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Olá, eu sou o João Paulo Secador e este é um podcast da Rádio Observador, que pode ouvir online ou em 98.7, na Grande Lisboa, e em 98.4, no Grande Porto. É com muito gosto que damos as boas-vindas ao convidado extra de hoje, Gonçalo Leandro, o fundador e diretor da Way of Arts, uma incubadora de artes, digamos, sediada em Cascais, ele já vai explicar tudo, que há uns anos, como técnico de restauro, foi surpreendido pela Rainha Isabel II quando estava a trabalhar no Palácio de Buckingham. Vai querer saber tudo. Obrigado, desde já, Gonçalo, por teres aceitado este nosso convite. Bem-vindo ao Observador.
Obrigado, João Paulo.
Gonçalo, vou começar já por isto. Tu estavas muito bem um dia a estudar medicina, quando decidiste visitar um ateliê e mudaste de vida.
Boa noite. Eu não estava a estudar medicina, eu estava a fazer o liceu e estava a me preparar para ganhar coragem para entrar em medicina.
Pois, eu tinha essa dúvida. Como é que começou a preparar para estudar medicina? Está bem, mas era a tua cabeça, era o que tu querias ser.
Era um sonho de criança. Eu tenho, tanto do lado da minha mãe como do lado do meu pai-
Vários médicos?
Sim, vários médicos na família. E, portanto, era uma área que me interessava especialmente. Mas um dia, por acaso, tropecei num amigo meu, um amigo de infância, que tinha um ateliê de restauro ali na zona da Praia Grande. E entrei no ateliê dele e fiquei, não sei, foi um magnetismo tremendo.
Foi uma epifania.
Uma epifania. Fiquei agarrado às coisas, a olhar para tudo aquilo, para os cheiros. Comecei a falar um bocado sobre o estilo de vida dele. Comecei a perceber a paixão que ele tinha pelo que fazia.
E disseste: "É isto".
E disse: "É isto". E mudei.
Tu estudaste, no fundo, nas duas escolas da Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, tanto o Instituto das Artes e Ofícios, quer a ESAD, a Escola Superior de Artes Decorativas. Infelizmente, as duas já extintas hoje, acabaram em dezembro, vai fazer agora um ano. Mas é bom saber que a fundação continua, agora com outra figura, chamada a Fresh Forma, porque as encomendas não param. Ali tu estudaste toda esta fundação, que tinha sido fundada por este banqueiro, Ricardo Espírito Santo Silva, em 1953, quando ele depois doou o Palácio Azurara e toda a sua grande coleção de artes decorativas, com essa ideia de transmitir a arte de saber fazer essas artes decorativas e os ofícios relacionados. E assim, estas escolas chegaram a ter 19 oficinas. É incrível, 19 oficinas de manufatura e restauro, que quando aquilo acabou há um ano, oficialmente, havia já gerações de artesãos que estavam lá há 40 anos e que chegaram a ajudar no restauro do Palácio de Versailles. Isto há 50 e tal anos, nem eu nem tu éramos nascidos, há quase 60 anos. Portanto, era uma escola incrível, onde tu aprendeste muitas técnicas, e que não pode acabar.
Era e é uma escola extraordinária. A iniciativa do fundador, o Ricardo Espírito Santo Silva, é uma iniciativa de louvar, uma coisa também única no mundo, aquilo que ele fez. Tivemos mestres de excelência, conhecemos pessoas fantásticas e, portanto, foi uma experiência do mais enriquecedor que possas imaginar. E foi com base naquela escola, naquele trabalho que foi desenvolvido ali, que depois eu consegui vir a criar a Way of Arts e fazer aquilo que faço hoje em dia.
Entre todos estes cursos que eles lá davam, incluindo pequenos cursos, que era o projeto de uma microempresa, que é uma coisa extraordinária. Ambiente, segurança, higiene e saúde no trabalho. Além de curso de douramento, curso de técnica de goma-laca e pó japonês. Imagino que isso sejam coisas orientais, que eles ensinam durante X horas. Há cursos mesmo disso.
Sim, nós tínhamos o nosso curso.
As pinturas, os trompe l'œil, todo esse aprendizado.
Exatamente. Eram áreas distintas, havia a área das madeiras, depois havia a área da pintura. Hoje em dia, na Way of Arts, trabalhamos com uma série de pessoas, muitas delas que se formaram nas escolas da fundação, umas na área de pintura, outras na área de madeiras, outras em outras áreas.
A todos os efeitos, era uma escola fantástica, chegou a ter 120 funcionários. Incrível. E como dizia a Conceição Amaral, a sua diretora, diz que-
Espero que continue a ser
Espero que sim. Agora com esta nova forma, da Fresh Forma. Como dizia a Conceição Amaral: "Se ninguém ensinar a marcenaria artística, por exemplo, e a talha, se ninguém souber trabalhar o ouro, se ninguém souber encadernar ou trabalhar e fundir metais, tudo passará a ser feito em fábricas, o que torna o mundo todo igual", dizia ela. Não há nada como este saber fazer dos artífices portugueses, que eram muito bons nestes pormenores dos restauros.
É uma grande verdade. Nós tínhamos uma escola, por exemplo, na área da talha. A talha portuguesa do século XVIII é considerada por muitos a talha mais bem executada, mais delicada de todas as talhas executadas à volta do mundo. Havia uma elegância e um saber fazer extraordinário. E é engraçado que estás a falar dessa parte da mecanização, das novas tecnologias, por aí fora. Nós, hoje em dia, estamos envolvidos num projeto internacional, estamos a trabalhar com alguns parceiros da Finlândia, da Suécia e da Holanda, neste momento, e um agrupamento de escolas portuguesas do Norte. E estamos exatamente a discutir uma série de questões ligadas à associação das novas tecnologias aos ofícios. E estamos a chegar à conclusão que há certas coisas que funcionam, outras coisas não funcionam tão bem, porque realmente aquilo que distingue os nossos métiers é o toque Humano. É a beleza do traço e do toque. E, portanto, as máquinas poderão entrar para dar algum apoio, na nossa ótica, mas não poderão ocupar o espaço.
Falta essa dimensão, exatamente.
É. E é isso que nos vai manter, ou vai manter estas áreas valorizadas ao longo dos séculos. O restauro e os ofícios. Mas agora falando do restauro, eu olho pro restauro como alquimia. É quase dar o elixir da eterna juventude às peças. É uma coisa que de uma forma mais romântica pode ser vista.
E, portanto, tem muito do toque de cada artífice. E não pode ser um robô a fazer, que é sempre igual e sempre a mesma coisa, e não correta, se calhar.
Não, não pode. Em muitas áreas não pode, tem que haver sensibilidade. E depois, dentro dos próprios grupos de artesãos e de artífices, de restauradores que trabalham, é fundamental que se consiga hierarquizar muito bem estas equipes. Ou seja, há pessoas mais acadêmicas, importantíssimas pra planear, pra organizar projetos, por aí fora. Mas depois é fundamental que as equipes sejam compostas por técnicos que sejam excelentes executantes. E uma das lutas que nós temos em mãos neste momento é tentar transformar algumas áreas dentro dos ofícios, ou seja, elevar estes cursos técnicos a licenciaturas.
Para ser mais apelativo também a novas gerações.
É, os pais continuam a querer que os filhos se licenciem.
Tenham o canudo.
É. E eu falo destas áreas, dos ofícios em que nós trabalhamos, mas também te podia falar de outras áreas. Agora dando aqui um exemplo diametralmente oposto ao nível daquilo que é o pormenor artístico, se calhar, mas os eletricistas, a canalização, e por aí fora, são áreas que estão a precisar imenso de ganhar cunhos diferentes, de reconhecimento. Porque há uma falta tremenda de técnicos.
Se há licenciatura de pintura e licenciatura em escultura e em dança, o que é que não poderá haver em restaurador de pintura, em restaurador de frescos, do que seja, porque trabalho não falta.
E é importantíssimo que a qualidade, ou seja, aquilo que eu falava antes, que as pessoas e os técnicos que executam têm que ter grande qualidade, por quê? É que tudo isto tem um impacto grande no funcionamento cultural de uma cidade. Porque nós quando pomos nas mãos de restauradores de qualidade duvidosa e em empresas que não executam com a qualidade que se quer alguns trabalhos. Passado algum tempo, alguns meses, alguns anos, voltamos a ter problemas nos edifícios, voltamos a ter problemas nesses sítios onde se executou o trabalho. E tudo isto depois tem um impacto na dinâmica cultural, nas visitas, na procura por parte dos turistas, por aí fora. Portanto, nós acreditamos que é fundamental haver uma execução com qualidade, que haja mais investimento nesta área por parte dos donos de obra, para que se consiga, donos de obra sejam Estado, sejam privados, por aí fora, mas acreditarem que o restauro é fundamental que seja bem feito, que seja bem executado. E outra coisa que acredito é que, de uma vez por todas, devemos separar as empreitadas de construção civil das empreitadas de restauro, que é uma coisa que se continua a fazer muito em conjunto.
Porque normalmente são juntas, os mesmos cadernos de encargos.
É. E é uma coisa que complica muitas vezes as coisas pra nossa área.
A outra acaba por ser dominante e portanto acabam por supervisionar coisas que não têm a capacidade técnica pra serem eles a supervisionar.
Exatamente. Excelentes profissionais a fazerem o seu trabalho, por aí fora, mas estamos a dar instrumentos diferentes e temos que perceber as responsabilidades diferentes.
Como diria também, há bocado falei com a Conceição Amaral, da Fundação Espírito Santo, ela considera o século XXI como o século do regresso ao que é genuíno. Portanto, ela diz que há uma luz ao fundo do túnel. Diz que o artífice hoje é um criador. As áreas de trabalho manual estão a ser revalorizadas e há mais procura de formação nesta área e isto é importante. Olhando pro futuro, tens esta visão também otimista ou por enquanto ainda não vês sinais disto?
Olha, de certa forma, tenho visto, e é notório, há muito mais gente interessada nestas áreas, nestes ofícios hoje em dia. Agora, eu acho que pra além de haver pessoas interessadas, é muito importante que as pessoas que trabalham nesta área, que os artífices, que os técnicos de restauro, que avancem nestas áreas, mas com um cunho também de modéstia e muito importante no relacionamento com os clientes em geral. Porque eu vejo que há muita gente a virar-se pra estas áreas porque é moda, e acabo por cruzar com muitas pessoas que me passam a ideia de olhar pra esta forma de estar, não da forma que eu acho que seria a melhor, com menos pretensão. Nós temos que trabalhar os clientes, fazer coisas do mais simples que há. Eu vou te dar um exemplo giro. Há dois dias tivemos uma cliente que ia dar um jantar em casa e estava numa loucura, porque precisava de uma extensão pra mesa de jantar dela.
Sim.
E falou-nos, nós estamos felizmente ocupadíssimos, cheios de trabalho, mas a forma como ela me descreveu aquele jantar, a importância que aquilo tinha pra ela. Falei com a equipe, vamos arranjar uma forma de resolver isto.
Acrescentar umas tábuas àquela mesa.
E a senhora dizia-me assim: "Mas vocês que fazem coisas de um rigor tão grande e de um pormenor, você vai perder tempo a fazer isto pra mim? Você vai me salvar deste problema?" Eu disse: "Claro que vamos, vamos tentar, vamos fazer isto". E transformamos aquele bocadinho de fazer um acrescento. Não é só um acrescento, foi um acrescento feito com cuidado pra coisa funcionar. O jantar parece que correu muito bem. A forma como ela me contou como o jantar se ia passar era hilariante. Mas eu vou vos dizer, nós na We Do Art encaramos uma cliente que pede um excerto de uma mesa ou uma senhora que está a arranjar um banco de cozinha da mesma forma que encaramos um dono de obra de um palácio de Monserrate.
Como já aconteceu, que precisou o restauro de móveis. Isso é importante, ter esse condão e essa atenção com o cliente. Isso chama gente e depois, por uma questão também de passa palavra, as pessoas acabam por vos contratar, o que é muitíssimo bom. E comigo em estúdio tenho o Gonçalo Leandro, que é restaurador de património e promotor de novos caminhos nas artes. Falámos de toda esta tua formação, Gonçalo, quer na ESAD, Escola Superior de Artes Decorativas, quer no Instituto dos Artes e Ofícios. Houve alguma área mais específica que tu fazias ou que gostavas mais ou que tinhas mais jeito? Dentro de todas estas áreas, que podem ser o vidro, o azulejo, os tecidos, a madeira, o fresco. Há muita coisa. Qual era a tua especialidade? Tu chegaste a trabalhar muitos anos nisso.
Sim. A minha formação foi nas madeiras, essencialmente, e na parte da talha. Portanto, foi a área que eu escolhi, foi a talha. Durante alguns anos entalhei, até depois montar a Way of Arts, já em 2003. Não só entalhei, fiz muitas outras coisas, mas a minha área de especialidade foi essa.
A fundação, por exemplo, tem essa ideia de que o uso de novas tecnologias é uma oportunidade e um desafio para reinventar as artes e os ofícios. Qual é o teu sentir? As pessoas pensam que muitas vezes no restauro, passa a expressão, às vezes até se usa o cuspo pra limpar quadros e coisa salivar é boa, sempre ouvi dizer isso, pra limpar quadros por cima de verniz. E em contrapartida, por oposição a novas reverberadoras e novos aparelhos, por mais suaves que sejam, mas que sejam "high tech" com raios ultravioletas. O que tu defendes um bocadinho dessa ideia de que estas novas tecnologias podem ajudar muito o restauro?
Vamos lá ver. A evolução de algumas máquinas que permite aos artífices terem mais rapidamente em mão materiais que possam executar, cortar, montar. Tudo que sejam máquinas que possam apoiar para que o trabalho se desenrole de uma forma mais célere, são bem-vindas. Depois falava-se muito em impressão 3D, por exemplo. Nós fizemos uma série de experiências com impressoras 3D, imprimimos materiais, imprimimos uma espécie de um compósito de madeira e fizemos algumas peças em 3D só pra experimentar. Mas voltamos àquilo que falamos inicialmente. Estamos a mecanizar demasiado, percebe? E as peças ficam com um toque muito diferente daquele que é o toque manual.
Muito antisséptico.
Depois, ao nível da preparação de materiais, claro, com a evolução de algumas máquinas, de alguns instrumentos, consegue-se detectar melhor, fazer estudos estratigráficos, fazer estudos de componentes pra conseguirmos perceber como é que eles se poderão misturar melhor. Para apurar o resultado de alguns materiais e de alguns produtos, sem dúvida que as novas tecnologias vêm ajudar ou poderão ajudar muitíssimo. Agora, naquilo que é a execução das peças em si.
Aí o toque humano nada substitui.
Eu acho que é isso que vai continuar a ser procurado século após século, porque é isso que realmente distingue.
O que faz a diferença, se calhar.
É.
E nós somos bons nisso mesmo, certo?
Somos. Temos excelentes executantes.
Os franceses contavam-
Não muitos, mas há.
Mas alguns.
Há alguns muito bons.
Quando são, como diz o Marcelo, quando somos bons, somos bons.
É.
Como diziam uns franceses também, com uma exposição que houve dos nossos restauros, concretamente no campo da encadernação, diziam: "Vous êtes les dinosaures." Vocês são os dinossauros, vocês portugueses ainda têm peças pra dourar e pra tratar dessas encadernações e restaurá-las, há século XVIII, que nós já quase não temos. É muito difícil de arranjar. Vocês fazem isto, vocês são os dinossauros do restauro, diziam eles, que é uma expressão engraçadíssima pra atestar a qualidade do trabalho dos nossos artífices.
É uma beleza ver bons executantes a trabalhar. É uma coisa extraordinária. E conseguir parte da tua vida ocupá-la a ver estas pessoas trabalharem, se não tu executares. Neste momento, eu não me considero um executante, acabo por ser a pessoa que faz o planeamento.
Tu foste durante sete anos. Tu és mais um gestor. Mas durante uns sete, oito anos, também trabalhaste nisto. E fizeste aquele curso também, não só com os cursos da fundação, mas também com a bisneta. Foi uma coisa que tu também trouxeste da Fundação Espírito Santo, acabaste por casar com a bisneta.
Exatamente. Estive casado com a Bárbara durante muitos anos.
20 anos.
Exatamente. Não 20 anos de casado, mas estive quase 20 anos com ela. E sim, bisneta do Ricardo Espírito Santo Silva, portanto as minhas filhas acabam por ser.
Também têm sangue do fundador desta grande fundação.
Exatamente.
Mas há cinco anos mudaste de vida, casaste com uma eslovena, foste pra um país estrangeiro e tens três filhas e meia. Três e meia, certo?
Três e meia.
Três e meia. Não sabes se é rapaz, se é rapariga, mas como só fazes raparigas, deve ser rapariga, vamos lá ver. Entre os vários trabalhos que chegaram a fazer, se não me engano, já na Way of Arts, em 2017, já era. O Castelnau do Philippe Marcon.
Em França.
Sim, a foundation do rei Faisal. Que foi um trabalho que vocês fizeram também.
Fizemos um trabalho grande, sim. Fizemos uma produção de muitas molduras numa caixa. Fomos à procura de um material especial, que se chamava skivertex, não me lembro.
Isto onde? Pra uma fundação dele que ele tem onde?
Pra uma fundação.
Riyadh?
Na Arábia Saudita. Eu não sei exatamente onde é que está a fundação, porque acabei por não ir fisicamente ao sítio. Mas fizemos a produção através de um intermediário português.
E também em 2015, Apotekergarden. Isto é o quê?
Na Dinamarca. Isto é um prédio do século XIX dinamarquês. Estivemos a fazer uns trabalhos de recuperação e acabamos por fazer umas grandes pinturas decorativas nesse edifício.
Então foram pinturas decorativas, mas nada de restauro, foi arte nova? Um artista que levaram pra lá pra fazer isso.
Exatamente. Na Dinamarca, foi uma produção de raiz de trabalhos baseados num estudo que nós fizemos em imagens clássicas e depois fizemos uma proposta e acabamos por aplicar estas pinturas de grande dimensão nuns nichos dentro deste edifício do século XIX dinamarquês Uma experiência diferente.
Em 1999 e 2000, ou terá sido 2000 e 2001, num site vi uma data, noutro site vi outra.
1999 e 2000, se não me engano.
1999, 2000. Nestes dois anos, estiveste no Palácio de Buckingham a trabalhar.
Não os dois anos inteiros, mas em períodos de vários meses em cada um dos anos.
Era um contrato para restaurar o que é, com certeza, frisos, estuques e, no teu caso, molduras. Trabalharam o interior do Palácio de Buckingham durante estes dois anos, houve este contrato. E o mais curioso é que um dia acabaste por te cruzar com a Rainha Isabel, mas estavas industriado e preparado para isso, porque eles antes de tu ires deram-te uma pequena lição de protocolo, como fazer.
Aquilo era muito engraçado. Nós quando chegamos, os primeiros dias foram dias de formação, como montar andaimes dentro daquelas salas. Como nos dirigimos às pessoas, caso nos cruzássemos com alguém da família real. Muito cuidadosos. Para vocês terem uma ideia, eles nas equipes de limpeza, têm pessoas que só podem limpar objetos que estão expostos em cima, até à altura da cintura. E depois há os outros que estão habilitados a limpar coisas da cintura pra cima, porque são pessoas mais altas. Também, mas mais habilidosas, portanto eles fazem aquilo tudo com muito cuidado.
Incrível.
É muito engraçado. E é verdade, um dia estava em cima de um andaime com o Paulo Savidis, com um colega meu lá da equipe.
O mais engraçado é porque eles antes ensinaram: "Olhe, na eventualidade de se cruzar com a rainha", ensinaram-te várias coisas, de nunca seres tu a primeira a dirigir a palavra.
Exatamente.
Outras que é a primeira vez deves dizer: "Your Majesty" e a partir daí.
Exatamente. E a partir daí, "Ma'am". Portanto, se alguma vez se dirigisse.
No improvável caso, mas assim aconteceu. Um dia começaste a ouvir os corgis dela aproximar.
Não, nós estávamos no andaime, Sua Majestade passou a andar com um grupo de pessoas e fez um comentário: "Working in the scaffolding", ou seja, trabalhar no andaime, "seems very tricky", parece-me ser-
"Seems", com o apuro. "I guess working in the scaffolding must be very tricky".
Very tricky.
Tricky. E tu disseste?
"Yes, it is, Your Majesty".
"Yes, it is, Your Majesty. Do you want to try?"
Portanto, foi o nosso momento de-
Os teus dois minutos de fama.
Dois minutos de fama.
Mas foi simpático ela parar e olhar pra vocês e estavam a fazer um trabalho, com certeza. Isto era num corredor, era numa sala, era onde?
Era engraçado, porque nós tivemos acesso a praticamente todos os cantos do Palácio de Buckingham. Há pessoas que trabalham lá durante anos a fio e nunca saem da cave ou nunca saem daqueles pisos térreos. Nós tivemos a sorte de poder trabalhar em todas as alas do palácio, inclusive salas privadas. Nós assinamos também um acordo de confidencialidade relativamente a este tempo que lá passamos. Mas há pequenas coisas que não fazem mal contar. Por exemplo, a Rainha estava muito próxima de nós, porque nós estávamos a trabalhar nos salões principais. Ela faz as recepções de verão no jardim.
Onde ela faz o despacho.
É, e nós víamo-la ali, relativamente perto de nós, muitas vezes. E posso dizer que nós, pra irmos pra lá, fomos muito investigados. Eu percebi que realmente, durante aquele período de candidatura-
Até cá em Portugal, antes?
É.
Depois de teres inscrito. No fundo, havia o quê? Um concurso? Várias empresas se candidataram ou vários técnicos se candidataram?
Não, eu tinha uma amiga minha que estava a estudar em Inglaterra e que me falou desta possibilidade de me poder candidatar. E eu resolvi candidatar, mas francamente, não estava à espera de ser chamado com a rapidez que fui. E depois percebi, ou fiquei com a impressão, de que uma coisa que eles gostam, eles, Royal Collection, os responsáveis pelos trabalhos, que gostam de ter alguma diversidade naquelas equipes, acham que é importante pra eles também haver troca de conhecimentos, haver esta partilha, apesar dos ingleses serem muito puristas na forma de trabalhar.
Ah, mas portanto procuravam pessoas de países diferentes, com técnicas diferentes.
A nossa equipe era muito eclética, desde pessoas da Nova Zelândia ao Japão, a ingleses típicos, até portugueses, até uma espanhola.
Tu eras o único português?
Não, tinha uma outra pessoa, que esta pessoa que estava em Londres a estudar.
Ah, também era técnica de restauro. Pronto, e aí fizeram-vos com certeza questionários antes, interrogaram-vos. Imagino que o James Bond ou alguém do MI5 tenha andado a seguir-vos um pouco e a perceber os vossos contatos. Faz sentido quando tu vais pra dentro de um palácio real trabalhar. Faz todo o sentido.
Mas quiseram saber quem era a minha mãe, o meu pai, e acredito eu, porque eles podiam investigar e saber tudo, mas queriam fazer um double checking, como se diz, penso eu, a investigação, que se faz muitas vezes isso. Então pediram pra eu descrever as pessoas, pra falar sobre elas e depois, pelo que soube, andaram a investigar mais a fundo também cá. O meu pai, por exemplo, queixou-se um dia de ter um carro que o seguia, vai lá há dois dias.
Percebeste que devia ser por isso.
E conversei com ele, expliquei: "Eu estou me a candidatar a isto, não sei se terá alguma coisa a ver, mas poderá ser." Ele disse: "Não tenha certeza."
De facto, seguem dois senhores num Mini de gabardine e está 40 graus lá fora. Com as golas subidas e óculos escuros, chapéu, e eu em cima do coco.
Deve ser isso, pai.
Muito bem. Se não me engano, foi nessa altura, estavas lá a morar, portanto estamos a falar dos anos 2000, há quase 20 anos, em Londres, quando frequentavas o borbulhar cultural daquela cidade, do Brick Lane, o West End. Aí percebeste que é outra área que eu gostava muito de apostar. Fazia de isto, pôr a minha mão nisto, ser eu a gerir estas coisas, estas equipas, trazer esta arte moderna e contemporânea com esta coisa antiga ao mesmo tempo.
Foi. Eu quando estava em Londres havia duas ou três coisas que eu fazia quase todos os dias. Uma era quando chegava à casa, ir correr, porque passei muito tempo isolado daqueles dias chuvosos e por aí fora. E depois, era uma forma de me entreter. Depois outra coisa que fazia era a seguir ir passear, visitar exposições, ir a openings, por aí fora. E, portanto, andei muito isolado durante uma fase. Depois comecei a me juntar a algumas pessoas e acabei por fazer bastante programas culturais. Porque eu gostava do trabalho de restauro, de executar, mas sentia que não era a área onde eu poderia crescer mais. E comecei a interessar-me por outras áreas e comecei a pensar que talvez pudesse, porque conhecia alguns bons executantes por aí fora, começar a juntar uma equipa para criar uma empresa onde pudesse juntar estes dois polos normalmente não comunicantes: as artes clássicas com as artes contemporâneas.
Daí criar este Way of Arts, que é um espaço, como tu dizes, onde tudo pode acontecer. Tocar exatamente polos não comunicantes na arte. Portanto, esta Way of Arts, que nasceu em 2003, um projeto de engenharia cultural, como costumo dizer também, tem vários vertentes, além da conservação e do restauro, também tem a parte da galeria de arte contemporânea. Os eventos.
Eu vou te contar um pouquinho. Nós durante cerca de seis, sete anos, organizamos seguidamente, quase mensalmente, em certos períodos, eventos de arte contemporânea, tertúlias, pequenos concertos.
Mas cá também era para promover o vosso nome e promover a própria empresa, não é?
Era uma coisa que dava imenso gosto.
Chamar gente.
Pronto, aprendemos imenso com isto, conhecemos gente muito gira, e tínhamos os ateliês de restauro a funcionar. E estes eventos de arte contemporânea, claro, trouxeram muitas pessoas que acabaram por conhecer o nosso core business da empresa.
Isto passa-se onde exatamente?
Que era a área do restauro.
Em Alcabideche?
Começou por ser em São João do Estoril, numa casa perdida num bairro discreto, e depois acabamos por passar para este open space, onde estamos a trabalhar já há cerca de oito anos. E as coisas foram acontecendo assim, com estes eventos.
Chegaram a ter residências artísticas, por exemplo.
Fizemos residências artísticas.
Contaste aquela das bailarinas, estava lá um grupo de bailarinas que pediu para fazer uma residência lá, e estavam os homens todos ao lado a restaurar outras coisas.
Tivemos, dias incríveis. Pessoas a pintar, a dançar, a tocar e outros a restaurar, por aí fora. E este cruzamento, ou seja, aquele lado mais conceptual dos artistas contemporâneos e a parte mais técnica dos artífices, a troca de conhecimento entre eles foi muito interessante. Houve pessoas que me vieram mais tarde dizer que achavam que realmente aquilo tinha contribuído para a evolução deles, tanto como artistas, como técnicos. Nós continuamos a dar apoio a uma série de artistas contemporâneos, sempre que nos pedem para produzir as obras, e temos tido sempre um espaço muito aberto a receber pessoas, quem nos quer visitar para aprender, quem quer ir fazer estágios, vai. A nossa política tem sido sempre muito esta de partilha, de abertura, e com isto acho que temos conseguido criar uma equipa muito gira. Passados estes 16 anos, eu acho que há cerca de dois, três anos, é que eu posso dizer que estou com uma equipa. Não quer dizer que passaram por lá pessoas fantásticas, ao longo destes anos. Eu tenho que agradecer a quase todos que passaram por lá.
Chegaste a ter lá 40 pessoas a trabalhar.
Em projetos a acontecer ao mesmo tempo, sim. Muita gente.
Mas em geral são o quê? Umas seis ou sete pessoas fixas, não?
Sim, temos seis, sete pessoas no quadro fixo e depois vê-se a harmonia. Neste momento, estaremos cerca de 15 pessoas a trabalhar. Depende dos projetos que temos em mãos, varia muito. Mas a verdade é que há neste momento um equilíbrio muito grande entre as pessoas, há um respeito grande. Se há um corpo estranho, uma pessoa estranha que aparece na Way of Arts neste momento para trabalhar connosco, e se humanamente não se encaixa neste grupo.
Sente-se logo. Exato.
Eu nem preciso de fazer nada, hoje em dia, porque naturalmente o grupo trata de reorganizar.
Vais coçará-la.
O que é muito engraçado. E gostava muito de conseguir manter este grupo que tenho durante bastante tempo. Espero que ninguém se vá embora nos próximos tempos.
Tu tens algum projeto da área da cultura e do turismo cultural? Foi uma coisa que vocês pensaram, mas vocês preveem fazer alguma coisa deste género de visitas guiadas por vocês ou de estrangeiros cá ou de vocês lá?
Nós durante algum tempo recebemos pessoas, convidávamos estrangeiros. Um trabalho que eu fiz em paralelo com isto.
Pode ser que haja verbas com isso. Por isso é que eu estou a dizer. Podia ser uma coisa que vos ajudava também. O objetivo é conseguir, através do turismo cultural, gerar verbas para poderem investir na recuperação do património. Uma coisa que uma vez tinhas dito numa entrevista e que seria importante agarrar, se calhar. Vocês são um case study. Há empresas que vos estudam.
Nós temos centrado muito, nos últimos anos, na área da conservação e restauro, na importância que a conservação e restauro de património e a qualidade dos técnicos têm para a evolução também do turismo cultural. Nós temos que nos lembrar de uma coisa: que cerca de 30% do revenue, ou seja, dos resultados do turismo cultural a nível europeu, isto é um estudo muito recente, vêm das visitas a edifícios históricos. Ou seja, esse turismo cultural gera na casa dos 20 bilhões de euros por ano na Europa.
É muito dinheiro.
Gera muito emprego. É uma coisa que tem uma dimensão muito grande, que as pessoas nem se apercebem. A maioria das pessoas não se apercebe.
O cara não tem noção disso, eu acho.
E quando trabalhamos em países como a Inglaterra, ou depois vamos trabalhar a Dinamarca, ou França, ou outros sítios. Mas muito em Inglaterra, sente-se realmente a forma como eles valorizaram estas áreas, os ofícios e o restauro. Os restauradores são excepcionalmente bem pagos ao nível dos outros grandes profissionais das outras áreas. Um trabalho de restauro é um trabalho altamente respeitado.
E qualificado.
A exigência da qualidade é muitíssimo grande, mas vale a pena É uma área que dá gosto trabalhar naqueles ateliês em Inglaterra.
As pessoas queixam-se que é um trabalho muito caro e continua a ser muito caro.
Não, não é um trabalho muito caro.
As pessoas têm quadros muito bons, gostavam do Rocamélico, gostavam de restaurar, está muito sujo.
Há trabalhos que são francamente mais baratos do que as pessoas pensam. E há outra coisa que eu acho que toda a gente devia pensar, é que hoje em dia, fala-se muito da questão da ecologia e da sustentabilidade, tem que se ter imenso cuidado com os recursos. Toda a gente compra uma peça ou outra, ou pode comprar uma peça ou outra, como eu até compro no IKEA e em outras lojas. Mas se as pessoas também se consciencializassem que se restaurassem muito mais as peças que têm de família, não só mantinham patrimônio, como salvavam muito mais recursos e conseguiam não deixar uma pegada ecológica tão grande como deixam, ajudavam-nos a nós, restauradores e este mercado, e ajudavam o país que mantinha patrimônio com qualidade e ajudava o ambiente.
Exatamente.
Portanto, é um desafio que eu faço ou que lanço para toda a gente pensar um bocadinho sobre isto.
Neste momento, tem uma série de trabalhos em curso. Tem aqui uma ideia, este é a Quinta da Bela Vista, que é da Câmara de Sintra, se não me engano, o Hotel Blue. Há assim umas coisas que o vosso site fala, o Museu da RTP, é uma coisa que também já tem algum tempo, está a acompanhar, a Capela do Senhor da Conceição.
É um cliente muito bom.
Muito bom, não é? Que eu vejo há vários anos. Aparece várias vezes. O Museu da RTP, a Igreja da Senhora da Conceição, a Santa Casa e Misericórdia de Cascais. E também a Câmara de Cascais, que vos tem ajudado e tem apoiado bastante. Onde é que é a vossa sede, Gonçalo? Em Alcabideche.
Em Alcabideche. Nós estamos sediados num-
É uma espécie de incubadora.
Que foi criada por este presidente de câmara e por esta equipa que lá está, que é a DNA Cascais. Fomos convidados para trabalhar com eles há oito anos e o doutor Carlos Carreiras tem sido excepcional na forma como tem apoiado a recuperação de patrimônio no conselho e como tem permitido que algumas empresas possam desenvolver trabalho naquela zona. E sim, estamos ali há oito anos a trabalhar num sítio, num ninho de empresas que pertence à Câmara de Cascais.
À Câmara de Cascais. A única coisa que ficamos à espera é que saia o teu livro de contos, que se prevê já para este ano que vem. Estás a escrever um livro de contos para as tuas três filhas e meia. Vamos lá ver se todos também podemos lucrar com isso.
Tenho algum receio de chocar algumas pessoas, mas digo que tenho receio, não tenho. Digo isto com alguma graça, com arrirmo.
Com certeza.
Porque é um mundo que irei...
Infelizmente não temos tempo para mais, Gonçalo. Estou obrigado por teres partilhado connosco as tuas vivências como técnico de restauro, as tuas ideias como diretor da Way of Arts.