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Há estudos e pensadores que dizem que o cinema, quando é de qualidade, toca a toda gente. E às vezes toca de uma maneira que as pessoas nem sequer sabem no momento, mas ficam com ele.
O meu convidado construiu a sua vida à volta de três paixões: o cinema ao ar livre, o cinema para crianças e a descentralização cultural. O que move Sérgio Marques, coordenador, produtor e programador cultural, é por isso criar oportunidades para levar filmes às pessoas, filmes de qualidade, sobretudo às crianças e àqueles públicos longe dos grandes centros e com grandes salas de cinema. E toda a sua vida fez isso. Criou o Cinema fora do sítio, no Porto, o Fitas na Rua, em Lisboa, o projeto Videolucem, que levou cinema às igrejas algarvias, entre outros. É o criador e mentor do projeto Cinema Insuflável, uma sala de cinema itinerante para a infância, uma ideia original, que agora se copia lá fora, e que recentemente ganhou o prémio Acesso Cultura nas vertentes de acesso social, físico e intelectual. Em oito anos, o Cinema Insuflável já realizou mais de 2500 sessões, alcançando mais de 80 mil crianças em escolas, praças, jardins, hospitais, bairros e festivais, tanto em Portugal como lá fora. Uma grande conquista para um homem que vê a sétima arte como espaço de descoberta, reflexão e empatia. Olá, Sérgio, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Olá, obrigado eu pelo convite.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Sérgio, eu estive à tua procura já há alguns meses e de facto, é o homem que leva o cinema às aldeias e eu acho isso extraordinário. Isto é muito importante. Tu lembras-te das tuas primeiras memórias de cinema? Imagino que seja o Walt Disney com o teu pai. É possível?
Mais ou menos. Eu sou do Porto. E a minha primeira grande memória de cinema muito marcante, eu tenho uma memória de ir ver o Walt Disney com o meu pai, muito pequenino, mas tenho uma memória muito impactante para mim, que foi a primeira vez que eu fui ao cinema sozinho, com 11 anos. Autorizaram-me a ir ao cinema, numa sala de cinema perto de casa, que existia lá perto de onde eu morava, que era Campanhã. E eu tive a oportunidade de ir pela primeira vez ao cinema sozinho e ter aquela experiência do impacto que teve um filme, que não era nenhum filme de especial, era o "Flashdance".
Ok, que giro.
Que era um filme que-
Musical, música, dança e tal.
Muita gente se calhar começou a sua carreira no cinema a ver o Truffaut e o Godard. Eu comecei com o "Flashdance", mas foi muito importante.
Inexplicavelmente.
Sim, mas foi muito importante para mim aquela experiência de perceber que o cinema pode me trazer coisas que eu não estava à espera.
Exatamente, é incrível tu dizeres isso. É importante ter esta disponibilidade de cabeça, não é?
Sim.
O que eu vou ver no cinema? O que eu vou descobrir? Tu dizes, às vezes impacta-nos em sítios que a gente não fazia a mínima ideia.
Exatamente.
E descobrimos coisas que não sabíamos que precisávamos. É muito bonito isso. Por certo isso que é super importante e todas as crianças que vão ver os filmes que tu lhes apresentas têm impactos diferentes, veem coisas diferentes.
Sim, e eu acho que, tal como qualquer produto artístico, a experiência do espectador é sempre um mistério. Acho que não há uma receita e um resultado.
Exatamente.
Há sempre um mistério e então com as crianças é um mistério ainda maior, porque a gente nunca sabe o que elas vão gostar, a gente nunca sabe o que é que fica na memória quando depois falamos com elas. É muito engraçado isso e é muito surpreendente, e é muito interessante a gente não ter uma receita. Nós nunca sabemos o resultado.
É sempre a incógnita, não é?
Sim.
Mas depois tu tens feedback, tu falas com elas, normalmente falas.
Sim, falo com elas.
É muito importante.
Ou delas e dos pais. Muitas vezes eles estão com os pais ou com os professores. De uma maneira geral, o que nós tentamos mostrar no Cinema Insuflável, nós temos parcerias com festivais de todo o mundo, com distribuidoras de todo o mundo, o que a gente quer mostrar é o mais possível coisas diferentes, diversidade, maneiras de fazer filmes diferentes, histórias diferentes. E às vezes nós levamos o melhor filme visualmente mais bonito e os miúdos gostam de um filme feito numa escola em Itália.
Em telemóvel, com o telemóvel.
Sim.
Para lembrar que as crianças nos presentes de Natal, que às vezes é uma grande apresentação de um grande caixote, adoram depois é o caixote, que serve de nave espacial e que serve de carro.
Sim, e esse mistério eu acho muito estimulante, porque o que nós temos que fazer é criar o encontro com os filmes. E ao criarmos o encontro, é a possibilidade de o espectador se ir construindo.
E é com eles. Enquanto eu te ouço, estava a pensar que uma vez eu ouvi-te dizer: é giro que as pessoas não se limitam a passar um filme e acabou e vão-se todos embora. Vocês têm uma animação, sala antes e depois.
Sim.
É engraçado, porque depois às vezes ouves e tu disseste até dos comentários dos miúdos, já nasceram projetos.
Exatamente.
Por quê? Por exemplo.
Eu neste momento estou a fazer um projeto com o José Filipe Costa, que é um realizador, que é no Hospital da Estefânia.
Estefânia, aqui em Lisboa.
De vez em quando vamos lá.
No Alcoitão?
Sim, uma sexta-feira e mostramos filmes. E esse projeto é apoiado pelo Instituto de Cinema e nós estamos a fazer. E nós não tínhamos nome para o projeto e não queríamos que ele se chamasse Cinema no Hospital. E então fomos ficar uma expressão que uma vez nos aconteceu, nós tivemos um projeto no Porto, que o Cinema Insuflável, fomos várias vezes às escolas, e sempre que a gente chegava, havia uma criança que nos dizia: "Bom dia, cinema".
Ah, é giro.
Nós não éramos pessoas, éramos cinema.
Exato.
E então a gente deu esse nome que essa criança nos deu. Este projeto do hospital que se chama Bom Dia Cinema.
É muito giro. Cá está, este feedback é muito curioso. Tu sempre quiseste coisas alternativas, o que é engraçado, nos filmes e nos livros. Tu dizes mesmo: "Eu gosto de ver o filme para me surpreender, entrar num mundo que não é o meu mundo. A ideia de me deixar ir." Um bocadinho como a literatura também faz, também acontece.
Sim, e como a música.
E como a música.
Como o teatro. Eles levam-nos, transportam-nos. E isso multiplica a vida.
Há uma coisa que eu adoro da tua formação, tu tiveste muitas formações: animação social, gestão estratégica de públicos, direitos dos imigrantes, percurso de cidadania, dinamização de centros históricos, muita coisa. Mas a tua ideia inicial era ser professor primário. Tu gostavas muito de ser professor de educação visual e tecnológica, era o que tu começaste a estudar.
Eu gostava de ir para artes.
Mas depois é verdade que tiveste esse pesadelo com as crianças?
Sim, eu gostava muito de ir para artes e depois não consegui, mas depois consegui entrar na Escola Superior de Educação.
Claro.
Mas na Escola Superior de Educação, há um momento em que nós temos que ir pra escola com estágio. E eu era muito novo. Houve uma altura em que nos meteram sozinhos, quer dizer, a gente ficava sozinho com crianças do primeiro ciclo, portanto, crianças de seis anos, sete anos. E eu ficava muito assustado e tinha pesadelos que as crianças iam todas morrer à minha frente.
Ia-se bater nas esquinas das mesas.
Que eu ia ser responsável por elas se magoarem.
Que horror!
Pronto, e percebi: eu não posso ter esta profissão.
Se tu teres esta ansiedade, não podes.
Isto não pode ser para mim. E entretanto Tudo se encaminhou para eu trabalhar numa área mais social, mais de intervenção social. Mas, por acaso, eu tive um convite para trabalhar no INATEL, no Porto.
Como coordenador cultural?
Sim, como coordenador cultural. Estamos a falar de anos 90, acho. E na altura, eles tinham lá parada uma máquina antiga de cinema 35 mm.
Foi aí que descobriste um projetor.
Sim, e um projetor. Aí apareceu a possibilidade de se fazer um projeto, que era fazer cinema ao ar livre pela cidade do Porto, que era uma coisa que nem acontece muito no Porto, nem há muita memória de cinema ao ar livre no Porto. Mas que o cinema circulasse pela cidade.
Freguesia.
A gente passava filmes de acordo com os temas dos filmes.
Que tivessem a ver com o contexto geográfico onde estavam?
Exato.
Que engraçado. À beira-ribeira, seria uma coisa com barcos, com pesca ou com vinho.
Sim. Por exemplo, na estação de São Bento, passamos um filme sobre comboios. No Mercado do Bom Sucesso, passamos o "Ruspigadores e Respigadores" da Agnès Varda.
Este é o local onde te fizeste rir, divertiste muito com as pessoas sentadas nos sacos de batata.
Sim, porque o mercado deixou os sacos de batatas e as pessoas utilizaram os sacos de batatas para se sentarem.
Como cadeira. Muito bom.
E esse projeto foi muito interessante, como todos os projetos, me deram uma lição muito importante, que é que a gente faz as coisas melhores se fizer em parcerias. Todas as sessões eram trabalhadas como parcerias. A sessão do mercado foi trabalhada numa parceria com o mercado. A sessão da estação foi trabalhada com a estação e com os funcionários da estação.
E depois com a Câmara do Porto. Iam arranjando solução para cada problema.
Sim, mas por exemplo, a ideia de chegar a uma estação, onde pessoas estão a trabalhar, e dizer: "Olhe, quero fazer uma sessão de cinema aqui, vocês querem?" E isso o chefe da estação depois dizia que sim ou que não. Mas depois aquilo é muito engraçado, porque envolvia muito. Eu lembro que na estação São Bento, nós passamos o filme às 18h, era o "Shawshank Redemption" do Frank Darabont. E ele pôs no placar das chegadas e partidas, pôs lá 18h, "Shawshank Redemption". Não escreveu, apareceu escrito. Quer dizer, tinha um comboio que ia para o "Shawshank Redemption". E acho engraçado essas parcerias, porque acho que isso potencia muito a experiência.
E é fora da caixa, as pessoas não estão à espera, isso é surpreendente. Muito giro. Há uma coisa também que fizeste já em 2011, a Figura Nacional, uma associação cultural, e tu és fundador dela. E é muito curioso, porque junta mediadores culturais, agentes, artistas, antropólogos, educadores, técnicos de ação social, isto em Braga, o Porto e Lisboa, para criar novos públicos e, no fundo, projetos centrais no cinema, mas não só, também nas artes performativas. E daí é que nasceram, por exemplo, o Cinema Insuflável, é um dos projetos da Figura Nacional.
Sim, nós temos vários projetos. Sou eu que tenho um bocadinho as ideias dos projetos.
Incrível. Fora do sítio.
Eu tenho um problema, que não sei se é uma percepção de talento, se é uma maldição, que é: sempre que leio um estudo técnico, sai-me um projeto. Isto dá-me uma ideia.
Isso é fantástico.
Sim, é muito bom, mas às vezes é um bocadinho cansativo. Agora já há uma altura em que eu estava a ler muito o trabalho que se faz no Brasil sobre cinema e educação.
Ok.
E eles têm projetos incríveis e pensamentos incríveis sobre a ideia de como o cinema chega. E aquilo dava-me logo ideias para fazer projetos. E o Cinema Insuflável, em si, nasceu quando eu estava a fazer o Fitas na Rua, em Lisboa. O Fitas na Rua era um projeto da GEAC.
Da GEAC.
Que aconteceu durante sete anos e que tinha a mesma ideia do Cinema fora de Sítio, que era levar cinema a vários locais da cidade, sempre tentando contextualizar os filmes com o local.
Cá está. Por exemplo, foram ao Panteão, onde passaste o filme do Edgar Pêra sobre o Carlos Paredes.
E o da Sofia.
O João César Monteiro sobre a Cecília Meireles.
Sobre a Cecília Meireles. Ainda a Sofia não estava prevista ir para lá. Isto foi um pestanjo.
Foste visionário aqui.
Não, foi uma parceria com o Panteão, na altura.
Exatamente.
E nós falámos que filmes é que poderiam ser, que pessoas é que podiam ser.
Não sei se era o Santiago, mas não sei se teria ele já na altura.
Era uma senhora.
Ok, pronto. Em 2015, este teu projeto, Fitas de Rua, foi premiado, foi incluído na Europe for Festivals, Festivals for Europe. Incrível.
Sim. E depois, na altura que estávamos a fazer Fitas na Rua, eu tinha sempre esta preocupação, que eu nunca conseguia chegar às crianças. O cinema ao ar livre tem que ser à noite.
Elas falhavam muitas sessões, claro, porque era à noite.
E não conseguia chegar às crianças, e as crianças eram muito importantes, porque há muito cinema de qualidade.
Cá está, é o teu agora paixão, o cinema para os miúdos. É muito importante isso.
Sim. Mas a questão do cinema que chega aos festivais de cinema, que chega a Lisboa e ao Porto, principalmente, não chega ao resto do país.
Exatamente.
E eu queria arranjar uma forma de o fazer tecnicamente com qualidade.
Eu gosto muito disso. Isso é uma coisa muito importante que tu tens, essa preocupação. Não é salvar quatro paredes, um contentor e pôr os miúdos lá dentro. Não. Tu queres uma sala onde eles estão confortáveis, a qualidade de projeção e de som é muito boa.
Sim, é muito importante.
Tens esse cuidado, e eu achei isso.
E as cadeiras são cadeiras de cinema a sério, porque vieram de um antigo cinema que foi desmantelado.
Ah, isso não sabia.
Sim, são cadeiras de um antigo cinema de Albergaria. Nós, por acaso, na altura em que estávamos a pensar que solução é que vamos pôr para as cadeiras, apareceu aquilo à venda no antiquário.
Aproveitaram logo.
Aproveitamos.
Tem 30 lugares, não é? Aquela tenda.
Sim. E um carpinteiro conseguiu fazer uma magia, criou uma bancada para crianças com cadeiras de cinema a sério, e isso é muito importante, porque isso dá um ar solene lá dentro.
Sim, é muito giro esse cenário, digamos, onde tudo se passa. Mas ainda antes de irmos para o Cinema Insuflável, por exemplo, o Cinema fora de Sítio, que ainda é anterior, ainda é anterior aos Fitas na Rua, por exemplo. O Cinema fora de Sítio foi no Porto, no Algarve.
Sim.
Pronto, aí eras coordenador e tinhas os respigadores e respigadoras da Agnès Varda. Os Fitas na Rua foi então logo a seguir, onde passavas clássicos, filmes contemporâneos e obras do cinema português, que é de entrada livre, sempre. E um dia acabaram. Tu dizes: "Acabamos o Fitas por uma decisão minha. Os projetos não devem ser infinitos". Mas se mais abrisses, ou se te pedissem, a GEAC te pedisse para repetir uma coisa deste gênero, farias?
Eu faria. E aliás, eu já propus.
Mas tu é que disseste: "Não, isto tem um tempo. Acabou". Acabou aquilo, a altura de passar para outra coisa.
Eu tive uma avaliação ao fim de sete anos.
Foi um grande sucesso. Mais de 25 mil espectadores, é uma tal.
Sim. Ao fim de sete anos, eu tinha que arranjar sempre sítios novos na cidade.
Sim.
E arranjava. Só que ao fim de sete anos, eu estava com medo que a ideia esgotasse. E às vezes os projetos esgotam. Eles são grandes.
Têm tempo de vida.
Sim, e eu falei para a GEAC e expus a situação: "Olhe, eu estou com esta angústia, não sei se é para continuar ou se não é, se devemos parar, se devemos desenhar um projeto diferente, se eu me devo afastar e deve ir outra pessoa". Questionei isso. E o que ficou decidido era: parávamos então, e ainda houve uma tentativa de fazermos uma coisa muito maluca, que era um drive-in em Lisboa, num sítio em Alcântara, que tinha as condições, mas aquilo não se concretizou. Mas eu propus, por acaso, à EGEAC, eles não ficaram muito interessados, acho eu, em fazer. Já passaram 10 anos do Fitas na Rua. A cidade mudou completamente.
Exatamente.
A cidade é outra cidade.
Acabou 2015.
O que eu propunha era fazermos um Fitas na Rua outra vez, com o mesmo tema nesta nova cidade, porque a cidade há 10 anos atrás não é a mesma cidade de agora.
Nada.
Há novos jardins, há espaços públicos diferentes.
Coisas de corredores.
Sim.
Mudou muita coisa.
Sim.
E então? Hoje em dia, o Bombarda também já fez lá coisas.
Já fiz lá um projeto.
Mas propuseste para fazer uma, e eles ainda não responderam nada, não é?
Não.
A direção mudou, já não é a Joana. Vamos lá ver. Mas isso é uma coisa gira. Agora, não posso deixar de falar deste Videolucem, este cinema nas igrejas do Algarve, que foi logo a seguir ao Fitas na Rua.
O Videolucem foi um projeto engraçado, foi um desafio do Cineclube de Faro, que me propôs fazer.
Como é que tu dizes? Videolucem? É vejo luz, não é?
É vejo luz, sim. É latim, mas olha, nem sei como é que se diz em latim.
Então foram falar com os prioros. Isto é porque no Algarve há enfarte, não há mais nada, e o interior não tem sequer cinema. As pessoas nunca tinham ido às vezes.
Eles queriam que eu fizesse um projeto de cinema durante a época baixa do Algarve, no inverno.
Viva ali no verão e o resto do tempo é tudo apagado.
E que fosse de circulação. Há muitos sítios no Algarve que não têm sequer espaços, auditórios ou anfiteatros ou ginásios. Portanto, o único sítio que todas as aldeias têm é uma igreja.
E com uma boa acústica, até, normalmente.
Para o cinema não é muito boa, temos que trabalhar bastante.
Foram falar com o bispo do Algarve.
Foram falar com o bispo do Algarve. O bispo do Algarve gostou muito da ideia, deu-nos as regras, que era: os filmes não podem ter-
Cenas de sexo?
Sexo. E têm que ser filmes que façam pensar.
Ok.
Que isto deu-nos uma abertura incrível. Falámos com os padres de cada igreja, propusemos, fomos pensando filmes que fossem adequados a cada local.
Sim, mas passaram Pasolini e Manoel de Oliveira. É extraordinário. E concertos, mas fizeram concertos também.
Depois fizemos cineconcertos também.
Salvador Sobral, Maria João, Júlio Resende.
Isso já não foi nas igrejas, isso já foi uma terceira edição em que nós fomos a espaços, tipo armazéns de atum, a faróis.
Fazia parte do 375 Algarve. E passaram exatamente "O Sabor da Cereja", por exemplo, do Abbas Kiarostami, que tem um homem que se quer suicidar. A igreja deixou na boa.
A igreja deixou e tivemos uma conversa incrível com o padre e com as pessoas na igreja, no final.
Sobre a liberdade.
Sobre a questão da liberdade. Foi uma coisa emocionante, uma coisa que eu nunca me vou esquecer daquela conversa. Se aquilo é religioso, aquilo foi muito religioso.
Foi quase uma cerimônia, uma liturgia.
Sim.
Havia ali pessoas que nunca tinham ido a um cinema ou já não iam há décadas.
Sim, as pessoas das aldeias não têm acesso ao cinema de uma forma geral, a não ser na televisão. E foi muito engraçado, foi a divulgação, porque os padres divulgaram na homilia. Portanto, ajudaram o projeto a acontecer também porque eles próprios divulgaram.
Depois da missa: "Esta semana temos aqui Saló".
Não, não passámos Saló.
Mas as senhoras que foram a Cabeleira, em Guerreiros do Rio, estamos a falar perto do Guadiana.
Sim, isso foi em 2005, quando fizemos o Cinema fora de Sítio no Algarve, que foi nas aldeias. Guerreiros do Rio é uma aldeia muito pequenina, é uma ruína, ali ao lado do Guadiana. E na primeira sessão que nós fizemos, a terra chama-se Guerreiros do Rio, passámos o "Tarde de Mais", que é um filme do José Nascimento sobre aqueles homens que naufragaram no Tejo, ao lado da ponte, e que até morreram alguns.
Sim.
E nós passámos esse filme e, quando estávamos na montagem, achei muito engraçado que vieram três senhoras, mais velhinhas, que disseram: "Há 40 anos não vamos ao cinema, por isso tivemos que ir ao Cabeleireiro". E aquilo foi uma recompensa pra nós.
É gratificante tu ouvires isso, claro.
Para mim e para toda a equipe, nós éramos uma equipe a trabalhar naquilo.
Não sabemos, é uma frase tua: "Não sabemos bem por quê, mas o cinema toca nas pessoas e toca num lado desconhecido". Poderíamos pensar que passar cinema mais comercial seria mais fácil, mas isso não faz sentido, porque nunca sabemos bem o que é que vai chegar às pessoas.
Eu tenho uma história que pra mim foi um grande ensinamento que aconteceu no Fitas na Rua, no Jardim Thorel. No Jardim Thorel, nós estávamos a montar uma sessão no Fitas na Rua, um dia, e à tarde eu estava lá com a equipe a montar, estávamos a montar a tela, a gente ia muito cedo à tarde. E apareceu uma senhora com alguma idade, com uma bata daquelas batas de limpeza e com um cão, a passear um cão. E a senhora perguntou-me o que é que ia acontecer. Eu disse: "Vamos passar um filme ao ar livre hoje à noite, venha ver". E ela disse: "Que filme é que é?" E eu: "É um filme francês com uma atriz muito conhecida que é a Catherine Deneuve, e é um filme francês que se chama 'A Bela do Dia'". E ela olhou pra mim de lado e disse-me: "O 'Belle de Jour', do Bunuel. Eu já vi isso três vezes".
A sério? Tu que não era a empregada da senhora que ia passear o cão.
Não. Eu é que estava cheio de preconceito relativamente àquela senhora.
Ao público.
E ela deu-me uma estalada que eu recebi.
Que engraçado, incrível.
Que me ensinou que a gente nunca sabe o que é. Há textos que dizem, há estudos que dizem, há pensadores que dizem que o cinema, quando é de qualidade, toca a toda a gente. E às vezes toca de uma maneira que as pessoas nem sequer sabem no momento, mas ficam com ele.
Exatamente.
E eu concordo muito com isso.
Por isso é bom manter essa desconfiança, como tu dizes, manter essa mente aberta, não é?
Sim, mas também acho que, por exemplo, cinema comercial. Pra mim, a minha grande experiência foi com um filme fraco. Quer dizer, fraco. O "Flashdance" não é um filme que acrescente muito, mas pra mim foi uma experiência muito importante, muito marcante. Essa experiência informou-me: o cinema pode me trazer coisas incríveis. E eu não sei que filme é que vai dar esta informação ao espectador, ou que livro é que dá. Ou um livro que pode dizer às pessoas: "Olha, os livros trazem coisas incríveis".
De repente.
O que eu gostava é que as pessoas percebessem essa informação do cinema.
É outra coisa que eu vou dizer, nós temos que fazer aqui um intervalo, mas é outra coisa que eu vou dizer que gosto muito, a parte da programação, do que tu escolhes mesmo para o Cinema Insuflável. Sem preconceitos e sem mentir, tu escolhes tanto coisas da Disney, como podes escolher coisas de mangá, como podes escolher coisas de um filme do Irão. Os miúdos vão ver coisas normalmente de qualidade e que mal sabem eles de onde é que vem este filme, mas que conta uma história e que pode tocar toda a gente de maneiras diferentes.
Sim. E normalmente pergunto muito a quem nos acolhe, aos professores ou às entidades que nos convidam, que tipo de temas é que querem que a gente leve. E a gente leva esses temas também aos nossos parceiros.
Muito bem, Sérgio Marques, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo. Já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Sérgio Marques, ele é coordenador, produtor e programador cultural, mentor do projeto Cinema Insuflável, uma sala de cinema itinerante para a infância, uma ideia original que desde 2018 já realizou mais de 2500 sessões, alcançando mais de 80 mil crianças em escolas, praças, jardins, hospitais, bairros e festivais, cá e lá fora. Eu sei que há outra ideia que tu tens, que também para ti é daquelas cruzadas que tu fazes, o descentralizar. Lisboa e o Porto têm atividade a mais. É muito injusto, porque o resto do país tem atividade a menos. E tu, por exemplo, uma coisa que tu defendes é: a Cinemateca, por exemplo, não devia estar cingida a Lisboa e hoje em dia, como tu dizes, os filmes são discos externos, podem andar a circular pelo país todo. A Cinemateca devia ter programas que circulassem pelo país todo. É uma coisa que é uma das tuas batalhas.
A Cinemateca é uma entidade nacional. Acho que tem que servir o país e tem que servir, se calhar, quem mais precisa.
Está muito centrada aqui, não é?
Sim, mas sendo que agora há uma grande mudança. Houve um programa do PRR em que todos os filmes portugueses foram digitalizados, portanto, há a possibilidade de esses filmes circularem mais facilmente, se alguém os pedir. Tem que ser alguém que os pedir. Não sei se poderia ser a Cinemateca a fazer eles próprios essa difusão, serem eles a chegar aos sítios, porque isso também é um trabalho de produção.
Ou os cineteatros. Agora já há uma rede nacional de cineteatros e tudo, não é?
Sim. Mas é preciso também ter os mediadores, porque às vezes é preciso conhecer como é que se vai buscar. Não é uma coisa tão linear e tão simples.
Está bem, mas Sérgio, não há que ser tão complicado. Mais complicado é inventar um filme para levar às crianças em todo o país com qualidade. Isso é muito mais complicado, pelo amor de Deus. Tu dizes: são filmes, são discos externos, pelo amor de Deus.
Sim, mas na minha opinião a Cinemateca poderia se espalhar mais pelo país.
Estou centrado e vamos falar agora do Cinema Insuflável, mas eu estou a lembrar aqui dentro há cinema, uma coisa que tu também fizeste no Porto. Calhos era para ser com o Cinema Insuflável, mas enquanto isso aconteceu a pandemia, por isso não acabou por acontecer.
Aconteceu a pandemia e tivemos que mudar.
Insuflar Cinema também em Ovar, o Campanhã é a Minha Casa, aqui voltas mesmo à tua casa, que foi também com projeto de cinema ao ar livre. Muito gira esta ideia do Campanhã é a Minha Casa, porque aí foram buscar os filmes de Super 8, de família, não foi?
Primeiro fizemos um pedido às pessoas. Campanhã nunca teve uma sala de cinema, a freguesia. A Campanhã é uma freguesia assim um bocado deslocada.
É onde acaba o comboio que vinha de Lisboa.
Sim.
Para nós, mouros.
A sala de cinema que eu ia era no Bonfim, que é a freguesia ao lado, não era na mesma freguesia. Portanto, é sobre esta ideia de Campanhã não estar representada no cinema, não tem cinema, não tem história. Então o que a gente fez foi: fizemos uma recolha, um pedido de pessoas que tivessem filmes de família.
Da comunidade, é muito engraçado.
Houve muita gente a dar filmes de família, que depois achou-se a maneira. Sim, foram digitalizados.
E depois deram à Cláudia Vargião, ao Edgar Pera, ao José Filipe Costa.
Ao José Filipe Costa e à Sónia Aman.
Peguem nisto e construam.
Sim, construíram uma curta e agora há quatro curtas sobre Campanhã.
Incrível!
A partir dali, Campanhã já tem uma ligação à Cinemateca, que era o que eu queria.
Quatro novos filmes concebidos a partir da memória íntima da freguesia. Isto foi em 2020, 2021, 2022?
Sim, foi dois anos. Acho que foi dois anos.
2020 e 2022, então. É isso. Depois também é o Clube de Cinema da Campanhã. Aí até tens uma EA Grants, aquelas bolsas boas da Europa. E aqui também já meteu a Noruega, com estas viagens de intercâmbio à Noruega.
Sim, depois nós tivemos primeiro um apoio para fazer o Clube de Cinema de Campanhã, depois aquilo correu muito bem, que foi numa escola lá, na Escola do Cerco, e nós conseguimos mobilizar os miúdos para o cinema, e depois conseguimos levá-los a um festival de cinema na Noruega com outra bolsa que tivemos do EA Grant.
O Lucca Days depois aconteceu também. O Rising Cinema também, que cometeu a Lituânia.
Sim.
O Espaço Comum, a Roda de Filmes, a Avenida de Filmes, isto de um teatro em cada bairro.
E assim ainda está a acontecer.
Com as sugestões da vizinhança, é muito curioso. Sim, desde 2025, Câmara de Lisboa. Muito bem. Estamos a falar em particular deste projeto desde 2018 que funciona, o Cinema Insuflável, que tem a ver com o ICA também. Insuflar cinema na cabeça das crianças é este mote. São esta sala de cinema itinerante, insuflável, com 30 lugares, que se monta e desmonta em menos de duas horas.
Sim, uma hora e meia.
Isto é uma carrinha, nem sequer é um camião grande, é uma carrinha.
É uma carrinha.
Tens uns filmes com um time lapse muito giro, onde se mostra isso no teu Instagram. Tem os programas ajustados a diferentes faixas, dos três aos cinco, depois dos seis aos nove e depois dos 10 aos 12. Este design do insuflável foi criado por ti, tu foste com um designer a uma fábrica de insufláveis.
Este projeto demorou 10 anos para acontecer.
Pois é, já estava a pensar isto desde 2011.
Sim. A gente também quando é mais nova, as pessoas acham que nós somos mais loucas.
E somos, e é bom.
Somos menos credíveis. E entretanto, isto andava para ser pensado. Eu falei com muitos técnicos, com fábricas de insufláveis, com designers e muitos técnicos para perceber como é que a gente conseguia fazer isto.
É muito giro o design.
Se isto era viável. E tinha um desenho meu, que eu andava a mostrar, que era uma antiga sala de cinema, com aqueles marquês, como era nas salas de cinema. E um dia fui parar aos R2 Design, que são do Porto, é o Artur Rebelo e a Lisuar Ramalho. Eles são muito mais loucos.
Ok.
E eu mostrei-lhes o meu desenho e perguntei se eles queriam fazer o design. Eles disseram: "Sérgio, este desenho é o desenho de uma pessoa com a tua idade, 40 e tal anos, não pode ser. Nós temos que fazer um desenho que crie uma imagem nas crianças". E ele disse: "Tens toda a razão". Portanto, o meu desenho foi para o lixo. E ele começou a apresentar propostas, começou a apresentar esta proposta desta casa com os olhos, que tem a ver com a Casa Manuel de Oliveira, que era uma casa para construir no Porto e depois não aconteceu. E ele, com o engenheiro de uma fábrica de insufláveis lá do Porto, que até faz muito trabalho para artistas.
E as cores são giríssimas, é muito apelativo.
Sim, mas tem técnica, porque o insuflável para ser uma casa, por exemplo, a ideia inicial era para ser uma coisa tipo quadrado. E o engenheiro disse: "Não pode ser quadrado, tem que ser ondulante, porque senão não tem estabilidade com o ar".
Como se fosse um colchão daqueles.
Sim. Eles tiveram que negociar ali uma forma de conseguir fazer o objeto entre o design e as especificidades dos insufláveis.
Só os 10 anos vale a pena falar, porque é giríssimo. Cabe tudo numa carrinha e vem. Esteve oito ou nove anos até se concretizar. Junto a esta paixão do cinema ao ar livre, com as sessões adequadas a cada contexto, tu és muito bom nisso, e com a descentralização da cultura. Quando eu vi isto, fez-me muito lembrar o António Feliciano e estes projecionistas, estes homens que andavam de aldeia em aldeia. Este último, o António Feliciano, que eu me lembro, não sabia que era daltónico, descobri outro dia que era daltónico. Chegaste a conhecê-lo?
Eu cheguei a vê-lo uma vez no Algarve, a fazer uma sessão.
Que lhe sabe. Morreu há quatro anos, com 82 anos.
Sim, acho que em 2015.
Teve 60 anos a fazer isto.
Sim. E ele muito velhinho continuou a fazer. Mas eu acho isso muito glorioso, acho esse trabalho glorioso.
Havia também o Domingos Pecas e o Joaquim Azevedo, era o último do Norte. 60 anos teve o Feliciano a viajar 4 milhões de quilómetros contabilizou-se para exibir 4 mil filmes em aldeias distantes de Portugal. Ele tinha também um cineteatro ali em Vila Nova de Milfontes, o Girassol, que começou na década de 50. É incrível.
Era um herói.
Tu és um bocadinho o herdeiro dele. É uma honra, eu acho.
Não sei se estou à altura disso.
Claro que sim.
Mas todos os projecionistas para mim são uns grandes heróis, porque a história dos projecionistas é um bocadinho a história do Cinema Paraíso. As crianças que iam para as cabines e que aos 10 anos davam-lhes a licença para ser ajudante de projecionista, depois ficavam projecionistas e depois ficavam responsáveis das salas. Isso é uma história muito bonita e é uma história muito de amor ao cinema pela parte técnica. E eu ainda sou do tempo que isso aconteceu, porque agora entretanto já é tudo digital, já são máquinas.
Sim.
Mas eu vivi isso e senti isso e conheci muitos projecionistas.
Já não há película, já não há aquelas grandes bobines.
Sim.
Agora é tudo projetor, já é um barco, aquelas coisas que projetam.
Sim, é o DCP, que é o cinema digital, portanto vem menos externo.
Data show, em grande, em bom.
Sim. E aquilo é muito automático, não precisa estar ninguém na sala, não há controle. E até há uma coisa que, por exemplo, quando era a fita, tu tens que saber o sítio exato onde cortas para fazer o intervalo.
Exatamente.
E às vezes na sala de cinema eles cortam, está a fazer coisas que também não descortam. E às vezes está a meio da cena.
Exato.
Isso é uma coisa que havia muito cuidado. E aquilo era um trabalho muito manual, muito de amor, muito de proximidade. Portanto, os projecionistas pra mim são os grandes heróis.
Um cinema como espaço de descoberta, reflexão e empatia. Tu agora aqui lembras-te desta: "Blow your mind, read a book". Os ingleses tinham esta campanha que dizia: o cinema também pode ser isto, fazer a mente explodir para sensibilizar as crianças, porque de facto, para muitas crianças esta é a primeira sala de cinema onde vão.
É, sim. Elas próprias dizem. Aliás, as pessoas que fazem animação perguntam sempre: "Quem é a primeira vez que vem ao cinema?"
E há sempre uns miúdos que vão.
Sim.
As reações de crianças é muito fácil.
É muito fácil numa aldeia, uma criança de seis anos ser a primeira vez que vai ao cinema.
É mais importante uma criança ver um filme no cinema do que em casa, na televisão hoje em dia, ou complementam-se e não se pode dizer que é mais importante?
Não sei.
Tu tens um gut feeling. Diz o que tu achas.
Não tenho uma resposta certa pra isso.
É muito importante levá-las ao cinema?
Sim, eu acho que é importante levar ao cinema ou levar a um espetáculo. Eu acho que a experiência de espaço de cultura ou de espaço de arte é uma experiência muito diferente de uma experiência de casa.
E quanto a nós seja, por veres com outras pessoas, partilhares.
Sim.
Arrisco os amigos à volta.
E há um lado soleiro, que tu naquele momento ou naquela hora e meia, naquelas duas horas, tu estás ali comprometido. Há um compromisso. E esse compromisso é que eu acho que às vezes nós não temos quando estamos em casa.
Temos de parar, ir de qualquer lado.
Mas os conteúdos, se forem bons, eles também chegam pela televisão ou chegam pelos iPads. Agora, o que eu acho que a sala de cinema precisa ser transformada num sítio de encontro é onde as pessoas vão.
Muito giro. Encontro com os filmes e entre elas.
Sim. Há uma pensadora brasileira, acho que se chama Maria Porto, que uma vez fez uma conferência que ela disse uma coisa que eu achei incrível. Que ela disse que é preciso neste momento que os museus sejam, ela estava a falar de museus, que os museus sejam o espaço onde as pessoas se sintam bem e não se sintam que não podem tocar, que aquilo é um sítio muito sério.
Tens razão.
Primeiro que as pessoas se sintam bem. E depois, que usufruam da arte.
Sabes que isso é tão importante o que estás a dizer, Sérgio. Estou me a lembrar agora que já tive uns convidados aqui a falar exatamente disso, a questão do acesso, da democratização da cultura. E que muitas pessoas ainda vão ainda a museus, na província, porque acham que aquilo não é pra eles.
Sim.
Percebes? E mesmo cá em Portugal, nas periferias, há pessoas que não vão a museus da arte antiga, porque acham que: "Não, isto não é pra mim, só os patrões é que devem ir e os ricos é que devem ir, há uma elite que deve ir". E o próprio Penim falava isso para os outros teatros, o Teatro Nacional. Temos que fazer uma coisa aberta às pessoas, as pessoas não vão ao teatro porque acham que é para as senhoras e para os senhores.
Sim.
E não, temos que abrir as portas, completamente.
E eu até acho mais do que isso. Até acho, por exemplo, se o cinema português, que é feito, sei lá, nos últimos 20 anos, circulasse mais e chegasse a todo lado, as pessoas iam ficar surpreendidas com aquilo que é produzido em Portugal.
Eu dou toda a razão.
Porque o cinema português é-
Há pouco tempo, há muito aquela coisa de: é tudo Manuel Oliveira, é tudo muito lento, é tudo não sei o quê.
E há muitas formas de falar, há muito preconceito, e os filmes, eu acho que é um dos melhores do mundo. Acho mesmo. Isto acho como espectador.
Eu já tenho tido aqui recentemente realizadores, fico fascinado com os filmes que eles apresentam ali. As pessoas não conhecem isto, não vão.
Sim. E isso também, as pessoas não vão porque eles também não são de fácil acesso.
Sim. Em Espanha, por exemplo, em Itália, isso já não acontece. Eles têm amor à arte deles e dos países deles, que é extraordinário. Vê-se, vibram com as coisas deles.
Sim.
Promovem muito, também a música, por exemplo.
Sim.
Outra coisa engraçada aqui neste cinema, tu falavas, eu estou a pensar nestas sessões em que tu passavas o Charlie Chaplin e o Buster Keaton, onde fazes este contexto, explicam: "Olhem, meninos, isto tem 100 anos e não havia efeitos especiais, e não sei o quê. Este era um pobrezinho, o outro nunca ri". E eles ficam fascinados a ver isto. E são coisas que alegraram os nossos pais há 70 anos.
Sim, depois dizemos para eles irem ver no YouTube.
Vejo o filme em casa.
Se quiserem, podem continuar a ver mais no YouTube, porque também eu acho que o problema das redes sociais é o algoritmo.
A ditadura dos ecrãs.
Sim. Como os miúdos veem uma coisa, aparece sempre a mesma coisa pra ver.
Exatamente.
Portanto, eu acho que eles têm que procurar a diversidade. Quanto mais diverso for, mais...
Por isso é que tu fazes questão, e é muito bom isso, pra ver animação diferente do Canal Panda. A ideia é fazer um bocadinho o que o Vasco Granja fazia com as pessoas da nossa idade.
Sim.
E sem preconceitos, porque há bom cinema vindo da Pixar e da Disney, mas também como tu dizes, do mangá e do Irão. Há filmes bons. As crianças são exigentes com os filmes e com as histórias?
Elas são honestas. Respondem honestamente se gostam e se não gostam. Mas também quando gostam, gostam muito.
Isso é giro. E depois trazem amigos também, convidam e trazem os pais, às vezes. É muito importante. Alta qualidade é o que tu fazes questão e eu gosto muito disso.
Sim, tecnicamente tem que ser sessões de excelência técnica, porque a técnica é muito importante para quem está a começar.
Sim, ver uma coisa com alta qualidade e não uma coisa ranhosa, com som de fundo, com ruído.
É como dar a uma criança o primeiro livro para ela ler que tenha erros de português. Não pode ser.
Exato.
A técnica é só o caminho para chegar lá.
Há uma grande conquista para ti, Sérgio, é a questão de também já lá fora. A Bélgica e os Países Baixos, por exemplo, já copiaram o teu modelo.
Sim, nós desde o primeiro ano fomos convidados para ir a festivais internacionais.
Isto do JEF, da Suécia.
Sim, fomos à Suécia. E, entretanto, eles fizeram-nos uma proposta.
O Cinekid, em Amesterdão, que acho que é o mais importante, o principal do género. Cinema infantil.
Sim, o mais importante da Europa de cinema infantil.
Foram à Suécia também.
Fomos à Suécia, Noruega, Polónia, Roménia. Já fomos a muitos festivais, à Islândia pediram-nos, à Inglaterra.
A Bélgica e os Países Baixos pediram mesmo uma igual, uma cópia.
Eles queriam ter uma cópia e eu disse: "Se vocês quiserem uma cópia, tem que ser igual à nossa. Tecnicamente igual, tem que ser feita na minha fábrica, onde fizeram".
Cópia mesmo do cinema insuflável.
Sim, tem que ser igual, tem que ter as mesmas cadeiras.
Aí estás a fazer bem, estás a apoiar as pessoas que fizeram o teu e que concretizaram isto. É um modelo que funciona.
E tu exiges qualidade a eles também.
Isso. Pronto, é muito importante.
E eles aceitaram as minhas condições e nós fizemos um igual. O nosso é azul, o deles é verde e anda a circular aí pela Bélgica.
Muito bem, muito giro. Eu convido as pessoas a irem ver, vale a pena ir ver o site do Sérgio aqui, este www.cinemainsuflavel.pt, não tem nada que saber. E também, já agora, para convidar e para ele vir às vossas terras e aos vossos sítios, cinemainsuflavel@gmail.pt. Vale a pena ver estes filmezinhos que tu tens, e o Instagram. Tem uns filmes como aquilo a desmontarem time lapse. É fabuloso. E montar e desmontar e as crianças a entrar e sair. Algumas, de facto, bem, aquilo está junto ao rio e junto à praia.
Sim.
É fantástico. E tens uma utopia que é África e os campos de refugiados. Quando é que isso vai acontecer?
Nós estamos neste momento a ter, se calhar, a possibilidade de construir um novo cinema insuflável.
Ok. Um segundo para Portugal?
Um segundo para nós, sim, porque há uma possibilidade, há um apoio. Nós tivemos um apoio do ICA, estamos a tentar conquistar o apoio.
É que vocês vivem disto. Claro, tem que se pedir sempre apoios e fundações.
Sim. Nós somos uma associação sem fins lucrativos, não somos uma empresa. Nós somos uma associação que tem uma missão sem lucros, tem uma missão sociocultural, se se pode dizer assim. E nós estamos a tentar conseguir o segundo. E eu gostava muito, por exemplo, o Brasil também está muito interessado. O Brasil gostava muito de ter um projeto. Há muitos projetos superinteressantes.
Vocês já foram ao Brasil, não já? Já houve lá algumas sessões vossas ou não?
Não. Eu fui apresentar o projeto a uma conferência. Convidaram-me para ir a uma conferência e eu apresentei o projeto.
Provavelmente vais muito a feiras e conferências falar sobre o teu projeto.
Sim, sobre este projeto.
Mas a Dinamarca, por exemplo, já tem na Tanzânia e no Ruanda, já tem uma coisa parecida, alguns projetos de cinema executados lá.
Só que esses países, por exemplo, países de África. Eu, por exemplo, falei com a Catina Furtado.
Aquela embaixadora da UNICEF.
Sim. E ela respondeu uma coisa muito básica, que é o calor e a falta de eletricidade. Aquilo foi uma troca de e-mails, mas ela respondeu: "É muito difícil conseguir que se tenha eletricidade com continuidade".
Tem que se andar com gerador.
Sim, tem que se andar com gerador atrás.
Tu cá andas com gerador atrás.
Não.
Tu chegas às localidades e arranja uma baixada dali.
Sim, e é uma tomada normal. É que aquilo não gasta muita eletricidade. Mas, de qualquer forma, lá seria uma complicado. E depois lá também, se calhar, a partir do momento em que está à noite, não sei se a noite lá começa às 19:00 ou se começa às 20:00, mas se calhar já se pode fazer cinema ao ar livre, porque em tempos de clima é muito diferente. O cinema insuflável aqui em Portugal e na Europa é mais importante, porque faz sala escura durante o dia, que é isso que eu queria que acontecesse.
Quando de dia entra muita luz?
Não, não entra nenhuma.
Isso fecha mesmo, é opaco.
O cinema insuflável é escuro.
Aquilo é azul claro e portanto devia entrar uma luz.
Ele tem uma parede de 50 centímetros, aquilo tem espessura.
Está bem. Eu nunca entrei, mas fiquei curioso. Espera lá, será que isto não é escuro? Será que por dentro há uma tela escura?
Não, é escuro, é uma sala escura. Aquilo é uma sala escura.
Mesmo durante o dia, de manhã?
Sim.
Muito bem, mas tinhas este sonho, não tinhas? Ir a campos de refugiados.
Eu gostava muito, mas isso só faz sentido se for em parcerias com entidades. Eu vou falando com quem trabalha nessas áreas e vou percebendo.
Para já, Angola e Moçambique eram umas hipóteses para ti, que tu gostavas só de ter esse contacto.
Sim, mas tem que ser fruto de parcerias e com entidades que trabalhem nisso. Por exemplo, eu sei que em Gaza há uma entidade que, apesar de tudo, continua a fazer sessões de cinema.
Não sabia. Boa.
Apesar de tudo, continua a fazer sessões de cinema. E isso é muito glorioso.
Claro que sim.
E muito importante também.
Como eu vi também, fiquei impressionado. Outro dia era nos Jogos do Mundial, também montaram lá uma ecrã, não sei onde, ao ar livre, e a multidão daquelas ruínas sai uma multidão de gente a vibrar. É impressionante como a música, o cinema, o futebol, são coisas que unem as pessoas, têm esta função, esta empatia. E é engraçado que tu também dizes que os filmes mostrados na Suécia são diferentes dos filmes mostrados no Brasil. Isso é muito curioso.
São. E nós misturamos tudo. Nós em Portugal fomos buscar os filmes todos.
Tens uma série de prémios, o prémio Acesso Cultura 2023, um projeto conhecido pelo Plano Nacional de Cinema. Para as pessoas te contratarem, portanto, aqui é assim: autarquias e entidades podem pagar e contratam-te. Vão ao teu site e contratam-te. Há escolas, Juntas de Freguesia, associações de pais que às vezes não conseguem suportar. E vocês aí ajudam-nos e fazem candidaturas ao ICA.
Sim, por exemplo, este ano tivemos um apoio do Ministério da Cultura, do Fundo de Fomento Cultural, para irmos a 15 locais, porque nós temos muitos pedidos de entidades que não nos conseguem pagar. A gente tem sempre custos associados.
Associações de pais.
Sim. E há muitos pedidos, há sempre muita gente que nos pede: "Vem à escola do meu filho, temos aqui uma IPSS, trabalha neste bairro", e depois não conseguem pagar.
É tão bom ver essa apetência, essa fome.
O cinema insuflável tem uma coisa que para mim é nova e foi a primeira vez que aconteceu, que é: eu tenho o público assegurado, porque as entidades só querem, eu não tenho é dinheiro para chegar lá.
Exato. Vamos deixar aqui este apelo, que é importante. Esta conversa era para ter acontecido há mais tempo, mas estavas em Arrós, se não me engano, também a fazer uma sessão. Agora para já em agosto vais estar em Amarante, em setembro vais estar em Viseu e no Algarve.
E no Algarve, sim.
Muito bem. Sérgio Marques, não temos mais tempo, mas quero te agradecer muito este teu esforço, esta tua ideia, esta grande paixão que tu tens e que se concretiza. Convido as pessoas que convidem o Sérgio a vir com este cinema e convido-vos também a ir ao site do Cinema Insuflável. Vale a pena, é espantoso. As reações, sobretudo as caras dos miúdos que estão lá dentro a ver os filmes, é incrível. Vale muito a pena isso. Tu fazes um trabalho meritório. Ainda bem que é premiado. Tudo de bom, Sérgio, e que nunca te parem os convites. Vale muito a pena. Muito obrigado.
Obrigado.