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"Sair de casa sem perfume é como sair nu". É o que diz um provérbio egípcio, mas é também a opinião do meu convidado extra de hoje, que ao fim de mais de mil conversas neste espaço, é um "first". Lourenço Lucena é um perfumista, um nariz profissional, um nez à francesa, um sensorialista, alquimista de cheiros, um compositor de perfumes, como gosta de se definir desde que se formou nesta área em Paris, há quase 20 anos. Empresário, cria aromas personalizados para particulares e empresas, e jantares que seduzem pelo olfato. E já desenvolveu aromas pra empresas como a EDP, a Deloitte, a PLMJ, os Hotéis Tivoli, os Memo, o Pulana, o Ritz, os restaurantes Belcanto ou o Je Ne Sais Quoi, a BMW, a Montblanc. Sabe que pertence a uma elite de narizes apurados e é o único perfumista português na restrita Société Française de Parfumeurs. Vale a pena conhecer melhor a vida e o métier deste profissional. Ele sabe que a vida só faz sentido sentida e está ciente que três quartos das nossas emoções diárias são influenciadas pelo que cheiramos. Olá, Lourenço. Bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João Paulo.

Foi um bom reencontro ao fim destes anos.

É verdade, e num dia tão especial.

Exatamente. Do aniversário da rádio.

Faz cinco anos da Rádio Observador.

Exatamente.

Parabéns também à Rádio Observador.

Todo este aroma da rádio também. O que é que cheira a rádio, Lourenço?

É uma ótima pergunta. Na verdade, quando eu traduzo uma marca num aroma, obriga-me a descobrir e perceber o que é que são os atributos e a personalidade dessa marca e de que forma é que eu a posso traduzir através de um cheiro, através de um aroma.

Exatamente. O historial, as coisas.

E portanto, no caso do Observador, há aqui muitas layers. A diversidade, a inclusão, a informação, a capacidade de ir a todo lado, esta vontade de ser primeiro. Mais do que ser primeiro, é saber ter a consistência da informação. E portanto, teríamos pano pra mangas, mas eu diria que tínhamos que juntar aí, provavelmente, um citrino que trazia frescura, que trazia efervescência, este lado da procura da novidade, da notícia, do antecipar a notícia, de estar em cima do acontecimento.

Ao mesmo tempo, a credibilidade, este género de coisas.

E aqui entra uma madeira.

Madura.

Certamente, provavelmente uma madeira, um cedro a um carvalho, no fundo, uma madeira cheia, rica, densa, que traga essa sustentação. Mas depois já há outra coisa, porque nós entramos na redação do Observador e tem muitas senhoras, muitas caras bonitas, femininas. Portanto, tinha que ter certamente uma nota floral, sem ser um perfume feminino. É preciso saber trabalhar a informação. E eu acho que nada melhor do que esse lado feminino. E, portanto, uma nota floral dava aqui uma certa graça, confesso.

Quando é que nasceu esta paixão pelos perfumes e concretamente por esta profissão? Eu lembro que a música era um pouco a tua área também, mas também os perfumes, tu desde pequeno que usavas?

Sim, desde muito pequeno que os perfumes ou os cheiros têm uma certa importância. Na verdade, eu nunca racionalizei muito isso. Tenho, como qualquer um de nós, as minhas memórias olfativas de momentos marcantes da minha vida.

Ias montar a cavalo, por exemplo, tinhas dois anos e pouco.

Em Monte Soril, dois anos e meio. E portanto, sim, há uma série de referências ao longo da minha vida, mas que eu confesso-te que não racionalizava nesse tempo.

A Lúcia-Lima na casa dos avós.

Exatamente, no Monte Soril.

Que engraçado isso. Porque a Lúcia-Lima, tinham um jardim ou era um tempero que usavam?

Não, era um muro de uma ponta a outra.

Deu pra cheirar?

Sabes, quando nós somos pequeninos, tudo é enorme. Passados não sei quantos anos, eu voltei lá e o muro era muito mais pequeno do que eu imaginava. Mas, na verdade, aquela força da Lúcia-Lima, que é riquíssima, cítrica e floral, e muito vibrante. De facto, são dois aromas que me marcam: o aroma das celas, do couro, do cavalo, da transpiração do cavalo, que nós sentimos, da terra molhada, que é molhada pra não levantar pó no picadeiro.

Exatamente.

As madeiras do próprio picadeiro. Portanto, há ali uma série de referências olfativas.

E tu dizes bem, tu explicas isso, que o olfato é uma coisa que funciona, vai pra um dos lados do cérebro, que não passa pela razão. Portanto, é o sentido que mais rapidamente te provoca emoções e memórias.

Sim, e isso está achado, porque o olfato é o único sentido dos cinco sentidos, que é o que está mais próximo do local cerebral onde nós registamos a memória, processamos a memória. Portanto, daí essa ideia de que nós passamos por alguém ou por uma porta onde está um aroma de um bolo a ser feito e somos transportados em frações de segundo pra uma memória de uma avó ou de uma tia ou de alguém que fazia aquele bolo. E só depois é que nos vamos lembrar da pessoa. Portanto, o olfato tem essa capacidade.

O odor, o cheiro, o aroma, fragrância, perfume, isto são tudo sinônimos?

São, eu acho que o perfume já é um tipo de concentrado de um aroma. Portanto, eu diria que o mais correto será o aroma ou fragrância.

Está bem. O perfume é que é algo que distingue, o de colônia é uma coisa, o de parfum é outra. E o perfume é mais concentrado, então.

O perfume é dos mais concentrados.

Que as senhoras só punham uma gotazinha.

Sim, que ainda hoje em dia encontramos na perfumaria, mais se calhar na perfumaria de nicho, mas que encontramos, sem dúvida, a par dos eau de parfum, dos extratos e dos eau de toilette. Portanto, todos estes têm um grau de concentração diferente e é isso que faz a diferença entre eles.

Hoje estamos centrados no perfume, nos aromas e no olfato. Por isso não vou falar, que é muito importante, a tua ligação com a música, a tua ligação com a arte. Estou a lembrar aqui o Anteciparte Que ocorreu durante os anos, o próprio Sart, essa associação que apoiava e divulgava a arte contemporânea portuguesa. Também aquele gesto bonito, generoso, que tu fizeste com o RefuJob e ajudaste quando começou a guerra da Ucrânia, esta Econova, esta plataforma que vocês criaram para ajudar os ucranianos que procuravam emprego quando chegavam. Tenho que saltar para esta parte e é para situar um bocadinho a pessoa maravilhosa que tu és, que eu tive a sorte de reconhecer ao fim de não sei quantos anos, porque de facto já éramos amigos há muitos anos. A pergunta é muito simples: o olfato educa-se, treina-se, desenvolve-se?

Sem dúvida. Eu acho que é preciso ter uma paixão por tudo aquilo que tem uma representação olfativa. Agora, o grande tempo de formação que eu tive em Paris, quase durante três anos, grande parte é dedicado ao conhecimento, ao contato com aromas diferentes, de diferentes famílias.

A poderes memorizá-lo e identificá-lo.

Porque se falarmos em flores, em rosas, por exemplo, ou em citrinos, existem dezenas de laranjas diferentes.

Exatamente. Como a laranja e a bergamota e essas coisas, tu falas disso. As rosas também. A rosa bulgária e a rosa de França.

Marroquina, a rosa de França, do sul de França.

É tudo rosas, mas têm todas nuances diferentes.

Mas todas têm um terroir, como no vinho, curiosamente. Todas elas refletem o enquadramento e o contexto de onde são produzidas e, portanto, o clima, a temperatura, os solos, a qualidade da água, tudo isso tem uma influência na representação desse aroma. Portanto, a memorização do olfato tem muito a ver com esse desafio de que forma é que eu registo na minha cabeça que a rosa da Bulgária é diferente da rosa da Turquia ou da rosa marroquina. Porque quando eu tenho que fazer um perfume, o grande desafio é perceber qual deles eu quero ir buscar. E não tem que ir cheirar frascos.

E em que quantidade também, não é?

Sim.

Porque isso também influencia. Se depois, 70% de uma essência e 30% de outra, é diferente.

Sim, era ótimo, João Paulo, que eu fizesse um perfume onde conseguisse colocar 70% de uma matéria-prima.

Geralmente tem muitas. É um bocadinho de muitas.

Geralmente estamos a falar de 1%, 2%, 0,5%, 3%.

Estás a sério?

E portanto se falarmos de uma composição de um perfume, tem dezenas de matérias-primas diferentes.

Eu li uma coisa sobre ti que dizia que o primeiro que eu construí tinha 28 essências.

Exatamente, tinha 28 aromas.

Eu pensava que era uma exceção, mas não.

E era curto.

E depois nunca sai à primeira, é uma coisa que eu também digo, a criação de um perfume nunca sai à primeira, tens que fazer quatro, cinco, seis composições até acertar.

Dezenas.

Se é que demora meses.

Pode demorar meses, mas eu vou te dizer, o meu processo de trabalho, eu demoro muito tempo a definir mentalmente a história que quero contar, para depois poder escolher os aromas que quero usar para contar essa história. É um questionário que o cliente ou quem for tem que responder, o que é que gosta, como é que é o dia a dia, o que é que gosta, o que é que não gosta, o que é que o faz descansar.

E aquilo que ela não diz.

Um perfil psicossocioolfativo.

Que memórias é que tem dos cheiros.

E que no fundo me ajuda a construir essa ideia. E portanto eu demoro muito tempo a perceber e a tentar encontrar aquilo que distingue aquela pessoa ou aquela marca, para depois escolher os aromas. E tendo os aromas já selecionados, depois o processo de composição é muito pragmático e, portanto, o perfume que demorou mais tempo a produzir, demorou para aí três meses, mas eu diria que um processo normal de um perfume demora duas semanas, duas, três semanas.

Faz ao teu olfactorum aquelas centenas.

Sim, ao meu órgão perfumista, que é um móvel que é especial. Temos a paleta com os aromas e portanto aí coloco e arrumo, porque eles não podem estar ao ar, portanto tem que estar sempre no frio. Eu tiro e ponho diariamente ou sempre que vou usar as matérias-primas, nem sempre pego e vou trabalhar na composição, mas sempre que o faço tenho que tirar tudo do frio, deixar que ganhe a temperatura ambiente e só aí começar a trabalhar. E o tempo de composição, estas duas, três semanas, quatro semanas, o tempo que leva e não há um tempo definido, muitas vezes perguntam: "Mas quanto tempo é que demoras a fazer um perfume?"

Varia, não é?

É difícil, porque há momentos, há processos de composição que são muito fáceis, são muito lineares e portanto eu ao fim de umas dezenas de exercícios, chega um momento e sinto que cheguei lá, sinto que estou e que está concluído.

Chegaste a bom porto.

Outros demora mais tempo e portanto essa subjetividade.

Sentes mesmo, "ainda não estou satisfeito" e não é isso.

Sim, há um sentimento muito engraçado que é quando eu chego a uma nova composição, à 13ª ou à 15ª, ou à 20ª, ou à 30ª, e aquilo ficou fechado, eu tenho um sentimento de repulsa imediato por aquilo que criei. É uma coisa muito estranha. Não sei se alguma vez falaste sobre isso.

Se calhar é uma defesa tua para fechar esse capítulo.

Não é uma defesa, é o meu organismo, a relação física com aquela composição, o meu corpo reage e eu sinto que já não é parte de mim. E portanto quando eu sinto que já não é parte de mim, significa que está fechado

Como o autor que quando escreve um livro e às tantas: "Já não é meu, agora é dos leitores"

No final, tenho que mostrar ao meu cliente, à minha cliente, pra ver se eles gostam.

Se consigo vendê-lo.

Se cheira bem. Mas é muito esse lado de libertação.

Então há uma coisa física em ti quando chegas a bom porto.

Sim, há uma libertação.

Percebes. Foi mesmo, meu corpo deu essa reação.

Da mesma forma que quando lês um bom livro e chegas ao fim do livro, tens uma sensação de vazio. Ou de uma boa peça de teatro. Ou de um bom filme.

Exatamente. Que interessante.

Há essa sensação final.

Incrível. Pronto, quando se perde o olfato, diz, o efeito pode ser devastador. Há umas experiências físicas e emocionais que são muito fortes. Dizem que é o último sentido a apagar-se quando se está em coma ou quando se vai morrer. Tens alguma noção disto ou não? Há algum estudo?

Há alguns estudos muito interessantes. Aliás, eu tenho um projeto que nunca consegui pôr a implementar, que é precisamente contribuir ou procurar ajudar doentes que estejam em estado comatoso ou em estado quase vegetal. No fundo, para traçar um perfil olfativo da história de vida dos momentos mais marcantes dessa pessoa.

Para lhe trazer boas memórias.

No fundo, para trazer as memórias. Porque está demonstrado que de fato, tanto o olfato como a audição, têm essa capacidade de despertar. Isso pode acontecer.

Ora, já me aconteceu isso, falar com um amigo meu em coma, traumatismo cranioencefálico, e eu a falar com ele em coma, teve um mês e tal em coma. No meio do coma, eu a falar com ele: "Antonin, vem lá, quando é que voltas? Temos que ir à festa", não sei o quê. Ele acordou daí a 20 dias e veio me dizer: "Adorei aquela conversa que tiveste comigo e lembraste-me das festas do nosso tempo". E pensei: "Como é que é possível?"

Não, isso sobretudo, quer dizer-

Portanto, a audição pelo menos certeza tem.

Isso é que é assustador. No fundo, muitas vezes há situações físicas de limitação, mas há uma consciência. Há uma prisão naquele corpo. Porque ele recordava-se dessa conversa, continuou a processar. Isso é assustador.

Por isso as pessoas não sabem de tudo.

Isso é assustador. E é de fato o cérebro e o corpo humano é uma máquina incrível, com muito para descobrir.

Já tinhas há uns anos uns três filhos, na altura, agora tens quatro, e arrumaste então a Paris, fazer um curso de três anos, conseguiste em dois, vindo e todas as semanas ias lá, depois tinhas aulas particulares, tinhas tudo. Na Sant-Quien Saint, uma escola extraordinária que já formou centenas de perfumistas com grandes mestres, e tornaste então compositor de perfumes. Tu não gostas muito de te chamar "nez" ou preferes mesmo compositor de perfumes ou sensorialista.

Eu gosto de compositor de perfumes porque criar um perfume é criar uma composição. E com tudo o que de subjetivo isso implica.

Com as notas todas. Notas em tudo que vocês falam.

Notas, sim. E com as analogias que depois pode estabelecer também com a música. Porque um aroma amadeirado, denso, como um patchouli, por exemplo, é um aroma grave. Da mesma forma que uma bergamota ou um limão ou uma lima é certamente agudo. E, portanto, essas analogias, aliás, há imensas histórias e o Kandinsky, por exemplo, Wassily Kandinsky, tem projetos muito interessantes, precisamente cruzamento da música com a pintura. E portanto, as artes podem ser cruzadas e haver essa osmose e essa sinergia que é incrível.

O perfume não é um luxo, pois não, Lourenço?

Não, eu acho que o perfume, para muitos será, certamente.

Sim, há mercados de comum e há um nicho, obviamente. Mas em geral, não é um luxo para as pessoas? Todas as pessoas deviam estar um bocadinho ligadas ou ter um bocadinho a preocupação.

Sim, porque no fundo, um perfume é algo que nós usamos, antes de mais nada, para nos sentirmos bem. É algo que nós usamos para a nossa autoestima, mas é também uma ponte social com os outros. Nós usamos um perfume porque queremos agradar quem nos rodeia. Agradar no sentido seja profissional, seja no sentido pessoal.

E que muitas vezes nota até antes de chegar, quando estás a chegar, as pessoas já deram o que vêm aí.

Sim, e também por isso, no confinamento, eu dizia que o perfume era uma das melhores armas para se combater o afastamento que fomos obrigados durante o confinamento. Porque nós precisávamos, queríamos muito abraçar os nossos pais, quem amávamos, e não podendo fazer, um perfume era uma forma de tocar o outro.

Claro que sim. Tu tens noção de quantos aromas é que tu tens memorizados? Serão o quê? Duzentos e cinquenta, trezentos, por aí?

Sim, à volta disso. Ao longo da vida, há quem se dedique a colecionar a memória e a capacidade de memorização de aromas e alargar essa palete.

Que é bilhares no mundo.

São bilhares. Todos os dias aparecem novos aromas, todos os dias aparecem novas matérias-primas.

Com todo o devido, o tabaco puro, sem nicotina, se a gente for numa prova cega, não é o que a gente está a pensar. Não identificamos.

A folha de tabaco é um aroma incrível.

Só em Cuba que a gente é que sentia isso.

Sim, em Cuba, em República Dominicana, há sim países onde se produz e nós podemos entrar naquelas plantações onde as folhas de tabaco são secas ao sol. Naquelas esteiras.

Lembro que falaste nisso numa entrevista, que o tabaco puro, de olhos vendados, tu não distingues, não consegues perceber o que é. Sem nicotina, diz tu. Não processa.

Mas João Paulo, eu se fizer um exercício com 10 pessoas e der a cheirar pêssego, tão simples como pêssego, o mais certo é que provavelmente pelo menos 50% não identifiquem que é pêssego.

A sério?

E quanto mais idade têm as pessoas, maior o número aumenta.

Eu pensava que era o contrário.

E em sentido inverso o mesmo. Eu se der num grupo de 10 crianças o aroma do pêssego, eu vou ter oito crianças a dizerem que é pêssego.

Que engraçado. Mas com a experiência não devia aumentar isso?

Teoricamente sim, mas nós ganhamos mais preguiça sensorialmente. Portanto, nós tornamo-nos muito mais apáticos sensorialmente. Dependemos a nossa perceção olfativa da sinestesia com os outros sentidos. Portanto, eu olho para uma banana e sei que aquilo cheira a banana. Se eu não estiver a olhar para a banana e se me derem cheirar a banana, não é líquido que eu seja imediato a associar à banana. Tens ótimos exemplos. Eu dou muitos workshops e master classes. Como tenho quatro filhos, acabei por ir ao longo destes anos, pelo menos uma vez, a cada uma das turmas deles, algures no tempo, e era muito interessante fazer essa comparação.

Levavas os miúdos?

Levava aromas.

Em fresquinhos.

Em fresquinhos. E ver a diferença de comportamento e de reação das crianças para os adultos. E de facto, as crianças têm muito maior capacidade, são muito mais "accurate", muito mais precisos na identificação do que os adultos.

Curioso. Como tu disseste, eu ia perguntar se há matérias-primas tabu, e tu dizes: "Não há em particular, mas como a própria borracha queimada, já chegaste a fazer alguma coisa com borracha queimada, cá está". Nós pensamos logo num desastre de carro. Travagem brusca.

Sim, o aroma da borracha queimada ou o da madeira queimada são aromas incríveis.

Mas depois podem ser disfarçados ou acrescentando outras coisas.

Mais do que disfarçados, o aroma da borracha queimada ou mesmo da madeira queimada são uma ótima base para um perfume, para lhe dar estrutura. Porque são molecularmente muito densos, muito pesados. A verdade é que uma pequenina quantidade pode ser uma boa cama, se quiseres, para construir um aroma.

Mas de facto não é um curso para todos. Este curso teu que tu fizeste também para te tornares um compositor de perfumes, aliás, logo a seguir acabaste o curso e foste convidado para a sociedade francesa, que é uma coisa extraordinária e um grande privilégio estares aí, baseia-se muito e vi coisas que já tinhas de detecção, já levavas de detecção de perfumes e muita parte da memória, e foi isso que tu treinaste mais lá, não foi?

Sim, é isso.

Mesmo da memória das matérias-primas. Memória olfativa.

É memória olfativa.

Aí é que é muito treinado.

É um trabalho arrumado por famílias. São semanas e semanas a descobrir madeiras, a descobrir flores, a descobrir frutas, a descobrir cítricos, a descobrir gourmands, a descobrir das várias famílias olfativas e com vários níveis e vários momentos. Obviamente que o primeiro é o contacto. É o sentir, é o cheirar, é o tentar encontrar um gancho que me permita memorizar esse aroma, mas depois o trabalho avança e o exercício que temos que fazer mais à frente é darem-nos a cheirar uma composição e dizer: "Esta composição é maioritariamente madeiras e frutas", "soit disant", e reconstrói essa composição sem saberes a fórmula.

Meu Deus!

E portanto, quando tens à tua frente centenas de frascos, centenas de aromas. É incrível. Tem muito de intuição e quem gosta de cozinhar e nos esteja a ouvir, certamente perceberá esta analogia. Eu adoro cozinhar.

Sim, eu sei. Convidas os amigos.

Essa alquimia. É a mesma coisa que quando nós estamos a cozinhar, temos o gosto da construção de qualquer coisa. E sentimos pelo cheiro, pelo sabor, pelo aroma que dali vem, o que está a faltar, o que está a precisar, o que é que ficava bem. Essa complementaridade e essa harmonia têm imensa proximidade também com os perfumes.

Há 23 anos fundaste a Taplug, Sensorial Design and Communication, esta empresa de marketing sensorial. Aqui temos a falar uma coisa pioneira que houve cá, este multisensorial branding nos negócios, porque de facto era uma coisa que já vi lá fora. Temos o exemplo do Martin Lindstrom, deste dinamarquês, que fundou com a Bright Sense. De facto, já vi esta coisa que as marcas são entidades vivas, são entidades a que podemos aceder, são almas vivas, pelos cinco sentidos. E portanto, isso liga muito, 83%, como tu dizes, muito de uma comunicação comercial é baseada na visão, mas há que trabalhar além disso e todos os sentidos podem estar envolvidos. Tu próprio, que ligas muito à música, criavas uma identidade musical para passar nas empresas. A Carris já tinha difusores de aromas que tu praticaste com Lisboa, a história de Lisboa e não sei o quê. É muito engraçado.

Como foi com o EDP, como foi com grande portfólio imobiliário, como a Vanguard Properties, ou exatamente como a MEO.

É muito engraçado.

Na verdade, cada marca tem uma identidade.

Os casamentos de Santo António, por exemplo, praticar o manjerico com as colinas de Lisboa. É muito engraçado. As roupas nos tendais, é muito bonito esse cheiro.

O aroma da roupa lavada, que é uma coisa que já não se sente tanto nas ruelas de Alfama, mas que ainda acontece, ainda se encontra. E eu acho que é isso que dá identidade. E eu acho que essa capacidade de detecção, de encontrar e de estudar.

E tu próprio dizes que o mundo eletrónico e digital leva-nos a um certo afastamento, distanciamento, a um esfriar dessas relações e os sentidos têm o efeito contrário de aproximar.

Eu acho que nós vivemos um tempo de apatia. Vivemos um tempo de afastamento uns dos outros. Todos dependemos do digital e dos teclados e dos WhatsApp.

E não do contacto olhos nos olhos.

Quantas vezes nós não mandamos uma mensagem de parabéns a alguém, que quando há cinco anos pegávamos o telefone e ligávamos ou estávamos com a pessoa. Ou íamos ter com a pessoa.

Claro, ainda é melhor.

E portanto, nós vivemos tempos de afastamento, muito intermediado pela digitalização. E eu acho que os sentidos, o olfato, a audição, podem ser o elemento que nos permitirá reconectar entre nós humanos e nós com as marcas, porque as marcas São seres vivos, orgânicos.

São almas vivas, como tu dizes, exatamente.

São seres vivos.

Têm uma identidade com várias facetas.

E faz todo sentido que o seu território recorra à componente sensorial para se identificar e para criar vínculos, para criar pontes com as pessoas.

Para criar memórias e histórias.

Sem dúvida.

Uma pergunta tricky: existe o "nez" perfeito, o nariz perfeito? Eu estou a pensar isso porque nos músicos há o ouvido absoluto. Ontem entrevistei um crítico gastronómico que fala dos super aprovadores. Ele não é, mas tem uma das filhas que é super aprovadora, portanto prova e distingue sabores que nós não distinguimos. Portanto, a mesma coisa no nariz. Isso é uma coisa que se treina ou há pessoas que de fato têm esse dom?

Há pessoas que têm um dom incrível. Eu ao longo destes anos tenho conhecido pessoas que me ligam ou que me telefonam, que entram em e-mail comigo, que me enviam e-mail a dizer: "Tenho um neto ou uma prima, ou um sobrinho".

Que giro.

Que tem um gosto especial.

Cheira tudo desde pequeninho.

Desde pequeno que tem esta aptidão e eu tenho conhecido pessoas que tenho orientado para França, para cursos em França, em Versailles, que é o curso mais importante em Versailles, que é na ISIPCA, que é um curso superior de cinco anos, que eu já não consegui fazer, porque já não era o meu tempo, já tinha a minha vida perfeitamente estabelecida e não podia de repente voltar atrás, fazer as disciplinas todas do secundário. E portanto é o que eu tenho orientado. E essas pessoas tenho encontrado, estou a me lembrar de dois miúdos, um que veio da Madeira de propósito com o avô para falar comigo. Uma conversa extraordinária, porque era suposto ser uma conversa, um touch and go, aquela coisa de 15 minutos, meia hora, uma hora.

Acabaram por ficar a entreter-se.

Estivemos uma tarde inteira à conversa, porque o miúdo estava tão entusiasmado a cheirar tudo aquilo que eu lhe estava a dar. Eu tinha dezenas de aromas diferentes.

Ele com o teu olfactário.

Com o meu olfactório.

Com o teu piano, o teu olfactório.

E foi uma tarde incrível. E portanto, sim, existem certamente pessoas com esse dom.

Pessoas mais dotadas, com esse dom.

Com um dom perfeitamente natural.

Este extraordinário livro e filme do "Perfume" é o teu preferido? Esta história de um assassino.

O livro marcou-me imenso.

Patrick Süskind, estamos a falar de um livro de 85, vai fazer 40 anos para o ano.

Sim, é uma obra-prima.

Extraordinário. E o filme também é bom.

Quem não leu tem que ler o livro antes de ver o filme, porque o filme, como na maior parte das vezes, não faz jus ao requinte, ao detalhe, ao recorte literário, que é a capacidade de descrição e de transportar para aqueles momentos. E a capacidade que ele tem, o Patrick Süskind, de nos transportar para aquele ambiente rival em que o Jean-Baptiste Grenouille nasce no meio da porcaria e se torna num perfumista.

É verdade, a beira do mercado do peixe.

Vendedora de peixe.

E depois entra o Dustin Hoffman, faz de um perfumista em Florença.

Já velho.

Há uma frase linda no livro que diz: "Grenouille seguiu com o coração angustiado, dá a suspeitar que não era ele que ia atrás do perfume, mas o perfume é que o tomara a seu prisioneiro e o atraía nesse momento irresistivelmente até ele". Incrível isto. E a pessoa sente-se agarrada.

É incrível.

De fato, ele tinha esse dom.

Esse poder de atração que um bom perfume tem. Quantos de nós não têm essas histórias, de ter seguido alguém ou num evento social ou numa festa, se sentir arrebatado por aquele aroma. Eu já muitas vezes fiz figura de parvo, de meter-me com pessoas na rua e dizer: "Olhe, eu peço-lhe imensa desculpa".

Diga-me o que é que está a usar.

"Eu tenho que lhe perguntar que perfume é que está a usar, porque eu trabalho com perfumes. É incrível como fica". E as pessoas riem-se e acabam por dizer.

Tu próprio já criaste um Le Parfum La Guillotine, uma encomenda que te fizeram.

Com uma artista plástica, sim.

Para retratar a época da Revolução.

A época da Revolução Francesa. Era um perfume muito denso, muito floral.

Desafios é contigo.

Sim, tudo que é difícil de roer, podem chamar.

Exato. É verdade que cada pessoa tem um cheiro característico?

Sim, não há dois PH iguais, portanto, todos nós temos uma composição molecular única e por isso a diversidade.

E portanto, também um perfume numa pessoa fica diferente do que noutra.

Pode acontecer.

Porque pode reagir com a pele, com a gordura da pele.

Sim, pode acontecer, embora não seja tão frequente quanto aquilo que possamos imaginar, mas sim, acontece. A verdade é que nós quando usamos um perfume, muitas das pessoas não usam diretamente na pele, põem na roupa. E portanto, a partir do momento em que isso acontece, não há tanta possibilidade do perfume ter variação.

Aliás, é uma coisa que eu descobri que há nove anos tinhas dado aqui uns conselhos para o Observador, exatamente, por causa de ser verão. E então eram conselhos há nove anos. Incrível. O jornal tinha: "Antes de comprar um perfume, experimente-o no pulso ou no antebraço". Tu dizes isso. "E perfume é uma escolha pessoal, uma representação da nossa personalidade, por isso não deve usar sempre o mesmo em todas as ocasiões." É muito giro. Tu não gostas de uma tonia da pessoa usar só um, porque também não veste a mesma roupa ao longo do dia todo.

Exatamente, é isso mesmo.

Porque um perfume se vai sair a uma ocasião social à noite e outro se vai trabalhar de manhã.

O contraponto àquelas pessoas que dizem que usarão o mesmo perfume a vida toda. Que monotonia.

Sim, não haveria performance de espírito.

Eu acho que, na verdade, os dias são sempre diferentes, o tipo de dia que vamos ter, profissional ou pessoal, a temperatura que faz lá fora, o nosso estado de espírito. Tudo isso pode influenciar a escolha. E o perfume pode ajudar-nos a puxar o mood ou a acompanhar o mood.

Nessa altura do ano, o terceiro conselho que tu dizes: "Privilegie os perfumes mais frescos, mas nunca os ponha sob para a praia, porque em contrato com o sol, o álcool e outras matérias-primas podem manchar a pele. Portanto, uma solução é borrifá-los na toalha ou simplesmente deixar os cremes solares, os protetores de cabelo, que já são perfumados de per si, fazerem o seu trabalho". Incrível. No fundo, Lourenço, a que é que cheiram as emoções? Eu pensei na saudade, qual seria o cheiro da saudade, mas nós com cheiros conseguimos reviver cheiros de infância, das férias, cheiros de amor, de verão, de uma comida ou de uma bebida, o café, que é uma coisa que eu adoro, por exemplo, de uma viagem. O caril lembra logo a Índia, por exemplo. Do Natal, o tronco a arder no adro da igreja, o cheiro da avó. A minha avó tinha um cheiro que eu gostava imenso nas casas dela ali na Foz do Peneda Mel, que era aqueles sabonetes da Acábrito, muito grandes, brancos. Eu adorava aquele cheiro.

Tinha uma corda.

Sim, e aquele sabonete me relembra sempre a minha avó, é muito engraçado. Uma lareira, mas também memórias negativas, os incêndios, as tinturarias. Estive agora em Marraquexe, visitei a tinturaria, não há coisa mais pestilenta do que aquilo. O dentista. O álcool gel, o tabaco, o charuto.

O crevinho.

O crevinho, exatamente. É muito engraçado, mas as emoções, a saudade, como é que uma pessoa constrói um perfume baseado na saudade, por exemplo?

Eu acho que a saudade é um sentimento universal, embora a palavra seja nossa. E, portanto, mais uma vez, as referências que nós possamos associar têm muito a ver com a nossa cultura e com a nossa história à volta da saudade. Provavelmente, um português para se referenciar olfativamente à saudade, vai ter que ir buscar aromas que lhe façam lembrar, antes de mais nada, Lisboa, por exemplo.

De onde partiram.

De onde partiram. Aquilo que são as referências olfativas de onde está o seu coração. O meu coração pode estar em Lisboa, mas se calhar outra pessoa estará em Sydney ou no Rio de Janeiro. Isso tem muito a ver com cada um de nós e com a memória que nós temos sobre essa pessoa ou esse local de quem nós sentimos a falta, temos saudade.

Mudando a história muda as essências.

Não tens como ter um aroma específico que comunique saudade. Obviamente que eu posso ter um conjunto de associações, como tu certamente.

Isso varia para outra pessoa.

Exatamente.

Uma coisa que tu também explicas, ao contrário do que se passa com o vinho, e já te fiz também jantares onde associas azeites, vinhos e várias bebidas, e tudo bem. Mas tu dizes uma coisa engraçada, ao contrário do que se passa com o vinho, com o tempo, um vinho melhora, mas um perfume piora, porque entra em oxidação. Portanto, deve-se guardar sempre num frasquinho, num lugar seco.

Idealmente era não guardar, é usar mesmo.

Quando abrimos, temos no máximo seis meses para o consumir, como tu dizes.

Sim, mas o perfume pode durar mais tempo e não perder grandes qualidades durante um ano e meio ou dois. Mais do que dois, certamente já apanhou muitas vezes ar lá para dentro do frasco e o ar que entrou já oxidou, já fez as suas maldades. Mas um frasco de 50 ml também não demora muito a ser despachado.

Neste acordeão dos perfumistas, como tu tens, mais de uma centena de matérias-primas, usas puras, algumas são naturais, mas também são sintéticas. Tu dizes que em alguns casos é a única forma possível, porque a rosa, por exemplo, usa-se muito sintética, porque vocês também não podem estar dependentes de um ano que não foi bom para as rosas.

Sem dúvida. E há outra coisa, é que a importância da indústria para a perfumaria tem sido incrível, porque tem sido a indústria e o desenvolvimento de novas matérias-primas e de novos aromas sintéticos que têm ajudado a que a perfumaria cresça.

Há umas décadas havia 20 ou 30 homens e mulheres. Hoje em dia há-

Tens milhares. Todos os anos saem centenas de perfumes por mês, por ano. Existem matérias-primas incríveis. Ainda hoje recebi uma matéria-prima que andava atrás dela já há algum tempo, que já tinha cheirado há um ano, que é o IBQ, tem um nome complicadíssimo, isobutileno quinolino qualquer coisa. Mais facilmente é IBQ e que é um aroma poderosíssimo. Faz lembrar os aldeídos. Os aldeídos são aquela matéria-prima que a primeira vez que se utilizou de uma forma central num perfume foi no Number Five, no Chanel Number Five, que é aquele aroma acutilante que parece que nos entra pelo nariz adentro e que nos rebenta tudo até lá em cima.

Isso é amoníaco.

É quase. Sim, o aldeído ou o aroma das lavandarias tem aldeído. Tem essa força metálica.

Todos os perfumes têm álcool.

Todos os perfumes têm álcool.

Porque é suposto para quê? Para ir para o ar, para evaporar? Espalhar as moléculas no ar.

Eu tenho que te dar a má notícia de que nós pagamos o valor da água e do álcool mais caro no universo. Porque um perfume, de acordo com a sua concentração, um eau de parfum pode ter 8% a 12% de concentração e o resto é água e álcool. Nós andamos a usar água e álcool na pele. Mas tem a ver com o preço do concentrado também. Por isso é que se tu queres um perfume com maior densidade e com maior durabilidade, com maior tenacidade, podemos usar um parfum ou um extract.

Que é mais concentrado.

Que é mais concentrado, que pode chegar aos 30%. E, portanto, são perfumes que já custam centenas de euros e que têm outra história, têm outra composição.

E que aguentam muito mais.

Muito mais, sem dúvida.

Se pores uma gotinha, rende mais, vamos dizer assim.

Um extrato, mesmo tomando banho, ele subsiste depois do banho.

É? Sério?

Sim.

Este ano faz 30 anos o CK One, do Calvin Klein.

Um marco na história da perfumaria.

Um marco na história, porque esta coisa dos perfumes masculinos e femininos é uma invenção do século XX, antigamente não era.

Sem dúvida.

Antigamente era tudo igual. No século XVIII, as pessoas usavam a mesma coisa.

E tu não eras menos homem por usar uma flor e não eras menos mulher por usares uma madeira.

Qual é essa diferença entre fragrâncias masculinas e femininas hoje em dia?

Isso é uma coisa que está muito instituída pela indústria e pelo mercado, e foi algo que se estabeleceu para, segmentando, consolidou-se e aumentou-se os mercados, tanto masculino como feminino. Habitualmente, tu convencionas se calhar um perfume amadeirado como um perfume masculino e um floral feminino ou um frutado adolescente. Nós conseguimos, à luz dos nossos olhos, culturalmente falando, arrumar dessa forma. Mas se nós apanharmos o avião e formos para Dubai, muda tudo. Estamos a uma distância de uma dúzia de horas. Ou para a África, basta passarmos três horas, estamos em Marraquexe, como tu dizias e bem.

Ou uma hora e tal.

Uma hora e tal, e portanto estamos a uma diferença total nas referências culturais olfativas. Tudo muda.

As referências mudam. Lourenço Lucena, o nosso tempo voou, eu já sabia, até passámos um pouquinho. Mas foi ótimo, gostei muito de conversar contigo, aprendi imensa coisa. Ficava aqui mais outra hora. E obrigado por ter abrilhantado com este aroma tão simpático este dia de anos, acabou em beleza. Muito obrigado, Lourenço, e até à próxima. Bom ano.

Obrigado, João, foi um prazer também.