Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Sente por vezes dificuldade em concentrar-se? Tem muitas brancas ou falhas momentâneas de memória? Sente-se por vezes mentalmente exausto? Porque não é só o corpo, às vezes o cérebro também pode estar em baixa forma. Dois anos e dois livros depois, volta ao Observador Vasco Catarino Soares. Ele é neuropsicólogo e psicoterapeuta apostado em tornar-se um verdadeiro PT do nosso cérebro. O seu novo livro, "Exercícios para Recarregar o Cérebro", não é mais do que um plano de treinos, no fundo, é um programa de treinos. Ele propõe centenas de desafios para desenvolver 12 competências do nosso órgão mais importante em 66 dias. Tudo o que nos pede é que o recarreguemos dando apenas 10 minutos por dia. Olá, Vasco.

Olá, João.

Obrigado por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo de volta ao Observador. Engraçado, estive a ver e estiveste cá dia 6 de fevereiro de 2020. Portanto, domingo faz exatamente dois anos que estiveste cá. Entretanto, aconteceu uma pandemia que ninguém esperava. E tu, que em 2000 fundaste a tua Insight Psicologia, onde és diretor, este teu consultório onde colaboras como psicoterapeuta, neuropsicólogo e formador, tiveste com certeza um crescente de terem que se reinventar também, e pacientes com ansiedade, depressão, fobias, medos dos germes e dos vírus.

Sim, tivemos que nos reinventar logo no primeiro baque, por assim dizer, no primeiro impacto em que as pessoas de repente começaram a ficar em casa. Também foi isso que foi recomendado, mas as pessoas assustaram-se. E o nosso trabalho é feito em sala, em consultório. E aí tivemos que nos reinventar para não ficarmos sem trabalho. Tivemos que começar a criar os nossos serviços através do online.

Ok.

Que era uma coisa que ainda não existia muito em Portugal. Já existia nos Estados Unidos, mas é uma coisa que requer alguma habituação da parte das pessoas e também de nós terapeutas. Também temos que criar condições para que aquilo corra bem.

Mas resultou, funcionou.

Resultou. Fomos forçados a fazê-lo e às vezes é assim que as coisas acontecem. Quando somos obrigados a fazer as coisas, fazemos para que elas corram bem.

Exatamente. E para fazer alguma coisa e não ficarem parados. Porque também ninguém saberia, como se vê, durou dois anos e tal e ainda está a acabar agora. Ninguém podia prever que fosse tanto tempo.

Uma coisa inimaginável.

Inimaginável.

Eu recordo-me de ouvir-

As tuas tias-avós

...as minhas tias-avós falarem da gripe espanhola e que aquilo foi uma coisa mesmo em grande, como se costuma dizer. E eu imaginava: nós nunca vamos viver uma coisa destas com o avanço da medicina.

Século XXI, exatamente.

Não vejo que isto possa alguma vez acontecer. E acabou por acontecer.

O mundo parou completamente.

Fomos surpreendidos com isto.

Exatamente. E reparaste que vocês também têm uma consulta, além de pacientes adultos, têm também esta parte de crianças e adolescentes. Vocês atendem muitos nos temas do insucesso escolar, da hiperatividade, dos medos, da agressividade, do bullying. Reparaste que havia entre os mais novos e os que foram os últimos a sofrer mais com esta pandemia, havia um crescente de ansiedade?

Sim, notou-se muito a questão da ansiedade. O que é natural num adolescente, estamos a falar de adolescentes. O que é natural é a vida. Eles são muito vivos, gostam de fazer muitas coisas, estão a experimentar.

Encontrar-se socialmente.

Estão a experimentar a socialização. E isso foi uma coisa que ficou cortada, esta experiência de socialização.

Falam mesmo em ansiedade social.

Ansiedade social. A partir do momento em que as pessoas começaram a libertar mais.

Exatamente. Presencialmente.

Encarar isto já de outra maneira, começamos a receber muitos adolescentes com ansiedade social, que é o não saber muito bem como contactar com os outros.

Por ficarem dois anos sem dar abraços.

Por estarem isolados.

E aperto de mão.

Por estarem isolados. Atenção, porque para um adulto, se calhar este isolamento pode ser vivido de uma maneira, pode suportar isto muito melhor. Agora, o adolescente está a treinar a socialização naquela fase.

Faltou aquele período. Tem um gap. Vai ficar sempre com um gap em que não praticou.

Aquele período era uma experiência muito importante.

Claro.

E eles agora, de repente, ficam um bocadinho sem saber como é que eu vou ter com os outros. As pessoas às vezes acham que isto é caricato, mas é mesmo verdade. Estes adolescentes ficam ansiosos por irem para um sítio em que estão lá outras pessoas. Só isto já é ansiedade.

Como é que se cumprimenta? Sem falar das fobias do vírus, dos germes e dessas coisas, que há gente assim, que não gosta de tocar.

Os adolescentes até conseguem lidar um bocadinho mais tranquilamente com isso.

Muito bem. Para já, ainda bem, a Insight Psicologia continuou com o trabalho e bastante, tiveram que se reinventar. Há uma coisa que é curiosa, porque tu és doutorando em Neuropsicologia Clínica, na Universidade de Salamanca, onde fazem treinos para as demências e pacientes com AVCs, que tiveram acidentes cardiovasculares cerebrais ou com traumatismo craniano, os TCIs, como vocês chamam. É muito curioso, porque dentro do teu Insight também tem esta clínica da memória, e hoje vamos falar um pouquinho disso. A clínica da memória, portanto, diagnóstico do estado da memória e programas de treino, que é no fundo o que este livro também é, embora seja para o público em geral.

Esse livro é para um público em geral. As pessoas que vão à consulta, às vezes é por motivos mais específicos, como porque tiveram AVC ou um traumatismo craniano. E aí, o tipo de dano que a pessoa sofre é superior a estas dificuldades que um cidadão normal possa ter.

Este target, digamos assim, deste livro.

São programas mais específicos, são programas, se calhar, a começar mais atrás, ou seja, a irmos treinar competências que um cidadão normal tem Que estas pessoas perderam. Perderam ou ficou em grande parte danificada.

Exato. Portanto, tu criaste, planeaste e implementaste programas de recuperação de funções cognitivas como a memória, a capacidade de atenção, concentração, nomeadamente em pacientes pós-AVCs e traumatismos cranianos. Tu em 2016 lançaste este livro, "Exercite o seu cérebro: 30 dias, 90 exercícios".

Esse foi o primeiro.

O primeiro de todos, para treinar a memória e a flexibilidade mental e melhorar a atenção. E quatro anos depois, em 2020, nessa altura que vieste cá, estes "150 exercícios para um cérebro ativo: dos 8 aos 80, potencie o seu cérebro", é o subtítulo deste livro, também já uma edição da Manuscrito, se não me engano, Vitor. Este é um livro que o vai ajudar a potenciar o seu cérebro. É muito curioso, porque dois anos depois, para as pessoas que têm esta dificuldade em concentrar, quando se sente sem energia e frustrado, e estas brancas que as pessoas têm. Uma vez disseram que não é Alzheimer quando tu te lembras que te esqueceste, quando tu reparaste que te esqueceste. Enquanto souberes que te esqueceste: "Epá, não me lembro do nome do homem, mas tenho aí embaixo o nome". É Alzheimer quando tu achas que soubeste e que disseste.

Sim, a partir de uma certa altura.

E aí a pessoa tem que ter mais cuidado.

É uma perda de noção de si próprio, da sua história também. E isso é uma coisa curiosa.

Isto também tem a ver com memória, então.

Sim, não damos assim tanta importância, a fundo, à memória, mas é que nós sem memória, de facto, deixamos de ser nós próprios. Se nós não soubermos o que é que foi a nossa história.

Perdemos essa consciência de si.

Desaparece a nossa identidade.

Curioso. E quem diz Alzheimer, também estas demências e estas doenças degenerativas, é normal. Portanto, "Exercícios para recarregar o cérebro", saído agora já em 2022, uma edição também Manuscrito, como eu disse. Diz aqui na capa: "264 desafios para desenvolver 12 competências do cérebro". Portanto, é sobre se o cérebro está em baixo de forma, tal como o corpo, também pode ser treinado. E tu dizes, são exercícios. Primeiro, por que a ideia de fazer este livro? O que é que te levou a escrever isto? Aqueles exercícios que já tinhas publicado em dois livros não chegavam? O que é de novo?

Sim, porque as pessoas faziam aqueles programas e sentiam a necessidade de continuar, de voltar a fazer. Não quer dizer que fosse logo a seguir, mas depois tinham esta necessidade: "E quando é que vem o próximo para eu continuar a fazer?" Mas este também teve um objetivo, que foi alargar as competências cerebrais exercitadas. O outro era mais restrito nesse campo, o primeiro e o segundo também. Era muito focado na memória, na concentração e na flexibilidade mental, que são as queixas mais comuns das pessoas. E eu neste resolvi alargar um bocadinho isto. Para não ser só aquelas competências, alarguei para mais competências. Competências verbais, visuais também.

E tenho aqui uma lista que dizia também: a atenção focada, a atenção dividida.

Distribuída ou dividida.

Exatamente. A memória verbal, porque a memória, afinal, não está toda na mesma região do cérebro, uma coisa que também aprendi. A memória visual e visuoverbal, depois o raciocínio lógico, raciocínio numérico, raciocínio também visuospacial, linguagem visuoverbal, e a criatividade, por exemplo.

A criatividade também é uma inovação. Não é muito comum fazer-se programas para estimular a criatividade, porque há um pouco a ideia de que a criatividade é uma coisa com a qual nós já nascemos. Mas a verdade é que a criatividade estimula-se e pode ser desenvolvida.

Treinada, desenvolvida e fortalecida.

Tem a ver com uma atitude que nós possamos ter, que é abdicarmos às vezes das ideias ou de fazer as coisas sempre da mesma maneira a que estamos habituados. E às vezes experimentarmos coisas loucas ou absurdas. Porque o louco e o absurdo às vezes pode trazer qualquer coisa positiva ou qualquer coisa que nos acrescenta. Nem sempre.

Dentro do domínio do bom senso, obviamente. Mas é bom para o cérebro fazer essas coisas fora da caixa, de repente. Uma coisa que te assuste todos os dias, não digo que te assuste, mas que seja realmente diferente. Eu vi uma música que falava nisso. Todos os dias faz uma coisa que te assustes.

Sim, para saíres para fora. Mas há um bocado esta ideia de que as ideias malucas levam-nos por maus caminhos. Eu acredito que muitas das nossas ideias malucas até não sejam muito úteis, mas no meio destas muitas ideias malucas, pode surgir aqui qualquer coisa criativa. E é isso que os criativos fazem. Eles experimentam.

Exatamente. E às vezes tens ideias mais malucas, realmente, que ninguém pensaria antes.

E depois selecionam aquilo que acham que é bom.

Não é o lógico, não é o óbvio. Muito curioso, porque tu dizes, Vasco, que o cérebro de uma pessoa pode estar em baixo de forma e nós estamos agora a falar exatamente do sair da caixa e fazer coisas fora do normal, mas o facto do nosso dia a dia ser rotineiro e mais ou menos previsível, quer dizer que estimulamos os mesmos circuitos, as mesmas sinapses, os mesmos circuitos neuronais.

Estamos a reforçar e a estimular aquilo em que nós somos especialistas. O que não é mau, o que até não é mau.

Sim, mas é como tu dizes, é como se a pessoa fosse ao ginásio, faz cardio e só fizesse abdominal.

E fizesse só a mesma coisa, abdominais. Eu digo, não é mau, por quê? Porque nós nas nossas profissões, de facto, precisamos de nos especializar naquilo que fazemos. Isso é a parte positiva. Depois, a parte não tão positiva são as outras partes do cérebro que deixamos de estimular, e que nos podem ser úteis em muitas outras circunstâncias e até na nossa profissão. Podemos acrescentar qualquer coisa além daquilo que sempre fazemos.

Da mesma forma que a prática de uma atividade desportiva melhora a capacidade física, trabalhar o cérebro através destes exercícios cientificamente estudados trava a deterioração natural que a função cerebral sofre com o envelhecimento. Há uma coisa aqui que tu fazes: por que 66 dias?

Sim. Os 66 dias têm um propósito.

Porque isto é um programa, só para dizer às pessoas, que está dividido por dia, dia um, dia dois, até ao 66, quando chega às 300 páginas.

Os 66 dias têm a ver com o conseguirmos obter melhores resultados por ser um número maior de dias. Mas podia ser um número qualquer. Mas a ideia dos 66 tem a ver com estudos que foram feitos que nos permitiam dizer que a partir deste número-

Dois meses e seis dias?

...dava-nos uma certa garantia de uma consistência que nós íamos obter com-

Como se fosse um hábito que nós adquirimos.

E depois há essa outra característica que é a do hábito. Isso também foi estudado e há hábitos que nós conseguimos adquirir em menos tempo, mas o tempo médio para se conseguir adquirir um hábito que nós queiramos cimentar é 66 dias. Isto está estudado. A ideia é: se eu fizer um hábito que eu queira adquirir, por exemplo, correr, fazer aquelas corridas matinais. Se eu fizer isto durante 66 dias, porque são coisas que normalmente as pessoas até resistem um bocadinho, e às vezes não lhes apetece.

Sim. É um hábito que pode custar a entrar.

Se eu fizer isto durante 66 dias, a partir desta altura-

A tua cabeça assume.

Eu já não preciso de pensar muito nisto. Já nem preciso de um esforço, é uma coisa que eu vou fazer naturalmente. Eu quis jogar um bocadinho com este fenómeno, com este fator.

Com este dado.

Para também ajudar as pessoas a conseguirem manter este ritual. E os 10 minutos que eu planeei para que isto durasse.

Não vai precisar mais do que 10 minutos por dia para melhorar a capacidade de memorizar, de recordar, conseguir concentrar-se melhor, mudar de uma tarefa para outra, adaptar-se com maior rapidez.

É a flexibilidade mental.

Aumentar a capacidade de aprendizagem e, de um modo geral, alcançar uma melhor gestão na sua vida quotidiana. Portanto, bastaria 10 minutos por dia, durante estes dois meses e seis dias.

Isso foi propositado também. Quando eu faço estes programas com as tais pessoas que têm AVC.

Pacientes que esperam. Exatamente.

Não são só 10 minutos. Nós fazemos isto com uma quantidade maior. Mas eu não posso pedir a um cidadão normal que ocupe-

Deu-me uma hora para fazer

...uma boa parte do seu dia para fazer isto.

Eu acho que isso é chamativo, porque as pessoas: "Ok, 10 minutos?"

Sim, ainda é aquela coisa do hábito. É como eu todos os dias vou tomar um cafezinho àquela hora.

Aquele café do costume.

E estou ali 10 minutos. Ok, eu posso também incluir 10 minutos para fazer estes exercícios no meu dia a dia.

Exatamente. É muito engraçado, sempre que vens cá, e já tenho tido mais programas sobre o cérebro, é sempre uma coisa que nos fascina. É possível reverter este estado de exaustão e é possível treinar o cérebro. E nós falámos disso, da neurogênese, da neuroplasticidade. O cérebro exercita-se trabalhando, e pode aumentar as ligações e pode aprender coisas até ao fim da vida.

É esse o efeito que nós queremos com isto. É reforçar as ligações neuronais. Há ali um fenômeno, se calhar explicava muito rapidamente para entenderem que isto não é uma fantasia, isto é real, isto acontece no cérebro. Quando nós pomos uns certos neurónios a trabalhar, e isso faz-se com aqueles exercícios ou com outras coisas que nós fazemos no nosso dia a dia, e se isto é uma atividade repetida e frequente, é como se o cérebro entendesse que: "Ok, isto está a acontecer muitas vezes, eu tenho que atirar para ali energia".

Alocar mais recursos.

E alocar recursos. É isso que acontece. Então os neurónios que normalmente nascem no nosso cérebro, porque dantes achava-se que isso não acontecia, mas já se descobriu que sim, nascem neurónios durante a nossa vida. A neurogênese. Eles podem ser aproveitados se eu estiver a criar atividade no meu cérebro. Porque depois há outro fenômeno que é: se não houver atividade no meu cérebro, aqueles neurónios vão morrer novamente, vão se extinguir. Isto é quase como a ideia dos fundos. Por exemplo, imagine fundos europeus, que são entregues a um país. Se eles não são usados, eles são devolvidos.

Não tema quente .

Eles são devolvidos.

Tens um prazo para aquilo ser empregue.

E aqui com o cérebro é a mesma coisa. Ele atira neurónios para serem usados, se não são usados, aquilo morre e desaparece.

Desativam-se.

Temos que exercitar o cérebro para ele aproveitar este recurso.

É engraçado, porque eu lembro que na conversa que tivemos há dois anos, foi muito sobre mitos ligados ao cérebro, por exemplo, o cérebro ser cinzento e um monte de coisas, tu desmitificaste e isso foi muito bom. Havia um que era a tal história que já vem desde 1904 ou 1903, que era do: "Só usamos 10% do cérebro", e hoje sabe-se que é mentira. E até tu falas no teu livro da questão, por exemplo, da memória, tu falas aqui da memória verbal, memória visual, memória visual-verbal, etc, que não está toda na mesma região do cérebro, está em várias regiões.

Está tudo espalhado.

E hoje sabe-se com a imagética que se faz, os TACs e as ressonâncias que às vezes-

Sim, as ressonâncias.

Vê-se aquilo a funcionar.

Sim, conseguem-se ver os circuitos a funcionar.

As partes ativas.

Até há uma coisa curiosa. É um bocadinho ao lado deste tema, mas fizeram-se estudos com fumadores e há certos circuitos do cérebro que são ativados quando a pessoa está a fumar. E isso vê-se mesmo nas imagens das ressonâncias magnéticas funcionais. É um bocadinho diferente, mas chama-se ressonância magnética funcional, porque vê-se o cérebro a funcionar.

Como se liga quando estão as pessoas a dormir e vê-se os sons.

E então, pessoas que tinham deixado de fumar há 10, 15 ou 20 anos, e eles faziam uma experiência que era: punham o fumo de um cigarro a passar perto deles enquanto estavam a fazer a tal ressonância E o circuito conhecido do fumo, do tabaco, que é um circuito já conhecido no nosso cérebro, nessas pessoas que já tinham deixado de fumar há 20 anos, acendia-se imediatamente o circuito quase como se estivesse igual ao das pessoas que estão a fumar. Aquilo é uma rede neuronal muito poderosa.

É uma memória antiga.

É, e é uma rede poderosa. E é esse efeito que nós queremos quando a pessoa faz estes exercícios, é que aquelas redes também se solidifiquem de maneira a conseguir manter aquelas competências.

Estes exercícios que estão no livro, Vasco, são criados por ti ou fazem parte de alguma base de dados que os neuropsicólogos usam em todo o mundo?

Não, estes foram todos criados de origem por mim. Eles têm um princípio.

Tem aqui um grande trabalho gráfico, realmente, a nível de fotografias, tabelas, coisas. Tu viste que trabalho que só base acaba.

Eu posso contar uma história sobre como é que isso foi feito, se tivermos aqui um pouquinho de tempo.

Claro que sim.

Fazer o livro é uma coisa demorada. Mas imaginar os exercícios, eu tive que os imaginar primeiro. Disse: "Como é que eu vou fazer isto? Vou fazer o exercício deste tipo, deste e deste". O que eu fiz?

Para testar aquelas competências todas.

Eu meti 15 dias de férias no meu trabalho.

Retiraste-te?

Retirei-me da cidade de Lisboa. Fui para uma casa de umas pessoas conhecidas, que me emprestaram uma casa perto de uma praia. Estive sozinho nessa casa durante 15 dias e passava o dia a criar. Não estava a escrever o livro, estava só a imaginar que exercícios é que ia fazer, o que é que ia utilizar para os exercícios. E depois, ao fim do dia, fazia sempre uma volta de 5 km. Aquilo é perto de uma mata, então fazia uma volta de 5 km. E eu durante essa volta ia observando tudo o que podia ver. O que é que eu posso aproveitar para fazer um exercício?

Plantas, animais.

Eu olhava para tudo. E hás de reparar que estão aí uns exercícios com sinais de trânsito. Nesse dia que eu saí para ir para a caminhada, tenho que passar sempre por umas ruas. E reparei, aquilo é uma localidade muito pequenininha, até posso dizer qual é, que é São Pedro de Moel, é uma localidade muito pequenininha. E eu comecei a olhar e a ver: "Esta localidade tão pequenina tem quase todos os tipos de sinais de trânsito que existem. Isto é uma coisa incrível". E depois lembrei: "Espera lá, eu posso imaginar um exercício com sinais". E então comecei a tirar fotografias a todos os sinais, que era para depois criar a imagem gráfica disso. E foi assim que nasceram, por exemplo, esses. E muitos outros dos que aí têm nasceram disto, de coisas que eu ia observando. Cá está, a tal ideia da criatividade que falámos ainda há pouco, que é pegar em coisas e fazer uma combinação, uma coisa maluca, ou absurda, se quisermos. E às vezes conseguimos criar ali qualquer coisa de engraçado.

Para fazer estes exercícios, convém um relógio ou um cronômetro? Porque há muitos que perguntam: "Vejo o tempo, quanto tempo demorou e pronto".

Sim, eu agora pus isso como opcional, mas eu aconselho as pessoas a fazerem, por quê? Porque nós conseguimos aqui um efeito extra, que é o de tentar acelerar.

Exatamente. Eu reparei nisso, e ainda na explicação antes, na introdução, tu falas nisso. Quanto mais a pessoa conseguir fazer isso e ir melhorando, porque ao fazer o exercício também está a aprender.

Sim, por que eu também fiz isso? Porque no primeiro livro, e no segundo também, há muitas pessoas que me contactam a fazer perguntas.

Com feedback.

Que estão a utilizar o livro. E houve uma senhora uma vez que me disse que fazia tudo muito bem, muito certinho, mas fazia muito devagarinho, que era para fazer tudo certo. E eu pensei: "Espera lá, fazer muito devagarinho não puxa aqui para o cérebro". Eu tenho que alertar as pessoas para isto, para esta ideia de que é assim. Eu até diria às vezes que o melhor, se calhar, é a pessoa primeiro tentar ser rápido. E depois é começar a preocupar-se com o acerto Porque a velocidade cria um efeito acelerador aqui no cérebro.

Engraçado. Isso é giro. No fim, na página 315, há quase 40 páginas de soluções, mas fica já aqui a dica para os nossos ouvintes não espreitarem. As soluções também estão num vídeo, num QR code que tu tens no fim.

Exato. Eu lembrei-me de dar essa ideia.

Está giro.

Por quê? Porque as pessoas estarem a fazer exercícios, depois têm que ir ao fim da página ver, e depois têm que voltar, porque eu já fiz estas coisas e achava aquilo um bocado chato, estar aí a ver e depois voltar para trás. Então resolvi fazer um vídeo e meti um QR code e a pessoa planta-se. Se a pessoa está a fazer exercício, é só pegar no telemóvel.

Põe no pause, vai fazer.

Exatamente. E pode ver as soluções com mais facilidade.

Portanto, só ir ver as soluções, já sabe, fica aqui esta dica, só mesmo se não conseguir chegar à solução e já agora aprender com isso. Nunca esquecer que somos nós, como tu dizes, que fazemos o nosso cérebro. Isso é uma dica muito importante. As rotinas não promovem a potenciação global do nosso cérebro. Temos o nosso cérebro muitas vezes em modo de economia de energia.

Sim.

Porque nós fazemos as nossas rotinas todos os dias e não se desenvolve.

Exato. Aliás, o cérebro faz isso.

modo economia, e ele responde também em modo economia, não vai inventar nada.

O cérebro funciona como todo o universo. O princípio do universo é a economia.

Exatamente.

É gastar menos energia possível para fazer as coisas que precisa de fazer.

A propósito, se não exercitarmos o cérebro, o que é que nos acontece, Vasco? Começa esta função a diminuir gradualmente, mas logo a partir de 20, 30, 40 anos?

Os estudos que são feitos falam a partir dos 30 anos, embora eu não queira assustar ninguém. Não é a partir dos 30 anos que nós de repente deixamos de ter capacidades. São perdas ligeiras.

É uma coisa gradual.

Que podem, de facto, ser contrariadas. Por que nós observávamos isto antes? Porque as pessoas de antes também não faziam isto. Não faziam esta coisa, não exercitavam o cérebro, não puxavam pelo cérebro.

Engraçado.

Havia aquela ideia de nós nascemos com um cérebro e é aquilo que temos e é pronto.

Exatamente. E está desde pequenino e é aquele, não há nada a fazer, não vai aumentar, nem diminuir, nada. Hoje sabe-se que não. A neurociência prova que é possível prevenir e reverter a deterioração das faculdades intelectuais e da memória.

Estas descobertas da neurociências mudaram muita coisa na nossa vida.

A ciência tem vindo a mostrar que, ao contrário do que se pensava, o cérebro mantém ao longo da vida a capacidade de desenvolver novas redes neuronais, mas é preciso mantê-lo ativo, estimulando-o nas diversas funções com novos desafios e aprendizagens. É isso. E tu falaste também já disso, da neuroplasticidade. Algumas áreas cerebrais nascem mesmo novas células. A matéria cinzenta vai aumentando. A memória é muito importante, é uma das maiores preocupações das pessoas, a memória é uma das funções mais vitais para a nossa identidade, para a nossa existência. Por que em um idoso as memórias presentes escapam facilmente e as muito antigas permanecem? Isso acontece muito. O nosso avô às vezes lembra-se de coisas quando era pequenino e que foi a primeira vez à praia, na Figueira da Foz, 1920, mas já não se lembra o que comeu.

Do que é que almoçou. Por quê? Porque essas coisas mais antigas já foram gravadas numa altura em que o cérebro estava a registrar as coisas com mais capacidade. E já são coisas que já foram relembradas várias vezes. Portanto, isto reforça. Deixe-me ver se consigo dar aqui uma ideia. É como se o facto daquelas memórias estarem a ser evocadas, quanto mais vezes são evocadas, mais fortes elas ficam no nosso cérebro. As coisas que aconteceram há pouco tempo.

No próprio dia ou na véspera.

Se nós não estamos com a nossa capacidade de foco atencional em boas condições, já é mais difícil depois vir e recuperar aquela informação. E é uma informação recente, que está no meio de uma série de coisas que nós registamos no nosso dia a dia.

E hoje em dia somos muito solicitados por tudo. As televisões, as coisas.

E que não foram significativas. Cá está. Isto do ser significativo também é uma descoberta recente, que é: nós não guardamos as coisas na memória só por olharmos para elas ou só por termos contato com elas.

Então.

Guardamos também com registros emocionais. E isto foi descoberto mais recentemente, que há uma componente emocional também na memória. Que é: nós conseguimos guardar melhor as coisas que são significativas para nós, tanto as positivas como as negativas. Ninguém se esquece de uma coisa negativa que lhe aconteceu.

Sim, um susto ou um trauma qualquer.

E as coisas que são significativas é aquelas coisas que nos dizem qualquer coisa ou que emocionalmente nos tocam.

Ficaram ligadas de uma maneira especial com uma emoção associada.

As pessoas, por exemplo, os estudantes, quando estão a estudar, aconselha-se a criarem uma espécie de história à volta da matéria que estão a estudar, que tenha a ver com a vida deles. Para quê? Para fazer aqui um registro emocional.

Que vai fixar melhor.

Para que aquela informação fique melhor guardada na nossa memória.

Boa, não tinha pensado nisso, mas é verdade. Também dizem, Vasco Lima, sei onde, que na pessoa com Alzheimer, as memórias não se apagam, o que se perde é o acesso a elas.

O acesso, sim. Até um certo ponto, porque temos as memórias guardadas em certas neurônios do cérebro, em certas zonas, nomeadamente uma zona chamada hipocampo, que tem a forma de um cavalo marinho.

Tem o nome.

O nome hipocampo vem desse, o nome científico do cavalo marinho. Mas depois nós temos que ter outras vias para chegar lá. Aquilo é uma espécie de armazém. Se essas vias estão danificadas, porque no Alzheimer há perda de neurônios Podemos não chegar lá.

Não consegues acessar.

Não chegar a essa informação.

E este livro de exercícios, tu dizes que a população que, no fundo, beneficia mais de exercitar o cérebro, falas nos estudantes, naqueles que querem melhorar as funções cognitivas, nas pessoas que são mais lentas a adaptar-se ou alternar rapidamente tarefas. Isto é muito importante. Mudam de emprego ou têm que fazer uma coisa muito diferente daqui a uma hora, têm que fazer uma coisa totalmente diferente.

Especialmente nesses casos, em que nós temos que variar muito.

E isto ajuda a ter o cérebro exercitado, ajuda essa alteração, essa mudança.

Ajuda a conseguir fazer esta mudança. Tipo, agora tenho que deixar isto e tenho que me focar já noutra coisa. Porque a nossa dificuldade às vezes é esta: quando acabamos de fazer uma coisa, parece que precisamos de um período para esquecer um bocadinho aquilo e reorganizar o cérebro para começar. E de fato precisamos. Agora podemos tentar com este tipo de exercícios reduzir um bocadinho este período para rapidamente passarmos a outra coisa.

E também falas que isto é útil se há ligeiros sintomas de demência. Consegue-se a pessoa, ao fazer alguns exercícios, consegue ver que não passa aquilo?

Com a demência às vezes pode haver exercícios que possam ser mais difíceis de fazer. E essa seria a única limitação. Porque a pessoa conseguindo entender o que é para fazer.

Sim, a tarefa.

E conseguindo fazer a tarefa, só beneficia de o fazer. Depois há outra coisa também que se sabe. Em estudos longitudinais que se fizeram com pessoas que faziam exercício para o cérebro, treinavam o cérebro. Longitudinais, estou a falar de 30 anos, pessoas que são acompanhadas durante 30 anos, que é uma coisa que é recente. Nunca se faziam estudos assim tão longos. Acompanhar pessoas durante 30 anos.

Exatamente.

E conseguiu-se chegar à evidência de que as pessoas que treinavam o cérebro atrasavam o aparecimento das demências, nos casos em que apareciam, atenção. Não estou a dizer que todas as pessoas vão ter demência. Mas nos casos em que apareciam demências, verificava-se que ela começava mais tarde.

Atrasava o início dessa degeneração.

Com menos intensidade.

Mais lenta.

E a progressão era mais lenta. E isso foi atribuído à pessoa exercitar o cérebro. Isto não é demagogia, não estou a falar de coisas-

É de estudos mesmo à séria.

Há estudos longitudinais que afirmam estas coisas.

Muito bem, o nosso tempo voou. É sempre assim, Vasco. Vou só deixar três dicas anti perda de memória que tu também já tens deixado nos teus livros, que é: um, fazer passatempos de jornais e de revistas. Isto é muito importante. Agiliza a parte frontal do cérebro, fazer o sudoku, palavras cruzadas, encontrar as diferenças, as sopas de letras, aquelas coisas. Tens, aliás, alguns exercícios desse gênero aqui também.

Desse gênero, sim.

Dois: ler livros ou revistas ou jornais em voz alta, o que traz muito mais vantagens do que ler em voz baixa. É curioso.

Sim, o cérebro está mais ativo nessas circunstâncias.

E três: fazer contas de cabeça, não dividir, porque leva muito tempo, achei graça a esta dica, esta extra, mas o mais rápido que puder. Por exemplo, fazer 10 exercícios em X minutos, este género de coisas, que são coisas que ajudam muito. E depois tens uma lista de coisas: tenha hábitos saudáveis de alimentação, faça do bom sono uma prioridade, sete, oito horas por noite, obrigatoriamente, faça exercício físico, escolha percursos diferentes, reflita sobre o óbvio e o automático, invista em novas atividades, não fuja do difícil e socialize. São umas belíssimas dicas, não pude deixar. Já tinha falado delas e não pude deixar.

Sim, são sempre válidas.

Sempre válidas. Eu acho que é uma coisa muito importante e que nos pode ajudar também. Muito bem, nós não temos tempo para mais. Como te disse, quero te agradecer muito, Vasco Catarino Soares. Obrigado pela tua disponibilidade em falares ao Observador. Espero que continues apostado em melhorar as nossas capacidades cerebrais. Esperamos por ti daqui a um ano ou dois com mais truques para melhorá-las e tirar o máximo partido deste órgão.

Já há ideias na calha.

Então vamos contar com elas e vens para aqui explicá-las para tirar o máximo partido deste órgão maravilhoso que temos de cuidar e não sabíamos como. Muito obrigado pelas tuas dicas.

Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.