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Seja bem-vindo ao "Dia Perfeito", um podcast sobre uma combinação de sonhos e realidade. Já pensou o que não pode faltar no seu dia perfeito? Será enterrar os pés na areia da praia pela primeira vez depois de um longo inverno? Será beber um chá quente num dia frio? Cada um desenha o dia perfeito à sua medida. Eu sou a Ana do Carmo e hoje a minha convidada perfeita é a atriz Leonor Seixas.
Sou a Leonor, uma mulher muito feliz, sempre fui muito feliz. Agora a partir dos 40 definitivamente sinto-me ainda mais feliz, porque tenho mais ferramentas e mais defesas para os desafios que aparecem. Sou atriz, que é sempre uma coisa que me custa dizer um pouco, mas acho que agora já é mais fácil. Durante muitos anos foi-me difícil dizer "sou atriz", não sei por quê, mas era. E a coisa mais importante da minha vida, sou mãe da Júlia, a minha bebezinha de um ano e meio. E é isto, sou uma mulher do mundo. Nasci em Portugal, mas sinto que sou uma mulher do mundo.
Nós hoje vamos tentar conhecer como seria o teu dia perfeito. A minha primeira pergunta é: os dias 24 de março são dias perfeitos?
É tão querido. 24 de março, pra quem não sabe, foi o dia em que a minha bebê nasceu. Foi definitivamente o dia mais feliz da minha vida. Mas durante o primeiro ano eu tinha aqueles tapetes de bebê de fazer mês a mês. Então eu celebrava todos os dias 24, não de março, mas obviamente os outros dias 24, até o dia 24 de março que fez um ano. E esses dias 24 eram realmente muito especiais, eu ficava sempre toda contente, a produção, como é que eu ia vestir a bebê e tirar a fotografia. E é muito giro agora olhar pra trás e ver essa fotografia mensal. É incrível como é que já passaram dois anos, e sim, 24 de março vai ficar sempre um dos dias mais felizes da minha vida. Mas eu volto a dizer, minha bebê definitivamente é a coisa mais importante que eu já fiz e a coisa mais importante da minha vida, mas eu sempre fui uma pessoa muito feliz.
Quando eu estava a preparar-me pra nossa conversa, em grande parte dos artigos que eu li em que tu eras entrevistada ou que havia algum depoimento sobre ti, essa era a tônica: "Eu sou muito feliz".
A sério? Ai, que bom! Eu acho que é muito importante nós dizermos isto, mesmo até quando não estamos em dias perfeitos e em dias felizes. É importante nós verbalizarmos isso, não pra nos mentir a nós próprios, mas pra tentar perceber o lado bom da vida, o lado bom desse dia, o lado bom desse momento. E atenção que com isto eu não quero dizer que não tenha dias maus e que não tenha fases más. Eu já tive muitos desafios na minha vida, continuo a tê-los. Já tive situações muito difíceis, mas eu acho que se nós vermos a situação, a vida ou os dias com uma perspectiva de gratidão e de felicidade, é definitivamente um bocadinho mais fácil surfar essa onda. E portanto eu tento realmente comunicar isso, passar isso pras outras pessoas, mostrar que nós podemos ser felizes, que nós podemos estar bem. Acho que também é uma função minha passar essa boa energia e passar essa boa onda, porque o sou, porque sempre fui e porque quero continuar a ser também. Acho que é importante, e acho que é um pouco um círculo. Acho que felicidade gera felicidade. Quando uma pessoa também entra aqui com má onda e com má vibe, que também tá tudo certo. Eu pelo menos fico um bocado assim também às vezes. A energia é uma coisa que definitivamente flui e passa. Eu vejo mesmo a vida com muita magia. Eu não tomo nada por garantido. Eu acho mesmo mágico o sol brilhar todos os dias. E acho mesmo que é tudo incrível, porque é como eu vejo, eu fui educada assim e é como realmente eu vejo as coisas.
Eu vou interromper agora aqui a nossa conversa, mas já voltamos ao tema da felicidade e também da tua Júlia, para te perguntar que música é que tu ouves quando estás a sentir esta alegria, esta felicidade, que acaba por ser uma nota tua.
Quando falámos pra entrevista, tu me pediste músicas e tudo mais. Era aí que eu também estava te a dizer que podia ser um pouco desafiante. A maneira como eu cresci, que pra mim foi a minha maneira como eu cresci, mas definitivamente não foi muito parecida com as minhas amiguinhas e com os meus amiguinhos, e talvez com a minha geração ou com algumas das pessoas que estavam à minha volta. Ou seja, eu cresci no meio de música clássica. Nada me foi impingido, mas eu tenho uma mãe pianista, um pai cantor lírico e eu cresci no meio das óperas. Eu cresci no São Carlos, na Gulbenkian. Portanto, tudo que pra mim é significativo e tudo que eu gosto de ouvir tem muito a ver com Stravinsky, com Verdi, é muito mais a minha praia, é realmente o que eu gosto. Volto a dizer, não me foi impingido, mas eu cresci com isso e gosto. A música clássica mexe muito comigo. O meu passado também, eu fui bailarina durante muitos anos, fiz o conservatório. Toda a música que nós ouvimos é música clássica, portanto essa música é a minha música.
Ok, muito bem. Feito este contexto, Leonor, qual é a música que para ti serve como uma luva nos teus momentos de felicidade?
Talvez Romeu e Julieta, de Prokofiev.
Estamos a conhecer o dia perfeito da atriz Leonor Seixas, que é mesmo uma apreciadora dos clássicos.
Stravinsky, Tchaikovsky, Prokofiev, estes russos todos mexem muito comigo. Eu cresci muito com esta influência russa e queria muito, agora difícil, mas adorava ir a Moscovo, a São Petersburgo. E também o bailado é muito forte lá, que eu adorava ver bailados lá. É uma viagem que eu sempre quis muito fazer. Espero na vida poder fazer, vamos ver como é que as coisas correm.
Espera, isso vai-nos levar a outra pergunta, que é: uma viagem que tu farias que fazia parte deste dia perfeito?
Olha, isso é muito difícil responder, porque eu sou uma amante de viagens, eu estava sempre a viajar. Um dia perfeito é a viajar. Agora, claro que há sítios que eu gostava muito. Não te posso responder só um, posso responder vários?
Claro.
Pronto. Então, assim numa perspetiva mais de relax e de beleza, eu tenho muita vontade de ir às Maldivas. Naqueles hotéis que nós vemos no Instagram, nas revistas. Eu quero concretizar isso mesmo, pessoalmente, sentir o pé na areia, aquele mar, aquela luz, aquela água.
Aquele azul que nunca mais acaba.
Aquela fruta. Enfim, quero imenso. Até acho que é um sítio ótimo para se ir em família com miúdos, porque é tão pacífico.
Tão descontraído.
Dá para a pessoa estar e a Júlia estar a brincar ali ao fundo. Este ano específico, estou com muita ansiedade boa de ir a Nova Iorque outra vez, que vou muito e que vivi lá muitos anos. Quero muito ir a Copenhaga, porque a minha melhor amiga Ritinha mora lá. Acho que é uma cidade linda, é um país também que eu gostava muito de conhecer, a Dinamarca, por toda a facilidade de vida que eles têm.
A qualidade de vida.
Qualidade de vida, acho que é essa a palavra certa. A parte toda que eles também têm de filosofia de vida, que eu acho muito engraçado, que tem também uma opera house muito conhecida, gostava muito de ir lá a um bailado e a uma ópera.
Diz-me uma coisa, quando pensas em visitar cidades, tu pensas logo: "Tenho que ir a este espetáculo"?
Penso logo nos espetáculos e nas coisas. Por exemplo, Maldivas não tanto. Lá está.
Mas terá outras intenções.
Se calhar. Mas penso muito sempre, por exemplo, Nova Iorque, além de eu querer muito andar em Nova Iorque, visitar os meus amigos e só sentir a energia da cidade, quero muito ir ao teatro. Iria ao teatro todas as tardes ou todas as noites, ou até uma tarde e uma noite, como já fiz várias vezes. Mas sim, eu gosto muito de ver espetáculos e de ver cultura. E museus também, eu vou logo pensar qual é o museu. Mas não tem que ser só isso.
Mas espera, esse teu interesse pelo teatro é uma questão profissional? Tu vais para ver os teus colegas trabalharem, perceber como eles trabalham? Ou é do ponto de vista do utilizador, digamos assim?
Eu acho que é um pouco dos dois. Eu gosto muito de ver teatro por ver teatro, não é por fazer. Eu gosto de ver teatro. E Nova Iorque tem teatro muito bom. Estou a falar de teatro, não estou a falar de musicais, que eu não sou grande fã. Gosto, mas não adoro. Eu gosto mesmo de teatro. E nem penso em ir ver os colegas ou ver como é que as coisas se fazem. Houve uma vez, agora há pouco tempo, fui a Londres ver uma peça, porque tenho interesse em fazer essa peça em Portugal. Portanto, aí se calhar, fui com o olho um bocadinho mais clínico. Será interessante? Será que isto em Portugal poderia ser desafiante? Há umas pessoas com quem eu gostava de trabalhar e podermo-nos unir e fazer esse projeto.
Que não vais dizer qual é, pois não?
Não te vou dizer qual é. Depois quando pararmos de gravar eu digo. Não digo nenhum. É só uma vontade que eu tenho, acho que pode ser interessante, mas isto está completamente ainda em vontades e em ideias. Mas é assim que se começa, não é?
Exatamente. É aquele bichinho da curiosidade. " Será que...?"
Exatamente.
Inevitavelmente acabas por perceber como é que os teus colegas trabalham.
Sim, as pessoas perguntam muito: "Tu vês de uma maneira diferente, vês o filme de outra maneira." E é possível, realmente, porque estou no meio e sei como é que os filmes se fazem, sei como é que as peças se fazem, sei como é que as novelas se fazem. Mas eu também tento muito olhar não como atriz só. Até porque eu acho que se eu estiver a olhar com esse olho clínico, é porque alguma coisa ali se calhar não está certa e que me leva a olhar e a perceber como é que aquilo foi feito. Quando eu entro, é porque aquilo está tão bem feito que a pessoa entra e já nem percebe e nem está a pensar em mais nada. Eu acho que estás só a pensar na história e ouvir a história e ver como é que a história está a ser contada.
Quando o teu olho clínico é ativado é quando achas que se calhar aquilo não pega.
É porque saio um bocadinho. Se calhar saí um bocadinho e estou a ver com outra maneira. É isso.
Estamos a falar de teatro. Isto é uma pergunta se calhar um bocadinho difícil de responderes, mas teatro ou cinema?
É tão difícil.
É, não é? Pois calculo.
Muitas pessoas perguntam isso. Teatro, cinema, televisão. É que são formatos tão diferentes, tanto de ver como público, como de fazer. É mesmo muito diferente. Ok, é tudo representação, é tudo contar histórias, mas é diferente.
Mas tem práticas diferentes, com certeza.
Muito diferente. É mesmo muito diferente. Todo o processo de ensaios, o processo de trabalho é, de facto, muito diferente. E eu tenho muita necessidade de fazer tudo Lá está, porque é diferente. O meu trabalho já só por si é um trabalho sem rotina, é sempre em sítios diferentes, é sempre com pessoas diferentes, são sempre dias diferentes. Sempre. E mesmo uma peça de teatro que se repete todas as noites é sempre diferente. E esse processo também tem a sua originalidade, tem a sua particularidade. Mas essa é uma das magias do teatro. É esse processo que é tão interessante, nós trabalharmos tantos meses para estarmos duas, três horas em palco e depois de termos essas duas, três horas em palco todas as noites e ser tão incrível fazer isso todas as noites. Coisa que na novela, por exemplo, ou no filme, não se faz.
Ou seja, um dia perfeito pra ti é um dia em que sobes ao palco.
Também. Mas se não subir, também estou a ter um dia perfeito. Por exemplo, agora não faço teatro já há um ano, um ano e meio, e os meus dias têm sido perfeitos.
Porque tu és uma pessoa extremamente positiva.
Exacto, estás tramada comigo. Qual é o dia perfeito? São todos.
Isso é maravilhoso.
Sim, sou muito positiva e isso é uma coisa que eu trabalhei muito para chegar aqui, que foi tentar não viver muito nem no passado, nem no futuro. Porque o passado já foi. O futuro cria muita ansiedade, nós pensarmos como é que vai ser, pode criar muita ansiedade. Portanto, realmente eu tento mesmo divertir-me no percurso dos meus objetivos, no percurso do meu dia e tentar realmente estar no aqui e no agora.
Ok, então vamos fazer deste aqui agora, um dia em que tu estás aqui e um agora em que tu estás em palco.
Sim.
Qual é a música que tu te apetece ouvir?
Em palco?
Em palco.
É uma coisa...
Uma música perfeita, porque é um dia perfeito, é uma situação perfeita. Estás a fazer uma coisa que gostas muito, que é o teu teatro.
"Boléro", Ravel.
Hoje estamos a conhecer o dia perfeito da Leonor Seixas. Já sabemos que é muito difícil para ti, ou vá, impossível, escolher entre teatro e cinema.
Sim, é difícil.
Agora quero falar um bocadinho sobre ti enquanto atriz de cinema. Um dia perfeito é um dia em que fazes parte de uma equipa que está a rodar um filme pra cinema, certo?
Sim, eu adoro. Eu adoro representar, realmente é uma paixão muito profunda. E agradeço todos os dias, sinto-me uma privilegiada por poder trabalhar a fazer o que amo. E poder ganhar dinheiro a fazer o que amo, realmente é extraordinário. Ter uma profissão assim é realmente um privilégio. Para já é saber o que quer, porque há muita gente que não sabe o que quer fazer e está tudo certo com isso. Ainda por cima hoje em dia com o sistema de educação onde nos obrigam a decidir e é assim um pouco louco. E depois quero dizer, acho que a vida nem sempre nos proporciona a possibilidade de podermos fazer o que queremos, por várias razões. Acho que a sorte também é muito importante. Eu não sei bem o que é a sorte, é uma coisa que eu por acaso...
Ainda não descobriste o que é?
Ainda não. Tenho imensa curiosidade sobre o que realmente é a sorte. Porque que, por exemplo, eu quis ser atriz e consegui? E tenho conseguido? Que até posso não conseguir amanhã, mas tenho conseguido fazer isto.
Se calhar são momentos de sorte também.
Momentos de sorte.
Talento, ok, mas...
Não. Eu acho que talento não tem nada a ver. Acho mesmo.
Achas mesmo que é sorte primeiro?
Infelizmente, acho que não. Enquanto se calhar pra entrar num hospital, tu precisas tirar um curso e precisas de aprender. Mas não é qualquer pessoa que entra e faz uma operação ao coração, não é?
Claro.
Infelizmente, qualquer pessoa hoje em dia já entra e faz qualquer coisa, se calhar no teatro ou no cinema ou na televisão.
Mas lá está, mas se calhar esse primeiro momento é sorte, mas depois a partir daí tens que ter algum talento, tens que dar cartas daquilo que consegues fazer.
Eu acho que os talentos hoje em dia também já estão um bocadinho divididos, porque podes ter talento no Instagram e isso pode-te ajudar se calhar a representar e a estar num sítio. Enfim, eu acho que esta indústria está um bocadinho complexa. E depois também tem outra coisa, isso do talento é muito interessante, porque na arte, o que é bom ou mau, e o que é bonito ou feio, é muito relativo.
Leonor, parece-me que este tema promete. Vamos ter aqui muito para conversar e para descobrir sobre o teu dia perfeito, mas agora temos mesmo que fazer uma pausa, mas voltamos já, já seques. Estamos sentados na plateia do dia perfeito da atriz Leonor Seixas. Há pouco, Leonor, estávamos a falar sobre uma das magias da arte que é o conceito de bom, de mau, de bonito, de feio. Enfim, é um conceito muito relativo.
Ou seja, eu vou contigo a um museu e vemos as duas o mesmo quadro, e tu podes gostar e eu posso não gostar. Pode mexer contigo e pode não mexer comigo. O mesmo se aplica a uma atriz, a uma peça de teatro, a um filme. E é essa a beleza da arte também. Portanto, é tudo muito relativo. E há pessoas que se calhar para umas têm talento, outras não tanto. Se calhar há pessoas que são profissionais, outras não tanto. Ok, tu fazes um curso para conseguir estar no hospital, para conseguires operar, mas depois claro que há uns que são melhores que outros e tenho a certeza que lá também há os seus desafios e as suas injustiças e as suas loucuras. Portanto, todas as profissões têm os seus desafios. Falando especificamente na minha, acho que tem muito esse fator hoje em dia, que não é só o fazer um curso de teatro. Eu acho que um ator tem que ter um curso de teatro, tem que ter uma cultura geral de teatro. Mas isto sou eu. Eu acho que tem que ter.
O que não significa que tenha, não é?
Exato. Entristece-me um bocadinho, às vezes, a banalização que se faz à minha profissão. Entristece-me também agora estarmos numa fase, e isto não tem só a ver particularmente comigo, mas estamos numa fase onde definitivamente há muita gente nova, que eu acho que vai muito também para os circuitos de beleza que se vive nos dias de hoje, que eu também acho que é uma coisa muito esquisita e muito estranha e que não tem nada a ver comigo.
O que queres dizer com circuitos de beleza?
Porque, por exemplo, ainda hoje vi um filme, uma comédia romântica, onde os protagonistas são praticamente dois miúdos. Onde antigamente, eu lembro quando eu comecei, os protagonistas eram trintões, quarentões. Hoje em dia são malta que tem 15, 18 anos. E acho que tem que haver espaço para isso também, atenção, mas se calhar não com a dimensão que está hoje em dia. Ou seja, acho que há muita gente muito nova que está a começar a trabalhar, que eu pessoalmente acho que podem ainda, se calhar, ter espaço para fazer outras coisas, crescer, estudar, quiçá.
Aprenderem.
Viajar, fazer outras coisas. E depois, sim, começar a trabalhar e ganhar dinheiro com isso. E depois acho que tens muita gente muito nova a fazer papéis mais velhos, é assim um pouco esquisito.
E depois onde é que ficam os mais velhos no meio disto?
Por exemplo, exatamente o que acabou de acontecer nos Oscars. Tens duas mulheres onde supostamente iam ganhar e quem ganhou foi uma mulher que faz de prostituta de 25 anos. Portanto, a indústria está um bocadinho estranha nesse aspecto. Acho que depois aí também ajuda a não haver espaço para, lá está, tirar os tais cursos de teatro que se calhar poderiam tirar, porque já não é preciso, porque são precisas pessoas mais novas. As pessoas mais velhas, sim, vão começar a ser maltratadas e postas de parte. E depois também há outra questão, que é: eu acho que estamos a entrar muito numa altura onde as pessoas mais velhas não querem ser mais velhas. E isso é uma coisa que me assusta muito, que eu não entro nessa energia de todo. Não quer dizer que não venha a fazer plásticas, não quer dizer que não venha a fazer coisas. E atenção, não sou contra, cada um faz o que quer com a cara, com o corpo e com a vida. Isto, cada um faz o que quer.
Claro.
Não julgo, não critico. Estou a dizer o que eu quero para a minha vida e para a minha energia. Mas que me faz um bocadinho de confusão uma mulher de 50 querer ter uma cara de 20? Faz. E isso acho que a sociedade está a influenciar e a trazer muito para cima da mesa. E nós, que até somos pessoas seguras e mulheres seguras, começamos a pensar: "Epa, se está toda a gente a fazer isto e se a sociedade já não aceita isto, se calhar eu também quero fazer, se calhar eu também preciso fazer, se calhar eu também tenho que fazer". E isto começa a mexer com a cabeça de uma maneira que pode vir a ser muito prejudicial. Portanto, eu acho que tu estares num sítio onde estás completamente segura e onde tens rugas e onde tens a cara que tens que ter, já se calhar não é aceite e é estranho. E isso para mim é absolutamente alucinante. Acho é que nós depois sem nos apercebermos começamos a ser influenciados a não querer ser o que somos verdadeiramente. E eu quero aproveitar ser uma mulher maravilhosa aos 40, aos 50, aos 60, até onde for. Se conseguir ter a sorte de poder viver mais tempo. Não sei até quando é que é a minha vida, mas sei que quero viver a minha vida como ela é todos os dias e sem aceitar quem eu sou verdadeiramente. Eu quero aceitar as minhas rugas e acho é um privilégio ter rugas. Que maravilha, eu consegui ter chegado aos 40, há quem não chegue. Não é? Portanto, é incrível. Agora, eu acho que eu era muito mais gira aos 20. Eu tinha um corpo muito mais incrível. Adorava que o meu corpo funcionasse como funcionava aos 15 e aos 20. Atenção. Portanto, quem não quer, mas lá está, não pode. Já está, já foi, já foi vivido. Não é que eu não pensara: "Ai, quem me dera quando eu..." Ok, pode-me passar isso pela cabeça, mas pronto, já está, já foi. Agora é isto, portanto agora eu vou tirar o melhor que eu tenho disto. É muito bom conseguirmos aceitar atrizes de 40, 50, 60, que as há, mas há cada vez menos. E atenção que eu não estou a dizer nada disto com algum medo de eu estar a chegar a esse sítio e de poder não vir a ter. Não, não tenho medo nenhum. O que vier está ótimo, está tudo certo. Faz-me um bocadinho de impressão. Acho que no fundo é uma maneira de se maltratar as mulheres, é uma maneira de se maltratar a indústria.
Neste dia perfeito, fala-me de uma música que tu consideres que faz rigorosamente o oposto: trata bem as mulheres.
Uma música que enalteça a mulher. Eu continuo sempre com estas imagens de uma mulher a dançar, eu a dançar, portanto vamos para a Dua Lipa, "Dance the Night Away".
Acho fantástico.
Vamos.
A escolha da Leonor Seixas para uma música que faz bem às mulheres, que enaltece as mulheres, este "Dance the Night", de uma mulher poderosa, a Dua Lipa. Leonor, temos estado a falar desta nova geração de atrizes e atores muito novos que está aí nas novelas, na televisão, no cinema. Mas agora vamos chamar a Leonor de 15, 16 anos. Qual era a música perfeita pra essa Leonor?
Apesar de eu adorar música clássica e crescer nisso, blá-blá-blá, eu também ouvia outro gênero. Eu gostava muito de Cat Stevens, qualquer música do Cat Stevens, mas se eu tiver que escolher uma pra te dar agora, eu adorava uma boy band e ainda adoro.
Bom, pera, isso é mais teenage.
Vamos falar sobre isso. Exatamente, é mais teenage. Vamos lá. Os Take That. Eu adorava. Adorava o "Patience", adorava vários, mas se tiver que escolher uma...
"Have a little patience"
Que eu não tinha nada quando era mais nova, agora já. A maturidade só traz coisas boas.
Os Take That no "Dia Perfeito" da atriz Leonor Seixas. Neste dia perfeito, Leonor, se tu tivesses o poder mágico de termos mais filmes de comédia romântica em português, tu punhas esse poder a funcionar?
Completamente. Aliás, eu fiz uma comédia romântica que na altura falou-se muito e foi muito conhecida.
Fizeste? "Sei Lá".
Tão linda! Tão linda, "you did your work".
Deixa-me só explicar que a comédia romântica que tu fizeste foi precisamente o "Sei Lá", em 2014, se não me engano.
Exatamente. Foi maravilhoso. Baseado no livro da Margarida. Eu acho que comédias românticas, e cada vez mais, eu pelo menos, quero ver coisas light. Eu adoro ver coisas de crime e coisas dramáticas. Mas eu acho que é tão bom chegar ao fim do dia e poder ver uma coisinha leve, romântica.
E não tem mal nenhum nisso, pois não?
Não, pelo contrário. Uma coisa muito engraçada: sabes que, às vezes, quando penso no que pode ser bom ou não pra Júlia, vou tentar deixá-la sempre ser quem é, mas mostrar-lhe caminhos bonitos e tentar mostrar como a vida pode ser boa, mas deixando-a
Seguir as tuas escolhas.
Fazendo as suas escolhas, não deixando de ser quem é. Mas uma coisa que eu acho muito estranha é, por exemplo, muitos filmes da Disney, que eu acho que são profundamente dramáticos, que não são, de todo, histórias para crianças. Pais a morrerem, animais a serem gozados, animais deficientes. Eu acho o "Dumbo" das coisas mais dramáticas que eu já vi. O "Vale do Paraíso" nem tem palavras.
O "Rei Leão"?
O "Rei Leão". Alô!
O Bambi. Socorro!
Eu acho que uma pessoa para ver essas coisas deve ter um bocadinho mais de defesas, um bocadinho mais de ferramentas. Atenção, não é esconder uma criança para as realidades da vida, que tem que as ter. Mas vamos romantizar um bocadinho. Eu acho que é melhor viver a vida assim. Isto para dizer que eu acho que é muito importante haver também todas essas coisas light e todas essas coisas bonitas. Eu adoro comédias românticas. Adoro. E acho que é super bonito e tem que se fazer mais em Portugal. Tem que se fazer mais. De tudo. Thrillers também, eu acho que um bom thriller.
Vamos voltar atrás àquela altura em que tu estavas a gravar essa comédia romântica, o "Sei Lá", da Margarida Rebelo Pinto.
Sim.
Qual foi um dia que consideres perfeito e que te lembres dele e que o tragas até hoje?
Por acaso, esse filme foi muito bom de fazer, foi muito gostoso. O Joaquim Leitão filma muito de noite, ele gosta muito de filmar de noite, de maneira que nós andamos sempre ali. Não era dia, acho que eram mais noites perfeitas, porque filmávamos muito de noite. Já foi o segundo ou terceiro filme que eu fiz com ele. E ele gosta muito de trabalhar mais durante a noite. Mas nós demos-nos todos muito bem, tanto as raparigas como os meninos também que vieram, o Cerdeira, o Grangé, e a equipa era ótima. E foi todo um percurso muito feliz. Eu estava nos Estados Unidos e estava numa altura onde estava a trabalhar muito pouco. Portanto, o ter vindo fez com que os meus dias fossem muito perfeitos, onde eu concretizava a minha arte todos os dias. Portanto, eu estava muito grata durante o processo todo do filme. Não me lembro de um dia específico, lembro-me daqueles dois meses.
Não te lembras de uma situação específica?
Não, por acaso não. O dia perfeito foi este processo. Um filme é uma coisa muito intensa de se fazer, porque normalmente são quatro semanas, seis semanas, oito, onde se grava 20 horas por dia. É um processo em que tu entras naquela bolha e depois sais. Isto neste caso, ainda por cima onde eu era a protagonista, onde eu trabalhava todos os dias. Portanto, eu lembro-me muito do "Sei Lá" ser quase como se fosse um dia. A pessoa entrou, viveu aquele dia e depois saiu, porque realmente é mesmo muito intenso. Uma novela também é intensa, mas é quase um ano, são quase 12 meses, portanto aí sim, posso dizer talvez de dias, porque passa-se muita coisa durante se calhar um ano. Mas num filme é muito intenso. É mesmo um mês, um mês e meio, dois, onde a pessoa está ali enfiada e não vives mesmo mais do que aquilo. Os meus amigos já sabem, quando eu entro num filme, vemo-nos dois meses depois. Não dá! É impensável.
Este filme valeu-te a nomeação para melhor atriz em alguns prémios.
Pois foi, os Globos e tudo.
Os Globos, o Prêmio Sofia.
É verdade, pois foi. Várias nomeações.
Esses dias em que tu soubeste que estavas nomeada foram dias perfeitos, Leonor?
Sabes que acho que sim. Acho que isto dos prémios, volto a dizer, é muito relativo, porque há tantos filmes e tantos atores que não são nomeados e que mereciam. Eu fiz um filme, olha, por acaso também do Joaquim Leitão, chamado "Até Amanhã, Camaradas", que também se tornou em série de quatro episódios. Para mim é uma das melhores produções que Portugal alguma vez fez e ninguém conhece, ninguém fala, não foi nomeado, não ganhou prémios. Teve umas nomeações, mas muito pouco. E, no entanto, para mim é das melhores produções que se fez. Portanto, às vezes nós recebemos nomeações e há tantas outras coisas que deviam ser nomeadas e que não são. Mas sim, não posso mentir, é tão giro ir a esses eventos e é sempre bom estarmos com os nossos colegas.
Exatamente. Num ambiente que não seja de trabalho.
E sentir amor dos nossos colegas, e sentir que os nossos colegas nos ofereceram esse prémio, que viram a performance, que gostaram e, portanto, sim, é sempre muito bom.
Lembra-te do dia em que soubeste que estavas nomeada para esses prémios. Qual era a música que faria sentido, a música perfeita, que era a banda sonora para aquela emoção, Leonor?
Muse, "Second System".
Esta é uma das escolhas da atriz Leonor Seixas para tocar no seu dia perfeito. Vamos agora fazer uma pausa, mas voltamos já a seguir para falarmos de padel. Volte também. Estamos a conhecer o dia perfeito da atriz Leonor Seixas.
Obrigada por teres falado de comédias românticas. Não se fala muito em Portugal. Desculpe interromper, mas é que não se fala mesmo. Portanto, obrigada por teres falado disso, porque é muito importante.
Sabes que eu não só li o livro, como também vi o filme e adorei. Foi super divertido.
Que bom! Além de que em Portugal nós temos tanta história, não só história de coisas históricas, mas nós temos realmente muitos autores incríveis, seja de comédias românticas. Portanto, é muito interessante começar a pegar mais no que é nosso e mais coisas portuguesas e fazer. Pronto, desculpe, foi só uma parte que eu acho que é importante partilhar.
Recadado. Leonor, neste dia perfeito, no teu dia perfeito, há um campo de padel marcado?
Acho que sim.
Tens que explicar a quem está a ouvir porque eu te estou a fazer esta pergunta.
Sim, eu amo padel, amo jogar padel e é só isso. O pai da minha filha é um grande atleta, para mim é o melhor jogador de padel, mas pronto, há quem tenha outras opiniões, não interessa. E de facto, ele já conquistou vários prêmios de número um, etc. É muito interessante esta coisa da vida dos atletas, porque comparando um bocadinho, às vezes, com a vida artística, eles têm, de facto, que treinar diariamente e depois quando vão jogar ou ganham ou perdem. E tu tens mesmo que treinar para poder jogar bem e para poder ganhar. Claro, depois também deve haver as suas injustiças, as suas coisas lá pelo meio, mas eu às vezes penso imenso nisso e comparo imenso por ter vivido com o Miguel e crescer com o Miguel. Às vezes há essa conversa de como é tão diferente o desporto da arte.
Mas tu gostas de jogar padel?
Se complementam também, porque tudo se complementa. Eu amo jogar padel.
Consegues ter tempo para jogar padel?
Olha, não tenho tido muito e agora voltei. Estou todas as quartas à tarde a jogar, tenho o meu grupinho, jogamos, somos vários e vamos rodando e fazemos duas horas e é tão bom. É realmente um desporto que eu adoro, além de que eu sou completamente doida por ténis. Independentemente do pai da minha filha, eu sempre fui uma grande fã de ténis e o padel é muito derivado disso também e desportos de raquetes eu gosto muito. Tu jogas?
Não, não jogo padel.
Então vais ver que vais ter um dia perfeito um dia.
Quando jogar padel.
Quando jogar padel. É muito bom.
Neste teu dia perfeito, o que é que tu fazes depois dos jogos de padel?
Faço alongamentos.
Ok.
Alongamentos, que é muito importante, antes e depois. E o que o padel muitas vezes oferece é, como são quatro jogadores, há muita parte social envolvida.
É isso, eu quero saber o after padel.
Estás doida para ir jogar padel. Eu acho que isso é uma coisa que o padel oferece, que eu acho que é muito interessante e muito gira. Pode não parecer, mas não sou uma pessoa muito social e portanto muitas vezes eu vou-me embora. Não bebo cerveja, que é uma coisa que o padel oferece muito. Portanto, também me vou embora. Não, mas muitas vezes, obviamente, fico, acabas por criar ligações muito giras. Eu tenho um grupo de amigas de padel e amigos. Por acaso amanhã vamos todos almoçar e depois jogar.
Almoçar e depois jogar? A sério?
Sim.
Vais almoçar o quê? Uma saladinha light.
Por acaso sim, é tudo coisinhas lights, depois conversamos um bocadinho e depois vamos jogar com calma. Não vamos todos poder estar depois, portanto combinamos todos estar antes. Mas o padel oferece essa parte social que eu acho que é muito gira. Às vezes é bom, a pessoa fica, às vezes a pessoa vai-se embora e está tudo certo.
Quando acabas de jogar padel, qual é a música que te apetece ouvir?
Não estou a conseguir depois, pode ser durante?
Pode.
O "Boom" do Tiësto, que é uma coisa que eu ponho muito. Vou te dizer porque é que fui tão específica e tão rápida. Porque eu acho que o desporto e o padel é uma coisa assim pede uma coisa mais . Eu sinto muito mais com as raquetes . Portanto, acho que é muito mais essa onda.
Estamos a conhecer o dia perfeito da Leonor Seixas, atriz que surgiu num meio familiar de arte, sim, mas não de atores. Já falámos aqui dos teus pais. Tu derivaste ali um bocadinho na questão da arte.
É verdade. Andei pelos palcos, mas andei ali um bocado baralhada. Mas continua a ser palco, portanto continua a ser uma forma parecida.
O teu pai é cantor lírico.
Sim.
A tua mãe é pianista.
Exatamente. E eu acabei por me derivar muito para o ballet e foi sempre uma coisa que eu amei e que ainda amo. Tenho imensas saudades de não dançar. Adorava ter as capacidades que já tive. E depois do ballet, organicamente a coisa fluiu para o teatro. Não me perguntes como, porque acho que não foi um dia que eu acordei e disse: "Agora quero fazer isto". Uma coisa que fluiu naturalmente.
Portanto, a arte está em ti.
Pois, pelos vistos realmente está.
Em todo lado.
Pelos vistos está. Sim, bastante. Mas nunca ninguém me obrigou a nada, nem me puxaram para. Foram realmente coisas que eu fui querendo experimentar e tive essa abertura e essa oportunidade e depois fui vivendo e vivi muito o ballet e agora muita representação. Ainda cá estou. Se calhar amanhã pode me apetecer fazer outra coisa qualquer.
E porque não?
Porque não?
Olha, um dia perfeito teu incluiria voltar ao palco do São Carlos, onde tu cresceste?
Sem dúvida nenhuma. Eu adorava. Aliás, quem me dera que houvesse papéis falados em óperas, que na verdade eu fiz um papel falado numa ópera há uns anos. Olha, esses foram vários dias perfeitos, porque foi mesmo um privilégio voltar ao palco onde eu tinha feito figuração quando era pequenina, bailadosinhos e coisinhas. Sem dúvida nenhuma, o São Carlos é um palco que mexe muito comigo, que foi onde eu cresci. O Gulbenkian também, mas o São Carlos, principalmente.
Os teus pais trabalhavam lá?
Sim, a minha mãe estava muito mais do que o meu pai. Os meus pais viajaram os dois muito. A minha mãe viajava muito e eu viajava muito com ela. Mas sim, foi o sítio onde eu cresci, onde conheço aquilo como a palma da minha mão, todo o backstage. Portanto, são sítios que são muito queridos. É que fazem mesmo parte de quem eu sou.
Para ti é importante levar a tua filha Júlia a conhecer esses sítios?
Olha, não tinha pensado nisso ainda, mas sim, tenho que a levar um dia ao São Carlos. Ela ainda é muito bebezinha. Aliás, ela já foi. Foi em backstage, tanto ao Gulbenkian como ao São Carlos. Mas com certeza irá. Eu vou lhe proporcionar esses concertos e essas oportunidades e depois ela seguirá, se gosta, gosta, se não gosta, não gosta. Terá a sua própria voz para decidir o que quer mesmo fazer.
Um dia perfeito, evidentemente, que tem que ser passado na companhia da tua filha Júlia.
Sempre com a Júlia. Todos os dias são perfeitos com ela. É uma bebé tão querida. Tenho muita sorte, lá está, que não sei o que é. Calhou-me mesmo uma bebé muito fácil, dorme bem à noite, é uma bebé querida. Tive uma gravidez absolutamente perfeita, um parto incrível, lindo. E todos os dias com ela têm sido incríveis. Já me fartei de viajar com ela. Já fomos para Los Angeles, Grand Canyon, Las Vegas, Londres, Itália. Já fui para todo lado com ela, é sempre uma porreira, ótima companhia. E tem sido muito bom. Às vezes com alguns desafios aqui e ali, mas tudo coisas ótimas. Esta coisa também de ser mãe depois dos 40, acho que dá muita tranquilidade e muita paz, porque é como se já fosse a minha quinta filha. Sou uma pessoa muito pouco estressada, muito pouco nervosa e portanto eu acho que isso depois também passa muito para ela.
Mas isso não tem a ver com a idade, tem a ver com a tua própria personalidade.
Ai, não, eu acho que eu já fui muito estressada, muito ansiosa. Sim. Eu sempre fui uma pessoa tranquila e feliz, mas eu era muito estressada e muito ansiosa, sim, durante a minha adolescência e durante os últimos 20. Uma pessoa muito mais barulhenta. Sem dúvida nenhuma. Eu comecei a me tornar uma pessoa muito mais interior, muito mais caseira, que sempre fui um bocadinho, mas agora mais ainda. Está muito mais enaltecido. E portanto, eu acho que a tranquilidade onde eu estou hoje em dia e a felicidade onde eu estou, eu acho que também passa muito para ela. Também acho que a gravidez é uma coisa que ajuda muito se estivermos tranquilos e bem. E acho que pelo menos reflete-se um bocadinho nela, é uma miúda muito tranquila, mas também traquinas, desafiadora.
Como qualquer criança.
E ainda bem, está a descobrir, está a tentar perceber as coisas. Mas eu acho que lhe passo muito essa estabilidade, essa felicidade, essa leveza. Portanto, eu acho que ela para já também tem sido assim, acho que também deve-se muito ao que lhe proporciono, claro.
Estamos a falar do dia perfeito, mas agora o que eu quero saber é qual é o momento perfeito do dia com a tua filha? Se tens aquele momento mais especial.
Tenho. Olha, ela tem duas ou três atividades que eu gosto muito de fazer com ela. Ela gosta muito de ir à natação. Então sempre que eu estou a vê-la dentro d'água, eu fico muito derretida. Eu nem sei. É uma magia, é uma coisa que não dá para explicar. Realmente olhar para um filho é uma coisa muito única. É muito estranho, porque realmente um ser humano cresce dentro de nós e que é um bocadinho de nós. Eu nem tenho palavras para explicar, é tão incrível. As aulas de música também, ela já tem aulas de música para bebés, também é muito giro de fazer com ela. Mas olha, sinceramente, apesar do dia todo ser incrível, é também muito cansativo. O final do dia, que foi uma coisa que eu apesar de crer que temos que estar aptos para os desafios do dia, mas há uma coisa que eu tento não mudar e que tento que seja uma rotina séria, que é a noite. Que é começar a acalmar, pôr só velas em casa, pôr as luzes para baixo, começar a fazer o jantar com calma, ela perceber que vai ter uma refeição muito deliciosa e muito gostosa. Depois o banhinho, que ela adora a água, a parte do banho.
Relaxante.
Depois a parte relaxante, o arrumarmos a casa juntas, finalizar o dia e depois o ir para a cama, dar de mamar, que eu gosto muito, e o dormir. Essa parte do dia é mesmo muito perfeita. Tanto que quando começa a chegar essa parte, eu começo a sentir uma coisa de leveza e de felicidade, que é tipo: "Já está a chegar aquela hora onde nós vamos agora fazer o nosso jantar, arrumar as coisas, tomar o banho, ir para a cama, mamar, dormir, descansar."
Começas a sentir ninho.
Ninho, completamente. Depois ela dorme, eu fico a observá-la um bocadinho, claro, fico ali toda derretida. Depois também é o momento onde eu vou ao telemóvel, onde também descanso, onde vejo um filme. E já estou na cama também. Já fico na cama, deito-me cedíssimo e adoro. Eu gosto muito de me deitar cedo, acordar cedo e acho que é importantíssimo, com filhos ou sem filhos, ter uma noite bem dormida. E portanto, nesta fase onde eu acho que também quero muito ser mãe e estar com ela, essa altura é mesmo tão gostosa.
Então olha, eu vou te pedir para-
Vais pedir uma música para a Sofia?
Vou.
O gritinho. Não.
Se tu quiseres.
Achas que é possível pôr uma coisa? É assim, há várias músicas que eu podia pensar.
Qual é o desafio, Leonor?
Tenho um desafio para ti. Os bebês usam muito uma coisa que eu nem sequer sabia que existia, que são sons da natureza, onde às vezes os adultos também ouvem para adormecer. E eu às vezes ponho ondas do mar, passarinhos ou grilos. Portanto, se quiseres podemos pôr um destes sons.
Ou seja, uns relax sounds.
Vai toda a gente-se levar de rádio quando começarem a ouvir isto.
As pessoas começam a ficar sonolentas. Olha, já não ouvem o resto da nossa conversa, Leonor.
Depois de nós já ninguém nos ouve.
A culpa é tua.
Why not?
Está a ouvir o programa "Dia Perfeito". Este episódio tem a assinatura da Leonor Seixas e é mais ou menos este ambiente que se vive na casa da Leonor ao pôr do sol. Este ambiente tranquilo, calmo, sereno. Agora fazemos uma pausa nestas descobertas relaxantes e voltamos depois de um breve intervalo para conhecermos a Lúcia. Quem será a Lúcia? Já vamos falar sobre isso. Seja bem-vindo ao "Dia Perfeito" da Leonor Seixas. Se só agora entrou nesta viagem, então fique a saber que já jogámos padel, já acendemos velas ao final do dia. Agora vamos conhecer a Lúcia.
Da última novela?
Sim.
Juro, mas já fiz outras coisas a seguir.
Mas aí a culpa é minha, porque eu é que não acompanhei. Mas eu adoro a Lúcia.
Não acompanhaste essa que é o que... Fico tão contente.
Eu cheguei a mandar-te mensagens que eu ria-me tanto a ver a Lúcia.
Mandaste, sim. Então, a nossa grande escritora argumentista Helena Amaral, que para mim é das melhores que escreve em Portugal, fez esta grande novela das que nós chamávamos "As Quatro Irmãs".
Exatamente.
Mas nós chamávamos "A Novela das Quatro Irmãs" e foi tão boa de fazer. Para já trabalhei com a Rita, que é minha amiga há muitos anos e que se tornou nesta estrela mega star, mas que independentemente de ser isso, é também uma menina incrível e acima de tudo, nós temos a mesma idade, temos ali muitas coisas em comum. E ela tem uma coisa que é incrível, que é altamente profissional. E então as nossas cenas, estou a dizer isto porque a Lúcia, 90% das cenas era com a Rita, nós entrávamos e tínhamos dias perfeitos.
Boa.
Porque somos as duas, chegamos a horas, sabemos o nosso texto, fazemos as coisas, desafiamo-nos uma à outra.
Quando tu estás a falar da Rita?
Rita Pereira.
Rita Pereira, exatamente, só para fazermos o contexto.
Sim. E depois é muito bom teres pessoas assim com quem tu consegues olhar e consegues perceber muito bem o que a outra vai dizer.
Conseguem comunicar mesmo sem falar.
Sim. E então quando havia assim coisas que nós até queríamos desafiar os realizadores ou experimentar coisas diferentes, nós fazíamos. Foi tão bom trabalhar com ela e tão bom fazer isto com ela.
Foram dias perfeitos.
E a Rita depois veio-me a dizer que gostava muito de ter feito a Lúcia. No início até foi uma personagem que ela pensou: "Eu se não fizer a Maria, eu quero fazer a Lúcia."
Mas olha que estás a falar nisso, eu consigo ver a Rita Pereira fazer a Lúcia.
Sim, só que depois claro que ela tinha que fazer uma das irmãs, não é? Mega protagonistas. E foi muito giro, ela adorava a Lúcia também, nós ríamos-nos imenso com certas coisas.
Mas tu fazias uma Lúcia tão divertida.
Deves tudo à Helena Amaral, a sério, porque ela mesmo escreve tão bem.
Mas tu também tens muita graça.
Muito obrigada. É que quando nós temos a coisa mais importante mesmo é o texto.
Que é a tua base.
E quando temos uma base tão bonita e tão forte e tão bem feita, acredita que o meio caminho está andado. Claro que depois também depende muito de quem faz as personagens, dos cenários, das roupas, a parte exterior é fundamental. Faz um personagem, a parte exterior. E há muita coisa envolvida, convém que as cenas sejam bem realizadas. Uma coisa que as pessoas não se apercebem é a edição. A edição é uma coisa que faz um ator ser bom ou mau.
Pois.
A edição mexe muito com a história, muito mesmo. Faz um realizador ser bom ou mau, é que faz tudo. E depois uma coisa muito importante também é a música. Olha um filme de Hitchcock sem música.
Pois.
É outro filme.
Exatamente.
Pronto, voltando à Lúcia
Deu-te gosto fazer a Lúcia?
Eu adorei fazer a Lúcia, nós divertimo-nos mesmo muito, foi muito bom. E se não me engano, acabei a Lúcia estava grávida, já no final.
Mas isso ninguém sabia ainda.
Ninguém sabia. Sabia a Rita, sabia o Pedro Bossi, os meus melhores amigos ali dentro. Penso que mais ninguém sabia. Acho que também estava a fazer uma peça de teatro. Metade da minha Lúcia foi a fazer uma peça no Teatro Aberto e no teatro eu tive que avisar caso acontecesse alguma coisa. Mas foi mesmo só já no finalzinho. Fiz os últimos dois, três meses grávida, penso eu.
Então vamos voltar atrás, ao tempo em que estavas a dar vida à Lúcia.
Sim.
Qual é uma música que tu achas que faz match com a energia da Lúcia?
Tenho que pensar. Então, uma música que me lembra a Lúcia, que eu acho que pode ser gira para ela, há várias. Por que não "365" do Zedd e Katy Perry?
Temos estado a conhecer o dia perfeito da Leonor Seixas. Ela é atriz. Já falámos tanto de cinema, teatro, já falámos de tanta coisa. E eu quero saber como é que estão a ser estes teus dias.
Ultimamente.
Ultimamente. E consegues ter agora os perfeitos?
Estou a ter o meu dia perfeito hoje contigo, super feliz por conhecer a tua rádio, por conhecer o teu espaço, por conversar e trocar ideias contigo, por ter pessoas a ouvir-nos e que eu acho que é sempre tão gira esta forma da rádio comunicar e atingir o coração e a mente das pessoas. Tenho passado dias muito caseiros, que adoro. Eu tenho uma casinha com jardim, sou uma privilegiada, com muito verde e muita beleza, e portanto passo uns dias também muito felizes na minha casinha, mas tenho sido muito dedicada à minha filhota. Tenho passado muito tempo com ela, a fazer as atividades com ela, já a planear aqui imensas viagens, mas a não fazer nenhuma. Tem sido realmente muito caseiro. Eu agora, mesmo por vontade própria, parei um bocadinho. Foi só um mês e meio, porque acabei há muito pouco tempo de gravar uma série no Algarve até há um mês e meio. E agora tenho estado realmente muito tranquila e tem-me sabido tão bem estar um bocadinho parada, sem ter coisas para ler, coisas para decorar e para estudar. Portanto, tem sido muito bom estar assim 100% tranquila. Tenho feito uma coisa muito boa que é: tenho visto muitos amigos, porque realmente quando eu estou a trabalhar há menos tempo e agora com uma bebé, portanto o meu tempo livre é todo para ela. Portanto, tenho estado com muitos almoços e muitos brunch com os meus amigos e com as minhas pessoas. Portanto, últimos dias tem sido muito isso.
Diz-me uma coisa, isso é mesmo uma curiosidade minha. Quando tu decides ter um tempo para ti e que está tudo certo, não tens depois algum receio que demore até voltares a ter convites e trabalho?
Não, nenhum. Não tenho medo nenhum. Eu tenho medo de muito pouca coisa e acho que é fundamental neste meio nós conseguirmos parar um pouco para recarregar energias, para eventualmente estudar, para parar. E acho que é importante em qualquer profissão. A pessoa tem que parar. Uma coisa que eu notei muito agora na pandemia foi que as pessoas não sabem estar sozinhas, não sabem estar em casa, não sabem estar paradas. E eu acho isso altamente assustador. Eu gosto muito de estar comigo e estar tranquila. E com a profissão que tive, como sempre tive esta profissão, eu nunca tive medo de não ter trabalho amanhã, nem de não ter dinheiro amanhã. Eu já estive uma vez 10 meses parada, portanto quase um ano. E ao fim de três meses comecei a ficar nervosa, ao fim de quatro mais nervosa, ao fim de cinco pensei o que é que se está a passar, ao fim de seis comecei a fazer uma coisa que não gosto, que é pedir, comecei a fazer telefonemas. Portanto, passas por fases complicadas. Mas não, mais ainda agora, com a maturidade, que me dá muita leveza e muita estabilidade emocional, não tenho medo de nada. Tenho a certeza que vão vir coisas e por acaso já estão a vir coisas, portanto está tudo certo. E se vierem, ótimo, se não vier, ótimo também. Arranjo de outra maneira, vou ter que fazer outras coisas. Agora com uma filha tenho essa responsabilidade. Mas não, nunca tive medo, porque não tens outra hipótese senão viver esta onda assim, com este fluir Às vezes há, às vezes não há. Às vezes tens, às vezes não tens. Está tudo certo.
Gostas de ler? Faço esta pergunta porquê? Porque como tu lês tanto na tua vida profissional, passas tanto texto.
Sim, é verdade. Eu acho que é o grande desgosto da minha mãe, que eu não leia mais. Eu gosto muito de ler. Eu gosto muito de ler livros de fantasia e gostaria muito de ler agora mais autobiografias. Eu tenho muito fascínio da mente humana. Mas realmente, como eu leio tantos argumentos, tantos episódios, eu acabo por não ter muita paciência pra ler. É um facto. E portanto, gosto muito mais de ver séries, de ver filmes e de estar à frente da televisão. Eu sou muito de imagem, gosto muito. E de ir ao cinema. Tenho ido muito ao cinema, por acaso.
E cozinhar, gostas de cozinhar?
Adoro. Adoro cozinhar. Não gosto de coisas muito complicadas, mas adoro cozinhar, adoro experimentar coisinhas novas, adoro. Gosto imenso.
Olha, eu acho que sobretudo é muito bom perceber que estou a falar com alguém que está a viver dias perfeitos.
É verdade. Quem diz o dia perfeito, mas pra mim todos os dias são perfeitos. Atenção, que é muito importante dizer que uma pessoa que é feliz não é uma pessoa que não tem desgostos e que não tem desafios.
E que não tem os seus problemas, não é? Toda a gente os tem.
Toda a gente os tem. É uma pessoa que consegue ver o lado bom das coisas e consegue aceitar que hoje é um dia mau e que amanhã será melhor. Eu acho que isso é muito importante, porque não quero passar aqui a imagem, não é nada disso, mas que de facto sempre fui feliz, que sou, que quero ser e que trabalho pra isso, é o que eu tento.
Qual é a música, Leonor?
Ai. De quê?
Que tu achas que serve de banda sonora e que é um reflexo, um espelho destes dias perfeitos que estás a viver?
Então, pensando assim de repente, Baianá, os batuques, uma coisa mais batuques, que é pra ser um bocadinho diferente. Ok? Pra ser diferente de tudo o que nós temos proporcionado aqui, que eu acho que já houve um bocadinho de tudo.
Já tivemos. No que diz respeito a música, fizemos aqui muitas viagens.
Pronto, então vamos aqui pra uns batuques. Baianá.
E chegamos assim ao fim do Dia Perfeito da atriz Leonor Seixas.
É tão bom!
Foi uma bela viagem.
Foi.
Um programa com produção da Maria Ribeiro Nunes, sonoplastia do Bernardo Almeida, com o tema interpretado pela cantora Jéssica Pina.
E as curiosidades da Ana.
Temos encontro marcado no próximo Dia Perfeito, que é já pra semana. Até lá, subscreva este podcast, partilhe. Seria perfeito.
Sim.