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O Teatro Variedades celebra um século de vida e as comemorações desses 100 anos incluem um livro, uma exposição, um filme, uma dança e uma peça muito especial. "Variedades", como uma ópera bufa, erótica e satírica, que revisita a história do teatro através de 10 personagens assíduas do Parque Mayer: uma varina, um marujo, um ardina, um vendedor de coplas, um cauteleiro, uma menina da barraca de tiros, uma viúva rica que veio do Brasil, uma escritora, uma costureira e o dono de um restaurante. Eles tornam-se guardiões das memórias do teatro. Comigo, um dos seus autores, Fernando Heitor, que nem o homem dos sete instrumentos, ele tem sete profissões no teatro e na televisão. Ele é ator, encenador, dramaturgista, autor, argumentista, guionista e produtor. Com mais de meio século de uma carreira onde se contam êxitos intemporais como "Passa por Mim no Rossio", "Grande Noite" e "Conta-me como foi", debruça-se agora sobre a vida de um teatro que conhece há seis décadas, contando a história, como ele diz, com navalhas, beijos e cantigas, e onde a ingenuidade e a fantasia se conseguem sobrepor à dura cruesa da realidade. Olá, Fernando, e bem-hajá de ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Olá, boa tarde.
É um grande prazer estar aqui a falar com o professor. Eu é que agradeço. É engraçado, tu és o que chamam alfacinha de gema e ali encontraste 10 alfacinhas.
Sou.
Tu compras o majérico.
Sou alfacinha de gema porque nasci cá e porque gosto muito de Lisboa e gosto muito de cá viver.
E também do mar. Como é uma cidade com rio, eu pensei: tu também estás sempre a dizer que adoras o mar, era incapaz de viver numa terra muito interior.
Era impossível, mas o mar está aqui ao lado.
Exato.
Neste momento, eu estou a passar uns dias no Estoril. É um privilégio viver em Lisboa e ter a mar ali ao lado. Mas mesmo em Belém, onde eu vivo, tenho o rio, que é tão largo que é um mar.
É quase um mar.
Não era capaz de viver-
Longe dos rios, dos lagos, dos mares.
Não, uma cidade como Madrid, não era capaz.
Sim, que é muito interior. Mas por acaso eles têm uma coisa boa, que é: tudo o que é grandes fontes em Madrid estão sempre a funcionar com muita água. E faz-me pena, que no Rossio está tudo fechado.
É uma tristeza.
Temos aqui ao lado o mar e estão as fontes todas fechadas e dói-me sempre a alma quando vejo isso. E lá, de facto, têm pouca, mas sempre à vista. É verdade que foste desenhador de profissão, chegaste a ser?
Fui, isto é um pouco ridículo. Eu estava a acabar o sétimo ano. Eu fui muito mau aluno, sempre.
Isto no Camões.
No Camões.
Foi no Liceu, também.
Chumbei no segundo, chumbei no quarto.
Tu fugias para o teatro, ias para o Monumental.
Exatamente.
Cruzar-te com o Laura Alves.
Exatamente. Depois fiz o sexto e o sétimo só num ano.
Ok.
Mas já a trabalhar. Os meus pais já estavam fartos.
De estar a aguentar com os teus chumbos.
E o único trabalho que encontrei foi a minha mãe que me arranjou o emprego, que mandou ir para lá.
Mas tinhas jeito? Tu já tinhas jeito?
Não, não tinha jeito nenhum, nem para desenho, nem para matemática. E tinha umas réguas de cálculo que eu nem sei bem o que era, e trabalhava com elas. Foram 11 meses de martírio. Estive no Instituto Geográfico e Cadastral.
Ok.
E calhou-me fazer o levantamento da Cova de Iria.
Que era ali onde? Na artéria um, não?
Não, era em Santos, no Largo Vitrino de Amásio.
Já sei.
E fiz parte do levantamento da Cova de Iria. Eram muitas oliveiras.
Fátima, não é assim mesmo?
Exato.
Onde é agora o santuário, sim, claro.
Exato.
E as ninhas? Não havia uma azinha, ao menos?
Não.
Já não havia, não.
Havia só dois funcionários que davam prejuízo à casa. Um era muito bom desenhador e o outro era eu, que nem sequer isso.
Compensava-te.
Mas eu estava para entrar para a Faculdade de Letras e de repente houve a reforma do conservatório.
Ok.
E fui fazer a admissão.
Foste fazer o primeiro curso.
O primeiro curso da reforma, depois do Almeida Garret, primeira reforma.
Exatamente. Incrível.
E foi muito bom, tive muita sorte, porque fui muito apoiado pela Fundação Gulbenkian, sobretudo pelo entusiasmo da Madeleine Azenha de Perdigão. Tivemos professores de todo o mundo, Peter Brook.
Incrível! O Nico Peppino, do Teatro Piccolo, de Milão.
Jorge Shelley, do Old Vic.
E João Mota.
O João Mota, a Glória de Matos, a Agra da Sena.
Grandes mestres.
Fomos muito bem tratados.
E é engraçado, eu sei que tu gostavas e já no teatro tinhas feito no Liceu Teatro Amador, não sei o quê. Que fascínio é que tinha o teatro para ti?
Não sei. É uma coisa tão natural. Estando a pensar, mais longe, quando eu era miúdo e brincava com os meus primos, eu gostava de dirigi-los nas brincadeiras.
Ok.
"Olha, estamos aqui, ali é a casa, tu vais para ali, fazes isto, eu entro."
É o teu ADN de encenador.
Eu acho que começou aí. E efetivamente, o que eu quis sempre mesmo foi ser encenador, em si. Comecei como ator, trabalhei muito como ator, mas cada vez mais fui substituindo.
Começaste como ator com o Carlos Aveleira, não foi com o Teco?
Estreei, foi.
Em 71, foi quando foi.
Foi. Foi a primeira e a única vez que pedi emprego na vida.
Foste tratar com ele?
Para ir para o conservatório e tudo mais. Meus pais já não queriam pagar mais estudos. O tempo no comboio fui ter com o Carlos Aveleira, encontrei ele na minha vida.
Grande homem.
Ele estava no ensaio, mandou-me entrar, que falávamos depois. A meio do ensaio, tirou-me um livro ao ar e diz: "Leia isso". Era a Fonte de Verrugas, que na altura foi proibido, só depois fizeram, dois anos depois. E fiquei ali.
Que engraçado. E depois foi o Comuna, o Teatro de Pesquisa, também foste do grupo fundador.
Também estive lá poucos meses.
Com dois espetáculos.
Sim, porque estava no conservatório, era proibido trabalhar, mas conseguia sempre, já que tivesse ensaiado, trabalhar só à noite.
Tu quando saíste do conservatório, entre 74 e 79, tiveste os cômicos, era com cinco colegas finalistas?
Era para ser. Nós éramos seis finalistas. Mas depois quando foi para o seu lado, ficamos só com três finalistas, que era a Maria Amélia Mata e a Maria de Jesus Aranda. E os cômicos devem-se, sobretudo, ao grande entusiasmo do Osório Mateus, que era um homem de teatro que veio de Paris na altura, foi para a Faculdade de Letras, foi para o conservatório também, e foi ele que nos entusiasmou e que nos impulsionou. Eu sou muito preguiçoso, primeiro que faça qualquer coisa. Ainda estava à espera de me organizar para formar um grupo de teatro.
Mesmo assim, dois anos depois, a eles deves, em 76, a tua primeira encenação.
Mas depois aí ficou tudo nas minhas mãos, que ele depois afastou-se. Quando eu quis encenar, propus aos meus colegas, ninguém mostrou entusiasmo. Primeiro foi naquela base: "Se não há mais ninguém, podes ser tu". E fui e correu muito bem. E a partir daí ganhei confiança para tirar outros projetos.
Foste dirigido no teatro por grandes mestres: Jorge Listopad, Carlos Lavilla, João Mota, Ricardo Pais, Filipe La Féria. Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra, Carlos Cabral, Osório Mateus. E depois também passaste pelo cinema, que é importante. Álvaro Morais e o Lobo, por exemplo, que foi premiado no Festival de Locarno. Paulo Rocha, o João Botelho. És tu o Lobo?
Sou eu.
Tu próprio. O circo também é uma coisa que tu gostas? Chegaste tarde a ser diretor artístico do Chapitô.
Muito. Gosto muito de circo desde miúdo. Ia lá a um circo ao meu bairro, um circo muito pobre, que era o Circo Torralvo.
Era espanhol?
Não, português. Eles são todos uma mistura entre portugueses, espanhóis, italianos, não se sabe bem a origem. Eu lembro-me que fiquei preso a esse circo, todos os anos lá ia. E continuei sempre a ver circo toda a vida. Depois tive a oportunidade, conheci a Teresa Ricou, e ela convidou-me quando foi da formação. Eu gosto de estar no princípio das coisas. Quando foi na formação do Chapitô.
Está a dizer nos 80, certo?
80 e não sei quantos.
87, foste lá professor, por exemplo? Incrível.
Estive lá durante três anos como diretor artístico e professor. Montei vários espetáculos e gostei imenso. E deixei o teatro para fazer isso, depois deixei isso para fazer o teatro. Mais ou menos sempre me portei assim. Nunca estive muito tempo em lado nenhum.
Tu, como encenador, gostas mais desse lado?
Gosto.
Preferes, por exemplo, ser ator? Mas mesmo a parte de dramaturgista, por exemplo, também gostas?
Gosto.
Fizeste muito com o La Féria, por exemplo.
Sim, trabalhei muito com ele. Agora, nos últimos anos, faço a melhor das duas coisas, que é: escrevo as peças e enceno-as. Não tinha tido coragem antes. A primeira correu bem, fui para a segunda, para a terceira, esta é a quarta.
Tu, como dramaturgista e argumentista para teatro e televisão, adaptaste imensas séries de ficção e programas de entretenimento. Mas queria destacar aqui o "Passa por Mim no Rossio". Estamos em 91, portanto, com o Filipe La Féria. Aliás, com o João Paulo Soares, que já trabalha contigo. Agora também neste de variedades, mas já trabalha contigo em vários projetos. O "What Happened to Helena Iglesias?" também, estamos em 90, no Teatro ABC, que já estás no Parque Mayer também.
Sim. No What Happened não fui criativo. Quando o Filipe esteve na Casa da Comédia, eu entrei e saí muitas vezes de lá. Portanto, eu estava fora quando fizeram os ensaios todos. Eu entrei na estreia, acabei a produção e depois dirigi a produção do espetáculo.
No Variedades, então, a "Grande Noite" foi gravada mesmo no Teatro Variedades Costa.
Foi. Foi um ano de Variedades.
Impressionante. Era uma revista para televisão, para a RTP, onde tu trabalhavas 12 a 14 horas por dia. Era insano o trabalho que vocês faziam lá. Mas era extraordinário.
Era. Montava-se uma revista por semana.
Era impressionante. Marcou a televisão portuguesa.
Era uma coisa de doidos. E foi dos últimos trabalhos de ator que fiz. Eu aparecia sempre no final do espetáculo, fazer de crítico à porta do teatro, a dizer mal do programa que acabara de ver.
A mandar fechar o... E também, curiosamente, a Vanda Stuart, que agora entra neste de Variedades, estreou-se lá na Grande Noite.
É verdade. Ela foi para a Grande Noite, para o coro, por audição.
Ok.
E quando ela fez a audição dela, eu e o Filipe dissemos logo um para o outro: "Liza Minnelli já temos".
Exato, que ela é extraordinária.
E para aí ao terceiro, quarto programa, começou a sair do coro, a fazer números.
Ela tem o musical no sangue, completamente. É extraordinária. Sangue azul.
É verdade, além do cabelo, tem sangue azul.
E conta-me como foi também na RTP. Eu quero destacar isto, porque foi de facto uma série que faz agora 20 anos, em que tu entraste, uma série de ficção histórica, que foi muito premiada também.
Fiz as três primeiras, a terceira não acabei.
As coisas que estavas a falar agora, estou a pensar neste "Mário: A História de um Bailarino do Estado Novo", que foi em 2020, estreou ali no São Jorge. Uma coisa tu escreveste a pedido de São José Lapa. Isto lembra este Valentim de Barros.
Exato. A São José pediu-me.
É uma história extraordinária.
Ela ia fazer com outro ator, que era o Afonso Guerreiro, e eu entreguei-lhe. E entretanto ela não teve dinheiro e não pode fazer.
É um monólogo, só para um ator.
Entretanto, um dia, contar a história, vou ser um bocado rápido.
Sim.
A Mariema, de quem eu era muito amigo, falou-me que havia um miúdo muito talentoso no Teatro Maria Vitória.
Exato.
Que era o Flávio. E levou-me.
Extraordinário, ele é tão bom.
Fui lá conhecer o puto. Maravilha.
O puto com muito talento.
E pronto, depois criei o hábito, ir com a Mariema ver os espetáculos Maria Vitória, íamos sempre tomar um copo aos bilhares, ali ao lado do Parque Mayer. Um dia contei-lhe esta história do Valentim, que se passou com a São José Lapa.
Que era homossexual, foi perseguido.
E ele pediu-me se podia ler. Com certeza E eu passei.
Ficou impressionado pelo guião.
Horas depois começa a mandar mensagem a dizer: "Vamos fazer." Eu disse: "És doido? Mas vamos fazer como? Com que dinheiro? Onde? Não faz sentido." Então, uma semana depois estávamos em minha casa a ensaiar, que não era pouco.
Incrível. Arranjaram dinheiro e pronto.
O João Paulo fez a produção de espetáculo, andou à procura de salas, e depois de muito procurar, bater a muitas portas, bateu às portas de São Jorge e em boa hora.
Incrível. O teatro voltou ao cinema.
Sim.
Foi ótimo.
A Marina Uva recebeu-nos muito bem, fomos muito bem tratados e já fizemos lá dois espetáculos.
Esse e o "Sr. D'Lisboa"?
O "Sr. D'Lisboa" foi lá também.
Já foi em 24, também com o Flávio Gil.
Também com o Flávio Gil.
Bernardo Soto e o João Paulo Costa. A música outra vez do João Paulo Soares, claro, que já trabalha contigo há uma série. E com as canções, contextos do Boto, do António Nobre, do Cesariny, do Fernando Pessoa, David Mourão-Ferreira, Alexandre O'Neill, do Alberto, da Sofia. É um espetáculo extraordinário, este. Memória, identidade de uma cidade em mudança. O diário de um alfarcinho de 80 anos. É muito bonito isto.
Perguntam-me por que sempre Lisboa?
Sim.
É muito simples.
São bons. Pois é.
Porque é o que eu conheço melhor. Se eu tivesse nascido em Guimarães ou em Faro. O amor também é uma forma progressiva de conhecimento, tanto nas pessoas como nas coisas.
Só se ama o que se conhece, obviamente.
Pois, quando nós conhecemos bem, e já estou a pensar escrever outra peça sobre Lisboa.
Boa.
Porque é o que conheço bem.
Eu acho ótimo. Rezo que haja pessoas que também façam isso em Viseu.
E na escrita, como em qualquer coisa criativa, não se pode mentir, não se pode fingir. "Ah, é assim, assim, assado." Não é assim, assado. Ou a gente escreve o que sente e que percebe que tem conhecimento daquilo.
Nota-se logo quando tem a verdade por trás, a vida, não é?
Pois.
"A Foz do Mekong" também já é do ano passado, que este que já foi na Boutique da Cultura, também com o Flávio Gil, Tomás Andrade, a música também do João Paulo Soares, com este encontro muito curioso entre essas duas personagens com 18 anos de diferença. Este tem o professor e o aluno.
É o professor e o aluno.
De geografia, que o miúdo vai pedir explicações ao professor.
Também se passa em Lisboa, apesar do nome "A Foz do Mekong".
É muito sobre a solidão e se alguém pode ser feliz sendo sozinho. É impressionante. Isto faz pensar muito, e os seus teatros fazem pensar muito, que é muito importante. Para mim, é a função do teatro, pôr as pessoas a pensar. Este voltar a casa também foi a tua celebração dos 50 anos do Teatro Experimental do Funchal, não foi?
Não me lembrava desse, é mais um.
É mais um. Voltar a casa, também. Com o Flávio Gil também, músicas do João Paulo Soares.
Pois, mas esse nem sequer vi o espetáculo.
Este é deste ano já.
É.
Não chegaste a ver?
Não, estávamos já muito ocupados com este, não pudemos. Mas eu, nos anos 80, vivi três anos na Madeira.
Sim.
Fui lá fazer uma encenação e fiquei lá.
E depois ficaste lá como diretor artístico, também.
Também sempre fui muito ligado a eles. De vez em quando, vou lá fazer um espetáculo com eles.
Muito bem. Estava agora a pensar que o Variedades, agora vou falar disso, obviamente, que faz 100 anos, fez 100 anos agora em maio.
1926.
Com o Pó de Arroz, esta revista, que teve uma grande época de ouro na década de 60 e de 50, foi-se degradando até depois fecharem nos anos 90, esteve 30 anos fechado. E agora, o arquiteto Manuel Aires Mateus e o seu ateliê recuperaram isto. Tive este grande programa de festa para reavivar em boa hora estes 100 anos. E este espetáculo, de facto, assinala os 100 anos do Variedades. Vai estar até 16 de agosto. É duas horas de espetáculo, é uma coisa longa, mas extraordinário. O tempo passa a correr, porque todas as emoções passam por aqui, quer pelos atores, quer por nós, porque nós rimos, choramos, cantamos, saltamos. É muito divertido. Isto foi um convite do Pedro Pinin, já há uns anos.
Exato.
Mas que teve para não acontecer depois?
Porque o Pedro Pinin esteve lá instalado com o Teatro Nacional. Quando o Teatro Nacional tenha fechado.
Exatamente. Vai reabrir agora.
E ele convidou-me para fazer precisamente este espetáculo para estrear em 2025. Entretanto, a EGA achou que já agora era melhor fazer em 2026.
Porque é reabertura.
Porque era quando fazia os 100 anos. Entretanto, já o Teatro Nacional não tinha nada a ver com o Variedades. Portanto, ele retirou o convite.
O atual, o Joaquim Renée.
O Joaquim Renée.
O atual diretor.
Era o atual diretor na altura, agora são dois. Convidou-nos.
Reitero o convite e marcou-se bem, porque era uma pena. Ele convidou-te a ti diretamente? E tu é que reuniste este trio virado, ou como é que foi?
Não.
O Pedro Pinin. Sim, trocámos. Os atores, normal.
O Pedro Pinin convidou-me a mim e ao João Paulo.
João Paulo Soares. Para fazer a música.
E sugeriu que tivéssemos uma terceira pessoa.
Ok.
E nós convidámos o Flávio Gil. Agora, quando foi com o Joaquim Renée, já foi os três. Já estávamos os três.
Muito bem. Neste momento, Fernando, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com o dramaturgista, ator e encenador Fernando Heitor, que com o Flávio Gil e o João Paulo Soares criou o Variedades como uma ópera bufa, erótica e satírica. É o espetáculo que revisita a história do teatro agora restaurado, o Teatro Variedades, que celebra o seu centenário no Parque Mayer. Estamos então a falar deste convite que vos foi feito. Foi fácil escrever? Vocês escreveram a duas mãos e depois o João Paulo fez a parte musical, é o compositor, toca piano.
Exato.
Mas ele também interferia às vezes no texto? Reuniam sempre os três para falar do texto, ou não?
Sim, nós quisemos apresentar como sendo um projeto dos três, porque possibilitou-nos de discutirmos. O João Paulo podia discutir o texto e nós podíamos discutir a música.
Exato.
Nem sempre estávamos de acordo, obviamente, por isso é que éramos três. E isso foi bom e chegámos ao Ou o que está apresentado.
Exatamente, que é extraordinário. Fica já este convite: não percam isto.
Escrever com o Flávio foi fácil.
Ele é muito diferente de ti, mas ele é uma pessoa extraordinária e generosa.
E foi rápido. Primeiro fizemos muita pesquisa.
Sim, claro. Porque aqui estão 100 anos do Parque Mayer, as vidas daquelas pessoas misturam-se com a vida do teatro, do Parque Mayer, de Lisboa e do país.
Exato.
E do mundo, Europa, fala da Segunda Guerra Mundial.
E a partir do momento que estava delineada a história, depois a escrita foi fácil e foi muito divertida. Nós escrevemos mesmo muito em conjunto. Muitas vezes, quando são duas pessoas a escrever, escrevem separados e depois juntam.
Mandam um ao outro.
Não. Escrevia ele, que escreve mais rápido que eu, e falávamos os dois ao mesmo tempo e conseguíamos sempre se entender.
Extraordinário. Tu já frequentas, Fernando, o Parque Mayer há 100 anos. Tu ias falar muito, mesmo sem a idade para ir aos teatros, tu ias ver aquela "fauna".
Ia, porque eu comecei a conhecer aquele meio no Saldanha.
Pois, porque estavas ali no Camões.
Estava no Camões, passava quatro vezes por dia ao Saldanha.
No Monumental ainda havia aquele teatro.
E demorava sempre 20 minutos a atravessar o Monumental, porque havia o Café Monte Carlo, Café Monumental, o Cinema Monumental, o Teatro Monumental, a entrada dos artistas, o Tony dos Bifes. Eu parava a ver tudo.
Extraordinário.
Depois encontrei-me com a Laura Alves. Fui falar com ela, tive esse atrevimento.
Ah, foi?
Mas eu ficava horas a ver as fotografias. Há espetáculos que eu às vezes penso que vi e que não vi.
Constrois essa memória.
Tanta fotografia vi e tantas histórias ouvi à volta do espetáculo, é como se tivesse visto. E além disso, fazia uma coisa que era hábito na altura: colecionava fotografias de artistas e autógrafos. Passava a vida na entrada dos artistas a chatear o porteiro para me dar fotografias. E depois a Laura Alves tinha muitas, diversas, ainda não tinha aquela, depois mais outras.
Como se fosse os cromos de futebol hoje.
Exatamente, tal e qual.
Ias aos teatros.
E foi isso que me fez espreitar o Parque Mayer, que falaram-me: "Lá ainda é mais". E eu passei a ir para lá ainda miúdo, aos domingos à tarde, ver aquele movimento.
A gente iria àquela fauna especial. E era, porque eram os cantores, as coristas, as costureiras, os carpinteiros, a Gina, outros donos de restaurantes e de bares. Mas vocês, mesmo que falem na fauna, não é com sentido pejorativo.
Não.
É com sentido carinhoso, porque era de facto uma gente especial. Eram aqueles órfãos, como tu dizes.
Era. Pois, nós exageramos aqui na história. Decidimos que eram mesmo todos órfãos. Porque o que eu percebi do conhecimento que tive do Parque Mayer, é que aquilo tinha muita gente só, muita gente solitária.
Aliás, só um destes 10 personagens é que nasceu lá. Todos os outros vêm de Canéssas e do Minho.
Exato. De São Tomé.
De Viseu.
Do Brasil.
Exatamente. Eles ali têm um aconchego, têm uma família. Ficam próximos uns dos outros.
Havia sempre naqueles cafés umas coristas já velhas, sozinhas, muito tristes. Muito tristes, mas instaladas ali como se estivessem em casa.
É tão curioso.
Isso fascinava-me.
E não ias às peças porque não te deixavam entrar. Eras novo ainda, mas havia esta coisa curiosa, esta tradição de quando havia as estreias, e estas personagens "assistiram" às estreias todas, mesmo depois de morrer. Vão ver que depois percebem. Quando havia as estreias, os empresários, depois das salas estarem cheias, abriam as portas para entrar mais pessoas.
Ainda assisti a muitos espetáculos assim no fim.
Mas ficavam depois em pé?
Princípios de anos 70. Encostados à parede, às vezes duas pessoas encostadas uma às outras, empurradas.
Não perdiam pitada.
Nada.
É tão engraçado.
E era ótimo público, como deves calcular.
Sim.
Que eram entusiastas, estavam ali.
Claro, com amor àquilo. Este título é uma grande provocação, claro, ópera bufa e satírica, marca esta ingenuidade, este género não definido, que nem é um musical, tem esta colagem de canções e zarzuelas e operetas. É muito curioso. O Flávio costumava dizer que é sempre a esperança feita à beira do abismo, como a vida. É muito bonita esta opção que tu tiveste, Fernando, de escolher estas 10 pessoas para contar esta história. Todas muito diferentes, extratos diferentes, origens diferentes.
Com experiências teatrais muito diferentes.
É muito curioso. E também os atores que escolheste dizem isso.
Aconteceu uma coisa muito boa que ajuda imenso ao espetáculo: eles criaram de imediato grande empatia uns com os outros. Adoram-se. Aquilo que se vê no palco, de eles se abraçarem, os beijinhos e tudo, é o que eles fazem, é real.
Mas eu acho que isso passa para quem está a ver.
Estão muito à vontade uns com os outros. Respeitam-se. E também tem aquela coisa: a primeira coisa que eu pensei sobre este espetáculo é que tem que ser uma coisa diferente de tudo quanto se tem feito. Portanto, vamos fazer um espetáculo que tem muito a ver com revista e tudo, vamos abolir o corpo de baile. Não é preciso. Aqui vamos ter 10 intérpretes e todos fazem tudo. Quando um está a fazer de vedeta, os outros fazem de bailarinos. E é o que acontece. E isso funciona bem
Vocês no casting tiveram de perguntar: "Eles cantam e dançam? Têm de cantar e dançar todos?"
Sim, tiveram mesmo. Alguns que nós não conhecíamos tiveram mesmo de fazer teste de voz, de canto.
Eu adoro isto. Estas pessoas, a varina, o marujo, o ardina, o vendedor de copos, o cauteleiro, foram desaparecendo da vida de Lisboa. Como é que estas novas gerações vão ver aquilo? Não sabem quem são aquelas pessoas.
Pois, não sei. Espero que percebam. Aliás, conforme elas vão desaparecendo da vida de Lisboa, também vão morrendo as personagens na história.
Exatamente. Na própria peça.
Na própria peça.
E depois passam para a tela do próprio Variedades. É muito giro isso. E depois encontram-se todos em festa.
Espero que se perceba. Os pregões, já não há pregões. Há lá o cauteleiro. Não sei o que é aquilo para um jovem. Parece um homem que aparece ali e grita: "4300!".
Exatamente. As novas gerações vão ver estas peças. Aquilo era um oásis de liberdade. Restaurantes abertos até às tantas, as tertúlias, a gente fala e ia o Carlos Quintas e a Ivone Silva. Era muito divertido. E depois também havia carteiristas e prostituição. Era local de encontro dos marginais também. Havia de tudo.
Era, mas estava-se à vontade. E as pessoas respeitavam-se. Havia um bar ao lado do Parque Mayer, que era o Galo, que estava aberto até às 06:00. Tinha bar em cima e tinha um dancing, uma sala debaixo, na cave. E em cima, na entrada, eram bancos corridos de madeira, que eram frequentados pelos atores mais notívagos, fadistas, taxistas, carteiristas, prostitutas, que iam lá, sobretudo, beber uma cerveja e comer uma tigela de sopa de feijão com hortaliça. E as pessoas sentavam-se nas mesas uns dos outros, que eram mesas corridas, e toda a gente se respeitava. Nunca ali ninguém se insultou por nada.
De facto, eram outros tempos. É importante também o elenco que vocês escolheram, que tu escolheste, tão heterogéneo em idades e em experiências, mas que funciona tão bem ali. E é linda a ideia, eu adorei, Fernando, de entre os protagonistas, há uma escritora que vai escrever a vida de todos.
Pois, é como se esta história fosse toda escrita por ela e, de certo modo, dirigida.
É uma ideia ótima.
E ela diz umas duas vezes que escreve depois do que ouviu, também tem fantasia.
Sim, há coisas que eu inventei, há coisas que vocês não viveram. É muito engraçado. Mas têm a preocupação de não fazer as imitações, que isso seria a parte fácil. O Várter Santana. A Beatriz Costa.
Isso é sempre o que se faz, não é?
Exato, seria típico. A Delfina, não sei quantas fez. Era típico. Seria o óbvio.
E acho que assim é mais engraçado. Eles cantam bem, se não cantassem bem...
Não estariam ali, se calhar. A propósito de cantar, o João Paulo Soares, que é o diretor musical e está no piano também, porque isto é música ao vivo, é preciso dizer isso às pessoas. São cerca de 20 canções.
Para mim é um grande privilégio, porque hoje em dia é muito difícil fazer um espetáculo com seis músicos. O espetáculo está em cena mês e meio, espetáculos agora estão em cena três, quatro dias. É uma grande tristeza. Isto para mim é uma grande alegria, um espetáculo com uma banda no fosso.
Tem 20 canções, algumas delas inéditas, criadas para este espetáculo, e algumas que nos fazem lembrar o Cheirar a Lisboa da Anita Guerreiro, por exemplo, que está lá. O Zé Cacelheiro lembra o José Mediano.
São as duas mais famosas do Variedades.
Lisboa Antiga também.
Lisboa Antiga. São as três mais conhecidas. Lisboa à Noite nós não temos, também é de lá. Damilo, Lisboa adormeceu, já se acenderam. Eu não canto porque sou desafinado.
As novas gerações, Fernando, que não conheceram o antigo Parque Mayer, achas que vão ficar a conhecê-lo melhor?
Acho. Têm dito isso, ficam espantadas. Ainda por cima, as pessoas que não conhecem, chegam ao Parque Mayer e veem uma coisa estranhíssima, que são três teatros no meio do nada, com parque de estacionamento. Aquilo era uma aldeia, tinha ruas, tinha casinhas, havia pessoas que viviam lá. O cenógrafo Mário Alberto viveu lá durante décadas.
Lá dentro mesmo.
Tinha restaurantes, tinha casas de jogos, tinha livraria.
Era um bocadinho como El Chiscétric, aquelas ruazinhas pequeninas com pessoas e coisas de trabalho.
Tinha um fotógrafo, tinha as coisas mais diversas. Fez-se lá. Tinha um carrossel, quando não tinha o carrossel, tinha carros de choque, teve circo, teve boxe, teve tudo.
Eu quero dar os parabéns, porque acho um luxo o elenco que tu conseguiste reunir para esta peça. Conseguir conciliar as agendas desta gente toda tão diferente, com as vidas tão diferentes. Eu lembro o Bernardo Soto, por exemplo, que é o minhoto da Gaita do Bem, que dizia: "Não, mas eu nunca cantei numa peça." Então vais-me é pôr a cantar? pusemo-lo a cantar e correu tudo muito bem. Eu adoro isto.
Ele disse que não sabia se cantava, que era diferente. "Não sei, nunca me pediram."
Exato.
O João Paulo diz: "Canta."
Exatamente. Muito bem. O Bruno Madeira, ótimo. O Carlos Malvares também. Semana passada tive o irmão, o Rui. A Cátia Garcia, o Flávio Gil, extraordinário, que já falámos e que é um dos coautores. Maria João Liz, a grande Maria João Liz. Miguel Raposo, extraordinário, que eu tanto gosto, também já passou por aqui. A Teresa Znida, uma miúda que eu acompanho desde o Contracanto, com o Tó Lião, e que fazem aqueles musicais todos que eu já vi. Extraordinária voz que foram buscar vocês. E fez agora de Lúcia, no musical de Fátima.
A Teresa Znida era a irmã Lúcia no musical Fátima, da Florbela Espanca.
A grande Vanda Stuart, claro, Sandra Rosado. Outra que era bailarina no Gulbenkian também.
Era talvez a mais jovem bailarina de ballet Gulbenkian quando extinguiram o ballet.
Exatamente.
2005, ou coisa assim.
Sandra Rosado, exatamente. A brasileira Carmen. Também aqui a coreografia, o Guilherme Leal também, que esteve no Teatro Praga e fez parte deste espetáculo do tributo ao Carlos Paredes, também fez um trabalho muito bom. A coreografia é muito engraçada.
É muito engraçada.
E é diferente do normal.
E quis muito estar rodeado de uma pessoa muito nova.
E talentosa.
Tem 29 anos.
É miúdo ainda. Novinho.
E foi bom ele fazer isto a partir de coisas que ele não conhecia, mas a partir das coisas que nós lhe contávamos.
Exatamente, o que lhe deram.
E que mostramos.
Construiu.
E acho muito mais interessante isso do que fazer as coreografias habituais.
Exatamente, normais, que serão esperadas. Fizeram a propósito disso, o que lhes mostraram. Fernando, tiveram um trabalho de pesquisa extraordinário. Vocês foram pra SPA ler roteiros. Viram imagem de RTP de arquivo, de teatros.
Sim.
Extraordinário.
E tivemos também uma pessoa a trabalhar conosco, foi o André Camilo, que recolheu muitas músicas. E eu tenho muita coisa em casa. Muito, que vou juntando há muitos anos.
Daquele tempo.
Por exemplo, quando fui do "Passa Para Mim no Rossio", que ainda não havia tanta facilidade de pesquisa, grande parte das músicas antigas estavam todas em minha casa.
Boa. Quer dizer, e é incrível, porque de facto o Flávio e o Gil é que vi uma entrevista a dizer: "Nós ouvimos centenas de canções e de revista. Inúmeras".
Há materiais incríveis.
Mas isso também está bem resguardado, Fernando? Há algum centro?
Não.
Se calhar o Variedades podia fazer um centro de-
Algumas coisas que aparecem no YouTube, e depois os direitos de autor proíbem e só estão lá um mês e tiram.
Poxa, é pena.
Há muita coisa.
Como há o Museu do Fado, podia haver também ou no próprio Museu do Teatro, por exemplo? Ou Museu do Traje, do Teatro?
O Museu do Teatro tem coisas, tem muita coisa.
Sim.
O que eu ia dizer?
Esses registros antigos que tu tinhas também do "Passa Para Mim no Rossio", tu guardavas coisas na altura. Para investigar tudo isso é importante, mas fartaram-se de ouvir.
Há o Igrejas Caeiro, há muitas coisas do programa "Comboio das 18h30" e o "Companheiros da Alegria".
Isto era na televisão ou da rádio?
Da rádio, eram programas de rádio ao vivo.
Não sabia.
Que o Igrejas Caeiro fazia com concursos.
Lembro que ele depois no Cartaz TV, não é?
Pois, mas isto é nos anos 40 e 50.
Era emissão nacional, imagino.
Eu nunca vi.
Sim, anterior a ti.
E há muito material, muitos registros de revista, porque iam lá da revista ao teatro fazer aqueles pedacinhos pra rádio e tudo.
Exatamente.
Há muito material.
Isso é muito importante. Fizeram, tu me contaste há bocado, 33 ensaios, deve ter sido hilariante.
Foi. Tivemos uma sorte, não tínhamos sala para ensaiar.
Então.
Depois o Variedades arranjou-nos uma sala na Estrada da Luz.
Ok.
É lar para adolescentes, muito grande, com jardins e hortas. Lá no fundo dos jardins e das hortas-
Tem um pavilhão
...tem um grande pavilhão.
Boa.
Que limparam e arranjaram. Tinhas camarim, tínhamos bar.
É como aquele dos Jardins de Bombarral, também agora dá pra-
E estávamos isolados, sossegados ali a trabalhar das 14 às 20 todos os dias. E conseguimos.
Um grande trabalho. Mas, de facto, pra mim, Variedades não é só o nome do teatro, é de facto este extraordinário elenco que conseguiram juntar.
Pareceu-me evidente que o título tinha que ser Variedades. Assim que te convido: "O que é que se vai chamar? Efemérides?"
Não tinha graça. Não tinha muita graça. É muito bonito, porque de facto esta ideia de pôr estes 10 protagonistas, todos muito diferentes, que se encontram todos nas festas, quando é Natal ou quando é Páscoa, quando é um Arraial de Santo António ou um aniversário, que relembram números, cantam, improvisam e que se tornam de facto amigos inseparáveis na vida e na morte, neste caso, ali no Parque Mayer.
Pois, eles às tantas chegam à conclusão que viemos à vida para cuidarmos uns dos outros.
Tão bonito isso. E de facto, essas personagens tipo são muito bem escolhidas. É de facto gente encantada e apaixonada pelo parque e pelos seus teatros. Tu, sobre este restauro do Teatro Variedades, gostaste sempre? Ou achas que modernize ali umas coisas ou que podia ter sido de outra maneira?
Pergunta difícil.
Difícil porque estás a pensar nas pessoas que estão ali.
Pois, acontece muitas vezes-
O José Raposo esteve aqui e disse: "Há ali umas coisas que eu mudava, porque aquilo não concordo muito com algumas alterações que lá fizeram". Outras não.
Eu digo o mesmo.
Sim, é normal.
Há muitos restauros por arquitetos que não entendem de teatro. O que fazem do edifício é muito bom, é muito bonito, isso tudo. Mas depois não há, por exemplo, a teia, que é o local onde se penduram os telões e as cortinas.
É muito estreita?
Não, ficou reduzido à metade da altura.
Ok.
Portanto, não podem subir.
Não pode haver telões muito altos?
Não Só dobrados. Por exemplo, a cortina, o pano de boca, não pode subir até acima porque não sobe.
Porque não tem altura suficiente.
Tem que subir e fazer assim.
Abrir. Pois é, reparei nisso.
Eu estou a fazer um gesto como se me estivesse a abrir.
Exatamente, a abrir os braços.
Sobe e põe de lado.
Eu reparei nisso, porque começa assim. Vai um bocadinho para o lado e para cima.
Porque não tem altura.
Eu não sabia disso. Mas isso não faria parte de um caderno de encargos que diz: como se fosse uma igreja ou um teatro, não é a mesma coisa.
Não sei como é.
Isso vem da raiz de quem é o dono.
A Maria João Luís costuma dizer nestes casos, já respondeu a várias pessoas: "Se não sabem, perguntem ao porteiro do teatro que ele sabe de certeza."
É a pessoa que deve saber.
O teatro musical em todo o mundo tem o fosso e tem uma passarela.
Sim, para as pessoas poderem vir à frente.
Cortaram a passarela, deixaram só as pontas laterais, de modo que as pessoas não podem ir de um lado ao outro.
Exatamente. Está ali coisas que não podem fazer.
Um pouco estranho, porque num teatro com aquelas características musical e não necessariamente revista. Aliás, agora há muitos musicais e têm se apresentado muitos lá no Variedades. E como é que querem que suba a passarela?
Muito bem. "Variedades como uma ópera bufa, erótica e satírica". O nosso tempo voou, já sabia, Fernando, que isso ia acontecer. Então deixo aqui esta dica: não perca, está em cena no Teatro Variedades, no Parque Mayer, quarta a sábado às 21:00 e domingo às 16:00, até 16 de agosto. A não perder este espetáculo que celebra o século do Teatro Variedades e Fernando Heitor, e também é um abraço que eu quis tendo ao Flávio Gil e ao João Paulo Soares. Muitos parabéns pelo vosso trabalho. E já agora àquela equipa extraordinária, este elenco das 10 personagens, que vale muito a pena. Muito obrigado por teres vindo.
Gostava também de agradecer à produção do Teatro Variedades.
Exatamente. Fica aqui este agradecimento merecido. De facto, a não perder. "Variedades: como uma ópera bufa, erótica e satírica". Já está.
E como em todos os espetáculos, o melhor do espetáculo são os atores.
Exatamente. E neste caso são mesmo. E os seus criadores. Claro que sim. Bem-hajas. Até à próxima.
Muito obrigado.