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Olá e seja muito bem-vindo ao podcast "COVID: Linha de Imunidade", com o apoio da IPRA. Neste programa falamos sobre a importância e o impacto da condição pós-COVID, vulgarmente conhecido como COVID longo. E hoje a conversa é com Filipe Fróis, pneumologista na ULS Santa Maria. Seja muito bem-vindo, Filipe, aqui à conversa. Filipe Fróis, hoje, já com alguma distância, é conhecida a percentagem de população que fica com sequelas após ter tido COVID-19?

Ora bem, nós temos que ver a condição pós-COVID, que em Portugal muitas vezes é denominada longo COVID. E já agora aqui um aspeto curioso: o termo longo COVID é a primeira vez que uma doença adquire o nome de uma rede social. Foi uma arqueóloga do University College of London que no dia 20 de maio de 2020 tinha tido a infeção pela SARS-CoV-2 e como mantinha as queixas, fez uma hashtag no Twitter, na altura, que agora se chama X, e chamou longo COVID. E esse nome foi adotado e nós agora temos a versão portuguesa, quer dizer, condição pós-COVID-19, mas o termo habitual é síndrome da COVID longa ou longo COVID. Nós não temos, infelizmente, em Portugal, uma ideia exata das pessoas que sofrem de COVID longa. Temos alguns dados. Não nos devemos esquecer que estamos a viver um momento particularmente difícil, porque a administração Trump, e grande parte desta investigação vinha dos Estados Unidos, cortou o financiamento de muitos destes estudos. Mas de qualquer maneira, os dados mais recentes apontam que a nível global, nós temos uma doença que afeta cerca de 400 milhões de pessoas. Temos dados da Organização Mundial de Saúde que apontam para que cerca de 6% das pessoas que tiveram a infeção sintomática tenham tido longo COVID. Temos dados da União Europeia que apontam para que cerca de 36 milhões de pessoas na Europa tenham sofrido longo COVID. E isto tudo, se nós extrapolarmos para a população portuguesa, eu diria que nós tivemos cerca de 300 a 350 mil pessoas que sofreram longo COVID. E nas minhas contas, eu diria que habitualmente no ano temos cerca de 30 mil a 50 mil pessoas que se queixam de um conjunto de sinais e sintomas que podem ser atribuídos à COVID longa.

São números bem interessantes para trazer aqui para a conversa e para nos dar também uma imagem desta questão. Quais são os principais sintomas? E pergunto-lhe também, quando falamos desta doença, qualquer órgão pode ser atingido?

Olhe, é uma boa pergunta. Qualquer órgão pode ser atingido na definição da Organização Mundial da Saúde, que já agora, a definição é de outubro de 2021 e é uma definição que se utiliza de uma forma generalizada, embora nem sempre seja uniforme e há conceitos que não estão ainda uniformizados, e isto é uma doença nova, nós estamos a falar de uma doença nova. A Organização Mundial de Saúde estabeleceu, através de uma metodologia própria, que a condição pós-COVID-19, no fundo, reportava-se às pessoas que tinham tido a infeção por SARS-CoV-2, documentada ou suspeita, porque isto engloba para o mundo todo e nem todos os sítios do mundo têm a capacidade de fazer PCR e nós diríamos que em Portugal todas as pessoas têm PCR. E quem tivesse a infeção há pelo menos três meses apresentava um conjunto de sinais e sintomas com pelo menos a duração de dois meses, sem outra causa que pudesse explicar a ocorrência desses sinais e sintomas. E logo neste documento, que foi feito pela metodologia Delphi e que curiosamente não envolveu nenhum especialista português, e isto é importante que se diga, porque significa que nós não estamos provavelmente tão dentro desta atualidade, desta novidade, como outros países estarão. A Organização Mundial da Saúde identificou imediatamente, pelo menos, além de todos os órgãos poderem estar atingidos, mais de 200 sinais e sintomas. Mas de qualquer maneira, nós não vamos falar de 200 sinais e sintomas. Eu diria, com base na minha experiência, eu vi algumas pessoas e ainda tenho algumas pessoas na minha consulta com longo COVID, nós temos praticamente dois grandes grupos de sintomas. Temos numa fase inicial muitas queixas do foro respiratório, com um elemento transversal que é o fadiga e o cansaço, e depois temos falta de ar, tosse, e de acordo com a variante que esteve mais envolvida, nós temos mais ou menos queixas. Na fase inicial, nós tínhamos muitas pessoas que perdiam o olfato, anosmia, por exemplo. E inclusivamente isso podia ter repercussões em algumas pessoas que trabalhavam e que necessitavam do sentido olfato mais apurado. À medida que nós vamos caminhando no tempo, muitos destes sinais e sintomas vão melhorando e há outros que vão aparecendo ou que vão piorando. E, por exemplo, nós referimo-nos à alopecia, à perca do cabelo, e muitas vezes a fadiga, a fadiga é transversal e quase todas as pessoas estão cansadas. E depois temos um conjunto de manifestações cognitivas. E essas manifestações cognitivas são as mais tardias e muitas vezes são as mais difíceis de abordar. E nós aqui temos até o termo inglês, que é o equivalente, a névoa cerebral, o brain fog. Muitas vezes os ingleses descrevem como brain fog, que nós traduzimos para névoa cerebral. O que é que significa? Significa coisas tão simples como, por exemplo, uma pessoa ir à consulta e dizer que tem uma grande incapacidade de manter o estado de memória e de alerta. Por exemplo, eu não consigo ler as legendas de um filme. Eu demoro mais tempo a ler as legendas. Eu não me consigo concentrar e estou a responder a uma pessoa e a meio do discurso perco-me, perco a memória do que vou dizer a seguir. Isto significa muitas vezes que as pessoas têm profundas alterações do ciclo de sono e têm insônias, custa-lhes a dormir, acordam mais cedo. E muitas vezes estas pessoas evoluem até para quadros de ansiedade e depressão. Em formas mais avançadas da doença, nós podemos até encontrar um conjunto já de grande déficit cognitivo, que pode até potenciar o desenvolvimento de quadros de demênciaPotenciação de doença de Alzheimer. E muitas vezes, estas situações têm um componente que nós podemos explicar até por duas maneiras, que é: não nos podemos esquecer que a infecção pode provocar isso, mas a própria ansiedade, a própria depressão e a própria alteração do estado da função cognitiva, também pode resultar de muitas das medidas que foram adotadas e que levaram a uma deterioração da função mental. Por exemplo, as pessoas viveram durante muito tempo em confinamento, deixaram de ter interação social, ficaram muitas vezes preocupadas com o risco ou de transmitirem a doença ou de alguém ser infectado e poder ter complicações graves. E, portanto, estas manifestações de saúde mental são muitas vezes mais tardias e temos que ter em atenção que podem resultar quer da própria infecção, quer da maneira como as pessoas lidaram com a infecção. Mas de qualquer maneira, na fase inicial, mais respiratórias, na fase tardia, queixas mais neurológicas, mantendo sempre como um elemento transversal a fadiga, o cansaço, a falta de forças, a falta de energia, aquilo que vulgarmente em medicina nós chamamos adynamia.

Sintomas que se calhar nem associamos à questão do Covid e podemos achar simplesmente que estamos mais cansados em alguns dias, não é?

Precisamente. O que isso faz? Isso faz com que estas pessoas tenham uma necessidade de alocação de recursos de saúde muito elevada, muitas vezes têm diminuição da sua qualidade de vida, da sua produtividade laboral, muitas vezes até se candidatam a apoios e a ajudas do foro económico, e isso significa que a long Covid tem um impacto social e económico muito grande e não se apercebem sequer que podem resultar numa infecção SARS-CoV-2 prévia a este estado. Portanto, eu até diria, eu dei a definição há bocado do SARS-CoV-2 da Organização Mundial de Saúde, mas eu também tenho outros conceitos. Eu vivi esta situação na primeira pessoa. Eu diria o que é a long Covid? É precisamente a incapacidade da pessoa retomar ao seu estado de saúde prévio à infecção SARS-CoV-2. E essa incapacidade de retomar ao estado prévio, muitas vezes é muito demorada. Por definição, a long Covid tem mais de 12 semanas, três meses, mas nós sabemos que até um ano, menos de 15%, ou vá lá, até 15%, 10, 15% das pessoas vão manter queixas até um ano. E muitas vezes estas queixas são inespecíficas, as pessoas andam a ser seguidas em múltiplas consultas e não associam o desenvolvimento à origem, a etiopatogenia desta queixa, à infecção inicial SARS-CoV-2.

E quando falamos destes sintomas, que elencou aqui há bocadinho, eles afetam toda a população ou só os mais velhos ou as pessoas mais vulneráveis é que estão à mercê destes efeitos?

Embora seja uma doença nova, nós já temos capacidade de responder a essa sua pergunta.

E conseguir distinguir, não é?

Nós sabemos que todos estamos em risco de evoluir pra long Covid, uns estarão em risco maior do que outros. No fundo, é esta a resposta. E o que isso significa? Significa que com a idade, as pessoas têm maior probabilidade de evoluir para long Covid. E isto é fácil de comentar, porque a idade média das pessoas com infecção SARS-CoV-2 é inferior à idade média das pessoas que apresentam queixas de long Covid. De maneira geral, nós sabemos que são quatro, cinco anos mais velhas as pessoas que têm long Covid. Sabemos também, provavelmente por motivos hormonais, as mulheres têm duas vezes mais queixas de long Covid que os homens. Também não quer dizer que os homens, se calhar, não desvalorizem ou nem vão ao médico. Nas grandes revisões internacionais, nós sabemos: os mais velhos, as mulheres têm mais queixas e depois o que nós encontramos? Encontramos as pessoas que têm mais sintomas, as pessoas que têm mais de cinco sintomas têm maior risco de evoluir pra long Covid. Cerca de 30% a 80% das pessoas com formas graves, nomeadamente as pessoas que tiveram necessidade de internamentos prolongados ou internamentos em cuidados intensivos, têm queixas posteriores mais arrastadas. Mas nós também sabemos, por exemplo, que há casos de long Covid em crianças, em formas de doença mais ligeira, e mesmo nas pessoas com queixas pauci sintomáticas, aquilo que muitas vezes as pessoas chamavam nos assintomáticos, no Covid assintomático. Muitas vezes não era assintomático, tinha um conjunto de queixas que eles não sabiam distinguir do normal. O nariz mais tapado, uma dor de cabeça, que é habitual. E essas pessoas também podem ter. De qualquer maneira, resumindo: idade, gênero e gravidade estão associadas a maior desenvolvimento de long Covid.

Uma grande curiosidade que há em relação a este tema, e algo que nós perguntamos sempre que há uma complicação de saúde, é se existe cura. Neste caso, existe tratamento para o long Covid?

Olhe, é outra boa pergunta, e esse é um problema que faz com que em Portugal nós devêssemos ter centros de referência, porque primeiro nós não temos capacidade de estudar estes doentes. E quando nós não estudamos, primeiro, não estamos englobados em redes multicêntricas e está-se à procura de efetivamente mecanismos de cura e de pelo menos alívio de sintomas nestes doentes. Neste momento, o que eu lhe posso dizer é que há muitas teorias subjacentes ao long Covid. Algumas têm a ver com a persistência do vírus ou de algum antígeno, nomeadamente a proteína spike, em algumas zonas do corpo humano que funcionam como santuários, e nós temos alguns santuários a nível da calote cerebral e do sistema nervoso central. Outros têm a ver com uma desregulação inflamatória que inicia processos de autoimunidade, em que o próprio corpo, as próprias defesas do corpo atacam componentes do corpo. Outro tem a ver com uma alteração da composição dos micro-organismos no tubo digestivo, aquilo que se chama habitualmente de disbiose, que pode condicionar um aparecimento de sinais e sintomas. Outras vezes, pensa-se que pode estar relacionada com a ativação da parede dos vasos vasculares, é a chamada ativação do endotélio, que pode justificar as causas. Outras pessoas pensam que pode estar associado a uma ativação neurológica disfuncional do tronco cerebral e de um dos grandes nervos que a gente tem, senão o maior, que é o nervo vago, que é o décimo, que nós estudamos muito até na minha especialidade. E isso faz com que o tratamento, provavelmente, não é igual pra todos e que nós, neste momento, nem temos um substrato anatomo-patológico da doença. Está-se a fazer biópsias à procura de um substrato, e eu posso falar nisso mais à frente, o que eles têm encontrado. Nós não temos biomarcadores que nos permitam identificar os doentes que têm esta doença e qual seria o mecanismo mais envolvido, e não temos terapêutica específica. O que nós temos?

São esses os grandes desafios, no fundo, para conseguirmos também encontrar explicações para tudo isto que estamos aqui a falar, não é?

Mas isto foram os desafios que nós tivemos com todas as outras doenças. Esta é que é nova. Nós antigamente também não tínhamos cura para as doenças e a gente começou a estudar. Portanto, nós precisamos de estudar. De qualquer maneira, o que é que se faz habitualmente? Habitualmente, na abordagem da long Covid, faz tratamento do sintomaFaz-se muita informação ao doente de maneira a ele fazer a autogestão da doença. Muitos destes doentes precisam de reabilitação e a reabilitação é fundamental. E no caso mais tardio, em que há muitas vezes manifestações de ansiedade e depressão, trata-se a ansiedade e depressão. Portanto, esta é uma base comum. E depois há imensos estudos a decorrer que demonstram que alguns fármacos poderão ter mais eficácia, mas nenhum deles teve eficácia em todos os casos. O que é que isto ressalva? A importância da prevenção, como é lógico, porque se a gente não tiver a doença e estivermos prevenidos, não evoluímos para longo COVID.

E já lá vamos falar também da prevenção. Aqui outra curiosidade, Filipe Fróis, durante quanto tempo é que podemos ter sintomas de longo COVID? Haverá pessoas que podem ter durante mais tempo, não é?

Nós ainda não podemos responder com todo o rigor a essa pergunta, mas podemos dizer que depois da infecção há pessoas que passado quatro, cinco meses resolveram a situação. Nós sabemos que até 15% das pessoas vão manter queixas um ano e provavelmente algum grupo mais restrito poderá manter durante alguns anos. Neste grupo de pessoas que mantêm as queixas mais algum tempo e mais tempo, geralmente para que situações é que elas evoluem? Para situações muito parecidas com quadros que ocorrem depois de infecções por outros micro-organismos, que é o chamado encefalomielite miálgica e síndrome de fadiga crônica. E é aqui nestas duas entidades, que cada vez mais se associam ao longo COVID, é que tem havido alguma investigação e tem documentado através de biópsias musculares, uma diminuição, sobretudo da massa muscular, do volume muscular, mas sobretudo da capacidade do músculo utilizar o oxigênio. E nas células musculares, o oxigênio é muito utilizado pelas mitocôndrias. Então o que é que se encontra? Diminuição do volume e da densidade de mitocôndrias. Isso é uma característica que se tem encontrado. E estas pessoas muitas vezes fazem estas biópsias. Nós não conseguimos encontrar biomarcadores, mas eu penso que já há alguns grupos de estudos, nomeadamente em Harvard, e indiscutivelmente isto é fundamental, são os grandes centros que vão dar os grandes avanços na medicina, que têm os chamados biobancos com centenas de milhares de colheitas e que vão tentar encontrar biomarcadores. E muitos destes doentes fazem aquilo que eles chamam os exercícios cardiopulmonares, uns deles mais invasivos, menos invasivos, e que vão documentar e objetivar, quer a dispneia ou cansaço e adinamia, mas também perturbações nas trocas gasosas.

Muito bem. Há bocadinho falávamos aqui na questão da prevenção. A vacinação pode ter um impacto significativo na frequência e também na gravidade dos casos e sintomas de longo COVID?

Neste momento, a nossa melhor arma para combater o longo COVID é precisamente a vacinação. Por um motivo simples: a vacinação, apesar de não ser 100% eficaz, em muitos casos previne a doença e, portanto, se a pessoa não tem a infecção inicial, não evolui para as complicações da doença. E nós já temos dados de séries internacionais. Estes dados são sobretudo relativos mais ao período da pandemia. Nós não temos muitos dados pós-pandemia, mas nós temos inclusivamente dados suecos. Podemos dizer que quem tem três tomadas, o risco de evoluir para longo COVID reduz-se em 80, 85%. Quem tem quatro tomadas de vacina, a probabilidade de evoluir para longo COVID reduz-se em 90, 95%. E recentemente, temos um estudo muito engraçado, publicado, salvo erro, em janeiro de 2025. É um estudo talvez de maior dimensão publicado este ano, que é o estudo Venus, que envolve cerca de 85 mil pessoas do Japão, é um estudo de origem japonesa, em que eles identificaram um fator muito curioso: a vacina protege e protege sobretudo se for administrada nos cinco meses anteriores ao desenvolvimento do risco do longo COVID.

Muito bem. Dados importantes que também nos obrigam a um outro olhar e a um outro esclarecimento sobre esta questão. Filipe Fróis, muito obrigado por ter estado aqui conosco. O Filipe Fróis é pneumologista na ULS Santa Maria e este é o "COVID: Linha de Imunidade", um podcast com apoio da Hipera, em que o objetivo passa por descomplicar, entender e aumentar a confiança e a cobertura vacinal contra a COVID-19. Ouça este e outros episódios nas plataformas digitais e no site do Observador.