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Olá e seja muito bem-vindo ao podcast "COVID: Linha de Imunidade", com apoio da IPRA. A saúde é a área com maior impacto na nossa vida e as vacinas são objeto de análise e muitas vezes também de alguma desconfiança. Neste podcast, vamos falar sobre cobertura vacinal contra a COVID-19, o papel da literacia e como esta pode, no fundo, ajudar a prevenir. Hoje vamos conversar com a Sofia Duque, é médica especialista em geriatria. Seja muito bem-vinda aqui ao Observador.
Obrigada.
Sofia, vamos falar essencialmente, como já fiz nesta pequena apresentação, sobre vacinas, sobre quem devemos vacinar e também por quê. Passaram cinco anos desde o início da pandemia, em março de 2020, em Portugal. Aliás, seis, sendo agora mais rigorosos.
O tempo passa a correr.
É verdade. Na altura havia muita desconfiança, dúvidas. Hoje já existem respostas e no fundo, o que eu quero perceber consigo é se já conseguimos perceber como é que funcionam as vacinas para a COVID-19.
Na verdade, as vacinas contra a COVID-19 funcionam exatamente de forma semelhante às outras vacinas que já conhecemos há muito tempo e que usamos com confiança e segurança há muito tempo. No fundo, as vacinas vão ensinar ou treinar o nosso sistema imunitário, que não é mais do que o nosso sistema de defesa, vão ensiná-lo a reconhecer o vírus e a combatê-lo muito antes de termos contato com o próprio vírus. Portanto, as vacinas têm esta função. E como é que elas fazem este ensino ou este treino? No fundo, as vacinas vão apresentar ao organismo, ao nosso corpo humano, ao nosso sistema imunitário, partes do vírus, partes que não são causa de doença e, portanto, o nosso organismo vai conhecer aquelas porções do vírus, vai desenvolver a produção de anticorpos contra aquelas partes do vírus, que ainda que não causem doença, os anticorpos vão conseguir ter uma função ativa quando estão perante o próprio vírus da COVID-19. E este é exatamente o mecanismo das outras vacinas para as outras doenças que já utilizamos há muito tempo. Há uma longa tradição de uso de vacinas nas crianças, por exemplo, também, e agora é que começamos a pensar mais nos adultos. Portanto, o que vai acontecer é que o nosso organismo vai ficar preparado para combater uma infeção quando se depara com o vírus. E quando o vírus entra no nosso organismo, o corpo humano é capaz de o identificar e é capaz de produzir em maior quantidade anticorpos específicos para combater, para evitar, idealmente, a infeção ou, se ainda assim houver infeção, conseguir com esses anticorpos que a infeção seja menos grave, seja uma infeção mais ténue, que não leve a pneumonia, que não leve à necessidade de oxigênio.
No fundo, a outras complicações de saúde.
No fundo, a formas graves da doença, que é aquilo que nos preocupa muito. Obviamente que ninguém quer ter uma doença, qualquer doença, por mais ligeira, e digo aqui ligeira entre aspas, por mais banal que seja, causa algum desconforto, pode comprometer a nossa capacidade no dia a dia, por exemplo, de vir trabalhar. E, portanto, aquilo que nós quereríamos era evitar 100% todas as doenças. Tal não é real, não é realista. Aquilo que nós queremos enquanto profissionais de saúde, enquanto médicos, é que consigamos evitar as formas graves de doença que possam levar à morte e comprometer a qualidade de vida e a funcionalidade das pessoas. E é exatamente isso que as vacinas fazem, no fundo, salvam vidas, e é aquilo que para nós é mais importante.
Na altura, surgiram várias farmacêuticas com vacinas no mercado. Aliás, era notícia sempre que havia uma nova vacina. Hoje, essa variedade é ainda maior, ainda que não seja, se calhar, tão notícia neste momento.
Se pensarmos no início da pandemia, na verdade, ouvimos falar de várias vacinas, de várias marcas, mas essencialmente estavam disponíveis dois tipos de vacinas contra a COVID-19. As de RNA mensageiro, e ouve-se falar muito do RNA mensageiro, e as de vetor viral. E no início da pandemia, tivemos ao nosso dispor, basicamente, em Portugal, era o que estava mais disponível, eram estes dois tipos de vacina. Depois passamos a focar-nos mais e a usar mais as de RNA mensageiro e, na verdade, são estas ainda que o Serviço Nacional de Saúde nos faculta e que estão disponíveis.
Consegue explicar-nos aqui a diferença entre uma e outra, só para percebermos?
As vacinas de RNA mensageiro, no fundo, baseiam-se em ácidos nucleicos, que têm o código genético do vírus. Nesta molécula de RNA mensageiro, está lá o código genético do vírus. Portanto, estas vacinas não contêm o próprio do vírus. Têm, sim, o seu código genético, no tal mRNA, o RNA mensageiro, e o que vai acontecer quando administramos este tipo de vacina, é que as nossas células do nosso corpo vão ler este código genético. Penso que é curioso pensar nisso, não é? E depois vão conseguir até, com esse código genético, a nossa maquinaria celular vai olhar para aquele código genético e vai produzir pequenas porções do vírus. Não vai produzir o vírus na totalidade, mas pequenas porções. As tais pequenas porções que depois desencadeiam a produção de anticorposAs células têm aqui uma primeira função, que é olhar para o código genético, produzir as proteínas do próprio vírus e depois há outras células que vão ver essas proteínas já produzidas no nosso corpo e vão montar uma resposta imunitária face a essas partículas e vão produzir os tais anticorpos, que mais tarde podem vir a ser utilizados e replicados se estivermos perante o próprio vírus da Covid-19 e assim evitar a infecção ou pelo menos evitar formas graves de infecção. Eu diria que de uma forma mais simples, esta é a explicação do que é uma vacina de RNA mensageiro, e a forma como é que elas levam à produção de anticorpos. Portanto, no fundo, estas vacinas, desta forma que eu expliquei, vão treinar o sistema imunitário, como eu há pouco tinha dito, vão permitir que o nosso sistema imunitário, quando está à frente do vírus, reaja de uma forma mais rápida, de uma forma mais intensa e assim consigamos não ter infecção, idealmente, ou então ter uma infecção mais ténue, uma infecção que podemos tratar em casa, que não nos obriga a ir ao hospital, que não nos obriga a receber oxigênio, a ficar internados ou que não nos leva, nalguns casos, até à morte, que ainda continua a acontecer. Depois tinha falado também das vacinas do vetor viral. Que não foram tão usadas e que depois acabaram neste momento.
Mas por alguma razão em específico?
Tivemos melhores resultados com as de RNA mensageiro. Aquelas que geraram mais preocupação eram as outras. E neste caso, estas outras vacinas têm um vírus inofensivo e que lá no seu interior têm também a informação do vírus da Covid, também têm genes para proteínas específicas que depois são importantes para produzir os anticorpos contra elas. Mas eu diria que uma coisa muito importante, e isto é particularmente importante porque muitas vezes ouvimos as pessoas dizer: "Eu já recebi cinco doses da vacina, já não vou fazer mais, já estou vacinado, já estou bem protegido". O que se passa é que, com o vírus da Covid-19, à semelhança do que acontece com o vírus da gripe, ele vai sofrendo transformações, ele vai se mutando. E as vacinas que nós temos têm também de se adaptar a estas mudanças. A primeira vacina que foi feita contra a Covid-19 já não terá a mesma resposta contra o novo vírus que já está em circulação.
Todas as mutações que sofreu.
Que vai acomando ao longo do tempo. Portanto, é necessário haver uma atualização regular destas vacinas e as pessoas receberem-nas para terem uma proteção mais ajustada, mais eficaz contra o novo vírus que está em circulação, as novas variantes, como nós chamamos. Mas no início, o João perguntou-me se havia mais vacinas. Agora, em número, até parece que temos menos, mas há alguns meses temos, aqui no nosso país, uma vacina nova, uma vacina que é de outro tipo, não é de RNA mensageiro, não é de vetor viral, é uma vacina proteica, é uma vacina que contém já uma daquelas partes do vírus, uma proteína do vírus, que é estratégica e para a qual o corpo humano, quando encontra aquela proteína, quando recebe aquela vacina, vai sintetizar, vai produzir anticorpos que vão permitir exatamente prevenir a doença Covid-19 ou pelo menos evitar que tenhamos formas mais graves. E estas novas vacinas trazem-nos algumas vantagens. E eu diria que uma das principais vantagens é que há, pelo menos, estudos que nos mostram... Antes de mais dizer que não há estudos que comparem aquela que usamos mais agora, que é RNA mensageiro, que é aquela que o Serviço Nacional de Saúde nos oferece. Não há estudos que comparem essa vacina com estas novas vacinas de uma forma direta, estudos de vida real, no terreno. Mas há, de facto, evidência de que estas novas vacinas vão produzir anticorpos em maior quantidade, o que é bom, significa que vamos ter uma resposta contra o vírus mais eficiente e esses anticorpos vão permanecer durante mais tempo e, portanto, se olharmos para os seis meses após a toma da vacina, as pessoas vão ter quantidades de anticorpos mais elevadas e depreendemos que isso signifique maior proteção.
Mais eficácia.
Mais eficácia na proteção contra a infecção, o que é muito bom.
Mas isso depende também sempre de pessoa para pessoa e a questão da idade. E se já há ou não complicações de saúde.
Sim, mas este é um fenômeno que acontece independentemente da idade. Se compararmos aos seis meses, uma pessoa que tenha recebido a tal vacina proteica nova, comparativamente a uma pessoa que recebeu a outra vacina, à partida vai ter quantidade de anticorpos mais elevada e isso depreende-se que será mais proteção. E esta era uma das vantagens que eu estava a mencionar. Isto é particularmente importante, por quê? Porque quando nós temos a infecção por Covid-19, ficamos com uma quantidade de anticorpos que durante o tempo, depois com o passar do tempo, vai diminuindo. E à medida que os anticorpos diminuem, a proteção também diminui. E é por isso que ao fim de alguns meses podemos voltar a ter Covid-19.Se tivermos mais anticorpos durante mais tempo, estamos protegidos durante mais tempo. Este fenômeno que se passa após a infecção, também se passa após a vacina, ou seja, nós recebemos a vacina, temos um determinado nível de anticorpos, ele depois vai diminuindo ao longo do tempo e é por isso que depois temos de fazer o reforço passado um ano. Mas se nós tivermos anticorpos ainda durante mais tempo, significa que estamos mais protegidos. Outra vantagem destas vacinas, e que também é muito importante, é o fato de ela, comparativamente às outras, causar menos efeitos secundários, ainda que sejam aqueles efeitos secundários ligeiros. Mas que embora sendo ligeiros, muitas vezes é isso que as pessoas temem, e que as faz recusar uma vacina, que é aquela induração que fica no braço depois da toma da vacina ou o braço ficar um pouco mais quente. Às vezes, se calhar, vão ao supermercado e não conseguem levantar o braço pra tirar o produto que vão à procura, ou aquela sensação de cansaço depois da vacina, ou às vezes até um pouco de febre. E com estas novas vacinas esses efeitos secundários são mais ténues, são mais ligeiros e, portanto, acreditamos que também possam levar a uma menor hesitação na hora de receber a vacina. Eu, pelo menos com os meus doentes, é um argumento também que uso, tal como o outro, de garantir maior proteção. E as pessoas são sensíveis a isso. Por um lado, ter mais proteção.
E mais informação, não é? Hoje em dia. Quando as vacinas surgiram, havia muitas dúvidas.
Sim, as pessoas gostam muito de saber porque é que levam uma vacina, os riscos que há atrás delas ou, pelo contrário, a segurança que elas representam. E informá-las sobre isto, sobre estas mais-valias, é sempre um ponto que reforça a possibilidade das pessoas aceitarem receber uma vacina que lhes é proposta. Informar as pessoas é, sem dúvida, fundamental. A era da medicina paternalística, em que a pessoa aceita tudo aquilo que o médico propõe, é uma coisa do passado. As pessoas querem estar informadas.
E fazem cada vez mais perguntas também, não é?
Fazem. E no caso da vacina contra a Covid, isso acontece muitas vezes. Há uma hesitação muito grande. Há, de facto, esta ideia: "Como? Já levaram cinco e seis doses, já não precisam de mais". Mas é fundamental perceber que se o vírus muda, as vacinas também se vão ter de adaptar e nós vamos ter de dar anualmente uma vacina adaptada à nova variante que está em circulação, da mesma forma que acontece com a gripe. Portanto, penso que é um fenômeno muito conhecido e bem aceito, esta necessidade de levar a vacina da gripe anualmente, o mesmo tende a acontecer com a vacina contra a Covid-19.
Doutora Sofia Duque, pergunto-lhe também na questão das pessoas acima dos 60 anos, ainda que sejam altamente saudáveis, por que devem ser vacinadas? É uma questão também que surge muitas vezes, não é?
Surge. As pessoas podem dizer: "Mas eu não sou doente, eu sou saudável, por que eu tenho de levar essa vacina?" Mas a verdade é que independentemente de as pessoas serem saudáveis, a idade acarreta algumas alterações do corpo humano. Alterações que não são doença, são a nossa fisiologia, a nossa evolução normal. O nosso corpo vai mudando com o tempo, tal como o vírus da Covid-19, que também muda com o tempo, o nosso corpo também. E nós vamos sentindo isto ao longo do passar do tempo, que quando temos mais alguns anos, já notamos algumas diferenças. E uma das diferenças, e uma das alterações que acontece é a nível precisamente do sistema imunitário. O sistema imunitário fica mais enfraquecido, a capacidade de resposta às infeções diminui. Portanto, nós temos, nestas pessoas mais velhas, de reforçar. Ainda temos que treinar mais o seu sistema imunitário. Temos de o ensinar melhor, temos de garantir que há oportunidades para ele se tornar mais competente, mais eficaz na hora em que se depara com o vírus. Além disso, ainda que as pessoas mais velhas possam achar que são saudáveis, muitas vezes não têm, de facto, uma perceção dos problemas de saúde que já possam ter. Muitos problemas de saúde podem estar subdiagnosticados, não ter ainda um diagnóstico feito e representar um risco, não só maior de ter Covid-19, de ter a infeção e formas graves da doença. Portanto, não devemos menosprezar este grupo das pessoas mais velhas. São pessoas que têm de ser mais protegidas e, portanto, têm ainda mais indicação para receber vacina contra a Covid-19 e contra outras doenças. Na minha prática clínica, e eu atendo essencialmente pessoas mais velhas, a vacinação é um dos pilares para conseguir um envelhecimento ativo e saudável. Sabemos que um dos mecanismos através dos quais envelhecemos é a inflamação. Então, se nós pudermos evitar inflamação, como é o caso daquela que as infeções geram, será uma forma de nós conseguirmos um envelhecimento mais ativo e mais saudável e chegar aos 100 anos com toda a nossa capacidade. E, portanto, aqui as vacinas têm um papel fundamental para garantir esta imunidade contra as infeções, evitar que as pessoas tenham a infeção e todas as consequências negativas que podem delas resultar e que sabemos que acontece com a Covid-19, que potencialmente é mais grave, leva a mais internamento, leva a mais mortalidade nas pessoas mais velhas.
E quando falamos de pessoas mais velhas, por exemplo, que residem em lares, recorrer à vacinação é, não digo obrigatório, mas é quase uma...
É obrigatório.
Mas é, no fundo...
Bom, não é obrigatório na medida em que as pessoas têm de poder decidir se querem ou não, não é?
Mas há maior risco, no fundo.
Há. Porque temos de pensar quem é que é a população que vive nos lares. São habitualmente pessoas mais velhas, portanto, já têm mais imunosenescência, o tal declínio do sistema imunitárioSão pessoas que habitualmente também têm várias doenças crônicas, muitas vezes têm uma fragilidade física, são menos robustas, portanto têm uma maior vulnerabilidade às doenças, mas também têm maior risco de ter doença grave e que pode ainda comprometer mais a sua capacidade no dia a dia. E pessoas que são autónomas, com uma simples infecção, e meto aqui o simples entre aspas, podem ficar totalmente dependentes, que é aquilo que nós não queremos. Por outro lado, as pessoas que vivem numa instituição, num lar, habitualmente vivem no seio de um grupo grande. E se estão rodeadas de muitas pessoas, tanto os outros residentes como os profissionais que lá trabalham, se estão num aglomerado de pessoas, há um maior risco de transmissão de infecções, seja a Covid-19, sejam as outras. Portanto, proteger toda esta população é fundamental. Por isso é que quando falamos em lares, eu pelo menos quando penso numa instituição e em proteger a comunidade da instituição, não penso só em vacinar os próprios residentes, como também todos os profissionais e voluntários também, e até as visitas que vão ao lar. Vacinar também todas estas pessoas é uma forma de evitar que a infecção e que os vírus entrem naquela comunidade e possam levar, inclusivamente, a surtos. Isto acontece muitas vezes, começa numa pessoa e depois a certa altura temos quase toda a população residente no lar com doença, que se pode tornar grave. Portanto, vacinar nas instituições é fundamental.
Isso é já uma das vantagens, porque estamos aqui a falar de pessoas mais velhas, mas há uma norma da DGS para a questão da vacinação. Ou seja, essa é uma das vantagens de olhar também para outros grupos populacionais e vacinar para prevenir, neste caso, esse risco?
Sim, e a norma da Direção-Geral de Saúde foca isso. Na verdade, temos uma norma até bastante extensa, no que diz respeito a grupos candidatos. Logo à partida, o primeiro grupo diria eu, são os 60 mais, as pessoas com 60 ou mais anos. Depois estão também aqui incluídos os profissionais de saúde, em várias instituições, desde os hospitais, às clínicas, aos centros de saúde, às unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados. Portanto, há aqui um universo grande de profissionais de saúde em diferentes tipos de equipamentos. A norma da DGS também considera, por exemplo, até os farmacêuticos, pelo contacto próximo que podem ter com os utentes nas farmácias comunitárias. Também os polícias, por exemplo. Mas depois, obviamente, que a norma da Direção-Geral de Saúde, além de ter esta visão focada no indivíduo, mas também naqueles que têm mais risco de poder transmitir às pessoas mais vulneráveis, obviamente que a norma da DGS foca também as pessoas que, por si só, têm logo uma grande vulnerabilidade, ainda que não tenham 60 ou mais anos. E, portanto, se nós olharmos para a norma da DGS, vemos que um dos grupos candidatos a vacinação são os adultos com menos de 60 anos, mas que têm várias doenças. Doenças cardíacas ou cardiovasculares, doenças pulmonares, obviamente, doenças renais, doenças em que haja um compromisso do sistema imunitário, seja pela doença propriamente dita, seja pelo tratamento que faz. As pessoas que têm cancros, neoplasias de vários órgãos, do sangue também. Portanto, a norma da DGS contempla aqui vários grupos de risco. Por exemplo, também contempla o caso das pessoas com obesidade ou excesso de peso, porque viu-se em vários estudos, logo desde o início da doença, que estas pessoas tinham mais risco de ter formas graves de doença, as tais formas que levam à hospitalização, à necessidade de oxigênio e com maior risco de mortalidade. Portanto, a norma da DGS, de facto, cobre aqui vários grupos. Na minha visão crítica, no sentido de querer ser construtiva e chegar a mais pessoas e permitir que todos aqueles que são vulneráveis estejam o mais protegidos possível. A meu ver, falha aqui a possibilidade de vacinar pessoas que ainda que não façam parte destes grupos, queiram. Qualquer pessoa, mesmo sendo saudável, tem o direito ou deve ter a possibilidade de se vacinar se não quiser ter a doença. Como eu disse, todos nos estamos a preparar para chegar aos 100 anos ou aos 90 ou aos 80, com a maior saúde possível, a maior autonomia possível e para isso ir prevenindo estes eventos inflamatórios ao longo da vida é importante. E assim se passa com a Covid-19. Se nós pudermos ir evitando, ótimo. Por outro lado, no imediato também, se não tivermos a doença, vamos conseguir estar a trabalhar em pleno, contribuir pra sociedade em pleno. Evitamos complicações da doença, que numa pessoa saudável podem não ser assim tão importantes, mas a pessoa pode ter azar e acabar por ter uma forma mais grave de doença, ainda que não faça parte daqueles grupos de risco. Ou nem saber que faz parte de um grupo de risco, porque ainda não teve o diagnóstico. E ser apanhado no meio do caminho. Portanto, eu acho que toda a gente que se quiser vacinar, e o mesmo se passa com a gripe, contra a Covid-19 deveria ter essa possibilidade e, por exemplo, receber esta nova vacina que está disponível nas farmácias, será uma forma de o conseguir. Por outro lado, há também pessoas que não encaixam aqui na norma da DGS, mas que têm um contacto muito próximo com pessoas vulneráveis. Por exemplo, filhos de pessoas que têm doenças crônicas, pessoas mais velhas. Quem diz filhos, diz os cuidadores, que muitas vezes até vivem com as pessoas a tempo inteiro.Voluntários, enfim, toda a gente que tem contato com as pessoas mais vulneráveis, se tiver a oportunidade de se vacinar, vai diminuir o risco de transmitir o vírus à pessoa vulnerável. E, portanto, é uma forma de nós protegermos toda a comunidade e ter uma proteção cruzada. Vacinamos aqueles que até não são vulneráveis para conseguir proteger os que são vulneráveis. Isto é um fenômeno que acontece na vacinação e que é muito interessante. No fundo, conseguimos proteger o próprio, mas depois todo o universo em que ele está, toda a comunidade.
Bem, dra. Sofia Duque, estamos chegando ao final da nossa conversa. Estamos a deixar aqui, no fundo, também um apelo para que as pessoas considerem a questão da vacinação. Ainda assim, queria lhe perguntar: por que o fato de algumas pessoas se vacinarem no outono, os casos de Covid-19 voltam a aumentar depois no verão?
Pois é, e nos últimos anos parece que no verão tem havido sempre um pico de Covid-19. Eu no hospital tenho visto isso, que há, de facto, até internamentos de Covid-19 no verão. E não são assim tão poucos. Torna-se significativo ao ponto de eu conseguir lembrar dos verões dos últimos anos. E por que isso acontece? Eu já expliquei, de certa forma. Quando nós temos a infecção Covid-19 ou quando recebemos a vacina contra a Covid-19, os anticorpos contra a Covid-19 sobem e depois vão diminuindo com o tempo. Então se as pessoas estão a receber a vacina no outono, outubro, novembro, dezembro, e se os anticorpos depois começam a descer, chegamos ali à altura do verão e a proteção já é bastante reduzida.
Estamos muito mais em contato também.
Obviamente, depois estamos numa altura do ano em que os contatos sociais estão no seu auge. Há mais festas, há mais eventos sociais, os santos populares, por exemplo, em que as pessoas se aglomera. As pessoas saem mais de casa, não estão tão confinadas, como aconteceu este inverno em que, com o frio, as pessoas ficaram muito em casa. Se as pessoas estão confinadas, há menos possibilidade de haver transmissão de infecção entre as pessoas. No verão é o contrário. Se as pessoas estão mais próximas, se houver um caso de Covid-19, vai haver aqui muita oportunidade de se transmitir. E é por isso que, em alguns países, as pessoas mais velhas até estão a receber a vacina contra a Covid-19 de seis em seis meses. Acontece assim, por exemplo, na França, precisamente para reforçar o nível de anticorpos numa altura em que os anticorpos já diminuíram muito e em que a pessoa praticamente já não está protegida contra a Covid-19. Já para não esquecer o fato de que, entretanto, naqueles meses que passaram, o vírus foi se transformando e, portanto, a vacina que receberam seis meses antes pode já não ser a mais adequada para o vírus que está em circulação.
A dra. Sofia Duque é médica especialista em geriatria. Muito obrigado por ter estado aqui conosco na Rádio Observador. Acho que a conversa vai ser facilmente compreendida por todos e por todos os grupos de risco que também falamos aqui, e não só, desta questão da vacinação.
Toda a gente.
Muito obrigado.
Obrigada.
"Covid: Linha de Imunidade" é um podcast com apoio da IBRA, em que o objetivo passa por isso mesmo, descomplicar, entender e aumentar a confiança e a cobertura vacinal contra a Covid-19. Eu sou o João Costa e Silva. Até breve.