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Sejam bem-vindos às "Conversas do Fim do Mundo". Esta semana recebemos uma viajante que fez da água a razão para viajar. Há meia dúzia de anos, foi sozinha à Tailândia com um objetivo: aprender a nadar. Tinha 35 anos, a viagem foi transformadora. Desde então, realizou muitas viagens de pesquisa. Indonésia, Malta, Grécia, Açores e de novo à Tailândia, onde conheceu seres humanos com capacidades aquáticas especiais e fundou a sua empresa de experiências aquáticas. Violeta Lapa, bem-vinda às "Conversas do Fim do Mundo".
Bom dia, João.
Violeta, como é que uma pessoa está 35 anos sem saber nadar?
Com muito medo d'água, com muita vontade de ir para dentro d'água, mas com medo.
Tinhas fobia, apanhaste algum susto? O que é que aconteceu?
Sim, eu quando era pequena, quando eu tinha sete, oito anos, tive dois episódios no meu verão que quase me afoguei. E foi o suficiente pra eu ficar com muito desconforto com a água, de sentir a água e de estar completamente fora d'água durante 25 anos.
E foste à Tailândia aprender a nadar. Por que o outro lado do mundo para esta tarefa que podias ter feito nos muitos quilômetros de costa portuguesa e ainda todas as piscinas municipais que há por este país, Violeta?
Olha, felizmente cruzei-me com um convite, um flyer, para ir até à Tailândia, isto foi há seis anos. E esse flyer convidava para ir até uma ilha encontrar-me com um grupo de russos que se encontra para dançar debaixo d'água. E eu nessa altura, quando vi o flyer, foi mesmo nesse segundo, eu decidi: "Olha, é agora que eu vou transformar este medo, esta experiência e ter uma experiência boa na água, quentinha da Tailândia." E olha, lá fui eu sozinha, passados seis meses, para uma grande aventura.
Para dançar debaixo de água.
Para aprender a dançar debaixo d'água, sim. E claro, ia aprender a nadar, tinha que ser.
Claro. E aprendeste a nadar?
Olha, na verdade, durante aquele encontro de dança aquática, eu não aprendi a nadar. Eu estava agarrada às outras pessoas. Era uma dança à superfície e eu fui aprendendo os movimentos. Mas a seguir ao encontro, a esse gathering, eu fui a um safári de freediving de quatro dias, sem saber muito bem também pra que eu ia. Estive num barco para mergulhar em freediving e foi aí que teve que ser. Foi aí que eu aprendi a nadar.
Nesse tal barco. Olha, esta viagem foi transformadora na tua vida, não foi? Esta viagem à Tailândia.
Esta viagem mudou completamente o rumo da minha vida, foi mesmo transformadora.
Porque aprendeste a nadar ou porque aprendeste a valorizar um meio que antes desprezavas ou temias, que era o meio aquático.
Olha, por muitas razões, não só porque tive essa experiência, que era pra mim um grande sonho. Por trás desse grande medo, era aprender a dançar debaixo d'água e tudo que envolveu esse processo até aprender a nadar. Mas a viagem trouxe muitas aprendizagens e muita inspiração. E foi o que também despertou na minha vida a vontade de desenvolver um novo projeto. Então foi uma viagem que me trouxe mesmo uma visão e uma vontade de seguir um caminho, de seguir a água.
Já vamos falar sobre isso mais à frente no programa. Foi na Tailândia, nesta tal viagem transformadora onde aprendeste a nadar, que tiveste um acidente. Conta-me o que é que aconteceu. Um acidente que também ele foi transformador e importante na tua vida.
Sim. Eu embarquei pra esta viagem, logo no começo, era uma viagem de um mês. Eu tinha muito poucos planos. O meu objetivo era mesmo aprender a nadar e eu tive que fazer várias escolhas. Eu fui com vários medos, não só de viajar sozinha, não dominar completamente a língua, ir ter com desconhecidos, enfim. Fui posta à prova de várias formas. E no começo da viagem, no caminho pra ilha, eu tive um acidente dentro de uma camioneta, onde eu ia, era uma viagem de sete horas e a meio da viagem eu estava sem telemóvel, fui buscar o carregador à mala e dentro da mala da camioneta, da bagageira, eu bati com a cabeça, espetei um prego enferrujado na minha testa. E quando aquilo aconteceu, perdi logo os sentidos, comecei a desmaiar e não estava a perceber bem o que estava a acontecer.
No meio da Tailândia.
No meio do nada, ou seja, num sítio que ninguém falava inglês. Eu depois saí da bagageira dentro do carro, da camioneta, e as pessoas à minha volta a gritar: "Hospital, hospital!" E eu dirigi-me pra casa de banho, aos esses, a ver os guinchos de sangue, não estava a perceber bem como é que eu estava, queria ver ao espelho. E quando voltei, vi como é que estava e consegui acalmar e ver o o golpe que eu tinha na testa. Quando voltei, a caminhonete tinha ido embora sem mim, e eu estava completamente sem telemóvel, sem dinheiro, documentos, sem nada, só eu.
Foi-se embora com a tua bagagem lá dentro.
Foi com tudo. Eu fiquei sozinha ali numa paragem em que ninguém falava inglês.
Com a cabeça a jorrar sangue, não é?
Sim, já estava melhor naquele momento, mas consegui que depois a caminhonete regressasse com gestos e pedir para resolver a situação. Mas aquele episódio de acima de tudo estar mais atenta, de ver as coisas à minha volta, deu-me uma terra. Ver a viagem e as coisas com outro olhar, ou seja, estar mais atenta.
Por quê? Porque eras aluada até aí?
Não era aluada, mas eu estava muito deslumbrada com o que poderia ser a viagem. Estava muito entusiasmada e que tudo era possível e que ia viajar pelo mundo.
Foi logo no início da viagem à Tailândia.
Sim, foi logo no terceiro dia. Eu estava muito entusiasmada e estava já a pensar nas viagens no mundo.
Foi uma espécie de alarme. Cuidado, Violeta. O mundo também tem pregos ferrugentos e espinhos. O mundo tem espinhos.
E foi também um exercício de imaginar o que seria se tivesse sido mais grave. Eu lembro-me de ir as seguintes três horas e meia de viagem, completamente em gratidão a lembrar das pessoas importantes da minha vida o que poderia ser se tivesse sido pior. Foi um momento muito bonito também de pensar nas pessoas especiais da minha vida.
Ok.
Até chegar à tal ilha.
Onde tu aprendeste a nadar e aprendeste a dançar. Portanto, a caminhoneta lá regressou.
Onde foi toda uma aventura.
Toda uma aventura. A caminhoneta lá regressou e trouxe as tuas coisas, e tu prosseguiste a tua viagem.
Exato, sim.
Olha, Violeta, depois desta viagem à Tailândia, de um mês, tu realizaste muito mais viagens, sobretudo viagens de pesquisa.
Exato.
Para encontrar o quê? Sempre a relação do ser humano com a água. Explica-nos que viagens de pesquisa foram estas que tu realizaste a partir daqui.
Quando regressei desta viagem, eu comecei um projeto logo, criei uma empresa, um projeto que se chama Oceans and Flow, e comecei a pesquisar a água de várias formas. Fiz 32 viagens. 30 viagens foram nos primeiros três anos e meio, depois veio esta fase de pandemia.
E a locais como, por exemplo?
Foram todas entre ilhas. Eu tenho vindo a viajar e a viver entre ilhas e tenho desenvolvido aqui uma base entre quatro ilhas, que são na Tailândia, onde tudo começou, nos Açores, na Grécia e no Brasil. E fui a mais duas, na Indonésia e também em Malta, sempre para interagir com pessoas que trabalham com a água de várias formas, desde bailarinos aquáticos, cientistas, atletas, herbalistas, anciões de uma tribo aquática. Também fui duas vezes visitar uma tribo aquática na Tailândia. E sempre para perceber como é que eu poderia desenvolver mais profundamente a minha conexão com a água e poder partilhar também esse conhecimento, e envolver essas pessoas também nestas histórias que tenho vindo a partilhar e neste trabalho aquático.
Foste à Tailândia, onde conheceste pessoas que têm capacidades subaquáticas especiais, portanto, são uma espécie de super-homens com uma capacidade de adaptação ao meio aquático. Diz.
São o povo golfinho, os Moken. Sim, são conhecidos pelo povo golfinho. Eu quando fui a primeira vez, eu ouvi falar, um amigo apontou para o horizonte e disse: "Olha, se estás a ver lá ao fundo, ali há uma ilha que tem lá um povo que nada de uma forma especial e aguenta um imenso tempo embaixo da água." Eu, passado um ano, voltei lá pela primeira vez. Fui lá visitar com um grupo e fomos conhecer então os Moken, que vivem nas ilhas Surin, numa ilha magnífica, numa ilha deserta, e que são gerações e gerações na água e têm uma mutação genética no olho, por passarem estas gerações todas desde que nascem na água, que eles não precisam de usar óculos, eles veem nítido debaixo d'água. E eu fui lá para aprender a nadar como eles, o movimento aquático deles, e conhecer um pouco mais também das tradições, como é que eles estão hoje em dia.
Violeta, estamos a falar de pessoas que vivem como? Para já, quantas pessoas são? Deduzo que seja uma tribo pequena.
Sim, eles antes passavam cerca de mais de seis meses no mar e depois vinham uma temporada para terra. E neste momento estão só em terra. O governo tailandês não lhes permite ter a vida que tinham antes no mar.
Portanto, é possível que venham a perder as suas capacidades de adaptação ao meio aquático, é isso?
É possível, sim. É possível que eles não passem tanto tempo na água. Eles neste momento vivem mais do artesanato, da venda de artesanato e das visitas das pessoas à sua ilha.
Mas eles adaptaram-se fisicamente ao meio aquático? Porquê? Porque pescavam debaixo d'água?
Sim, eles pescavam. Toda a família vivia no barco. Eram pescadores e faziam grandes apnéias de mais de nove, 10 minutos. São mesmo golfinhos.
Darwin tinha razão. Todas as espécies se adaptam. Adaptam-se e depois evoluem. É incrível.
Neste caso, a evolução é para o turismo. E sente-se no olhar deles, no estilo de vida, como se a essência deles não fosse aquilo que eles realmente são. Sente-se uma tristeza por eles estarem como se estivessem presos numa ilha para receber pessoas. Mudou um pouco o cenário e são muitas pessoas que os visitam e já se sente a presença até de redes sociais. Ver os pequeninos, os índios agarrados a um telemóvel a ver vídeos no YouTube. É uma outra realidade agora dos Moken.
Chega o progresso, mas também se desvirtua um pouco aquele modo de vida autêntico. Olha, foi fácil tu interagires com esta tribo Moken na Tailândia?
Sim. Tenho uma maravilhosa parceira local que também tem o cuidado de desenvolver um turismo mais responsável, de levar apenas um grupo de cada vez. Então tivemos uma experiência mais próxima, sermos só nós com eles. Mas ela apoiou nas traduções e nessa aproximação também de poder saber mais sobre a vida deles e os costumes também ligados à água.
Isso é fantástico, espetacular.
Fomos nadar com eles também.
Sim?
Sim, fomos mergulhar, fizemos trilhas aquáticas com eles e foi muito bonito de ver também essa parte, na prática.
Mas não nadaste nove minutos debaixo d'água sem respirar?
Nadei mais de nove minutos, mas não foi sem respirar.
Sem respirar. Com ajuda, claro.
Sim.
E deduzo que também com máscara de mergulho para ajudar a visão.
Sim, anda sempre comigo.
Muito bem. Olha, Violeta, portanto, Tailândia, também a Grécia, Brasil. Por que a Grécia? O que é que há de especial na Grécia e no meio aquático grego que te atrai?
Olha, eu fui convidada para apresentar um filme da Oceans Unflowing, um filme aquático num festival de cinema, numa ilha, em Amorgos, no Mar Egeu, e fui lá parar a essa ilha, que é muito especial, uma ilha pequenina, com 1000 habitantes. E fiquei encantada com a ilha. Foi a ilha onde cresceu Jacques Mayol, o primeiro mergulhador que chegou aos 50 m de profundidade. Eu, na altura, não o conhecia. Quem já viu o filme "Le Grand Bleu", é sobre a biografia dele. E depois ali, quando cheguei à ilha, abriu-se todo também um com a ilha, o querer contar as histórias da ilha, o querer fazer uma homenagem ao Jacques Mayol e viver também esta experiência aquática na ilha. Então, passado um ano, organizei lá uma viagem e fui visitando mais vezes. É uma ilha que está no meu coração e que eu sinto mesmo casa. Estou com muitas saudades e quero muito voltar. Tenho lá muitos amigos. Gosto imenso de trabalhar com gregos, de tudo da Grécia, da comida, acima de tudo das pessoas que fui conhecendo.
Dizem que os gregos são muito parecidos conosco, é verdade?
São muito expressivos, são muito amigáveis, são muito coloridos.
E isso aplica-se a todos os gregos, aos continentais e aos insulares?
Sim, conheci ambos e eles são muito comunicadores, falam muito alto e são muito entusiasmados.
Muito bem, Violeta, estamos a chegar ao final da primeira parte. Abrimos o teu álbum de viagem. Violeta Lapa, que objeto guardas das tuas viagens e que te é muito especial e que guardas com muito carinho?
Olha, estou agora a olhar para ele. Tenho aqui de uma viagem recente, é uma conchinha que eu apanhei nos Açores e que me traz aqui recordações não só de como o mar está agora, chamam-lhe a orelha do mar, então é essa escuta do mar e está aqui este objeto, esta lembrança especial.
Tem uma história? Apanhaste-a em que contexto?
Eu apanhei-a numa viagem de veleiro. Foi recentemente, foi em setembro, e já não mergulhava nos Açores há dois anos e conecta-me aqui com como está o mar dos Açores, que por onde eu andei vi muito menos vida marinha. Então traz-me aqui lembranças boas do azul dos Açores, mas também uma chamada de atenção como está a realidade, para também cuidar do mar, fazer a minha parte no dia a dia.
Muito bem. Final da primeira parte, regressamos já a seguir a uma curta pausa com reflexões aquáticas. Até já. Segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com a viajante aquática Violeta Lapa. Violeta, na primeira parte contaste-nos um pouco por onde tens andado por esse mundo. Tailândia, Grécia, Brasil, Indonésia, enfim, também os Açores. Sabemos e já percebemos que tens uma relação muito forte com a água, é o teu elemento, é o que te faz viajar. Aliás, muitas das tuas viagens nos últimos anos têm sido feitas para pesquisar sobre a relação do ser humano com a água. Vamos pegar aqui numa última viagem que realizaste, que foi aos Açores. Fizeste uma expedição para realizares um documentário sobre comunicação de espécies. O que andaste a fazer nos Açores propriamente num veleiro, com quem e por onde?
Essa viagem, a expedição Açores Atlantis, aconteceu há dois anos e foi uma continuação também da pesquisa das viagens anteriores. Eu já tinha ido 18 vezes aos Açores e convidei, reuni uma equipa internacional de especialistas em comunicação interespécies. Veio conosco a Leina Sator, que é mergulhadora japonesa, veio do Havaí e há 20 anos que mergulha com baleias e veio partilhar o seu conhecimento. Tivemos conosco também o Matteo Pelli, fotógrafo, aventureiro, autor, trabalha com a National Geographic e aceitou este desafio de documentar a expedição, neste caso, uma aventura aquática. Veio também Jamarridi Islam, que é especialista em tubarões e é conhecido como o encantador de tubarões e é fascinante também a história dele. Aprendi muito com tubarões, é algo que também tem vindo a crescer, este amor não só pela comunicação com seres marinhos, mas também com tubarões.
A expedição tinha aqui um denominador comum, estamos a falar de pessoas que iam a bordo, que desenvolvem trabalho, como tu dizias, de pesquisa sobre a comunicação interespécies. O que me leva à pergunta e perdoa o meu espanto: é possível as espécies comunicarem?
Claro, todos comunicam, todos têm a sua linguagem, os seus sons. Se nós estivermos atentos, podemos identificar, mas também é possível através do movimento, da nossa presença, como nós estamos. Não só o aprender ou relembrar a habitar este meio, o meio aquático, como nos movermos sem ser em pânico ou, neste caso, como controlar melhor a respiração. É como conheceres alguém a primeira vez, como é que te apresentas? É possível interagir, brincar.
Mas isso é possível entre um ser humano e, sei lá, no meio aquático, uma baleia, um tubarão?
Claro que sim. Eles são supersensíveis e têm muita sabedoria, muito para nos ensinar.
Mas tu já presenciaste algum episódio de comunicação direta entre um ser humano e um animal aquático?
Sim, eu já vivenciei e já contemplei e foi algo que também se abriu. Nunca tinha pensado nisso, como também não ia para baixo d'água.
Mas conta, onde é que foi e como? Em que circunstâncias?
Lembro-me do primeiro momento, claro que foi marcante. Foi nessa tal primeira viagem de Tailândia em que eu aprendi a nadar. Passado um dia, uma das amigas que estava no barco mergulhou e não estava nenhum animal debaixo d'água e ela chamou as mantas, as raias.
Chamou?
Chamou. Sim. Chamar quando tu pensas, colocas essa intenção, é possível comunicar, é possível sem palavras. Eles sentem não só em termos de batida do coração ou da tua presença, conseguem ouvir, conseguem escutar e têm muita sensibilidade. É algo que se pode desenvolver.
Mas não serão atraídos esses animais pela curiosidade, pergunto eu?
É possível desenvolver esta comunicação mais subtil. E não é só com animais, também na natureza, com a natureza.
Porque, por exemplo, se eu chapinhar na água, é possível que atraia animais, não é?
Sim, depende.
Isso não é um ato de comunicação. Diz, Violeta.
Pode ser. Pode despertar a curiosidade, mas se chapinhares, pode ser que até, por exemplo, o golfinho fuja. Depende da delicadeza ou da forma como tu fazes essa chamada de atenção, essa interação.
Mas aí é uma interação, não é um ato comunicacional.
Eles são muito curiosos e se tu fazes um movimento mais gracioso, sem ser brusco e que mostra que estás com medo, eles aproximam-se para Comunicar para ter uma interação. É quase como um jogo. Há uma cumplicidade e é muito interessante. Cada espécie tem o seu feitio, sua personalidade. São milhares de espécies e há muito por descobrir. É completamente fascinante.
Queres dar-nos mais exemplos de comunicação entre humanos e espécies aquáticas por esse mundo fora? Já nos falaste dessa experiência de uma senhora que conheceste na Tailândia que chamava mantas e interagia com elas.
Sim, a Sasha.
Mas há mais? Tens mais exemplos que viveste nas tuas viagens, Violeta?
O meu pessoal, mas tenho vindo a aprofundar a minha parte, de estar com um tubarão e olhar a expressão dele. Neste caso, era uma expressão cômica, parecia que estava a olhar para mim como se nunca tivesse visto um ser humano. Franziu o olho e tipo: "O que é isto?"
Um encantamento.
Não, foi mesmo quase indiferença. Não teve nenhum interesse em mim. Foi a primeira vez que estive com um animal maior e sem estar a contar. Não estava preparada, então foi sentir o medo, sentir o coração bater, mas conseguir manter a calma e ir-me embora de fininho.
Onde é que foi e como é que foi esse encontro?
Foi nos Açores, foi nessa expedição. Eu estava a produzir a expedição, então estava mais com esse papel de backstage, não tanto de ter as interações, porque eram eles os especialistas que estavam a partilhar essa performance e esse conhecimento. E eu tive aquele episódio inesperado e foi muito bom para também me desafiar e perceber que não é preciso ter medo. Quero estar mais e quero aprofundar mais esta possibilidade de comunicar com eles.
Muito bem. Mas essa experiência, o que é que tu querias fazer com ela?
Nessa parte da viagem, fomos filmar um documentário em Santa Maria, mas a expedição durou quase dois meses e teve várias atividades que também envolviam a comunidade em São Miguel e foi para partilhar não só sobre o movimento aquático e este conhecimento. E esta expedição depois evoluiu para um programa educativo para jovens, que estamos agora a desenvolver, que é o programa Atlantis, e continuam as viagens nos Açores, mas não em formato de expedição como um projeto audiovisual, mas para qualquer pessoa se poder juntar a uma viagem e ter esta experiência do movimento aquático.
Movimento aquático, tens que explicar melhor isso aos nossos ouvintes. O que é o movimento aquático?
Exato. Nós temos vindo a pesquisar quatro práticas aquáticas, que é a terapia aquática. A grande maioria das pessoas tem muito medo da água ou não tem uma relação física, então muito gradualmente, existem dezenas de terapias aquáticas e são sessões que são com o pé, em águas quentes, então é confortável, é seguro. E gradualmente, essa prática aquática vai evoluindo para o mergulho. O mergulho em apneia, sem respirar, onde ensinamos essa ferramenta de como respirar de uma forma mais, neste caso, consciente, para expandir essa capacidade de estar mais tempo debaixo d'água. Chama-se freediving, mergulho livre. Uma outra prática é a dança subaquática, a tal dança que eu fui aprender na Tailândia. É possível dançar à superfície, um pouco mais fundo, sempre respeitando o ritmo de cada um e sobretudo divertindo-se e contemplando esta beleza toda que está debaixo d'água. E a quarta e última prática aquática que temos vindo a pesquisar é o body surf, que é surfar só com o corpo, sem prancha. Também é muito divertido. É uma prática que nasceu lá no Havaí e tenho vindo também a aventurar-me, a desafiar-me nas ondas.
Portanto, já percebemos que és uma verdadeira apaixonada pela água.
Completamente, sim.
Mergulhas todos os dias no mar, Violeta, ou não?
Não, eu moro perto do mar, aqui em Sesimbra, mas todas as manhãs mergulho. E estou na água, nas sessões aquáticas que dou na piscina. Se pudesse, mergulhava todos os dias.
Porque a água tem um efeito terapêutico sobre ti, sobre o ser humano? Acreditas nisso?
Sim, a água tem muito para nos ensinar e as várias paisagens aquáticas dos vários contextos. O mar tem essa capacidade de nos energizar. Não há nada como um bom banho d'água geladinha, aqui da Arrábida.
Da Torre Quebrada.
Para acordar e para trazer energia e inspiração. E sim, podemos passar momentos muito divertidos e é lindíssimo debaixo d'água, contemplar essas paisagens. Eu acho que é muito mais bonito debaixo d'água do que cá fora.
Ah, é?
Tenho visto paisagens deslumbrantes.
Então vamos lá.
Não há palavras.
Vamos enumerá-las. No topo da tua lista Qual é a paisagem mais deslumbrante que viste até hoje?
No topo da minha lista está Arrábida. O Parque Marinho da Arrábida é lindo.
O Parque Marinho Luiz Saldanha, não é?
Exatamente.
Onde só se pode basicamente nadar e vislumbrar, não é? Quase todas as atividades são proibidas.
Podes fazer várias práticas. Não podes pescar, nem recolher animais ou algas, o que seja, mas podes mergulhar de várias formas.
Então, mas está no teu topo, por quê? O que se vê lá embaixo, Violeta?
Tenho estado em vários sítios do mundo a mergulhar e uns com mais vida que outros. Outros, como por exemplo, os Açores, a Grécia, onde eu estive é um deserto, é uma dor. Tu mergulhares e tens montanhas debaixo d'água, mas não vês um único peixe. Isto não é normal e é cada vez mais comum. Por todos os sítios onde eu estive, e já estive em sítios bem, ilhas praticamente desertas, os sítios mais escondidos, encontrei sempre plástico, microplástico, e tenho vindo ao longo destes cinco anos, que é a minha experiência, ainda é recente, ver cada vez menos peixe no mar. Isto é assustador.
E na Arrábida, não. Aí na Arrábida vê-se peixe?
Na Arrábida tem cerca de 200 espécies de peixes, depois tem muitas mais, tem mais de 2000 espécies de seres aquáticos. Mas nesta fase de pandemia, regenerou bastante o mar. Vê-se muito mais jardins aquáticos, lindíssimas florestas aquáticas, hipnotizantes.
É uma zona de pradarias marinhas, não é?
Também. Há três tipos de florestas aquáticas aqui na Arrábida. Uma delas são as pradarias marinhas, que são importantíssimas para o equilíbrio do ecossistema marinho e também que é combate às alterações climáticas. Mas Arrábida é, sem dúvida, aquele local onde, por mais que eu viaje, tenho saudades imensas e aqui tenho tudo daquilo que eu faço, gosto e desenvolvo no meu dia a dia. Este é o meu paraíso, é o sítio perfeito para viver e aprofundar aquilo que eu faço.
Muito bem, então és feliz.
Sou muito feliz aqui na Arrábida.
Fantástico, muito bem. Olha, Violeta, estamos a chegar ao final do programa. Vamos fazer checkout?
Vamos a isso.
Vamos embora. Então, peço-te para completares as seguintes frases: na minha mala vai sempre...
Uma máscara de mergulho.
Sempre, não passas sem a máscara, porque é preciso ver bem por onde andamos.
Ela é levezinha, ocupa pouco espaço e é super divertido. Não falha.
Não falha. O carimbo de passaporte mais difícil de obter foi?
Eu não tive propriamente um carimbo difícil. Mas tive algumas viagens com mais peripécias.
Foi? Qual foi então? Saltamos já para a próxima frase. Qual foi a viagem com mais peripécias que fizeste até hoje?
Estou me a lembrar aqui de duas, mas eu diria que esta da Tailândia, que eu partilhei um bocadinho hoje, foi a que mais me marcou.
A que partiste sozinha para a Tailândia para aprender a nadar e dançar.
Exatamente.
Olha, não explorei este lado, mas responde-me rapidamente. Tiveste um momento de êxtase individual quando soubeste finalmente sei nadar?
Foi uma alegria, eu comecei a nadar muito rápido e quando percebi que me sabia mexer e que estava segura, não dava a acreditar.
Tiveste aquele sentimento de arrependimento que eu andei a perder a vida toda?
Não. Agora é que começou a vida.
Fantástico. Olha, a refeição mais estranha que comi, qual foi, Violeta?
Foi uma em Rovaniemi, na Lapónia, que eu estava na altura a trabalhar na Terra dos Sonhos, estava com um grupo de crianças e íamos lá com a missão de estar com o Papai Noel. E várias atividades que tivemos envolviam carta, eles aprenderam a carta de condução de rena e nesse dia deram-nos um prato que não estávamos nada a contar, deram-nos rena.
Rena?
Deram-nos rena.
Como se estivessem a dar costeletas de porco, por exemplo.
O chocante foi nos aproximarmos deles e depois comê-los, os miúdos ficaram bastante chocados.
E a carne de rena sabe bem, Violeta?
Ela é tenrinha, sim, mas hoje em dia como muito menos carne. Mas sim, tem um sabor.
Recomendável.
Não diria, mas foi uma experiência.
Foi uma experiência. Olha, a recordação de viagem mais cara?
Foi em Fernando de Noronha.
No Brasil.
Sim, foi uma viagem de pesquisa que eu fui lá e que todos os dias experimentei várias práticas aquáticas que a ilha oferece. E Noronha é muito caro estar lá, não só diariamente, cada dia que passa a taxa vai aumentando e tudo é muito caro lá. Uma refeição é 50 € a partir daí. Um açaí, 25 €, enfim. Foi uma bela viagem e depois abriu-me também a ilha. Valeu a pena. Foi uma recordação de viagem cara, mas valeu.
Mas vale a pena.
Mesmo.
E para finalizar, gostavas de viajar com?
Eu gostava de viajar com a Sylvia Earle.
Quem é a Sylvia Earle?
A Sylvia Earle é conhecida pela Senhora Profundidade. Ela é uma senhora maravilhosa, com 86 anos, oceanógrafa e tem vindo, nos últimos 60, 70 anos, a dar voz ao mar. Ela criou a Mission Blue e tem vindo a criar hope spots no mundo, reservas debaixo d'água que são locais de regeneração do mar, de chamada de atenção. Espero ainda ter a oportunidade de a conhecer pessoalmente e adorava poder mergulhar com ela ou estar com ela nos Açores.
Muito bem, vamos ver se isso acontece. Boa sorte, Violeta. Agora sim, chegamos ao final da nossa conversa. Que música trouxeste para fechar o programa desta semana, Violeta Lapa?
Trouxe uma música aquática dos Zero 7, que se chama "Swimmers".
Muito bem.
Para nós mergulharmos mais um bocadinho.
Muito bem.
Nadarmos.
Violeta Lapa, muito obrigado por teres estado comigo na última hora aqui na Rádio Observador. Bons mergulhos.
Obrigada. Muito obrigada, João, foi um prazer.
Essa "Swimmers" dos Zero 7 a fechar a conversa do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso hoje oito dias. Boas viagens e até lá.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.