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Eu acho que tem a ver com a educação, que passou de um estilo mais autoritário, acho que também não pode cair num estilo permissivo. As crianças precisam de balizas, segurança, de regras.

Autoridade, de regras.

Há coisas que não são negociáveis. Mas elas precisam disso pra se sentirem seguras, com autoestima.

"Esta miúda anda sempre descalça, daqui a pouco está constipada. Não dorme à noite? Meta papa no biberon e vai passar a dormir bem melhor. Estou farta de dizer à minha filha pra não andar sempre com ela ao colo. A miúda está viciada. Hum, a criança está com febre, deve ser dos dentes. Ah, deixa-o chorar, faz bem aos pulmões." Tantos mitos ouvidos pelos pais em todo lado, da família aos amigos, escolas, livros e redes sociais. Algumas ideias são inofensivas, outras capazes de gerar ansiedade e, em certos casos, até colocar a saúde da mãe e do bebê em risco. Entre tradições, conselhos bem-intencionados e crenças populares, é fácil perder-se da informação que é realmente verdadeira. Mónica Cro Brás é médica pediatra com quase 20 anos de experiência em consultório e urgência pediátrica. Depois de um primeiro livro há três anos, "Pergunta à sua Pediatra", lança agora o seu segundo livro: "As crianças não se constipam por andarem descalças e outros mitos que a sua pediatra responde sobre a saúde das crianças". Olá, Mónica, e obrigada por ter aceitado este meu convite. Bem-vinda à Rádio Observador.

Muito obrigada.

É um grande prazer estar aqui a falar contigo, porque eu adoro caça-mitos e tu és uma caça-mitos perfeita. E nesta área, ainda há tantos mitos. Encontras tantos pais ainda com ideias erradas e trocadas. Não é por maldade, mas que são influenciados. Então os influencers, por exemplo, têm aqui uma grande culpa. Há muita desinformação e mal informação, não é?

Sim, é um prazer estar aqui. Obrigada, João Paulo. A ideia de fazer este livro é exatamente pra tentar desconstruir estes mitos que se vão propagando, pra já entre gerações.

Exatamente.

Eu costumo dizer agora, por brincadeira, que arranjei um novo inimigo, são os avós.

Pois, porque esta coisa do: "A criança pode andar de calções à chuva e não se constipa".

"Está muito fresco".

Os avós. Exato, são todos: "Oh, filha, porque a mãe dela não é o teu filho".

Exatamente. Mas há aqui uns mitos que, na verdade, foram verdade no passado. Há coisas que com a evidência científica e com a evolução, passaram a ser não verdades, mas já foram corretos anteriormente. E depois, o que eu acho é que nós nos agarramos a verdades inabaláveis, que até sabemos que já não são verdade, mas é ali a nossa zona de conforto e vai se perpetuando.

Exatamente.

E depois, era o que o João Paulo dizia, realmente, as coisas transmitem-se de uma forma muito rápida ao nível das redes sociais. Às vezes com intenção, outras vezes sem intenção, há este perpetuar de mitos, de crenças, até às vezes de inverdades com intenção de causar algum caos.

O caso das vacinas foi um deles, não foi?

Exatamente.

Muitos negacionistas e muitas pessoas que foram atrás, e até médicos foram atrás disso, o que é extraordinário.

E que é perigoso para as crianças e pra família, pras pessoas em geral. Porque se há mitos que são inofensivos, há outros que são perigosos. Lembro-me desses das vacinas. Lembro-me, por exemplo, de mitos que têm a ver com a segurança.

Como por exemplo?

Como por exemplo, usar as cadeirinhas de automóvel. Há pessoas que ainda acham um exagero, os cuidados todos que há com a proteção dos acidentes.

Basta o sentido normal das crianças.

"A tua mãe ia deitada no banco de trás e não lhe aconteceu nada".

Exato.

É verdade, não lhe aconteceu nada a ela, mas aconteceu a muitos outros.

Certamente. Não, e hoje os carros são diferentes, as velocidades são diferentes.

Isso mesmo.

O perigo é muito maior do que há 50, 60 anos. Eu mesmo quando era miúdo, com os meus seis irmãos, andávamos atrás aos pulos, no coiso atrás, sem cintos nenhuns. Mas hoje em dia eu não recomendaria isso a ninguém, nem levaria os meus filhos nunca na vida. Levei sim, sempre um cinto atrás, os dois, claro.

É verdade. Ou sei lá, proteção de janelas nas quedas de varandas. Os capacetes nas trotinetes, nas bicicletas.

Tão importante.

São coisas que realmente parece leviano agora aligeirar esses cuidados. Mas, na verdade, às vezes ainda perpetua aqui um bocadinho, sobretudo as gerações mais antigas. "Antigamente era assim e estamos cá todos".

Exatamente.

Nem todos estamos. E isso é evidente pelos números, porque há uma redução brutal de mortalidade no primeiro ano de vida em relação a quedas e este tipo de acidentes. E, portanto, isso é de louvar e de salientar.

Basta ir aos cuidados médicos, lavar as mãos, como tu dizes, falas nisso, desde os partos, havia os natos mortos e as complicações de parto era há 100, 200 anos, não tinha nada a ver com os números hoje, a mortalidade infantil.

Não, é verdade. Então, em Portugal, nos últimos 50 anos, com os recursos que nós temos agora e com os avanços, não só tecnológicos, mas com estes tipos de cuidados, como o saneamento básico, por exemplo.

Exatamente, coisa tão simples.

Exato.

E tão básica pra nós.

Isso. Em países subdesenvolvidos, neste momento, além da água potável, lavagem das mãos salva-vidas.

Completamente.

E as vacinas, a par disso, eu acho que são realmente um direito que as pessoas têm e um privilégio de não retroceder e não reaparecerem doenças que estão a aparecer outra vez.

É uma coisa que tu dizes, que eu li que tu escreveste, e achei extraordinário. É verdade, há um retrocesso evolucional Recusarmos vacinas, porque infelizmente estão a voltar doenças que achávamos já erradicadas há não sei quanto tempo, porque houve uma série de pais, de famílias e comunidades que decidiram não vacinar. E está a voltar. Doenças que julgávamos erradicadas para sempre.

Exatamente.

Exsurtos.

Sobretudo aqui em países desenvolvidos, portanto, que não se justifica. E todos estes mitos à volta das vacinas, que as vacinas causam autismo, que é melhor ter a doença do que fazer a vacina.

E que têm mercúrio, portanto, é venenoso.

Têm mercúrio, têm alumínio, que são produtos tóxicos e que vão fazer mal ao organismo. Ou, por exemplo, acabar por adiar uma vacina porque tem uma constipação ou porque está a fazer um antibiótico, sobretudo em crianças pequeninas que não estão ainda protegidas.

O sistema imunológico ainda em desenvolvimento, não está completo. Por isso é que as crianças no primeiro dia que nascem, já levam vacinas.

Isso mesmo.

Mas é para o bem delas.

Exatamente. É um bem delas e um bem comum para toda a gente.

Estão cá fora, estão num meio completamente diferente e não tão protegido como se estivessem dentro do útero.

Isso mesmo. Eu acho que este mito aqui acaba por ter algum perigo. Mas depois há uma série de mitos inofensivos que vão passando de gerações em gerações. Por exemplo, lembro-me deste castigo que nós tínhamos, às vezes, de estar três horas a fazer a digestão, a ver o mar.

Antes de tomar banho. "Apanhaste uma constipação se for tomar banho agora". Também é um bocado mito, isso, não é?

É um mito. Em casa não há problema nenhum, a água do banho está quente. Desde bebé, eu até digo muitas vezes aos pais: "Olhe, não tem problema nenhum de mamar ou dar a fórmula e a seguir ir para o banho. A água do banho está à temperatura do corpo e, portanto, não há choque térmico nenhum".

Não há choque térmico, exato.

E além disso, às vezes o bebê está desganado de fome e não vai aproveitar nada daquele banho se estiver esfomeado.

Outra coisa que se diz: "Banho todos os dias ou não?" Depende um bocadinho da pele, ou não sei o quê. Mas também do prazer.

E da família, das rotinas.

Que ele tem.

Nós tentamos que ali naqueles primeiros dias o bebê não tome banho, porque há aquele vernix, aquela camada protetora, que o bebê deve conservar. Pelo menos as primeiras 24 horas. Mas pode-se atrasar. Se for possível. A não ser que haja alguma questão de saúde do bebê, que precise de outro tipo de intervenção. Mas depois disso, o bebê não anda no chão, mas quer dizer, às vezes bolsa, faz cocó até ao pescoço, faz xixi e portanto está mais calor ou menos calor. Aí a gestão da família é o que é importante, mas não há realmente choque térmico. Numa piscina ou numa praia, eu acho que depende, e isto é válido para os adultos, depende do que é que cada um come. Mas pode-se ir muito tomar banho.

Comeu feijoada, alguma coisa pesadíssima.

Bebeu imenso.

Exato. E um choque térmico brutal, da água gelada. Caminha! A praia de Moledo.

A ideia é entrar devagar na água, não é preciso fazer a tal digestão. Qual é o risco aqui? É a pessoa sentir-se mal na água. Como se pode sentir mal noutro sítio qualquer.

Ou com o golpe de calor.

Exato. Vai fazer uma corrida depois de comer imenso, também não faz. E portanto, o que acontece é que pode desmaiar na água e o perigo disso é desmaiar na água e afogar-se.

Exatamente. Na praia de digestão.

Até um adulto deve estar atento.

Minimamente atento e cuidadoso, que o oriente nisso.

Isso mesmo.

Tão importante. Mas agora aquelas coisas: "febre, é dentes". São mitos, não é?

É. Esse é talvez um dos maiores mitos da pediatria. É os dentes darem febre.

A sério? Os dentes darem febre.

Isso. Os dentes darem febre. E até às vezes, aqui perpetuado por alguns profissionais de saúde. Eu acho que às vezes a pessoa já se explica várias vezes e pronto.

Com evidência científica.

Isso. No fundo, a gengiva inflama, os miúdos andam com as mãos na boca, babam mais e nas mãos vão micróbios. E concomitantemente, além do romper dos dentes, têm constipações, têm ranho, têm tosse, têm febre por causa disso. Mas são os vírus e as bactérias que o provocam.

Mónica, como é que tu fazes quando tens doentes, pacientes teus, que vieram referenciados por outros colegas teus que não deram os melhores conselhos ou que o seu colega mandou tomar não sei o quê ou fazer não sei o quê, e tu vês que isso é completamente contraindicado. Como é que tu fazes?

Eu tento ser politicamente correta, mas tentar fazer perceber realmente o que a evidência atual mostra. Posso dizer: "Olha, se calhar isto foi correto antigamente, mas agora os últimos dados ou a última evidência é esta". E acho que depois os pais, aqui a pediatria, eu acho que nós somos de uma forma geral competentes. Só que é uma relação que se estabelece de empatia e disponibilidade até à maioridade. Portanto, os meus recém-nascidos que começaram comigo já têm 17 anos. E é muito giro ver as famílias a crescer e os miúdos a crescer. No outro dia entrou um miúdo com 1,88 metro, quase que eu tenho que me pôr em cima da cadeira para conseguir medir a estatura como deve ser. Mas é muito giro ver as vitórias deles e também viver as perdas e todos os momentos com a família. E sobretudo, eu acho que não dá para agradar a gregos e troianos. Eu acho que é as pessoas sentirem empatia, confiarem naquele profissional de saúde.

Tu tens alguns doentes que são campeões de kenpō e de Muay Thai, ginástica.

Isso, de desportos que eu nem conhecia.

Artes marciais, estranhíssimos.

Isso. Tenho muitos desportistas, já. Temos que estar atentos aos Olímpicos.

Deixa-me perguntar-te uma coisa que não tem nada a ver. É o teu nome. O que é que tu sabes da origem do teu nome? Diz que é irlandesa, Crowe. Mas sabes que houve uns famosos na história. O João de Crowe, por exemplo, sabias isso?

Não, isso não sabia. Sei que há muitos Crowes na Madeira, apesar da minha origem não ser da Madeira. E sei que há umas Termas do Crowe na Beira.

Exatamente. O João de Crowe era uma importante figura histórica, que foi o rei de armas responsável pelo Livro do Armeiro-Mor em 1509, cá em Portugal. João de Crowe, é de certeza teu décimo avô.

Deve ser.

E as Termas do Crowe ali no Sabugal, pois é, também existe. Quando tu vais lá, tens desconto, não? Já foste alguma vez?

Não.

Muito interessante, é muito curioso. Foste feita em Moçambique, depois vieste nascer cá. Mas depois foste logo para lá, muito novinha, com pai piloto e mãe hospedeira, claro, andaste de um lado para o outro.

Exatamente.

E viveste lá em Maputo até aos seis anos, se não me engano.

Isso.

Tens boas memórias de lá?

Tenho.

Fizeste lá a primária ou escola, pelo menos?

Fiz lá a pré-primária e o primeiro ano e depois vim para cá porque o meu pai teve uma oportunidade de emprego e apesar de tudo estávamos em África, era um ambiente mais inseguro e mais instável.

África do Sul também, não foi? Ele teve.

Sim. E a verdade é que apesar de tudo, tive imensa sorte, meu pai adorava fotografia, adorava vídeos e portanto tenho essas memórias. Às vezes tenho dificuldade em saber se as minhas memórias são reais ou são já trabalhadas. Mas tendo em conta que foi um período difícil no pós 25 de Abril, eu nasci em 1981. Mas numa altura em que nesta fase as pessoas têm dinheiro, há tudo lá. Mas realmente tinha a sorte do meu pai trabalhar, ir à África do Sul e trazer tudo, desde a pasta de dentes à carne, roupa interior.

Todos os bens essenciais.

Mas realmente, na altura, o Hotel Colonial, o Polana, estava mais ou menos abandonado. Eu passava lá tardes na piscina e ia com os amigos dos meus pais jogar ténis. Tenho boas memórias, se calhar numa infância que até não foi muito fácil, mas que os meus pais conseguiram proporcionar.

Mas tu gostavas de voltar, é engraçado.

Sim, gostava.

No teu bucket list estava e davas um jeito.

É verdade. A minha mãe nasceu lá e não quis voltar mais. É da Beira, eu vivi em Maputo, mas não consigo voltar como turista. Eu, apesar de tudo, não deixei aquela saudade, aquela nostalgia e gostava muito de lá voltar, porque é paradisíaco, tem 2500 km de costa linda.

Exato. Até Pemba. E quando vês essas notícias, às vezes, sobre a situação complicada lá, não te faz pena?

Sim, faz-me pena.

Que é perigoso ainda.

Sim, tem instabilidade.

Extrema pobreza.

É verdade. E acho que os meus pais, nesse aspecto, tiveram a sorte de conhecer não só Moçambique, como outros países de África via aérea, que naquele tipo de países é um privilégio. Muitas vezes não se chega de outra forma. Mas sim, acho que foi uma fase muito feliz da minha vida e tenho que lá voltar.

Muito bem. Estava a pensar que tu vieste para Portugal em 88 e depois foste tirar Medicina. Mas antes disso, esta tua grande paixão pela dança, isso é tão bom. Tu fizeste 20 anos de dança, entre o ballet, 14 anos, e depois o hip-hop, e participaste nesta Gymnaestrada, no mundial aqui em 2004. O maior evento de ginástica não competitiva do mundo. Eu lembro do Ginástica para Todos. Aliás, para o ano, não sei se sabes, vai ser cá em Portugal, vai ser em Lisboa, em 2027, a 18ª edição, na FIL, no Altice. Gymnaestrada, que é uma coisa muito curiosa, onde tu chegaste a participar mesmo.

Foi muito giro.

Espírito muito giro de equipa, toda a gente felizes todos.

Eu já estava na faculdade, é um espírito não competitivo.

Já estavas em Medicina mesmo?

Sim. E na altura até achava que não ia conseguir porque estava em exames. Mas fui fazendo sempre as provas, fui sempre ensaiando as coreografias e depois na altura foi possível, foi um movimento supergiro, vários países. Fomos ao Estádio do Jamor. Estamos em 2004. Tenho uma lembrança dos japoneses com os telemóveis com vídeo, que na altura para nós era futurismo. Mas foi superengraçado, porque realmente havia classes muito elaboradas, mas também pessoas mais velhas que vieram pelo país, que nós fomos sempre muito amistosos e é sempre um evento incrível. Foi muito giro participar.

Muito bom, boas memórias. Este apelo da Medicina vem de onde? Tu tinhas 17 anos quando entraste na faculdade de Medicina aqui em Lisboa. Vem de onde? Tinhas alguém na família? Gostavas desde pequenina, vias filmes, séries, lias?

Não, na verdade, eu não tenho família próxima médica. Acho que tenho uns primos afastados em Goa, que são médicos, mas não eu. E fui aquela típica criança que aos quatro, cinco anos quer ser pediatra, que acho que todas as crianças querem, e ficou. Nunca passou. E eu, na verdade, entrei em Medicina, mas com esta vontade de ser pediatra. Se houvesse um curso separado para crianças.

Ou se não tivesse vaga ou qualquer coisa, ou depois do Haroldson tivesse que ir para cirurgia.

Tive que tentar.

Mas conseguiste sempre seguir então o teu sonho, no fundo.

Isso. Afastei um bocadinho essa opção, porque realmente havia essa questão do exame. Mas tive a sorte também das coisas correrem bem em Feição e ter uma formação ótima no Hospital Garcia de Orta em Almada, onde tive excelentes profissionais a ensinaram-me Pediatria Geral.

Fizeste lá os cinco anos de internato. Incrível.

Que é o que eu gosto essencialmente de fazer, a pediatria do ambulatório.

És presidente, neste momento, desde há três anos, da Sociedade de Pediatria Ambulatória, que faz parte da Sociedade Portuguesa de Pediatria.

Isso mesmo.

Tiveste umas pós-graduações em doenças infecciosas pediátricas, que era em Oxford, que era aqui também na Dona Estefânia. E depois uma pós-graduação, eu adoro isto, em Medicina do Viajante. Engraçado, por quê?

É assim, porque eu gosto muito, apesar de ser pediatra geral, tenho muito este bichinho pela infecziologia e a parte da medicina do viajante, para já, adoro viajar. Eu às vezes até costumo dizer: "Olha, errei na profissão". Com um pai piloto e uma mãe hospedeira, tinha tido muita vontade de fazer um ano sabático e ir passear pelo mundo. Mas depois com a Medicina, realmente, isto segue.

Absorve e gostas.

E depois perdes aqui um bocadinho o comboio, portanto, é difícil parar entre a escola secundária e a faculdade.

A exceção foi o facto de abrir, como tu dizes, destinos diferentes, culturas diferentes. Este abrir horizontes, que é muito importante, de facto.

Sim, é de uma riqueza enorme.

E depois a lua de mel que tiveste nas Maldivas.

Isso mesmo.

Foi a melhor viagem, talvez, que tu fizeste. Lembras de algumas que eu também amei. Petra é um deslumbro total, é um sonho, e Marrocos. E gostavas muito de ir ao Egito também, ainda, são coisas que ainda tens para fazer.

Sim, eu sou muito de praia.

Ver Árabia. Tu és mais de calor. City girl.

Sou. Deve ser de Moçambique, deve ter ficado lá esse printing. Mas sou muito mais de calor e praia, já estou farta desta neura de chuva.

Sim. Polinésia, Patagónia, gostavas de ir também. Ainda não é tão praia.

Não, mas gostava também de ter essas experiências. Na Islândia, na Patagónia, na Argentina, Machu Picchu.

Machu Picchu, claro. Esta parte de medicina de viagens, ia perguntar isso. Cuidados para viagens com bebés. Que cuidados especiais é que tu recomendarias uns pais que precisam de viajar com a sua criança para ir para um país tropical?

É assim, de um modo geral.

Se for muito pequenino, não devia, se calhar.

Sim, eu recomendo fazer sempre primeiro aquelas vacinas básicas antes de poderem viajar.

Que os adultos têm que fazer.

Exatamente. Não, mas pelo menos as crianças, às vezes os pais gostam de vacinar e de aproveitar as viagens enquanto estão de licença de maternidade. Eu peço que não vão logo aos dois ou aos quatro meses. Dou aqui um bocadinho de tempo para eles terem aquelas primeiras vacinas feitas.

Que ficam feitas quando? Aos quatro, cinco meses, é isso?

Ficam normalmente completas aos seis.

Aos seis, está bem. O plano nacional de vacinação, cada vez mais diz que mais nos orgulha, é verdade, a nível mundial, e há coisas novas sempre a acontecer. Umas saem, outras entram, é verdade, é muito importante.

Sim, nós cada vez somos mais globais. Há pessoas que vivem noutros sítios e vêm cá completar a gravidez e têm o parto e voltam para os sítios de origem. Outros têm famílias fora, no Brasil, por exemplo, e querem ir visitar a família e mostrar o bebê. Vamos sempre conciliando aqui o bom senso e a segurança do bebê. Mas normalmente o que eu digo sempre é: cuidados com a água, sempre água engarrafada, nesses sítios mais tropicais. Ter cuidado com o gelo também, que às vezes é um cuidado que nós não temos tanto.

Pois, achamos que vamos viajar para a Indonésia. Não bebemos água do torneiro nunca, mas lavamos os dentes na boa, pomos bebidas com gelo e esquecemos que o gelo é da água deles. Não é que seja impura, mas para o nosso biota não faz bem.

Isso, exatamente. Depois, por outro lado, às vezes até sugiro que sejamos nós a descascar a fruta, se for possível, às vezes naqueles bufês, naquelas saladas que estão prontas, exatamente porque são preparadas às vezes com água que não é tão potável. Repelentes, muitas vezes quando é necessário, para prevenção de picadas e de doenças. Proteção solar é essencial. E depois normalmente sugiro que vá um kit de farmácia, que muitas vezes na consulta de medicina do viajante ou os pais mesmo na consulta de pediatria me pedem, coisas para a febre, anti-histamínicos para a comichão, algum antibiótico em SOS.

Coisas de diarreia e não sei o quê.

Porque a diarreia do viajante é uma das coisas. Não, Motilis não, nem Imódios, isso não damos na criança. Probióticos, como o Tralvur, por exemplo, uma coisa assim. Às vezes um antidiarreico se for preciso e soros de hidratação oral, um antibiótico em SOS se for necessário.

E hidratar é muito importante, não é?

Muito.

Uma das coisas mais graves é a desidratação.

É. E a diarreia do viajante talvez seja das patologias mais frequentes em todas as pessoas que andam mais fora da Europa e de países desenvolvidos.

Estamos a falar aqui dos cursos que tu fizeste, as pós-graduações que fizeste, tão importantes. Houve o teu primeiro livro, "Pergunta à Sua Pediatra", já lá vamos. Tu para já tens dois filhos teus, três filhos enteados, no fundo, filhos do coração, que é um grande projeto que tu tens na tua vida. Estas cinco crianças que animam lá em casa, que mãe é que tu és? Foste sempre tranquila? Ou é diferente com os teus? Como é que isso acontece?

Quando às vezes dizemos: "São o mesmo pai e a mesma mãe e eles são tão diferentes". Na verdade, sim, as crianças têm personalidades diferentes, mas nós também evoluímos enquanto pais.

Claro, não somos a mesma pessoa que éramos quando os tivemos.

Isso. E portanto, eu acho que passamos a ser mais tranquilos com umas coisas, menos com outras. Nós costumamos dizer no meio da medicina que às vezes a ignorância é protetora e, às vezes, quando sabemos demais, é mau. Porque sabemos o que é que pode complicar, vemos ali às vezes a franja dos internamentos e das coisas mais difíceis e das coisas mais inimagináveis que as crianças conseguem fazer. Porque há aquelas coisas que nós prevemos: usa o capacete, protege a janela, protege os cantos. Mas depois há outras coisas que, por mais que a gente pense, que eles vão sempre ser capazes de fazer e que não nos passou pela cabeça.

Entre que idades é que eles estão, Mónica, lá em casa?

Na verdade, neste momento eles são os cinco muito seguidos, têm entre os sete e os 11 anos.

Ai meu Deus, que incrível!

Mas como são três enteadas, acho que trouxeram um pouco de serenidade aos meus filhos e dão-se muito bem. Tanto estão cada uma na sua, como brincam todos juntos, como estão todos a jogar à bola. Portanto, acho que é uma dinâmica gira.

Sabes que eu tenho um primo meu, já falámos disso, que é pediatra, doutorado em Pediatria, cuja mulher, minha prima, é que os levava sempre ao pediatra e não era a ele. Que ela disse: "Santos casas não fazem milagres", e ela preferia ir a outro, que era amigo dela, de confiança, que já tinha sido o pediatra de um filho anterior que ela tinha. E depois tomava nota e tudo que ele dizia para mostrar ao marido: "Olha, quer também a pediatra?"

Sim, nós também somos dois pediatras lá em casa, mas eu tenho uma pediatra para os meus filhos.

Não sei porque acho que quando é o teu próprio, é um pouquinho diferente e ter outra segunda opinião é bom.

Sim, claro que é assim, aquelas coisas agudas eu resolvo, mas gosto sempre que alguém faça as consultas de rotina ou olhem para eles sem ser a mãe.

Exato. Muito boa. Muito bem. "Pergunta à sua Pediatra" foi este o teu primeiro livro há três anos. Tudo o que precisa de saber para cuidar do seu filho até aos três anos. É engraçado, porque eu sou do tempo em que havia, já não do Benjamin Spock, "Meu Filho, Meu Tesouro", aquele livro muito antigo, que é de 1946. Mas sou do tempo do T. Berry Brazelton, "O Grande Livro da Criança", de 98. Aliás, o ano em que nasceram os meus filhos, eu tenho dois gêmeos. Já muita coisa confesso que fomos consultar ali ao livro muitas vezes, apesar de ter dois irmãos médicos e primos pediatras. Mas esses livros ajudam. E este teu manual também é muito bom nisso. Quero te dar os parabéns, a ti e à Planeta, que é a editora, porque graficamente está muito bem feito. Todos estes mitos aparecem aqui dentro destas caixas verdes, é muito fácil de referenciá-los. Tens aqui um índice, ao princípio, muito bom, porque faz logo: mitos sobre a mãe e o bebê, mitos sobre a alimentação, mitos sobre o desenvolvimento da criança, as doenças e vacinas, a segurança, comportamento e saúde mental. Está muito bem estruturado. Isso foi muito bem com uma boa peça.

Não, isso eu só devo à Planeta, no sentido de toda a flexibilidade que eles permitiram, de forma a eu conseguir montar isto. Já tinha acontecido com o primeiro livro.

Isso foi convite deles, não foi? Eles disseram: "Mónica, arranja tempo aqui para nós fazermos. Boa ideia, agora."

O primeiro tinha sido uma abordagem através das redes sociais, que eu tenho uma página no Instagram, e foi assim que eles me contactaram e me desafiaram para o primeiro livro. E depois do primeiro livro, surgiu esta ideia dos mitos, que eu achei muito gira e que agarrei, mas deram-me liberdade total para organizar da maneira que eu achava que fazia sentido. E quem me conhece, revê-se no livro e percebe que sou uma pessoa prática, simples, que quer mensagem fácil e que seja acessível a todas as famílias e a todos os cuidadores.

É muito engraçado. Passei para o fim, a dizer que no final tens os contactos úteis, que é muito importante aquela página, sobre segurança infantil, os centros antivenenos, institutos de apoio à criança, prevenção do suicídio. E tem este site "Nem Mais Uma Palmada". Isto é muito curioso, que combate outro mito. Este mito do: "Deram-me palmadas em criança e não só não me fizeram mal nenhum, mas formaram o meu caráter, quem eu sou hoje". A ciência trouxe, de facto, provas conclusivas. Todos os castigos corporais e psíquicos têm efeitos negativos. Mas ainda há hoje quem, cá está, vem das gerações anteriores.

É verdade, eu acho que isso talvez tenha sido das maiores mudanças entre gerações. Além de ser crime. A verdade é que eu acho que dar uma palmada numa criança ou gritar com uma criança diz muito mais da nossa desregulação enquanto adulto e da nossa intolerância, fruto da vida e do estresse em que andamos, do que propriamente a criança que está simplesmente a ser criança. Por isso é que eu também digo que não existe mima mais, as crianças não podem ser castigadas dessa forma.

Claro, muito importante. Como diz o outro: "Ele não é hiperativo, ele é mal-educado". É uma coisa que se ouve muito.

Isso. Eu acho que é preciso bom senso, não cair no rótulo de agora são todos hiperativos. Porque tem critérios específicos para diagnosticar. E mesmo quando têm critérios e são diagnosticados, às vezes, só se isso tiver interferência na vida deles, porque são mitos que funcionam bem, que estão bem na escola, independentemente daí requer tudo, está tudo bem.

Tal biscoito intercoceptivamente.

Se calhar, funciona para a escola, funciona para a criança, mas, por outro lado, é perceber que é uma doença, que tem critérios específicos e que não é ser mal-educado ou incapacidade dos pais.

E saber diagnosticar isso é importante, como as pessoas dizem: "É depressão, não sei o quê, ou é burnout". Isso são coisas da psiquiatria que hoje em dia têm uns critérios próprios. A pessoa não pode dizer porque acha que é, ou que está sempre triste ou está sempre a chorar. É depressão. Não, não é necessariamente a mesma coisa. Portanto, tem que saber distinguir e a ciência diz o que é que distingue, o que é que é mesmo.

Isso mesmo.

Bom senso é muito importante. Eu lembro que era uma coisa que dizia o obstetra da minha mulher desde sempre, quando começou a ter gêmeos. Bom senso. E ela dizia: "Francisca, as suas famílias vão dizer muitas coisas, suas irmãs, e tem muitas. A sua família, os seus amigos, mesmo contra a família, contra amigos e sobretudo contra os influencers, os achismos, como tu chamas no livro, os achismos O bom senso também é muito importante. Seguir a sua intuição e estar atentos aos filhos e a tudo, os sinais que eles vão lançando. Falas nisso muito livremente.

Sim, eu acho que é muito importante. Cada família tem o seu comportamento, a sua forma de ação. Às vezes o que é certo para uma família não corre bem para outra. É realmente agora um mundo diferente do que há 10 anos. Esta parte das redes sociais, às vezes é um pouco frustrante a pessoa tentar transmitir literacia em saúde e ver um influencer que não é profissional de saúde e acaba por propagandear uma informação leviana que é perigosa. Mas são os tempos e, portanto, o que eu agora tenho visto é uma atualização do Sistema Nacional de Saúde, da Ordem dos Médicos, da Direção Geral da Saúde, agora com esta nova coordenadora, de estarem presentes também nas redes e transmitirem informação.

Estão atentos a isso. Juntaram-se ao lado. É importante isso.

Juntaram-se. Demorou um bocadinho, mas juntaram-se.

Como tu tens o teu Instagram também. É importante isso, senão só vamos ver os outros que não interessa nada e que, como tu explicas aqui logo no princípio, há pessoas apostadas em lançar estas teorias da conspiração.

Claro. Eu não sou a melhor ou pior pediatra por estar nas redes, atenção. Acho que há muitos colegas muito válidos que não estão. Eu simplesmente quis aderir aqui a um movimento que eu acho que é importante de transmitir. Era mais um veículo de informação, no fundo.

E altamente credível, baseado em evidência, que é muito importante. Tu trabalhaste muito em urgência pediátrica, achas que os pais entopem muito as urgências sem necessidade? É uma coisa que eu sempre ouvi dizer.

Sim, eu às vezes costumo dizer que as urgências pediátricas multiplicam-se, é quase como supermercados ou centros comerciais, mas enchem todos. E às vezes acho que é. E por outro lado, é um bocadinho um contrassenso, porque nunca tiveram tanta acessibilidade da parte dos pediatras como agora. O meu pai sempre me disse: "Olha, Mónica, o problema da pediatria não são as crianças, são os pais". E estávamos a falar de uma altura em que não havia telemóveis, não havia redes sociais, não havia esta informação toda que às vezes ainda confunde mais. Quem tinha a sorte de ter um pediatra, ir ao consultório, havia um telefone fixo, havia uns dias fixos em que estava lá o pediatra. E portanto, o acesso era este. Neste momento, muitos pediatras fornecem um e-mail ou um contacto direto. Eu falo muito com os meus doentes por WhatsApp. Mas mesmo assim, consigo ir gerindo muitas vezes a maior parte das doenças virais das crianças, que dura três a cinco dias de febre, dizer-lhes os sinais de alarme, quando é que devem ir à urgência. Mas às vezes é difícil.

Há exceções. O recém-nascido, aí sim, é quase sinal de enterneamento. É urgência. Recém-nascido com febre.

Recém-nascido com febre não é para esperar. Claro que cai, parte um braço, é para ir à urgência. Mas depois há uma série de coisas que nós conseguimos gerir ou por mensagem ou numa consulta dentro de dois, três dias.

Dizia este meu primo: "Quanta febre é que ele tem?" "38,2." "Até 38,2 não te quero ver."

Mas eu costumo dizer que às vezes, mais do que o valor da febre, o que nos interessa é o estado geral da criança.

Aposto. Falamos muito nisso, é engraçado. Como é que está? Achas que ele está quentinho, mas está bem disposto e está a brincar, ou está caído, com os olhos, o gemido, como tu falas. É muito engraçado.

É, porque na verdade, às vezes os miúdos estão bem, estão aos pulos, a pessoa põe a mão, olha, parece que está quente. E se calhar tem 39 ou 40 e estão com febre. Ou então estão mais encostados, mas depois do paracetamol ou do ibuprofeno, uma horinha depois estão aos pulos no sofá e está tudo bem. E é por isso que nós não os medicamos. Não é para tratar nada, é só para tirar o desconforto.

Disfarça o sintoma, no fundo. Combate o sintoma.

E isso colide com outro mito que muitas vezes nós dizemos: "Febre alta é sinónimo de doença grave". Não. Na criança, sobretudo sem ser aquela criança pequenina, recém-nascida ou até aos primeiros seis meses de vida. Uma criança com 39, 40 graus pode ter perfeitamente uma doença viral, uma gripe, um Covid ou outro vírus qualquer, sem isso ser significado de doença grave.

Engraçado, é uma coisa, Mónica, que o meu pai, que era médico, avisou-me. Disse: "Olha, tens gêmeos agora, são pequeninos, nasceram no tempo deles, 38 semanas, sendo gêmeos, sem incubadora, sem nada, são ótimos, saudáveis e bons. Mas João, só para te avisar uma coisa, de vez em quando os bebés desenvolvem até convulsões e febres de 40, 41 graus. Muitas vezes é normal nos bebés, não te assustes". De facto, nunca aconteceu. Mas de facto, as convulsões, se forem meia hora, aí já é mais perigoso, mas são estes curtos-circuitos no cérebro. São descargas elétricas, mas assustam um pai que veja. Eu tive a sorte de nunca ter.

É verdade, é uma coisa um bocadinho assustadora. Até nós, médicos, já vimos várias vezes aquilo. Parece que houve ali uma descida. Sim, que a criança morreu ali. Convulsão febril chamada. Isso. E a convulsão febril tem muitas vezes uma carga genética. Às vezes houve um pai, uma mãe, uma tia que tiveram. É típico entre os seis meses, seis anos de vida, mas com um pico ali entre um ano e meio, dois anos, que coincide com o infantário e com o aumento das infeções virais. E às vezes é ali nas primeiras 24 horas de febre ou no primeiro pico de febre, o disparar rápido da febre, aquela imaturidade do cérebro Não consegue, faz ali um curto-circuito elétrico e realmente acontece a convulsão. Mas pode nunca mais repetir-se na vida. Isso é verdade.

É extraordinário. Portanto, a maioria das infeções nas crianças são causadas por vírus e não por bactérias. Isto é verdade?

É verdade. Isso colide também com, não é um mito, mas é uma crença que os pais detêm. "Fui à urgência, o médico não sabe nada disto, disse que tinha uma virose, mas não sabe o que é que tem".

Eu ouvia dizer muito isso. Via pediatras que diziam: "É tudo virose". Quando não sabiam a razão.

É isso, mas nós às vezes não nos interessa saber o que é, às vezes interessa saber-nos o que não é. Ou seja, se precisa um diagnóstico e uma intervenção nova, um antibiótico, um exame complementar, precisa de uma ecografia, uma criança que precise ficar internada, que tem um ar doente e que precisa de nós ou não. Porque, na verdade, há vírus que nós olhamos e sabemos o que são. Olhamos e vemos uma varicela ou aqueles síndromes de mão e pé boca, porque têm uma predisposição na pele com características específicas. Depois há um saco enorme de doenças virais que não tem importância saber o nome. Não vale a pena estar a sujeitar as crianças a exames invasivos para saber o nome da doença, se aquilo não vai mudar a atitude. Será só para tratar de forma sintomática, aliviar os sintomas, hidratar, repousar e a vida segue.

Chorar não faz bem aos pulmões, só quando nasce. Como dizia o outro. As pessoas dizem: "Não, ele chora, fica ali a chorar, não faz mal, faz bem aos pulmões". É mentira, é um mito.

Sim, eu acho que é daí que vem a crença. Ou seja, nós gostamos quando o bebê nasce, que chore. Isso sem dúvida. A respiração fazia-se de outra forma, a partir do momento que se corta o cordão e o bebê sai. Aquilo tem que entrar o ar e é a forma do bebê respirar. Eu acho que é daí que vem o "chorar faz bem aos pulmões". Mas depois, não. Isto cola um bocadinho com o mima mais e com o "calvicie" ou com a palmada. Eu acho que tem a ver com a educação, que passou de um estilo mais autoritário. Acho que também não pode cair num estilo permissivo. As crianças precisam de balizas, segurança, de regras. Há coisas que não são negociáveis. Mas elas precisam disso para se sentirem seguras, com autoestima. Mas já não é preciso aquele autoritarismo em que é afastado do ponto de vista emocional, em que se batia, em que se castigava e em que era assim porque eu mando. Os tempos mudaram também.

Há outro mito, por exemplo, que havia antigamente: podem comer gelados mesmo com dor de garganta. É uma coisa que hoje em dia sabe-se que sim.

Sim.

Como a alimentação do primeiro ano. Havia aquela coisa do não experimentar certos alimentos. E hoje em dia está provado que eles devem fazer uma alimentação quase normal logo a partir de-

João Paulo, eu acho que das coisas que mais mudou, além da educação, nos últimos anos e com base nas sociedades europeias de pediatria, de gastroentrologia, nutrição, é que a partir dos seis meses a criança pode comer praticamente tudo. E deve introduzir e manter na dieta. Isso é que é importante, não ser um toca e foge. Sem ser os açúcares, o sal, os alimentos processados, o leite de pacote. Basicamente a criança pode fazer tudo. Já não há aquela coisa: "Não come frutos vermelhos, não come citrinos". Não, deve comer fruta inteira, privilegiar o que é fruta da época por ter menos aditivos. Mas pode comer de tudo, para que por volta de um ano esteja a fazer dieta do tachos com os pais e uma dieta mediterrânica saudável.

Esta obesidade infantil é um problema em Portugal? Mônica, vais apanhando mais.

Sim. O excesso de peso e a obesidade são um problema da criança, da família toda.

E pode ser desde que nasce. Diz que se deve tratar nos primeiros mil dias, portanto, aqueles três anos.

Normalmente, o que está agora estudado é que estes primeiros mil dias, que são no fundo a gravidez e os primeiros dois anos de vida do bebê, têm um impacto muito grande no futuro da obesidade e desta programação metabólica. Percebe-se agora que é a carga proteica que é mais importante para definir essa obesidade no futuro.

Quer dizer que os pais estão habituados a dar quatro vezes mais proteínas do que eles deviam?

E nós também comemos demais. Devíamos comer a nossa palma da mão, o nosso bife ou o nosso peixe de refeição principal.

Palma da mão é uma referência?

É.

O quê? O tamanho do bife?

Sim. Do bife ou do peixe ou do ovo, era o que nós devíamos fazer e todos comemos proteína a mais, é uma sobrecarga do rim e está associada à obesidade, sobretudo na criança. E portanto, por isso é que houve uma preocupação de reduzir a quantidade de proteína oferecida à criança, a proteína no leite. Tudo o que a grávida também consome, tem influência depois na saúde da criança e do adulto. E é realmente uma epidemia nestes momentos. Pelo tudo o que se associa, porque pode dar diabetes tipo dois, porque pode dar hipertensão arterial, porque desgaste das articulações da anca, do joelho, que é suposto durarem X e que vão durar menos.

Exatamente, por causa do peso acumulado.

Isso. E depois há a parte toda psicossocial, do bullying, do isolamento do jovem.

Body shaming.

Isso, até depressão e suicídio associados à obesidade. Portanto, é um problema grave.

Mas são níveis que têm vindo a crescer em Portugal também?

Sim. Tem crescido em todo lado e é uma doença do mundo desenvolvido.

Fruto um bocadinho também quando são um bocadinho mais velhos, adolescentes já, junk food e coisas deste género?

Sim, junk food, sedentarismo, as crianças andam menos na rua, estão mais agarradas aos ecrãs. Isto é tudo um equilíbrio do que entra e sai, independentemente também do background genético, que é importante. Mas sim, é algo que devemos estar atentos e uma preocupação, até porque a pediatria passou a ser até aos 18 anos, nos Estados Unidos é até aos 21. Estas crianças adultas fazem parte da nossa agenda e temos que cuidar disso.

O vosso target. É interessante tu também receberes uns casos extraordinários. O que é que é um doente que tinha uma espinha no rabo?

Essa foi inacreditável. Uma criança que vinha com dificuldade de andar com dois anos, eu achei que era qualquer coisa na anca, assado na fralda. E depois quando vou observar, vejo uma espinha espetada no rabinho da criança.

Foi um peixe que ele comeu com a espinha e que a sair, qualquer razão.

Conseguiu fazer o percurso todo do tubo digestivo e sair sem nunca ficar preso noutro sítio e dar problemas.

Que alívio deve ter sido.

Sim. Eu nem queria acreditar. A espinha já meio verde dos cocós.

Outra coitadinha que tinha um supositório metido pela vagina, em vez de ser no ânus.

Sim, às vezes às 04h30 da manhã, os pais não conseguem, com a luz meio apagada.

Sim, são aqueles supositórios já sem saber. E não acertaram no orifício.

No sítio, exatamente.

Outros tinham coisas engolidas, berlindes, por exemplo, isso acontece. Ou peças de jogos, coisas assim, dados.

É verdade, até aos primeiros três anos, as crianças põem coisas no nariz, põem coisas nos ouvidos. Ainda esta segunda-feira tive uma criança, rotina, dois anos, quando vou espreitar, tinha uma miçanga no ouvido, que os pais não sabiam e ela não tinha dito. Qual é que é o perigo, sobretudo, em ingestão? Coisas pontiagudas e sobretudo coisas com ímanes e pilhas.

Isso faz muito mal. Especialmente mau.

Sim. A pilha larga aquele químico.

Aquela baba.

Erosifá a mucosa e é de risco, tem que ser removido. E os ímanes também são perigosos, porque também estragam ali aquele revestimento.

Este tremoço aspirado também já te aconteceu? É que foi para a traqueia ou para o brônquio?

Para os brônquios. Portanto, tremoço aspirado, amendoim aspirado. Isto às vezes são coisas que eles apanham do chão, que ninguém está a ver. Eles têm aqueles olhos de lince. Mas ainda não têm coordenação completamente boa. Até nós nos podemos engasgar, na verdade. Mas sim, são histórias repetidas de coisas que vão para o sítio errado. Até uma batata frita do McDonald's, também já aconteceu.

O pior, para mim, o pior de todos que tu referenciaste foi esta caneta. Uma caneta enfiada no olho, até ao cérebro. Foi uma criança, sem querer, ou caiu, qualquer coisa.

Sim, uma criança de quatro anos. Lá está, era aquilo que eu dizia, a ignorância protetora. Pois nós vamos absorvendo estes nossos casos. Crianças a correr com a escova de dentes na mão, crianças a correr com cabides na mão, também já me aconteceu furar o palato ou furar lá atrás com a escova dentes. Mas esta foi uma criança que estava a descer um escorrega com quatro anos, que tinha uma caneta Bic na mão.

E enfiou pelo olho?

Sim, mas teve uma sorte enorme.

Não perdeu a visão?

Não perdeu a visão, o cérebro está bem, é uma miúda boa, agora já é adulta. Mas foi uma história incrível e uma imagem inacreditável.

Graças a Deus no fim feliz. Tu dás conselhos após dos telemóveis? Com que idade ter e as redes e essas coisas? Dizes: "A PNI já estão a proibir até aos 16 anos". Não podem ter redes, ainda bem. Ou nas escolas agora também estão a proibir.

Sim, eu acho que estamos todos a acordar um pouco para isto, não só como profissionais de saúde, mas como pais, porque este programa da adolescência da Netflix, eu acho que alertou muito para estes perigos. Porque antigamente nós estávamos fechados no quarto e estava tudo bem. Neste momento, eles estão fechados no quarto e estão em contacto com o mundo exterior, a ser aliciados para algo que não têm maturidade para gerir. A ser radicalizados, a tornarem-se viciados em jogos online, a ser abusados muitas vezes.

É verdade. Eu também dizia isso. Eu achava que o meu filho estava em casa, estava seguro. Não, ele pode estar com a porta fechada, a percorrer mundos que não devia estar a ver e a ser seduzido. É impressionante. Tem que ter muito cuidado.

É isso. E neste momento, o abuso sexual em crianças e adolescentes entre os 12 e os 16 anos é muito através deste contacto online que se começa e que se marcam encontros, etc. E, portanto, é preciso estar muito atento. Claro que não os podemos afastar da tecnologia. A inteligência artificial começa a ser já uma ferramenta do dia a dia deles, mas têm que saber usar estas ferramentas e estar protegidos e em segurança.

Muito bem. Mónica Cró Brás, o nosso tempo acabou, mas fica aqui esta dica, já sabem, é uma edição da Planeta: "As crianças não se constipam por andarem descalças". Procure numa livraria perto de si, para si próprio ou para dar a alguém que conheça que tem crianças pequenas. É uma capa verde, é fácil. A capa está muito gira, aliás. Vale a pena ver, da Mónica Cró Brás, que está conosco, esta pediatra. Quero agradecer muito. Que pena não teres vindo no primeiro livro, hás de voltar, e eu estarei lá quando vier o teu terceiro livro. Diz-me se já estás a pensar num tema e numas coisas para continuares.

Sim, olha, por acaso estes temas que agora fui falando consigo de episódios giros ou caricatos era uma coisa minha.

Hás de voltar então, o que é muito bom. Bem-hajas, Mónica, e então até breve. Muito obrigado.

Muito obrigada, João Paulo.