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É com muito prazer que damos as boas-vindas ao convidado extra de hoje, Joaquim Sampaio Cabral, professor catedrático, diretor e fundador do Instituto de Bioengenharia e Biociências do Instituto Superior Técnico, que nos fala da medicina regenerativa, células estaminais, criação de órgãos para transplante e a impressão em bio3D de órgãos humanos. Isto tudo a propósito da terceira e da última sessão dedicada à regeneração, deste ciclo sobre a longevidade, promovido pela Culturgest, que vai decorrer amanhã à tarde, em live streaming. Boa noite, Joaquim Sampaio Cabral e muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Bem-vindo ao Observador.

Muito boa noite, João Paulo Secadura. É um prazer dialogar consigo e transmitir alguns aspetos que são importantes para a nossa vida, para a longevidade e, sobretudo, para a qualidade de vida que nós poderemos almejar também com a longevidade.

Exatamente, porque isso, por acaso, é uma questão importante que sempre me falaram. A esperança média de vida aumentou muito, nós estamos a viver cada vez mais, 80 e tal anos, 81, à volta disso. Mas o importante não é a gente viver muitos anos, é a gente viver bem, porque em Portugal, por exemplo, cada vez há, se calhar, mais idosos, mas também com cada vez mais doentes crônicos e a ocupar mais os serviços de saúde. Não é isso que se pretende. Pois não?

De maneira alguma. Quando nós falamos de medicina regenerativa e na longevidade, há sempre esta dualidade de termos longevidade e envelhecimento. O que nós pretendemos é ter uma longevidade saudável, isto é, com qualidade de vida.

Exatamente.

O aspecto da medicina regenerativa, em termos de uma breve definição, se quisermos, ou de conceito, esta é uma área científica emergente. E o seu objetivo principal é restaurar a funcionalidade de tecidos, órgãos ou partes do corpo que tenham sido danificados por trauma, doença ou envelhecimento. E como é que nós podemos alcançar este objetivo? Bom, o papel da medicina regenerativa é através de terapias moleculares e celulares e a criação de órgãos de substituição, de maneira a nós termos uma melhor qualidade de vida. Este será o conceito.

Exatamente. O conceito básico. A sua formação básica é de engenharia química e depois doutorou-se em engenharia bioquímica, é fellow do MIT, e investigador, desde há oito anos, do Laboratório de Bioengenharia de Células Estaminais e Medicina Regenerativa, que pertence ao Técnico, ali no Tagus Park. Publicou centenas de artigos internacionais nesta área da biotecnologia, engenharia de células estaminais e medicina regenerativa. E estamos a falar exatamente deste ciclo que está a acontecer, em três sessões, já foram duas, esta que vai acontecer amanhã é a última. Este ciclo, o "Who Wants to Live Forever", o ciclo Longevidade, promovido pela Culturgest, em parceria com a Fidelidade, em torno da crescente longevidade humana e dos impactos na investigação científica, do envelhecimento, na saúde e na medicina, e também na sociedade. Nós tivemos aqui já uma convidada, a Ana João Sepúlveda, que veio cá falar a propósito da conferência do dia 3 de junho, a segunda, sobre as implicações sociais. Falou da economia da longevidade e do idadismo. E então amanhã, dia 23, às 16h30, vai ser a última sessão, e vai ser consigo. É um dos oradores convidados para esta conferência live streaming sobre o papel da medicina regenerativa na longevidade. Estamos agora a falar com projeções que dizem que, em 2050, mais de 20% da população mundial vai ter acima de 80 anos. É muito importante a medicina regenerativa, que há muitos estudos sobre como desacelerar o processo de envelhecimento. E se não me engano, há muito pouco tempo, a própria Organização Mundial de Saúde mudou um bocado estes catálogos, considerando o envelhecimento como uma doença. Isto é uma coisa nova. Pode ter muitas doenças, mas o próprio processo de envelhecimento foi considerado uma doença e, portanto, procura-se uma cura. Mas alguém pode ser curado de envelhecer, professor?

Na perspectiva que temos e nesta definição que é recente, como disse, a Organização Mundial de Saúde, que ainda há poucos anos era uma controvérsia, é considerar por que o envelhecimento é uma doença. Isto é porque quando se vai à definição de doença em si, é conhecido certos termos, nomeadamente, que uma doença é uma condição do corpo de uma pessoa, em que há uma parte das suas partes que não terão o funcionamento normal e que normalmente se manifestam por sinais e sintomas distintos. E a doença é uma resposta a diferente tipo de fatores ambientais, infecciosos, vejamos até a atual pandemia.

Exatamente.

Defeitos inerentes ao próprio organismo, ou seja, anomalias genéticas ou combinação desses fatores. No envelhecimento, nós temos alguns destes tópicos que são coincidentes. Foi considerado como tal o envelhecimento uma doença. Bom, sendo considerado como uma doença, nós podemos prever então como é que podemos tratar essa doença. Eu não sou médico, eu sou um engenheiro químico de raiz.

Exatamente. Aliás, é muito engraçada esta ligação e o Joaquim é dos primeiros a reparar nisso e a falar disso, esta ligação entre a área técnica de engenharia com a da medicina. Cada vez é mais frequente estas biotecnologias. Cada vez este diálogo tem que ser maior e é muito bom para as duas partes.

Sem dúvida alguma. Obviamente que a nível do país e no Técnico e por todo o mundo, atualmente há áreas de interface, de interação, eu diria até de convergência entre a engenharia, as ciências, tecnologias e a medicina. Portanto, isso de facto é a grande riqueza que nós podemos ter e conseguir avançar em vários domínios. Não só daquilo que se faz atualmente com próteses ou outro tipo de tratamentos moleculares, por exemplo, com vacinas. Tudo isto teve uma base também tecnológica de produção, por exemplo, de vacinas, ou de produção de anticorpos monoclonais, que também serão outros componentes importantes para tratamento, nomeadamente atualmente de cancro. Mas esta área, de facto, de convergência, direi, entre a bioengenharia e a medicina, eu acho que é extremamente importante.

E ao pormenor que já se chegou. Eu estou me a lembrar, por exemplo, do caso da pequena Matilde. É uma terapeuta genética, consegue-se alterar um gene, é uma coisa impressionante, com aquele remédio mais caro do mundo.

Por isso é que quando eu há bocado referia na parte da medicina regenerativa, inicialmente, nós estávamos a pensar em engenharia de tecidos e era muito na reparação de um tecido. O que era normal, por exemplo, na regeneração de doenças, por exemplo, com artrites ou de fraturas. Mas cada vez mais nós vamos conhecendo qual é o papel das células e dos tecidos. E o papel das células e dos tecidos muitas vezes é através de moléculas que elas produzem, normalmente proteínas, ou fatores de crescimento, ou citocinas, ou agentes anti-inflamatórios, que vão contribuir para aquilo que se designa uma terapia molecular. E dentro das terapias moleculares, se conseguirmos corrigir um gene defeituoso à nascença ou até antes da nascença, através da chamada terapia gênica, teremos um contributo muito importante para o aumento também da qualidade, obviamente, de vida e expectativa também de esperança de vida.

Joaquim, por que nós envelhecemos? É só as células que se degradam ou há também genes que começam a funcionar de maneira diferente, portanto, é possível poder manipulá-los, por exemplo?

Há os vários fatores. Eu diria que o processo de envelhecimento normalmente é devido a uma acumulação gradual de danos moleculares e celulares. E o que acontece com esta acumulação gradual de danos moleculares e celulares? Conduz à degeneração dos tecidos e perda da funcionalidade dos órgãos. Isto é o que intervém a nível do processo de envelhecimento. Qual é a sua consequência? Nós sabemos que as consequências do envelhecimento é normalmente a diminuição da imunidade. Portanto, aquilo que eu estava a referir a nível dos genes, por exemplo, que poderão conduzir a uma diminuição da imunidade e, nesse caso, havendo uma diminuição da imunidade, há um aumento do risco a contrair. E a associação também a várias doenças, com efeitos que obviamente que têm na sociedade humana, nos termos de saúde e na economia. Essas doenças que são consequência do envelhecimento, são doenças induzidas pela idade. Artrite, cardiovascular, cancro, demência, osteoporose, diabetes, hipertensão, obesidade, depressão, etc. E podem afetar a visão, a audição, a força muscular, massa óssea e a imunidade. E também, como referiu, um fator de risco para o próprio desenvolvimento de cancro. Portanto, estas são as consequências do envelhecimento em si.

Nós vamos já a seguir retomar para falar da criação, concretamente, de órgãos para transplante, por exemplo, e da regeneração de órgãos. Por que a orelha do Van Gogh não voltou a crescer? Já vamos falar disso, vamos fazer aqui uma pequenina pausa e já voltamos. Estamos a falar com o Joaquim Sampaio Cabral, catedrático, diretor e fundador do Instituto de Bioengenharia e Biociências do Instituto Superior Técnico, que nos vem falar da medicina regenerativa na longevidade. Falámos, Joaquim, por que nós envelhecemos. É muito importante esta questão da criação dos órgãos para transplante. Já lá vamos, que eu estou muito curioso com isto do 3D bioprinting, quero saber mais sobre isto. Mas falamos também da regeneração de órgãos. Há animais, lagartixas, as salamandras, que conseguem regenerar membros inteiros, as estrelas do mar. Há o axolote, por exemplo, aquele mexicano estranho que tem as galgas de fora. Se não me engano, até já se conseguiu fazer um transplante de cabeça, que é uma coisa extraordinária. Eu lembro sempre do Sérgio Canavero, aquele polêmico neurocirurgião italiano da Universidade de Turim, que se propôs há dois anos transplantar uma cabeça inteira e teve até este voluntário, este russo, o Valery Spiridonov, mas depois que saiu, que sofria da tal atrofia muscular da coluna, cá está. É muito polêmico este processo e toda a gente diz que é bluff, ele diz que já conseguiu, mas que será um bluff técnico. Estamos a falar das células estaminais, concretamente, porque já toda a gente sabe que é um processo muito importante para regenerar, para se autorrenovar e para se diferenciar em tecidos. Antigamente só se conseguiam com aquelas células tiradas dos embriões. Hoje em dia, e estamos a falar do Prêmio Nobel 2012, com a descoberta deste iPSd, Induced Pluripotent Stem Cells, portanto, já é possível tirar células adultas, não sei se do sangue, se da pele, para se reprogramarem e tornarem células imaturas capazes de desenvolverem todos os tecidos do corpo. Isso foi um grande avanço para esta regeneração. Mas a nossa evolução preferiu que nós combatêssemos as patogêneses, as inflamações e as infecções do que propriamente regenerar órgãos. Portanto, nós podemos conseguir compensar isso?

Sem dúvida. Deixe-me só referir, tomando aquela biologia comparada entre espécies. Essa reparação, regeneração e envelhecimento de tecidos, daquilo que referiu. É verdade. Sabe que a grande diferença que existe entre os seres humanos E essas espécies, como a hidra, protozoários, minhocas, etc, é a grande quantidade de células estaminais que essas espécies têm.

Pronto. Ok.

Por exemplo, a hidra parece ser um embrião permanente. Minhocas.

Sim. Ao serem cortadas, completam-se outra vez, corta-se outra vez, completam-se outra vez, têm essa capacidade quase infinita de se autorregenerar.

Repare uma coisa, 20% das células do corpo são células estaminais. O que acontece conosco? Só a nível do exemplo de um tipo de células que são bastante importantes, que são as células do mesênquima, células estaminais do mesênquima, ou chamado células estaminais mesenquimatosas. São células que num recém-nascido, há uma célula em 10 mil células.

O rácio, sim.

O rácio. Aos 80 anos é uma célula em dois milhões, perdemos drasticamente, e aos 50 é uma célula em 400 mil. Nós perdemos drasticamente. Por isso é que muitas vezes, a nível de fontes de células estaminais, se utilizam, por exemplo, o cordão umbilical ou a própria placenta, que são resíduos, desculpem este termo, são resíduos hospitalares. Mas são uma fonte deste tipo de células. Estas células têm uma particularidade muito importante, que são células, podemos dizer, entre aspas, quase universais. Isto é, produzem uma grande quantidade de componentes, de citocinas, através daquilo que se chama de vesículas extracelulares, e que são aquelas que são utilizadas em vários tratamentos já hoje em dia.

Portanto, é uma terapêutica que já está a ser empregada. Está a falar daqueles casos, por exemplo, que se usa em urologia e em ortopedia e da regeneração dos tecidos do coração, depois do infarto, por exemplo, é o caso disso?

Sim, no caso do infarto, por exemplo, nós temos várias parcerias hospitalares, nomeadamente com o Hospital de Santa Marta aqui há uns anos. Na própria sala de operação, através do sangue periférico, pode-se isolar este tipo de células do próprio paciente e ser injetadas na zona de lesão.

E vai regenerar. Aí é bom porque não tem o problema de rejeição, nem nada, porque é do próprio.

Portanto, é autólogo.

Exatamente.

Será autólogo. Outro exemplo, aqui há uns anos, 2007, 2008, com o IPO de Lisboa, nomeadamente a Unidade de Transplante de Medula, professor Manuel Pissis, que foi o pioneiro do transplante de medula. Hoje em dia, o transplante de medula muitas vezes diz-se que é uma terapia com células estaminais hematopoéticas, de um dador compatível com o paciente. Contudo, há uma doença que é chamada doença do enxerto contra o hospedeiro, em que o próprio enxerto ataca o hospedeiro. Desenvolve-se essa doença e uma das hipóteses de tratamento é também com estas células estaminais mesenquimatosas. O IPO, em colaboração conosco e com o Centro Histocompatibilidade do Sul, há uns anos. Para tratamento de leucemias, de linfomas, isto já vem desde os anos 60, pós Segunda Guerra Mundial, verificou-se em Nagasaki, Hiroshima, etc, todos os problemas que vieram daí, de radiação. Os tratamentos começaram na década de 1960.

Entretanto, com a idade, Joaquim, enquanto mais anos a gente vive, há este balanço complicado entre a longevidade e o cancro. Outro dia ouvi falar disso, que as pessoas vivem mais, mas mais vida aumenta o risco de cancro. Os cancros não é que não houvesse antes, mas são cada vez mais frequentes quanto mais anos a gente vive.

Exatamente. Repare, até os mecanismos de envelhecimento, que é por senescência celular, não divisão celular, apoptose, morte celular, são mecanismos de proteção contra o cancro. Isto é um balanço entre o envelhecimento e o cancro.

Está falado da senescência, que é aquela capacidade que as células vão perdendo de se reproduzir, se dividir, certo?

Exatamente.

Isso é bom para um cancro, porque um cancro o que quer é uma proliferação exagerada de células e isso vai combater isso.

As células em um cancro são células hiperativas, metabolicamente ativas. Consomem muito mais energia. Enquanto que as células envelhecidas, senescentes, são células hipoativas. Com um baixo metabolismo celular. Este balanço é bastante importante. A longevidade, quando se diz que nós temos, de facto-

Mais anos de vida.

Mais anos de vida, tem que ser com qualidade de vida. Senão o que vamos experimentar é o número de cancros.

Mas o que também está a acontecer-

Muitos cancros são doenças crônicas, em alguns casos.

Era exatamente isso que eu ia dizer, Joaquim. Então, nesse caso, o que está a acontecer, porque está a haver cada vez mais terapias, também contra os cancros, cada vez mais o cancro está a tornar uma doença crônica, a qual não mata a pessoa logo, mas com o qual a pessoa vai ter que conviver até ao fim dos seus dias, certo?

Até ao fim dos seus dias, exatamente. Por isso é que o envelhecimento e o cancro estão interligados. E as partilhas, características comuns biológicas que têm é de facto a danificação do ADN, alterações chamadas epigenéticas e instabilidade genômica. Este é um aspecto bastante importante.

Com a idade, as causas de doenças mais frequentes normalmente são o Alzheimer, são o Parkinson, as demências e, claro, as doenças cardiovasculares, que ainda é a maior causa de morte entre nós. Esta medicina regenerativa pode vir a ajudar muito o lado terapêutico destas doenças?

Eu penso que sim. Cada vez mais, desde há uns anos a esta parte nomeadamente com doenças neurodegenerativas, tipo Parkinson. Tem se feito uma evolução bastante grande na área. Não que exista diretamente tratamentos com células-tronco, tanto quanto eu saiba. Não estou a dizer que não possa existir. Mas é muito importante este. E obviamente que a nível terapêutico, as pessoas preferem utilizar ou tem se utilizado mais tradicionalmente as células adultas. As células que já são multipotentes, ou seja, já estão comprometidas. A grande função, como mencionou o Prêmio Nobel 2012, trabalhos de 2007 e 2008 de Yamanaka, também foi nas chamadas células induzidas pluripotentes. As taminais pluripotentes, em que se pode fazer a reprogramação a partir de células da pele e portanto por reprogramação com alguns fatores, consegue-se fazer um estado mais basal e a partir daí fazer a diferenciação necessária.

Porque isso foi um grande avanço que até aí não tinha sido possível. Descobriu-se que não é só ir tirar o cordão umbilical e olhar os embriões, que também tinham graves problemas éticos, por exemplo, mas que da nossa pele ou do nosso sangue se poderia tirar células para regenerar outros tecidos, que isso é que é uma coisa extraordinária.

Este é um aspecto que é bastante importante, em termos de rejeição. Se nós estamos a utilizar células próprias, mais uma vez autólogas, o problema fica resolvido. Deixe-me só referir apenas o que estava dos órgãos. Enquadrar. Na medicina regenerativa, nós teremos três metodologias que podemos utilizar. Uma são as células estaminais, que temos estado a falar. A outra é os órgãos de substituição. E a terceira é o chamado parabiose. Ainda dentro das células estaminais, acho que há alguma investigação, bastante investigação, nalguns casos feita, nomeadamente com genes, ou seja, a longevidade e a genética. Porque sabe que nós temos uns genes, chamados genes anti envelhecimento.

O tal Cloto.

Esses genes anti envelhecimento, participam no mecanismo subjacente da longevidade. Por exemplo, num nemátodo, que deu origem até ao Prêmio Nobel, o C. elegans, há um gene, que tem o nome bKAT1, que participa no processo de envelhecimento. Ao bloquear esse gene, que promove o envelhecimento, por exemplo, a vida deste nemátodo aumentou cerca de 25%. Ou seja, barramos o gene em si, o bloqueia, e haverá um aumento.

Portanto é um supressor de idade? É um anti envelhecimento?

Exatamente. Bloqueando este gene, a vida pode ser, nesse nemátodo, foi demonstrado que aumentou cerca de 25%. Alguns genes, nós podemos modelar a expressão destes genes de maneira a aumentar a longevidade. Isto é uma via que pode ser considerada no total, quando dizemos que o envelhecimento é uma doença, então para onde é que nós podemos ir? Esta, potencialmente, é uma via de aumentar a longevidade. Há um exemplo também, depois eu apresentarei, de um gene que é conhecido Cloto. Cloto era uma deusa grega, que gere e controla o tempo de vida nos tempos da Grécia. E este Cloto é um gene supressor da idade. Ou seja, quando este gene supressor da idade é hiperexpresso, em experiências animais em ratos, mostraram-

Hiper expresso, isso quer dizer o quê, professor? Que é estimulado?

Que é estimulado, exatamente.

Sim, diga.

Que é estimulado. Estes mesmos ratinhos de laboratório tiveram uma vida prolongada. Enquanto que se for interrompido ou reprimido, tiveram um envelhecimento prematuro. Nós temos estes fatores de-

Já são dois

...número de células. Exatamente, já são duas abordagens, do ponto de vista ainda com as células estaminais. Um outro, ainda dentro das células estaminais, é os telômeros. O que é que são os telômeros? Os telômeros são uma região do ADN que está nas extremidades de um cromossoma e protegem o cromossoma de ser danificado. Ao longo da vida, tal como existem menos células estaminais, os telômeros também diminuem de tamanho, ou seja, os cromossomos vão se encurtando. E o encurtamento desses cromossomas vão conduzir a um aumento de instabilidade genômica, e porventura, é uma diminuição da longevidade. Telômeros mais curtos aumentam a probabilidade das células se tornarem senescentes.

Portanto, envelhecerem, no fundo. Entre aspas. Pronto. É a linguagem corrente. Como é que se pode impedir que eles diminuam o tamanho?

É através de uma enzima, que é uma proteína com atividade catalítica, chamada telomerase, que regula o comprimento dos telômeros. A telomerase previne O declínio das células estaminais por aumentar o comprimento dos telômeros. Este é um terceiro aspecto, é fazer algumas abordagens que poderão ser terapêuticas com base-

Neste caso, genéticas. Sim

...no chamado telomerase. Isso tem sido demonstrado também em estudos animais.

Falou na parabíose, que é aquilo de, por exemplo, estilo Tina Turner, que faz transfusões de sangue jovem, é isso? Ou Michael Jackson.

Já lá vamos. É diferente deste aqui. Esta é a expressão de telomerase. Posso passar para o sangue jovem e depois finalmente a parte de-

E não se esqueça depois da regeneração dos órgãos de substituição.

É conforme preferir. Se quiser vou já-

O 3D, isso é muito importante para mim. Por mim ia já ao se é possível ou não impressoras fazerem órgãos.

Está bem?

Sim.

É o seguinte: nós sabemos que em termos de transplantação, o que é que acontece? Por exemplo, eu estou a dar dados aqui dos Estados Unidos. A cada 10 minutos, há um doente que é adicionado a uma lista de espera de transplante. Em 2019, o total de lista de espera, nos Estados Unidos, eram cerca de 113 mil, ou seja, mais de 100 mil pessoas. E em média, 20 pessoas morrem por dia enquanto aguardavam transplante. Qual é a grande oportunidade que eu penso, e mais pessoas que trabalham na área da medicina regenerativa? A grande oportunidade da medicina regenerativa é criar, de facto, órgãos. Obviamente, pode ir acontecendo mesmo os transplantes, cada vez menos, porque repare que muitos transplantes é de pessoas ou mais jovens devido a acidentes, porque cada vez há mais segurança, portanto menos mortes.

O grande perigo de rejeição, etc.

Exatamente. E o grande perigo de rejeição e ficar dependente para toda a vida, não é? Como os nossos professores.

Portanto, a saída seria construir órgãos.

Exatamente. Nós podemos ver então o que é que podemos ter. Há os sistemas 3D de bioprinting. Hoje em dia faz-se muito printing e bioprinting com impressoras 3D. Os nossos alunos desenham mãos, cérebros, etc. A imaginação é fértil. E o que nós temos? Nestes sistemas de impressora 3D, é baseada em tecnologia de litografia, em que se permite construir uma matriz. Aliás, nós em computador, em sistema CAD, Computer-Aided Design, pode-se pôr o órgão e desenhar o órgão com as dimensões que nós pretendermos, obviamente adaptado para o fim.

Mas em que material isso se faz, Joaquim?

O que é que nós podemos fazer? Em dois tipos de materiais, ou em polímeros sintéticos biocompatíveis, ou então em polímeros naturais, nomeadamente proteínas humanas, ou seja, colagénio. Esse constitui a matriz.

Os biocompatíveis é, por exemplo, uma espécie de plástico, como há, por exemplo, válvulas de coração e coisas assim.

Exatamente.

São coisas biônicas, são coisas completamente adaptadas ao humano.

Que não são rejeitadas, ou que não vão provocar rejeição no corpo. Os polímeros naturais podem ser proteínas humanas, colagénio, colagénio humano, etc. Vários tipos de colagénios. Isso constroem-se as chamadas matriz, o termo em inglês é scaffold, se fosse traduzir diretamente em português, andaimes.

Exato.

O que é que se faz? Na impressão bioprinting, o que se combina é estes polímeros com as células estaminais e produz um processo de celularização, que é com o objetivo de fazer crescer e diferenciar essas células de modo a regenerar o órgão-alvo, seja um coração, um rim, etc. Este é um processo que cada vez tem mais importância.

Em que avanços é que isso já está, Joaquim, já existem casos de sucesso?

Já existem casos, deixe-me referir aqui um grande instituto nos Estados Unidos, que é o chamado Wake Forest Institute for Regenerative Medicine, que é o professor Anthony Atala. Ele aí tem um desenho de quase todos os órgãos do nosso corpo humano e penso que um dos que foi utilizado é em termos da bexiga em si.

E que foi aplicado com sucesso.

Com sucesso, exatamente. Quanto eu saiba, isso tem.

É uma tecnologia de futuro, certo?

Sim, isto é uma tecnologia de futuro. Órgãos para substituir.

Exatamente.

Há um outro aspecto que é a recelularização de órgãos. Isto é, termos tratamento de órgãos de cadáveres, isto em modelo animal. Cadáveres com enzimas líticas, ou seja, para remover todas as células, enzimas proteolíticos, de maneira a obter-se uma matriz acelular desse órgão. Ou seja, em vez dos tais polímeros sintéticos ou polímeros naturais, teremos a matriz desse órgão descelularizado, sem qualquer célula, e depois fazer-se o repovoamento ou se quisermos, a recelularização de células. Por exemplo, em Harvard, em 2018, isso foi feito com sucesso em pulmões de porco. O modelo foi pulmões de porco que foram recelularizados com células humanas e depois ligadas à circulação em porcos e mostraram ser funcionais.

Professor, isto são coisas que vai falar amanhã na conferência?

Sim, vou falar amanhã com mais detalhe, com umas figuras, etc.

Fica aqui este convite e infelizmente é mesmo assim, Joaquim, nós não temos tempo para mais. Mas o tempo passou num instante, é um assunto apaixonante, sem dúvida.

Se eu puder dizer só uma coisa.

Uma coisa só, diga.

Uma coisa só.

Diga.

A parabióse é rejuvenescer.

Então.

É um aspecto que foi bastante do ponto de vista ético com algumas reservas, com alguns problemas. O que se tem visto é o seguinte: investigadores em Stanford em Harvard mostraram que animais mais velhos, quando tinham transfusões de sangue de animais mais jovens, conduziram à regeneração dos seus tecidos e órgãos. E o oposto também era verdadeiro. Isto, obviamente, em humanos é diferente, é difícil, voltarmos a levar transfusões de sangue jovem. Contudo, o que é importante aqui é ter-se descoberto fatores de diferenciação de crescimento, moléculas, proteína, que existem no sangue e passa a ser também uma terapia molecular. Nós não precisamos do sangue, mas se tivermos umas terapias à base destes fatores de diferenciação de crescimento, o Wnt, por exemplo.

Podemos substituir isso.

Podemos substituir. E podemos com sucesso, com o objetivo de restaurar a capacidade efetiva.

Fica aqui este recado e fica aqui este convite. Muito obrigado, Joaquim Sampaio Cabral.

Muito obrigado, João Paulo.

Bem-haja pela sua disponibilidade e os maiores sucessos nos projetos de investigação do laboratório que dirige. Muito boa sorte para a sua conferência de amanhã à tarde. Aproveito para renovar aqui o convite para todos os ouvintes assistirem amanhã às 16h30 à sua conferência sobre regeneração, a terceira e última em live streaming do ciclo sobre a longevidade promovido pela Culturgest. Continue seguro neste tempo. Obrigado.

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