A época em que podem acontecer ondas de calor alargou-se quase nove dias por década (8,71), entre 1979 e 2023 em todo o mundo — o que significa mais 38,3 dias nestes 44 anos. Em Portugal, de 1979 até 2023, este calor extremo teve uma antecipação de cerca de sete dias por década (7,1). E a primeira onda de calor acontece um mês mais cedo: cerca de 31 dias. Estes são os dados do último estudo da Nature Climate Change, “Earlier and faster heatwave onset on land under a warming climate” (“Início mais precoce e mais rápido das ondas de calor em terra num clima em aquecimento”).

Extraídos os dados para Portugal da análise mundial, há ainda mais conclusões. Que não surpreendem. Mostram que a época do ano em que podem ocorrer ondas de calor é cada vez maior. Os números só o vêm confirmar: a ‘janela’ entre o início da primeira onda de calor e o fim da última subiu cerca de seis dias por década (6,1), cerca de 27 dias de 1979 a 2023. Mas do estudo da Nature não é possível extrair dados para o nosso país sobre um prolongamento das ondas de calor, apenas sobre a sua antecipação.

A nível global, os números parecem uma brutalidade: há quase mais nove dias por década durante os quais podem ocorrer ondas de calor. Em média, a primeira onda de calor está a começar 3,29 dias mais cedo por década e a última a durar mais 5,41 dias (e aqui Portugal sai da norma). Mais uma vez é preciso fazer contas. E o resultado final mostra que a época das ondas de calor em todo o mundo aumentou cerca de 8,71 dias por década, os tais 39 dias entre 1979 e 2023. Há uma antecipação de aproximadamente duas semanas e um prolongamento de 24 dias. Não consecutivos, claro está.

Há uma outra conclusão importante: em 92,1% do território estudado (34,4% do planeta) o período entre a primeira e a última onda de calor aumentou, com as regiões mais secas a terem os resultados mais pronunciados. E é nessas regiões que está incluído o sul da Península Ibérica. Dividindo o antes e o depois, em 72% das zonas terrestres analisadas há tendência para ondas de calor mais precoces e em 79,6% para um fim mais tardio (13,4% têm um início mais cedo, 20,3% têm um fim mais tardio e 34,4% têm uma época maior). O aumento das ondas de calor desenvolve-se muito depressa nas regiões mais secas, mostra ainda o estudo publicado a 23 de setembro na Nature Climate Change.

Para Portugal, as conclusões deste estudo são em tudo semelhantes às do IPMA. Numa análise publicada em julho, o Instituto de Meteorologia Português escreve que desde a década de 1990 há mais ondas de calor, que acontecem cada vez mais fora do verão, apontando para a primavera, mas também para o outono e até inverno. E aponta exemplos recentes. Em 2024 houve ondas de calor no inverno e quatro na primavera; em 2025 houve uma na primavera e duas no outono; e até ao início de julho deste ano tinham existido seis, em fevereiro, março, abril, maio e junho (em agosto não houve nenhuma e sobre setembro não há dados).

Parece não haver qualquer dúvida: há mais ondas de calor no nosso país e deixaram de acontecer apenas no verão. Estes números da Nature colocam-lhes números: 31 dias mais cedo e durante mais 27 dias. É verdade que o IPMA e o estudo não usaram os mesmos modelos de medição. Para o Instituto do Mar e da Atmosfera, uma “onda de calor acontece quando existem pelo menos seis dias consecutivos em que a máxima diária excede em 5ºC o valor médio das máximas para o período de referência, atualmente 1991–2020”. O estudo da Nature Climate Change tinha critérios próprios, um tempo de estudo definido e uma metodologia homogénea global.

O estudo global encontra as duas pontas do verão a prolongarem-se. A primeira onda de calor antecipou-se 3,29 dias por década e a última durou mais 5,41 dias, alargando a época em 8,71 dias. Nos dados extraídos para Portugal, há diferenças em relação à antecipação da primeira onda, que é mais do dobro da média global — cerca de 7,1 dias contra a média de 3,29 dias. Mas na ponta final da época, não há dados que mostrem que as ondas de calor se prolongam também pelo outono e inverno. É perante estas alterações que os investigadores dizem: “Estes resultados mostram a necessidade de incorporar o calendário das ondas de calor nos sistemas de alerta precoce.”

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]