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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana já foi a todos os países do mundo. Todos, desde o mais pequenino ao maior, do mais distante ao mais próximo. Ele já foi a todos e agora está aqui. Vítor Pires, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo". Grande feito ir a todos os países do mundo. Espetacular.
Sim, foi difícil. Nunca pensei que fosse possível. Só procurei esse objetivo há relativamente pouco tempo, quando comecei a ver que me faltavam poucos países aos quais eu nem tinha muito interesse em ir, mas já que faltavam tão poucos, eu pensei: "Vou fazer um forcingzinho e vou a todos."
Muito bem. O último foi o Liechtenstein, não foi? Por que deixaste o Liechtenstein para o fim? O que aconteceu?
Foi porque há uns anos eu fiz uma viagem com a minha mulher e com meu filho à África do Sul. Saímos daqui numa sexta-feira, via Zurique. Quando fomos para embarcar em Zurique, pediram uma certidão de nascimento do meu filho. Eu disse que não tinha, mas que eu era o pai, ela era a mãe, tínhamos o BI, tínhamos o passaporte. "Não, tem que ter uma certidão de nascimento, por causa do tráfico de menores. A África do Sul não deixa." Isto foi numa sexta-feira à noite, dormi lá. No sábado, vim para Lisboa para tentar arranjar a certidão. Não consegui, só consegui na segunda-feira. A minha mulher e o meu filho ficaram em Zurique e aproveitaram para passear durante esses três dias em que eu vim cá tratar da certidão. E foram ao Liechtenstein, que fica ali perto de Zurique. O meu filho ficou todo contente, porque tinha ido a um país onde o pai nunca tinha ido e eu deixei usufruir até o fim, guardei para o último.
Ok. Portanto, deixaste-o gozar esse privilégio, digamos assim.
Exatamente. Por quê? Porque eu estive muito tempo à espera de conseguir ir à Coreia do Norte. A Coreia do Norte, desde o Covid, fechou as fronteiras.
Coreia do Norte, que foi o teu penúltimo país.
Foi o meu penúltimo país. Tive sorte, porque uma semana e pouco antes de eu fazer anos, que eu queria conciliar o meu aniversário com a ida ao último país, que seria o Liechtenstein, ia haver uma maratona em Pyongyang. Eu inscrevi-me.
Uma maratona, mas tu não és maratonista.
Eu não sou maratonista, mas foram muitos turistas como eu. Eles deixavam micromaratona, que era 5 km. E eu inscrevi-me na micromaratona, foram só 5 km, mas deu para ir à Coreia do Norte, que era o meu objetivo. Estive lá cinco dias, aquilo foi uma viagem turística, andávamos num autocarro com guias turísticos a visitar tudo e participamos na micromaratona.
Micomaratona foi a desculpa que tu encontraste para poder ir à Coreia do Norte. País extraordinário, não é? Extraordinário, não estou a valorizar positivamente. Extraordinário no sentido da diferença em relação a todo o mundo.
Sim, somos controladíssimos. Assim que nos afastávamos um bocadinho, andavam cinco ou seis guias conosco, vinham logo chamar. Não podíamos tentar falar com pessoas com quem nós não estivéssemos envolvidos de alguma maneira. É muito controlado mesmo.
Pois, ninguém não passa em falso. Eles não deixam. Muito bem. Ir a todos os países do mundo é um grande privilégio, não é, Vítor?
É.
Já disseste que não era uma coisa que tu perseguias, mas conseguiste. Tens países aos quais foste, nem que seja só por umas horas, dizer que estiveste lá?
Não. Tenho alguns, é agora o meu próximo objetivo, alguns países onde eu não dormi.
Ok.
E quero ir lá e dormir. Por exemplo, nunca dormi no Mônaco, já lá fui duas vezes, mas nunca lá dormi.
Sim, aquelas ilhas lá no Pacífico e não sei o quê.
Aí dormi em todas. Mas, por exemplo, fiz um cruzeiro aqui há uns anos nas Caraíbas e as ilhas onde eu fui, apesar de em todas ter alugado um carro e ter corrido as ilhas todas, eu dormia era no barco, não dormi nas ilhas. Eu vou ter que voltar a essas ilhas, que é para dormir lá.
As viagens são uma atividade viciante, Vítor?
Não.
Passavas bem sem viajar a partir de agora?
Eu prefiro viajar, mas conseguia não viajar. Até porque eu às vezes farto-me de viajar. Se tiver muito tempo, às vezes acabo por encurtar a viagem porque começo a ficar saturado.
De viajar?
De viajar.
"Oh, céu, este homem não é normal".
Aquilo ter que levantar todos os dias muito cedo, os transportes, aquele estresse. Os últimos países onde eu andei foram países difíceis, de vistos difíceis, com polícia corrupta. E às tantas começamos a ficar um bocado fartos e eu começo com vontade de regressar a casa.
Ok. Como é que foi o teu percurso enquanto viajante? Começaste por onde, Vítor?
Eu comecei, por onde começam quase todos cá em Portugal, quase certeza, por Espanha. Depois, a primeira grande viagem que eu fiz foi ao Brasil, que é o meu país preferido. Já fui ao Brasil perto de 20 vezes. Depois fiz a minha primeira viagem sozinho, que foi Estados Unidos e México. Na altura foi uma aventura, porque nunca tinha estado sozinho, ainda por cima num sítio onde não se falava português. Estados Unidos e México.
Qual foi o registo dessa viagem? Era avião, autocarro, carro?
Não, fui de avião para os Estados Unidos e depois de avião para o México. E depois fiz alguns voos no México, internos, voos domésticos, e aluguei carro. Andei de carro na Península do Yucatán e andei a explorar aquilo de carro. Nos Estados Unidos é que andei sempre em transportes públicos. Também nessa viagem só estive em Nova Iorque.
Ok, muito bem. Estados Unidos também é um país ao qual já regressaste muitas vezes.
Já, muitas vezes. É um país que eu gosto muito, é dos países melhores para andar a percorrer de carro. Tem os motéis à beira da estrada, que acabam por ficar relativamente baratos.
Pois.
E tem paisagens espetaculares, aquelas paisagens que nós estamos habituados a ver nos filmes. É espetacular mesmo. A gente faz muitos quilómetros nos Estados Unidos, sempre com paisagens espetaculares. Eu gosto muito dos Estados Unidos.
Gostas dos Estados Unidos. Muito bem, portanto, Europa, Américas, América do Norte.
Exato.
E depois desataste por aí a desbravar o mundo.
Depois comecei a querer ir aos países de língua portuguesa. São Tomé, que deve ser dos países mais bonitos da África ou do mundo mesmo.
Toda a gente cava a beleza de São Tomé.
Sim, é muito bonito. Moçambique, também com um povo espetacular. Guiné-Bissau. Eu vivi na Guiné-Bissau quando era criança, porque o meu pai era militar. E eu andei lá na escola quando tinha sete anos.
E agora tens memórias desse tempo?
Tenho.
Foste lá procurar os sítios onde viveste?
Fui. Era irreconhecível.
Tudo mais pequenino, agora.
Tudo muito mais pequeno. Eu tinha a sensação que vivia numa cidade, mas não.
Três ruas.
E está tudo meio destruído, sem alcatrão. Eu nunca iria reconhecer aquilo. O meu objetivo era esse, era ir aos países de expressão portuguesa e mesmo aqueles que não são de expressão portuguesa, mas que têm qualquer coisa portuguesa. O Irão tem um castelo grande numa ilhazinha que é o Ormuz. Fiz questão, andámos muitos quilómetros só para ir visitar esse castelo. No Bahrain também há um grande castelo português. E então eu andava atrás das coisas. Até em Madagáscar fui descobrir as ruínas de um castelozito pequenino português, num sítio numa ponta de Madagáscar.
Incrível. Andaste em todo lado, não foi?
Foi, andámos em todo lado mesmo.
Portanto, fizeste os países de língua oficial portuguesa. E Timor também ou deixaste Timor para outra fase?
Não, já fui a Timor há 15 anos, talvez.
Ok.
Mas foi dos últimos.
Foi dos últimos.
Sim.
Ok, portanto já foste a todos os países do mundo. Qual foi o que mais te impressionou ou o que mais te impressiona ou o que mais te surpreende sempre que lá voltas? São os Estados Unidos? Não.
Sim, eu gosto muito dos Estados Unidos, mas o meu país preferido é o Brasil.
O Brasil, ok.
Eu até me transformo noutra pessoa quando ando no Brasil.
Por quê?
Porque as pessoas são mais simpáticas, eu também me torno mais simpático.
Então és subscritor da tese do "os lugares fazem as pessoas".
Sim.
Em parte.
Sim. Eu aqui em Portugal entro num táxi e normalmente não estabeleço nenhuma conversação com o taxista, mas no Brasil é natural eu ir a conversar com os taxistas. É diferente. Conhecer pessoas no Brasil. Aqui em Lisboa não se conhecem pessoas nos transportes públicos. No Brasil conhece.
Há um Vítor dentro de ti que fala brasileiro e se solta. É isso?
É.
Isso é giro.
E depois o Brasil tem tudo. Aquilo é um continente, praticamente.
É verdade. Giro, muito bem. De todos os países onde já foste, e foram todos, não é? Todos os países do mundo. Qual foi aquele onde disseste: "Epá, não valeu nada vir cá gastar euros nesta porcaria"?
Todos os países têm qualquer coisa de interessante. Mas o menos, talvez, seja o Kuwait.
Ok. Por quê? Muito artificial?
Não tem nada. Um dos passeios que eu fiz no Kuwait foi ir à fronteira com o Iraque, ou seja, já demonstra que aquilo não tinha mais nada para ver. Fui ver a fronteira por onde o Saddam-
A atração turística do Kuwait era a fronteira com o Iraque.
Pelo menos para mim foi.
Isso é muito engraçado. Tu tens uma facilidade e ainda bem. Trabalhas no setor da manutenção aeronáutica para uma companhia aérea. Isso permite-te ter acesso a bilhetes, ainda que os tenhas que pagar. Não almoças grátis.
Exato.
Ainda assim, é um grande feito ir a todos os países do mundo. Isso é espetacular. Viajar era um objetivo inicial da tua vida?
Era.
Era, sempre.
Sempre foi.
Eras uma criança que abria atlas e via os mapas, aquela coisa toda.
Exatamente. Ainda há um livro que me deram quando eu era criança, que era "Onde Fica?". Ainda está todo esfarrapado, mas eu fazia questão de tentar ir àqueles sítios todos que vinham naquele livro.
Ok. E foi isso também que te fez escolher a tua profissão ou calhou?
Eu não tenho a certeza, mas acho que calhou. Mas depois fui-me mantendo sempre na aviação por causa das viagens. Mas o ter ido para lá Calhou, tive sorte.
Muito bem. Casou-se, como é que se diz? A fome com a vontade de comer. Muito bem. Há pouco falaste de São Tomé e Príncipe. Tens uma história engraçada do choque cultural que existia entre quem vivia num país do primeiro mundo, Portugal, e um país africano, São Tomé, que envolve dinheiro. Vais tu com cartão Visa para São Tomé nos anos 90 e chegas lá e o que acontece?
Eu tinha perguntado na embaixada, quando fui tirar o visto, se lá aceitavam cartão Visa, cartão de crédito. Disseram que sim. Eu na altura estava com pouco dinheiro, levei pouco dinheiro e a intenção era ir pagando as coisas com o cartão e levantar. Mas quando lá cheguei, ninguém aceitava cartão em lado nenhum, nem sabiam o que era. No hotel que eu queria pagar, nem sabiam o que era. Eu tinha levado uma encomenda para um são-tomense, que tinha me dito na altura se eu precisasse de alguma coisa para ir ter com ele e eu fui ter com ele. Ele levou-me a um senhor de uma farmácia, que era o Major Alvim, alcunha, que me levou a um banco e o senhor do banco só me perguntou assim: "De quanto dinheiro é que você precisa?" Eu fiz as contas, tinha alugado um jipe e disse 70 contos. Ele abriu uma gaveta, deu-me 70 contos portugueses, na altura era o escudo, a nossa moeda, e deu-me um papelinho com o número da conta para quando eu chegasse a Portugal, poder depositar. Pronto, só isto.
Portanto, olhou para ti, confiou em ti. Toma lá. Toma lá o dinheiro, quando chegares a Lisboa, devolve-nos isto.
Eu ia da parte do senhor a quem tinha levado a encomenda, que o levou à farmácia, ao senhor Major Alvim, ou seja, havia ali-
Sim, mas ainda assim podias chegar a Lisboa e-
Pois, exatamente
...e fazeres-te de esquecido.
Exatamente.
Olha quantos. Espetacular.
Acabou por ser umas férias espetaculares, porque eu depois passei as férias sempre com aquele pessoal, a conhecer aquele pessoal, por não ter dinheiro. O não ter dinheiro é que me abriu muitas portas em São Tomé.
Ok, porque foste obrigado, entre aspas, a pedir ajuda e isso pôs-te em contacto com o tal Major-
Major Alvim
...Major Alvim da farmácia.
Era o senhor de uma farmácia daquelas antigas, cheias de frascos.
Era uma pessoa importante em São Tomé?
Era. Ele tinha muitos filhos e lembro, por exemplo, uma das filhas era a ministra da Saúde, tinha outro filho que era ministro de outra coisa qualquer. Na altura até cheguei a ir à festa de anos do filho do presidente da República de São Tomé. Aquilo foi uma semana que, por eu não ter dinheiro, andei ali sempre no meio de ministros e de pessoas importantes.
É incrível. Abençoado o tempo em que não havia Visa em São Tomé. Espetacular. Viajar não é apenas ir de um ponto a outro, é descobrir cantos escondidos, ruas que contam histórias e saberes que não constam nos guias. Com a KLM pode conhecer os segredos de destinos como Amesterdão, Seul ou Joanesburgo e viver essas experiências únicas, porque se não for, nunca saberá. Marque já a sua viagem em klm.pt. Vítor Pires, estamos a chegar ao final da primeira parte das conversas do Fim do Mundo. Vamos abrir o álbum de viagem. Guardas em casa ou tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas centenas de viagens a todos os países do mundo, Vítor?
Sim, tenho muitos. Alguns já nem me consigo lembrar de onde é que são. Inicialmente sabia todos, os primeiros eu ainda sei de onde os trouxe.
A tua casa deve ser um museu do mundo.
É um bocadinho. Ultimamente agora já quase não trago nada, mas inicialmente trazia sempre muita coisa. Mas tenho lá uma estatueta em madeira, que como eu te disse há pouco, eu em criança vivi na Guiné-Bissau e o meu pai tinha lá um miúdo a quem ele ajudava. Era quase como se fosse um criado nosso, que ia fazer alguns recados e ia comprar coisas e o meu pai dava-lhe algum dinheiro. Eu na altura tinha sete anos e este moço devia ter uns 12 anos, talvez. Andávamos os dois na escola, os dois na segunda classe, e eu era muito amigo dele e nunca mais me esqueci dele. E então, em 2001, eu fui à Guiné-Bissau com uma fotografia que eu tinha dessa altura, eu com ele, eu com sete anos e ele com 12 ou 13, não sei.
Ok.
E fui à procura dele. Apanhei um táxi no aeroporto, ia com um amigo meu, mostrei a fotografia ao taxista e o taxista levou-me à casa dele.
Incrível!
Exatamente.
Uau! Conhecia-o?
Conhecia. Ele era muito conhecido em Bissau. Eu andava com ele na rua e toda a gente o cumprimentava, toda a gente sabia o nome dele. "Olá, Braima, olá, Braima Bodjan". Ele era muito popular. Ele trabalhava na Polícia Judiciária e tinha sido jogador de futebol e por isso é que ele era muito conhecido. Gostei muito de o encontrar. Quando eu fui à casa dele, ele não estava lá.
Portanto, quantos anos estiveram separados? 40 e picos?
Até 2001. Eu estive lá nos anos 70.
20 e tal anos. 30 anos.
Sim, 30 anos, talvez.
Uau! Ele lembrava-se de ti?
Era isso que eu ia dizer. Quando eu lá fui à casa dele, só lá estava a mulher. Ela depois deu o recado e disse qual era o hotel onde nós estávamos e depois ele foi ter conosco ao hotel. E ele quando chegou ao hotel, eu estava com um amigo meu e ele abraçou-me a mim, portanto ele conheceu-me.
Isso é espetacular. Ou seja, o objeto é?
É uma estatueta que ele me comprou.
Que ele te comprou. É grande, pequenina?
Pequena, uma estatueta em madeira.
E está lá para lembrar então esse momento de reunião.
Exato.
É incrível, as viagens aproximam-nos, não é?
Sim. Foi um grande highlight dessa minha viagem, que na altura foi Senegal, Mali e Guiné-Bissau. Isto foi na semana do 11 de setembro. Quando foram as torres, eu estava na embaixada da Guiné-Bissau a tratar do visto e estava a dar na televisão da embaixada a torre a arder. Como não tinha som, eu não sabia bem o que é que se estava a passar. Nós depois fomos para o Mali na semana a seguir ao 11 de setembro.
E afetou a vossa viagem?
Não afetou, mas nós ainda pensamos se devíamos ir, se não devíamos, se borregávamos a viagem. Acabamos por ir e foi giro. O Mali é um país espetacular e agora é que é mesmo impossível ir lá.
Por quê?
Por causa do terrorismo que há lá. Agora pode-se ir à capital e pouco mais.
Muito bem. Estamos à conversa com Vítor Pires, português que já foi a todos os países do mundo. Fazemos aqui uma curta pausa, regressamos já a seguir. Estamos de regresso para a segunda parte das "Conversas do Fim do Mundo", esta semana com o viajante Vítor Pires. O Vítor é um dos poucos portugueses, diria até um dos poucos cidadãos do mundo, a ter tido a sorte, o luxo de ir a todos os países do mundo. Vítor, então e agora, depois de ir a todos os países do mundo e ter já passaportes com os carimbos de todos os países reconhecidos pela ONU, e agora, onde é que tu vais, homem? Vais repetir países?
Claro que vou repetir países. Não há mais para ir, vou repetir.
Não vais parar.
Sim, há muitos sítios. Por exemplo, os Estados Unidos é um país enorme.
É verdade.
Eu não fui a-
Não foste a todos os estados
...não fui a todos os estados, não fui a todos os sítios onde quero ir nos Estados Unidos. Por exemplo, a Rússia é um país gigantesco também. Eu já a atravessei toda, fiz o Transiberiano.
Uau!
Mas há coisas espetaculares na Rússia que eu quero visitar e monte de países.
Não está de feição ir à Rússia agora.
Eu por acaso fui lá agora há pouco tempo.
Foste? Quando?
Fui em julho, fui mais o meu filho, fui a Kaliningrado, que é um enclavezinho.
Como é que estavam as coisas por lá? Tenso o ambiente?
Não.
Descontraído?
Descontraído, muito turismo mesmo de russos. Aquilo é um sítio muito turístico para eles. Aquilo pode ser um problema, que é: eu não consegui arranjar rublos antes de ir. E cheguei lá à noite e pensava que conseguia trocar dinheiro com facilidade, mas não, não se consegue, só no banco. Ninguém me trocava dinheiro. E o hotel não me deixava lá ficar enquanto eu não pagasse, pelo menos a primeira noite.
Então como é que resolveste isso?
A senhora do hotel chamou um táxi.
Não foste ao banco através do major, não. Aí não funciona o major.
Não, mas uma coisa que eu achei muito estranha que foi: os bancos estavam todos fechados àquela hora, já era de noite quando eu lá cheguei, mas as floristas, há uma rua cheia de barraquinhas a vender flores, abertas 24 horas por dia.
Lá em Kaliningrado?
Exatamente.
Por quê?
Eu não sei por quê, não perguntei a ninguém, mas eu imagino que seja por causa da guerra. Devem estar sempre a chegar soldados mortos e então as floristas estão abertas 24 horas por dia e são muitas, são umas a seguir às outras.
Extraordinário. Então como é que resolveste essa história de ter de pagar o hotel na primeira noite?
A senhora chamou um taxista, que por acaso não era russo, era da Arménia, porque ela descobriu um banco que estava aberto 24 horas. Então chamou o taxista pra ele me levar lá. O banco que estava aberto 24 horas era uma caixa multibanco. Portanto, não havia. E depois eu perguntei ao taxista, isto tudo com o trator, não é com o telemóvel, se ele não tinha nenhum amigo, se não conhecia ninguém, que me trocasse alguns euros pra eu pagar o hotel. E ele perguntou-me quanto é que eu precisava. Eu fiz as contas, estava com o meu filho pra jantarmos, pra pagar a primeira noite de hotel, 200 €. Então ele foi ao multibanco, disse que levantou o dinheiro todo que tinha e deu-me. Eu dei-lhe 200 € e ele deu-me os rublos. No outro dia de manhã, fui ao banco e-
Fizeram a conversão informal.
Exatamente.
Boa, tu tens sorte. No meio disso tudo, tu com dinheiro, safas-te sempre.
É verdade, mas é um problema. Uma pessoa julga que eles devem todos querer dólares ou euros, mas não, era só no banco é que se conseguia trocar. Por acaso, consegui no taxista.
Ok, muito bem. Olha, países perigosos também foste a todos, obviamente.
Pois. Nós às vezes estamos ao lado do perigo e não nos apercebemos.
Tem-se consciência, sei lá, por exemplo, estou a pensar num país que nós associamos com o perigo iminente, sei lá, aqueles países de África ou Afeganistão, ou aquelas regiões escondidas do Paquistão. Um viajante tem consciência do perigo ou por ser viajante é olhado de outra forma e há uma certa condescendência? "É pá, não se meta com ele que o gajo é português, anda de mochila aí a viajar, é maluco." Não.
Não, há sítios que são perigosos. Ainda agora estão desaparecidos dois turistas, não sei se são da Croácia ou da Bósnia. Já ouvi dizer que eram da Croácia, já ouvi dizer que eram da Bósnia Que aparentemente foram raptados pelos terroristas no Mali. Estão desaparecidos, ninguém sabe onde é que eles estão. Pode acontecer uma coisa dessas.
Nunca te viste numa situação de aperto como essa?
Não, felizmente não.
Felizmente.
No Afeganistão, para entrarmos nos hotéis aquilo era guardas com metralhadoras.
Onde é que estiveste no Afeganistão?
Em serviço estive lá muitas vezes.
Foi?
Foi, muitas vezes. Lá num projeto com a Força Aérea Francesa e nós estávamos sempre a transportar tropas para lá.
Ias lá consertar aviões e voltar?
Não, ia com o avião lá caso fosse preciso alguma coisa.
Ok.
E cheguei a dormir lá e tudo.
Pré 11 de setembro?
Não, pós 11 de setembro. Durante a guerra com o Afeganistão, até estavam lá portugueses também. No Afeganistão, nos hotéis, aquilo era trancado com portões de ferro e depois passávamos esse portão, ficávamos num pátio onde estavam os guardas armados e depois fechavam esse portão, abriam outro, passávamos por um segundo portão, aquilo notava-se que havia ali qualquer coisa. E houve lá um sítio que nós fomos, agora os talibãs já são eles que mandam no país todo, mas na altura eles só estavam nalgumas zonas e nós fomos a uma cidade que era ocupada pelos talibãs na altura. Naquela altura tinha que se andar com guia.
Ok, mas nessa altura ias em viagem pessoal?
Pessoal, sim, exatamente. O nosso guia, eu notei medo nele, ele a apressar-nos para ver as coisas e houve uma altura que chegou uma carrinha ao pé do nosso táxi, rápido, parou e saíram montes de gente lá e eu pensei: "Olha, já está". E ele também pensou.
Sim.
Mas não, eram pessoas normais que estavam a sair de uma carrinha.
Caramba! Ficaste com a gotinha de suor aqui na testa, não foi?
Exato. Agora, no ano passado fui ao Iémen. Também tínhamos que andar sempre escoltados. E a escolta estava sempre a mudar, íamos até um sítio e trocava a escolta, depois íamos outra vez, trocava a escolta. Nós ficamos sem saber se aquilo é para ganhar alguns cobres ou se há mesmo um perigo real.
Ok. Só essa dúvida já lança aqui uma interrogação. Às vezes pode ser só teatro ou não, Vitor?
Sim, pode ser. É só para ganharem algum dinheiro.
Uma indústria que se monta em torno do chamado turismo de guerra, porque ele existe. Há gente que tem esse fetiche, ir a países destruídos, semidestruídos.
Não, mas eu não era o caso.
Não estou a dizer que é o teu caso, não estou a acusar-te disso.
Eu ia para lá, eu nunca fui para uma zona que estivesse mesmo em guerra, em combate, onde estivesse a haver combates. Isso eu nunca estive, nem quero ir. Mas fui a algumas zonas completamente destruídas.
Por exemplo?
No Iraque, aquela cidade onde estiveram os últimos do ISIS, acho eu, que foi completamente destruída, está toda destruída, mas as pessoas já vivem lá outra vez. E agora estava a tentar lembrar-me do nome e não estou a conseguir.
Eu vou lá chegar, mas viste o país todo destruído, não foi?
Essa cidade, principalmente.
Mossul?
Mossul, exatamente.
Uma cidade do norte do Iraque, era um enclave do ISIS, exatamente. Portanto, eles saíram e as pessoas regressaram às suas vidas.
Outra também que eu estive-
Dentro da possibilidade
...que eu estive agora há pouco tempo em Alepo, na Síria, uma cidade espetacular, mas a parte central foi completamente destruída pelos russos.
Sim.
Estava lá o pessoal que andava a lutar contra o regime e o pessoal do regime estava no castelo. Foi a única parte que não foi destruída, que é um castelo enorme, que fica mesmo no centro da cidade. O resto, à volta, que era onde estavam os guerrilheiros, vieram os russos com os aviões e destruíram aquilo tudo.
Bombardearam aquilo tudo.
Sim.
Vitor, e a pergunta é: e por quê? Por que um viajante vai ver isso?
Quando eu lá fui, a guerra já tinha acabado.
Sim.
E o castelo ainda lá está inteiro e é espetacular. Alepo é uma cidade espetacular, mesmo assim, apesar de ter grandes partes destruídas, é uma cidade património da UNESCO e é uma cidade espetacular.
Muito bem. Uma pessoa tem que ir ver, seja o que for.
Depois quando chega a uma certa altura em que me faltam 10, 20 países, esses países que me faltam são os piores. São os que ficaram para o fim.
Qual foi o país em que sentiste medo, mas mesmo medo? Aquela coisa do: "Epá". Foi lá no Afeganistão quando viste chegar aquela carrinha cheia de pessoas.
Não, mas isso foi uma coisa rápida.
Foi fogaz.
Acho que nunca senti assim.
Medo? Não.
Sim, não, nunca senti isso.
Nunca sentiste aquela coisa do: "Eu vou me meter na boca do lobo"?
Não. Senti mais naqueles países africanos corruptos, da parte da polícia.
Sim.
Aí já senti medo algumas vezes com polícias a gritarem comigo, querendo dinheiro. Aí sim. Nunca fui assim assaltado com violência. Já me roubaram duas vezes o passaporte, mas foi sem violência.
Pois. Uma delas estavas a dormir, não era?
Uma delas estava a dormir no quarto, em Bangkok E levaram-me o passaporte e o dinheiro. Levaram-me tudo.
Não deste por nada?
Não dei por nada.
Tens um sono pesado. Ou então o artista era um bom artista.
Pois, é. As duas coisas.
Mas então ficaste sem passaporte na Tailândia?
Fiquei sem passaporte na Tailândia.
Como é que se resolve uma situação dessas?
Fui à embaixada portuguesa. Felizmente tinha fotocópias dos meus documentos todos.
Ok.
Eles deram-me um documento para viajar. O bilhete que eu tinha para regressar a Lisboa era a partir de Cingapura, então eles deram-me um documento que permitia-me atravessar a Malásia, Cingapura e França.
Ok.
Aquele documento só valia para esses países, era um documento de viagem, acho que era assim que se chamava. O problema foi depois que eu fui de autocarro para Cingapura e não me queriam deixar entrar na Malásia.
Ui.
E depois andei lá de gabinete em gabinete. Eu estava com um amigo, que eu disse a ele: "Olha, fica aqui no autocarro, não deixes o autocarro ir embora sem mim", que o autocarro queria seguir embora. Andei lá de gabinete em gabinete, então eles depois deram-me 24 horas para eu atravessar a Malásia. E eu nem demorei tanto.
Demora quanto tempo a atravessar a Malásia?
É rápido, talvez umas seis horas.
Ok. E aí apanhaste um voo para França? Não.
Depois apanhei um voo em Cingapura. Eu pensava que em Cingapura ia ter o mesmo problema, mas não. Dei aquele documento e aquilo para eles era como se fosse um passaporte, não me encontraram problema nenhum. Depois fui de Cingapura para Paris.
Ok. Paris, Portugal. Já estavas em casa.
Estava em casa.
Olha, quantos passaportes tens tu?
Eu acho que tenho 10. Era para tê-los contado e esqueci-me. Ou tenho 10 ou tenho oito, com aqueles dois que me roubaram fazia 10. É qualquer coisa assim.
Uau, todos ali cheinhos que nem ovos.
Sim, excetuando o primeiro, que tem meia dúzia de folhas só opadas. Os outros estão todos cheios.
Depois expirou e aí continuou a tua viagem. Disseste que foste assaltado duas vezes, te roubaram o passaporte duas vezes. Uma foi na Tailândia e a outra foi?
Na Costa Rica.
Na Costa Rica.
Sim, na Costa Rica foi dentro de um autocarro, um carteirista.
Opa!
Eu estava a chegar à fronteira. Aí roubaram o meu e o da minha mulher, que tinha os dois passaportes num bolso lateral. Quando o autocarro chegou ao destino, eu levantei-me e fui apertado. E foi nessa altura que me roubaram o passaporte.
Muito bem. Olha, um viajante que já foi a todos os países do mundo, qual é a tua viagem de sonho, Vítor?
A que me falta fazer?
A que te falta fazer.
É ir às Marquesas.
Às Marquesas?
Sim, são umas ilhas que pertencem à Polinésia. São francesas. Estão um bocadinho afastadas de Taiti.
Ok.
Foi lá que morreu aquele pintor muito conhecido, o Gauguin, acho que está lá enterrado. E acho que também há um cantor qualquer muito conhecido que também está lá enterrado, as campas até são perto uma da outra. E aquilo pelas fotografias parece ser mesmo espetacular.
Ok. Estou aqui a ver. Arquipélago das Marquesas. É isso, não é?
É.
Que tem as Marquesas do Norte, as Marquesas do Sul e são cerca de quantas ilhas é que eu li por aqui? Uma data delas. Nunca mais acaba isto.
Sim, mas as ilhas principais são umas cinco ou seis.
Como é que se vai para as Marquesas? Já sabes isso?
Eu estou a pensar ir é de barco.
Ah, de barco?
Sim, é um barco que parte do Taiti e que vai para as Marquesas, depois vai andando de ilha em ilha.
Ok, muito bem, espetacular. Tem 9346 habitantes, as ilhas Marquesas. Espetacular. Olha, parece que foi um tal de Álvaro de Medanha, de Neira, um espanhol, exatamente, que descobriu aquilo. Descobriu, quer dizer, foi o primeiro ocidental a chegar lá.
Chegar às Marquesas.
Isto de descobrir leva-nos aqui para outras discussões. Olha, Vítor, parabéns. Completar a lista dos países todos do mundo é um feito incrível. Conseguiste-o este ano com o Liechtenstein. Estamos a chegar ao fim das "Conversas do Fim do Mundo". Vamos fazer check-out?
Vamos.
Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases. Então, na minha mala vai sempre...
Vai sempre um guarda-chuva pequeno. Sempre.
Mesmo que vás para o meio do deserto, vai sempre um guarda-chuva? Aí não.
Se eu for só para o meio do deserto, não. Mas já tive problemas. Quando vinha do Iémen e fui apanhar o avião ao Omã para ir para o Catar, por causa de ter o carimbo do Iémen, fui levado para uma celinha para ser interrogado.
Sim.
E uma das coisas que os interrogou foi o chapéu-de-chuva. "Isto é o quê?" "É um chapéu-de-chuva." "Chapéu-de-chuva? Do Iémen? Para o Omã, agora estás no Omã, vens do Iémen, vais para o Catar?" E eu: "Sim, mas anda sempre comigo". Mas mirraram com o chapéu-de-chuva.
Uau!
Acharam estranho.
Incrível. A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
Eu acho que foi uma viagem que eu fiz em 2001 com a minha mulher, no Quénia e na Tanzânia.
Foram atacados por leões.
Não. Fomos a seguir à época das chuvas, portanto aquilo estava tudo cheio de água. Atravessámos rios atrás de uma bicicleta. O senhor ia-nos a dizer para onde é que nós tínhamos que ir com o jipe
E tinha um sapador montado numa bicicleta que abre caminho.
Exato. Mete as rodas por onde eu vou.
E vocês iam de jipe?
Eu ia de jipe. E depois andámos perdidos em Massamara. Eu não podia parar, porque se eu parasse o jipe ficava ali que estava tudo enlameado. Depois eu já não sabia de onde é que tinha vindo. Voltei para trás a seguir o meu rasto. Foi uma série de peripécias nessa viagem.
Muito bem. Mas tens boas histórias para contar, não é?
Sim.
Isso é que é importante. O carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter?
Talvez Nauru, que é uma ilha no Pacífico, a única ilha do Pacífico que exige um visto.
E fizeram-te a vida negra?
Não é só a mim, fazem vida negra a todos. É difícil.
A recordação de viagem mais cara, qual foi?
Assim mais cara eu não tenho nenhuma, mas tenho uma difícil. Foram duas cadeiras grandes que eu trouxe de Lamu, que é uma ilha no Quénia. Foi difícil trazer e por isso, apesar de não ter sido muito caro, essas duas cadeiras são quatro tábuas gigantes que eu trouxe da ilha de Lamu num aviãozinho pequenino até Nairóbi primeiro.
Tu és técnico de manutenção aeronáutica, falaste agora de aviões. Quando voas, andas à procura de defeitos?
Não.
Confiança total nas companhias do mundo.
Os aviões são feitos para não haver problemas.
É isso. A refeição mais estranha, qual foi, Vítor?
Não fui eu. Eu provei. A minha mulher gosta de experimentar e então era o que se chamava grass de relva cutter.
Grass cutter. Isso é o quê?
Depois nós vimos quando íamos na estrada. Não sabíamos o que era, ela comeu, eu provei, sabia-me a javali. E depois quando nós vimos eram ratos gigantes. Nós depois vimos eles à beira da estrada a venderem os ratos.
Já depois de comidos.
Já depois.
E vale a pena ou nem por isso?
Soube-me a javali, eu gosto de javali.
Portanto, marchou. Gostava de viajar com?
Eu gostava de viajar com o Michael Palin, que agora já está muito velhinho, dos Monty Python. Ele é um grande viajante, faz viagens espetaculares.
E belos documentários.
Sim.
Muito bem. Aparenta ser um bom companheiro de viagem. Também há maus companheiros de viagem, não há, Vítor?
Sim.
Pode haver.
Pode haver. Depois depende também dos interesses de cada um. Pessoas com interesses diferentes.
Tens tido sorte.
Tenho tido sorte.
Boa, continua com ela. Música, qual foi a música que escolheste para fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana, Vítor?
Foi Chan Chan, de Compay Segundo.
Boa, muito bem. Por alguma razão especial, inspira-te, embala-te nas viagens?
Uma vez, com um amigo meu, fomos ter com um amigo nosso a Moçambique e depois passámos uma noite na Ilha de Moçambique e estávamos numa esplanada espetacular a ver o pôr do sol e começou a tocar essa música Chan Chan, que eu gostava muito desde ter estado em Cuba. E é por isso.
É por isso, muito bem. Vítor, muito obrigado. Um grande bem-haja por teres vindo às conversas do "Fim do Mundo" partilhar um pouco das tuas muitas viagens pelo mundo. És um sortudo, já foste a todos os países do mundo. Oxalá os ouvintes que ouvem as conversas do "Fim do Mundo" também tenham essa sorte, esse luxo e esse privilégio. Muito obrigado, Vítor, uma vez mais.
De nada.
Obrigado. Compay Segundo a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Já sabes, estamos de regresso todos os oito dias. Sejam bons e boas viagens.