname. E fazê-lo de moto ou não?
Sim, de moto também, para quem gostar. Acredito que nem toda a gente vá gostar do risco iminente. E não é tão confortável como ir de carro, obviamente.
Mas também se calhar não é tão engraçado ou tão desafiante, não é?
Sim. Eu gostei.
Boa, uma aventura. Isso é coisa para passar quantas horas em cima de um cilindro de moto durante esses quatro dias?
São várias horas, mas não sei, umas quatro, cinco, depende dos dias. Mas ainda são bastantes horas.
Muito bem. Portanto, Índia, aliás, disparate, norte do Vietnã a visitar. E o Japão? Conta-me. O Japão foi o fim do vosso périplo, não foi? Asiático. É outro mundo, não é? Não tem nada a ver com Vietname, Tailândia, Camboja.
Não. É impressionante a limpeza, o silêncio, as regras também. Ou seja, é muito giro para visitar, para viajar, mas se calhar viver lá com tantas regras, achei que seria um bocadinho difícil para mim.
Claustrofóbico?
É, nos autocarros, por exemplo, não se pode falar, tem mesmo um sinal, que é para não incomodar as outras pessoas, não convém atender o telefone. E eu percebo, às vezes, de facto, pode ser incomodativo alguém estar em altos berros a falar conosco ou ao nosso lado. Mas mesmo assim, não se poder falar de todo. Entrar no metrô e estar aquele silêncio, uma pessoa até se sente mal se tem que sassuar ou fazer algum barulho. Mas sem dúvida que para visitar também deixa saudades. Nós estivemos por Tóquio, Osaka, Quioto, e depois também fomos a uma zona perto do Monte Fuji, uma vilazinha mais pequena, Hakon. Ficaram muito giros por visitar.
Mas isso fica sempre, não é?
Sim, exato.
Isso fica sempre.
Mas a natureza no Japão também é especial.
A natureza?
Sim.
Por quê?
Essa zona do lago com o Monte Fuji atrás. Também em Nara andamos pelos parques e de bicicleta pela colina, ver os veados. Foi muito bom.
Muito giro, muito bem. Olha, tu és médica, como já tivemos a oportunidade de dizer aqui ao longo do programa. A tua especialidade é medicina geral e familiar.
Sim.
Portanto, és um bem escasso neste país, não é?
Sim. Dizem que sim.
Dizem que sim. És. Não diz, é mesmo. Olha, diz-me lá, viajar achas que ajudou a tornar-te melhor médica, melhor profissional?
Eu acho que sim, porque é um bocadinho diferente nós ouvirmos histórias sobre pessoas no outro lado do mundo, ou nós conhecermos alguém que está efetivamente do outro lado do mundo. É aquela história de estarmos aqui na nossa bolha e podemos tentar empatizar, mas quando nós passamos pelas experiências ou quando conhecemos alguém, fica ainda mais fácil empatizar com as situações, com as pessoas.
Aqui, agora. Em Portugal. Porque já tens um lastro, já viste muita coisa, é isso?
Sim. Quando vejo um doente à minha frente, não penso só que ele pode ser da minha rua ou da minha vila, ou que pode ter uma história semelhante à minha, um percurso semelhante, porque há histórias de todos os tipos. E vê-se pela Índia, por exemplo, as crianças não crescem da mesma maneira que as crianças aqui. Portanto, nós até podemos tentar pedir o mesmo, mas a história das pessoas vai influenciar muito a vida delas.
Claro que sim. Em algum momento sentiste: "Vou ficar aqui a desempenhar a minha profissão de médica, porque essas pessoas precisam de mim." Sentiste em algum momento um chamamento, Ana Rita Cunha?
Se calhar já pensei nisso algumas vezes. Claro que agora construir uma família fica um bocadinho mais difícil, porque há outra pessoa aqui também que precisa muito de mim. Mas lá está, mesmo aqui também há sempre pessoas a precisar, por isso não é preciso ir para o outro lado do mundo. Nós podemos fazer a diferença onde estamos.
Onde estamos, sim, e como dizia há pouco, és um bem escasso neste país. Mas a minha pergunta é mais no sentido da experiência que já viveste, ou seja, em algum momento sentiste nestes 11 meses de ano sabático e depois nesta viagem de três meses pela Ásia, que se ficasse aqui não ficava mal.
Sim, já tive vontade de ficar a viver em muitos sítios. Mas nós só temos uma vida, pelos vistos.
Pelos vistos. És uma pessoa mística, Ana Rita? Não é assim?
Não, se calhar sou mais científica, mas ao mesmo tempo também não sei. Também consigo admitir o meu desconhecimento.
Pois, é melhor, não é, às vezes?
Exato.
Não saber. Ia dizer uma heresia. É melhor ficar calado. Vamos avançar, Ana Rita, estamos a chegar ao fim. Vamos fazer check-out?
Sim.
Vamos embora. Vou pedir-te para completares as habituais frases. Na minha mala vai sempre...
Um caderno para escrever.
Um caderno, porque tu gostas muito de escrever, não é?
Sim. Também escrevo às vezes no telemóvel, mas levo sempre uma caneta e papel para escrever.
Aliás, o teu livro, o tal "Ahorita", que saiu agora, é muito baseado nas notas que tu tiravas ao longo da viagem, não é?
Sim. Eu escrevo mesmo sem estar em viagem.
Sim.
Mas em viagem também fui sempre escrevendo e depois achei que seria interessante, talvez, juntar tudo num livro.
Muito bem. Tens muitos bloquinhos guardados em casa?
Tenho.
A sério?
A sério. Muitos blocos e cadernos, até pastas no computador. Muita coisa.
Uau, material disperso. Boa. Um dia tens que juntar isso tudo. Já te propuseste esse exercício ou ainda não?
Lá está, já comecei.
Já começaste?
Já comecei.
Muito bem. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje, qual foi?
Tem que ser na Índia. Dos três meses na Ásia, apesar de ter estado seis meses na América do Sul, os três meses na Ásia tiveram mais peripécias.
Então partilha lá uma.
Na Índia, por exemplo, tive de ir ao hospital, que era uma coisa que eu queria a todo o custo evitar.
Sim.
Mas foi mesmo necessário, apesar de eu tentar automedicar-me e tudo, depois acabei por ter de ir. E a experiência no hospital não tem nada a ver com uma experiência cá. Claro, também foi porque estava numa cidade mais pequena, não estava em Delhi, nem Mumbai, portanto, estava numa pequena cidade perto das montanhas e só havia um hospital público. Eu precisei de medicação, eles não trazem a medicação, ou seja, eles escrevem num papel e ou a própria pessoa ou o acompanhante tem que ir à farmácia do hospital comprar a medicação, trazer aos enfermeiros para ser administrada. Neste caso foi o Pedro que foi à farmácia do hospital e não havia fila, portanto, pode-se tentar imaginar, era toda a gente a tentar chegar ao vidro, ao balcão da farmácia para pedir a medicação que o seu familiar ou que precisava.
Uma espécie de salve-se quem puder.
Sim. E além disso também me pediram uma ecografia, porque eu tinha os valores do fígado um bocadinho altos e eles queriam ver se não seria uma hepatite. E lá fui eu para a sala de ecografia, mais uma vez sem fila. A porta abria e alguém entrava. Ninguém era chamado.
Run for your life.
Exatamente. Claro que no momento não me deu piada nenhuma, eu estava muito mal, mas agora olhando para a experiência, foi a situação em que eu me vi mais mirabolante.
O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter, qual foi, Ana Rita?
Foi de saída do México.
Ok.
Eu fiz uma viagem entre o México e Guatemala e decidi passar a fronteira do México para Guatemala sozinha. Eu estava a fazer couchsurfing em San Cristóbal de las Casas. A pessoa que me estava a receber explicou-me os autocarros que eu tinha de apanhar e tudo, e eu fui até à fronteira com o México. Só que quando lá cheguei, já havia lá viajantes que tinham ido no dia anterior porque não estava a funcionar o serviço para nos carimbar a saída do México. E sem esse carimbo também não podia entrar na Guatemala. Eu estive lá à espera. Nós não sabíamos quando é que aquilo ia voltar a funcionar. Já estava a tentar planear ir a outra fronteira. Estivemos a jogar às cartas e passadas cinco horas aquilo voltou a funcionar e então veio de lá alguém dizer: "Já podem vir carimbar" e consegui sair do México.
Boa. A recordação de viagem mais cara?
Eu não costumo comprar recordações muito caras. Eu acho que é mais a experiência na Colômbia, a caminhada da Cidade Perdida.
Ok.
É uma espécie de trekking como o Salkantay no Peru, só que no Peru há muitas agências a disponibilizar o trekking e é fácil negociar o valor. Na Colômbia, aquela área acho que ainda está controlada, então o valor é acordado entre todas as agências e não dá mesmo para negociar. E foi uma caminhada de quatro dias. Foi cara para os padrões daquela zona e do tipo de caminhadas que há.
Ok.
Mas valeu muito a pena também.
Lembras-te ainda quanto é que custou?
Eu acho que foi uns 400 dólares, alguma coisa desse gênero.
É caro. A refeição mais estranha, qual foi?
Já comi várias coisas. No México, os chapulines, que são tipo os gafanhotos. Na Colômbia, as hormigas culonas, que são umas formigas bem grandes. Acho que essa é a mais estranha porque não sabe bem. Os gafanhotos no México estão bem temperados, mas as formigas na Colômbia eu não gostei muito.
Hormigas culonas fritas, não é?
Sim. São umas formigas muito grandes.
Muito grandes e muito redondinhas.
É, sim.
Chamadas também formigas de rabo gordo.
Exatamente.
É, não é?
É. Culonas vem daí.
Olha, gostava de viajar com?
Com a minha filha.
Muito bem. Olha, chegamos ao fim, Ana Rita. Música, qual foi a música que trouxeste para fechar a conversa do fim do mundo?
"Me Fui", da Reimar Perdomo.
Reimar Perdomo é uma venezuelana, colombiana, explica-nos rapidinho.
É venezuelana. Ela também saiu da Venezuela por causa da situação do país e fez esta música, que a letra é sobre isso, sobre sair do nosso próprio país. Era uma música que os motoristas da organização onde fiz voluntariado passavam muitas vezes no carro. Então durante um mês ouvi muitas vezes esta música e quando a ouço ainda sou transportada para aqueles dias em Pamplona, na Colômbia.
Na Colômbia, muito bem. Ana Rita Cunha, foi um gosto, muito obrigado.
Obrigada.
"Me Fui" de Reimar Perdomo, a fechar a conversa do fim do mundo. Já sabem, estamos de regresso dois a oito dias. Sejam bons e boas viagens.