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Oh, it's such a perfect day. I'm glad I spent it with you. Oh, such a perfect day. You just keep me hanging on. You just keep me hanging on.

Seja bem-vindo ao "Dia Perfeito", um podcast sobre uma combinação de sonhos e realidade. Já pensou o que não pode faltar no seu dia perfeito? Será um passeio à beira-mar? Será deslizar por dentro de uma cama feita de lavabo? Enfim, cada um desenha o dia perfeito à sua medida. Eu sou a Ana do Carmo e hoje o meu convidado perfeito é o escritor Manuel Clemente. Começa agora a viagem pelo "Dia Perfeito".

Meu nome é Manuel Clemente, tenho 35 anos, sou autor de cinco livros de não ficção na área do desenvolvimento pessoal e além disso, também sou analista de human design.

Manuel, vamos hoje descobrir como seria o teu dia perfeito. E o teu dia perfeito começaria onde? Começaria em Lisboa ou em Cabo Verde?

O dia perfeito começaria atualmente em Lisboa, mas já houve muitos a começar em Cabo Verde, tendo em conta a experiência que lá tive. Mas Lisboa é casa, mais especificamente a Amadora, que foi onde eu cresci, onde eu nasci, onde eu vivo atualmente.

E o que te aconteceu em Cabo Verde? Que dias perfeitos foram esses que tu viveste por lá?

Olha, foi uma fase da minha vida muito especial. Eu estive lá a fazer um programa de voluntariado. Estive lá durante cerca de três meses, no Tarrafal, na Ilha de Santiago. Então foi um período muito mágico, por todos os motivos e mais alguns. Foi uma fase de transição da minha vida. Tinha deixado o meu emprego, não estava satisfeito com a vida que tinha cá em Portugal. Então foi uma espécie de um pequeno grito do Ipiranga que me atirou para Cabo Verde, porque estava um pouco cansado e um bocado chateado com a vida cá. Então foi bom para me conhecer melhor e para também me descobrir noutro ambiente, por assim dizer.

E o que fizeste em Cabo Verde?

Olha, eu em Cabo Verde estava a trabalhar numa espécie de um ATL com crianças, o que nós cá chamamos de ATL, a dar apoio aos estudos, matemática, português, atividades, teatro, jogar, um bocadinho de tudo. Basicamente, era um centro para as crianças não estarem na rua, como lá só têm aulas de manhã ou de tarde. Então no período que estão libertos, estavam lá naquela associação, naquele centro. E o nosso trabalho enquanto voluntários era entretê-los, dar atenção, ouvi-los, acima de tudo, mas acima de tudo, dar atenção, porque eram crianças realmente com muita falta de atenção.

Portanto, tu foste fazer voluntariado, foste trabalhar junto de crianças, mas a tua área de formação não tem nada a ver com crianças.

Não, eu sou formado em Gestão e Engenharia Industrial, aqui em Lisboa, pelo ISCTE. E não, não tem nada a ver. Eu próprio não sabia muito bem ao que é que ia, eu só sabia que queria ir fazer qualquer coisa e depois logo se via e acabou por correr bem, mesmo não sendo a minha área de formação.

Então, o teu dia perfeito começaria onde? Uns em Lisboa, outros em Cabo Verde, já percebi.

Olha, atualmente o meu dia perfeito começa em casa. Gosto muito de estar em casa. Também gosto muito de viajar. Já fiz muitas viagens, mas casa é sempre casa e acho que só conseguimos ter um sítio onde nos sintamos bem, porque a maior parte dos dias são lá passados. Então tem que começar com uma noite bem dormida e felizmente tenho dormido bem. Salvo algumas exceções, mas regra geral durmo bem. Acima de tudo acordar sem precisar do despertador, um acordar espontâneo e acordar logo com energia e não ficar ali um bocado, às vezes a molengar na cama. Aquela sensação de acordar logo desperto para levantar e começar a fazer coisas, acordar com vontade, acima de tudo.

Mas agora fiquei a pensar, esse dia perfeito, de facto, acontece?

Acontece, sim, acontece.

Que sorte!

Sim. Eu acordo muito cedo também, e como gosto muito do que vou fazer durante o dia, acordo com vontade para fazer o que tenho para fazer e acaba por não ser um martírio, tenho essa sorte.

E tens alguma disciplina enquanto escritor? O teu dia perfeito enquanto escritor, como é que funciona? Já percebi que acordas por ti.

Sim, tento acordar por mim. A não ser que tenha algum compromisso mais específico, mas por norma acordo por mim. Depois, enquanto autor, é muito por temporadas. Eu sei que há alguns autores que escrevem todos os dias, têm um ritual de escrever todos os dias para ir praticando, como se fosse uma espécie de um ginásio. Eu não sou tanto assim. Eu normalmente tenho dois modos diferentes. Tenho o modo viver, estou só a viver e a absorver e a sentir. E posso ir tirando alguns apontamentos, algumas notas. E depois há o momento de escrita, que aí sim, é que é fechar-me a escrever o dia inteiro, porque eu tento sempre escrever os livros num curto período de tempo, para que estejam sempre com a mesma linguagem. Porque se for um livro que é muito espaçado no tempo, se calhar o capítulo que foi escrito há dois anos já não vai estar tão com a mesma energia que está o último passados dois anos. Então eu tento concentrar tudo para ser quase uma fotografia de quem eu era ou de como é que eu pensava naquele momento.

Era isso que eu te ia perguntar, justamente, porque quando dizes que preferes escrever num curto período de tempo, isso é o quê? Um mês, dois meses, seis meses?

Sim, entre três a seis meses, sim, mas completamente só a escrever noite e dia. Isso é sempre relativo. Porque muitas vezes há aquela ideia: quanto tempo é que demora um livro a ser escrito? Há o ato de bater no teclado ou de mexer a caneta para escrever, mas o livro vai sendo escrito muito antes, na nossa cabeça, na imaginação, em apontamentos. Depois é o trabalho de materializá-lo, ao fim ao cabo. Portanto, isso escrever tem a parte física do ato, mas depois tem a parte toda da imaginação.

Ou seja, tu antes de te sentares ao computador, tu vais tirando notas no telemóvel, num caderninho, como é que isso funciona?

Olha, é muito pouco romântico, é um Excel. Ou seja, eu vou apontando no telemóvel.

Tiras notas no Excel.

Eu aponto no telemóvel, tenho uma conversa comigo no WhatsApp ou mando e-mails para mim próprio, porque aí sei que vou vê-los, e depois transcrevo tudo para um Excel, está tudo mais tópicos, ideias, expressões, palavras, histórias. E depois quando vou escrever, vou um bocado ali ao meu catálogo e vejo o que eu sinto vontade ou o que me chama mais.

Portanto, depois compões o puzzle.

Sim, depois tento compor o puzzle, tento criar uma linha que seja transversal a todos os temas, mas é muito por aí.

Olha, nunca imaginei que um escritor conseguisse passar as suas ideias para um Excel, que depois dão vida a um documento escrito, um documento Word.

É muito pouco original e muito pouco romântico.

Não, eu acho que é super original.

Porque às vezes há de ter aquela ideia, não sei se tens isso do escritor, um bocado aquela que está junto à janela, a chover, à noite, um silêncio, uma vela. Muitas vezes não é assim, muitos escritores que eu conheço. Acaba por ser um ofício. Tem ali uma parte também muito de trabalho, de arregaçar as mangas, de não estarmos sempre inspirados, não nos apetece sempre assim tanto, mas requer, acima de tudo, criar espaço e tempo para o fazer. E depois logo se vê se corre bem, se não corre bem.

Portanto, neste teu dia perfeito, tu escreves.

Sim.

Faz parte de um dia perfeito para ti.

Ou se não escrevo, pelo menos que seja um dia em que consegui recolher algumas coisas. Alguma conversa que ouvi no café, alguma mensagem que me enviaram. Eu estou sempre a tentar, um outdoor, um anúncio. Qualquer palavra, qualquer expressão que eu vejo. "Olha, isto pode dar qualquer coisa". E vou guardando.

Um dia perfeito é aquele que te inspira.

Idealmente, sim, que não são todos, mas sim.

E já percebi que tens aí várias fontes de inspiração.

Sim. Uma vez mais, achamos que a inspiração não é que é um raio que nos acerta. Também há esses momentos, mas são uma minoria. Eu vejo muito mais a inspiração como uma forma de olhar para o mundo. É um bocado o reparar nas coisas. Há muitas coisas que a maior parte das pessoas não repara. Da mesma forma que um stand-up comedian está constantemente com o radar alerta para identificar ângulos, pontos de vista, situações. "Isto é giro, vou aqui amplificar, distorcer para ter piada". Ele está sempre com esse radar ligado, que eu e tu que não somos, passa-nos mais ao lado. E no meu caso, o meu radar é outro, estou mais atento a histórias que podem ser interessantes, pequenos pontos de vista que podem levar a alguma reflexão acima de tudo, e é aí que eu tento encontrar a minha inspiração.

E a preocupações também, que as pessoas possam mostrar?

Sim, preocupações. Temas que são muito transversais a todos nós. Como sabes, nós somos todos muito diferentes, mas ao mesmo tempo, as nossas preocupações, os nossos anseios, somos todos muito iguais. Então tocar nesses pontos é que também ajuda a gerar identificação. Nós gostamos sempre de ler algo com o qual nos identificamos, seja a ler, seja uma série, seja uma música, que nos leve até nós e que faz-nos ter aquela sensação de: "Ah, é isto mesmo".

Quando tu estás numa mesa de café, estás atento ao que se passa à tua volta. Alguma vez tens os fones nos ouvidos ou estás só mesmo a dar atenção ao mundo que te rodeia?

Tenho. Às vezes tenho os fones também para me abstrair, porque às vezes o ruído é tanto que não dá para distinguir nada. Mas se por acaso na mesa ao lado ouvi alguma conversa, aquelas chamadas fofoquices, que às vezes as pessoas estão a comentar entre elas, eu inclino-me assim um bocadinho mais para o lado e vejo o que é que sai dali.

Portanto, tu desligas o áudio. Toda a gente pensa que estás com os fones.

Às vezes estou com os fones, mas não estão.

Mas estás a dar atenção.

Nos transportes públicos, em todo lado.

Imaginemos que estamos numa conversa de café, que estás no café e que estás a dar atenção ao que se passa à tua volta e nomeadamente à conversa daquela senhora que está mesmo ali ao lado. Que música é que tu escolhes para ouvir numa circunstância destas?

Nomeadamente quando estou a escrever, gosto muito de música clássica e eu gosto muito do filme "Interstellar", toda a soundtrack do filme. Por causa desta música, não é tanto música clássica, mas esta música mais cinematográfica, de ficção, do Hans Zimmer, principalmente, leva-me para lugares que eu gosto. Poderia ser o tema, deixa-me dar-te aqui o nome, o "Cornfield Chase" do Hans Zimmer seria uma boa opção.

Manuel Clemente, és o meu convidado deste podcast, "O Dia Perfeito". Estamos aqui a fazer uma viagem pelo teu dia perfeito e nesse dia tu trabalhas ou brincas com as palavras?

Tento brincar, mas ao mesmo tempo levar um bocado a sério, no sentido de trabalho. As palavras sempre me fascinaram muito e foi isso que me levou, mais tarde, atualmente, a escrever. Não sei porquê, não tenho ninguém na minha família relacionado, não tenho ninguém que seja jornalista ou escritor ou do mundo das letras, mas houve ali um clique qualquer a determinado momento, principalmente com a música. Eu sempre fui um ávido consumidor, principalmente de rap português, que são exímios nos jogos de palavras, nas brincadeiras. Então eu ficava sempre muito fascinado com aquilo, como é que conseguiam brincar com as palavras e dar sentidos e contar histórias. Isso fascinou-me, não sei porquê. E houve um dia que eu experimentei fazer eu para mim e gostei da sensação e fui por aí a fora.

Neste teu livro mais recente, o "Sem Ti Não Vais a Lado Nenhum", está mesmo aqui na capa, tu dizes: "Viver em piloto automático é o que nos afasta da rota". Isto é brincar com as palavras ou é dar outro significado à forma como nós pensamos?

É quase desafiar aquilo que está convencionado. Eu tento pegar em expressões que se utilizam muito hoje em dia. As pessoas queixam-se muito que estão no automático, vivem no automático, ou estão no piloto automático. Toda a gente se queixa disso. E por outro lado, quando andamos de avião, gostamos que o avião esteja no piloto automático, para garantir que faz aquela curva. Então é tentar: ok, esta mesma expressão tem aqui dois lados, então como é que podemos desconstruí-la ou brincar de alguma forma? E neste caso foi jogar aqui com o sentido contrário, o duplo sentido, que é nós, no nosso caso, que não somos aviões, viver em piloto automático é precisamente aquilo que nos afasta da rota. E aqui o automático é estarmos desligados, estarmos na famosa roda do hamster, que tanta gente se queixa. Foi essa a minha brincadeira.

E já que estamos a falar em aviões, no teu dia perfeito, tu irias para onde?

Felizmente tenho a sorte, já estive em muitos sítios que gostava de ir. Gostava de voltar ao Japão com mais tempo.

Porque é que o Japão é perfeito?

O Japão, não sei se já lá foste ou não.

Nunca fui.

É um lugar mágico e não é difícil gostar do Japão, porque para mim concilia várias coisas. É muito diferente do nosso país, de Portugal, mas ao mesmo tempo nós quando queremos ir pra um sítio muito diferente, normalmente são sítios que não estão, a nível social, tão evoluídos ou tão organizados. Às vezes são mais caóticos, há mais confusão, mais caos. E o Japão consegue ser um país muito evoluído e ao mesmo tempo muito diferente de nós. E ao mesmo tempo, consegue preencher um conjunto de requisitos pra quem gosta de viajar, que é: boa comida, é tudo organizado, é seguro, as pessoas são simpáticas, tem montanha, tem natureza, tem praia, ou seja, tem tudo que uma pessoa possa desejar. Eu não conheço ninguém que não goste do Japão, de quem já lá foi. É um sítio que não me importava nada de voltar.

Consegues te lembrar de algum dia que tu tenhas pensado: "Bem, que dia incrível este que eu passei aqui". O que tu fizeste nesse dia no Japão?

O primeiro que me veio à cabeça foi em Osaka, perto de Osaka, que ficamos num ryokan. Ryokan é uma espécie de um alojamento tradicional japonês, que dormimos no chão, que servem as refeições no quarto, é uma coisa mais tradicional. Foi uma experiência incrível, porque acordar no chão, numa espécie de colchão que eles têm lá. Depois tínhamos uma senhora que estava alocada só a nós, ao nosso quarto, que ela via se estava tudo bem, levava-nos as refeições. Também deu para falar muito com ela e principalmente marcou-me o fato de, no final, quando fomos embora, que só ficamos lá uma noite, eles levarem-nos à porta e ficarem se a despedir de nós até nós desaparecermos. Aquilo era uma reta comprida e nós já íamos 50 metros e eu olho pra trás, eles ainda estavam lá ao fundo a dizer adeus. E eu assim: "Isto é surreal. Isto parece uma coisa de um filme". São coisas muito simples, mas que ao mesmo tempo dão um aconchego.

E que música é que tu ouvirias nessa hora de despedida?

Nessa hora de despedida, por acaso músicas do Japão não tenho assim nenhuma, não consegui aprofundar, mas nessa hora de despedida podemos continuar na onda da música clássica, aqui o "Arrival of the Birds", da Cinematic Orchestra, que também gosto muito. E aqui não era a chegada dos pássaros, era a partida, sendo nossos pássaros, mas adequava-se.

Nós falamos muito de desistir. Diz-se muito por aí, hoje em dia, que desistir não é uma opção, desistir não é um caminho. Mas pelo que eu li do que tu escreves, pra ti, desistir pode ser uma decisão que tu tomas num dia perfeito, pode ser uma decisão perfeita.

Sem dúvida. Existe muito essa conotação com o verbo desistir, como tu retrataste, e bem. E uma vez mais, foi algo que eu cresci também muito a ouvir na sociedade. Então tudo que eu ouço muitas vezes, muito repetidamente, leva-me sempre a questionar, a fazer o tal: "Ok, isso será que é mesmo assim?" E lá está, crescemos com esta ideia, achar que desistir é uma coisa negativa, desistir é pros fracos, quem desiste é porque não é resiliente. Há toda esta construção à volta do verbo desistir, quando na verdade desistir pode ser ótimo. Desistirmos de uma relação que não nos faz bem. Excelente decisão. Ou desistir de um trabalho que já nos está a consumir, já nos está a provocar algumas doenças. Ótima decisão. Desistir não tem mal nenhum. E muitas vezes desistir até requer mais coragem do que continuar. Muitas vezes vemos o continuar é que é o virtuosismo. Continuar, a tentar, a esforçar e mais e não deitar abaixo. Muitas vezes não, mais vale desistir, porque ao desistirmos, não quer dizer que à primeira adversidade vamos desistir, não é nada disso. Mas que ao desistirmos de algo, estamos a abrir espaço e vai sobrar energia pra outras coisas com as quais não temos que estar nesse duelo e nessa resistência, também muito ao encontro daquela ideia, que certamente também já ouviste, de que a vida tem que custar e tem que ser um martírio e tem que doer e tem que ser tudo muito tirado à fé. E se calhar não tem que ser. A vida já tem por si só demasiadas situações que nos levam a isso. Não vale a pena sermos ainda nós a trazer mais uma camada que nos leva por esses meios.

Tu estás a falar e eu estou a pensar numa verdadeira batalha entre a emoção e a razão. Assumindo que estás a viver o teu dia perfeito, qual era o caminho que tu escolherias? A razão ou a emoção?

Fugindo um bocadinho à pergunta, mas escolho o caminho do meio. Se tiver que ser um, mais o da emoção, não no sentido da impulsividade, mas no sentido do sentir. Do que eu sinto que é melhor pra mim, porque nós vivemos num mundo extremamente racional. Todos somos educados a pensar bem, pensar duas vezes antes de agir, ser ponderado, ver bem. Levamos tudo muito pra cima, pra mente, pra pensar, pra analisar, pra ponderar. E a mente é boa pra muita coisa, isso não está em causa. Só que eu costumo dizer que a mente leva-nos de A a Z, enquanto o sentir leva-nos a todo lado. Portanto, é tentar encontrar este equilíbrio, tentar idealmente o caminho do meio, mas se tiver que escolher um, mais o lado da emoção, do sentir.

Neste dia perfeito, o que te causa uma boa emoção?

Gosto muito quando recebo mensagens de leitores, aquelas mensagens mais compridas, mais longas, a dar feedback em relação ao livro ou a dizer que determinado capítulo ajudou numa determinada situação. E é sempre muito especial, porque é algo que eu escrevo sozinho, em casa, inicialmente pra mim. Saber que alguém que eu não conheço encontrou naquilo que eu escrevi uma resposta para um desafio que está a haver na sua vida, é quase mágico. E é muito gratificante. Claro que não o faço por isso, que eu não sou ninguém pra dar conselhos ou pra dar resposta às pessoas, mas através daquilo que eu partilho, se a pessoa conseguir chegar ali a alguma resposta que desbloqueie uma situação, isso claro que me enche de satisfação.

Portanto, tu lês as mensagens que te enviam?

E respondo a todas, leio todas e respondo a todas, isso é sagrado. Sei que há muitas pessoas que não o fazem. Inclusive, eu já mandei mensagens a pessoas que admiro e que não me responderam e não entendo bem o porquê. E eu tento sempre ver as redes sociais como se fosse na rua. Se uma pessoa parar pra me falar na rua e elogiar o meu trabalho, eu não vou continuar a andar. Eu vou parar, vou ouvir e vou responder. A rede social é uma rua digital. A pessoa parou ali, gastou cinco minutos a escrever, eu também posso gastar cinco minutos a responder e está tudo ok.

Que música dedicarias aos teus leitores, àqueles que amorosamente, porque sim, há aqui uma questão de amor e de carinho, dedicam algum do seu tempo a enviar-te uma mensagem a dizer: "Manuel, aquilo que escreveu foi mesmo na muche".

Teria que escolher aqui uma música do Tupac, que é o "Do For Love", fazer por amor, que acho que se fizermos as coisas por amor, é meio caminho andado para correr bem. E como as pessoas mandam amor, eu retribuo com amor e tentamos criar aqui uma sinergia positiva.

Manuel Clemente, estamos a conhecer o teu dia perfeito. Enquanto escritor, já percebemos que tu gostas de escrever. Que sorte, não é? Podes fazer aquilo que realmente gostas. Mas, na verdade, o que tu preferes? Agora isto é uma provocaçãozinha. Preferes escrever ou preferes falar?

Gosto muito dos dois. Escrever ou falar. Difícil, muito difícil.

No teu dia perfeito, tu escreverias mais ou falarias mais?

No meu dia perfeito. Essa é difícil. No dia perfeito. Se estivesse num momento de escrita de livro, escreveria, obviamente. E se calhar pendo mais para a escrita, obviamente que adoro falar e comunicar, mas a escrita desempenhou um papel muito importante na minha vida, numa fase de transição, quando me despedi, quis ir pra Cabo Verde e estava meio perdido e meio chateado com tudo e com todos. Foi na escrita que eu encontrei um lugar seguro para traduzir por palavras o que eu pensava, o que eu sentia. Isso ajudou-me também a arrumar. Porque muitas vezes aquilo que nós sentimos e aquilo que nós pensamos não sai de dentro de nós. E quando nós falamos ou escrevemos sobre o que estamos a sentir ou a pensar, parece que fica mais leve. Parece que consegues ver ali outro ângulo. E nessa fase, a escrita, e obviamente que não havia livros, não havia nada, era muito terapêutica, era muito para mim, para depois ler: "Ah, ok, afinal as coisas não estão assim tão mal". Era uma forma de me arrumar, ao fim ao cabo.

Ou seja, o momento de escrita és tu contigo e o momento a falar, com quem é que tu falas no teu dia perfeito, tu falarias com quem, com que pessoas?

Com a minha namorada falamos muito, com os meus pais, que são as pessoas também com quem falo mais, e com os amigos, sinceramente, com as pessoas próximas. E claro, se puder ter conversas como estamos a ter hoje, com outros contextos, poder falar de outros temas, que normalmente no dia a dia não temos tempo pra estar a ter estas conversas, também faz parte do meu dia perfeito.

E qual foi a música que tu ouviste e que pensaste: "Eia, gostava tanto ter sido eu a escrever este verso". Já te aconteceu, de certeza.

Mais que uma vez até. Até podemos avançar agora para um rapper português do Porto, que eu gosto muito de rap, que é o Dial, que ele é de lá de cima de Vila Nova de Gaia. Ele tem uma música que é o "Basta Acreditares", que já tem alguns anos, acho que é 2012. E eu gosto muito desta música, porque tem lá um verso que eu gostava de ter escrito e que marcou muito esta minha fase de Cabo Verde, de voltar de Cabo Verde, começar a escrever, que é: "Eu não consigo mudar o mundo, a realidade é dura, mas se eu mudar o meu quintal, eu dou outro ar à minha rua". E gostei muito dessa perspectiva, que é esperançosa e que é isso: vamos focar no nosso quintal. Não no sentido de sermos individualistas, mas vamos cuidar do nosso quintal, sendo que o primeiro quintal somos nós próprios, o nosso interior, os nossos pensamentos, as nossas emoções. E se fizermos isso, certeza que a nossa rua, ou seja, as pessoas que são próximas de nós, já vão beneficiar disso e de alguma forma, se pudermos contagiá-las, melhor ainda.

Há quem nasça no topo de uma colina. Para chegar onde quer, apenas desce. Outros nascem na base. Para chegar em outro lado, só veem descer várias vezes. A vida tem coisas assim, sabes? Acredita. No meu sítio, sonhar é coisa de louco. As coisas bonitas que vês pertencem a outro. Conformismo sobrepõe-se, contentas-te com pouco. Tenho um segredo, escuta, se quiseres eu dou-te. Todos os olhos veem o mesmo, diz-me se não crês. A única coisa que se altera é a forma como as vês. Ensinam-te que os importantes moram no ecrã. Têm pérolas, bons carros, não pensam no amanhã. Minha vida é diferente, aprendi. Quem não tem polegadas a mais, não, não cabe aí. No que vivi, tirei lições e vi. Que a maior parte delas não vinha escrita nos livros que li. Acredita, arregaça as mangas. Onde eu moro, as princesas têm joias feitas de miçangas. Se o céu é o limite, eu relaxo. Lá ser estrela é fácil, difícil é brilhar cá embaixo. Basta acreditares que só há um caminho. Desde o ponto de partida até chegares ao teu destino. E não importa a tua origem, muito menos o que dizem. Destaca-te e alcança aquilo que outros não atingem. Basta acreditares que só há um caminho. Desde o ponto de partida até chegares ao teu destino. E não importa a tua origem, muito menos o que dizem. Destaca-te e alcança aquilo que outros não atingem. Abre as asas e voa, levanta âncora e ruma. Em direção ao que é teu, és tu, o teu compasso é a bruma. A porta que se abre, trancada com a frustração. E a chave para o cadeado é a forma da tua ambição. A vida é injusta, nem todos nascemos em berço de ouro. Mas nem todos os que lá nascem morrem como vencedores. Alguns chamam a atenção, mentem com uma luz. Para não que só escondem e brilham como uma luz que não é sua. Não consigo mudar o mundo, a realidade é dura. Mas se mudar o meu quintal, dou outro ar à minha rua. Talvez se eu não mudasse, fizesse o mesmo à tua. Não fiques de braços cruzados, age à tua. Estares vivo é o teu maior compromisso, só é preciso. Casar as portas da mente para que tu te apercebas disso. Criticam por seres diferente, não desistas, segue em frente. Vencer está ao alcance de todos, só não ganha quem não dá a chance. Basta acreditares que só há um caminho.

Manuel Clemente, estamos a conhecer o teu dia perfeito. Será que dia perfeito foi aquele dia em que te disseram que eras o autor português de não ficção mais lido do país?

Parece que foi um dos dias perfeitos. Receber uma notícia dessas é sempre um motivo de alegria e satisfação. Obviamente que não é isso que eu busco, não é esse o objetivo, desde que seja uma consequência. Se tiver que acontecer, tanto melhor, se não acontecer, também estou em paz com isso. Mas é bom, porque acima de tudo é reconhecimento das pessoas, porque fico feliz por saber que algo que eu comecei há nove anos a escrever, que achava que era para mim ou que a ninguém interessava, muito numa ótica de deixar uma parte daquilo que eu penso, que eu sinto, pode ser que haja por aí alguém espalhado que também se identifique com isto. E ver a proporção que as coisas tomaram, deixa-me muito satisfeito. É bom sinal, porque estou a fazer algo que gosto, sem reservas. Tudo o que eu escrevo, a minha editora não censura nada, não pede para tirar nada, é tudo como eu quero, tudo à vontade. E isso me deixa satisfeito, sei lá o quê. 100% eu e mesmo assim ainda receber esse carinho do público e dos leitores é um motivo de satisfação.

Que outro prêmio, que outro louvor, que outra consideração é que tu gostavas de receber dos teus leitores?

O que eu gostava? Eu acho que já recebi todas as que gostava, sinceramente. Já recebi partilhas tão íntimas. Desde uma mãe que tinha uma filha adolescente e que dizia que não conseguia chegar à filha e que, através dos meus livros, conseguiu passar ideias ou valores ou mensagens que ela não estava a conseguir, mas que através dos meus livros, a filha já lia e já se identificava e ela veio agradecer por isso. Pessoas que estavam com decisões importantes para tomar, como fazer a operação para mudar de sexo e que nesse período o livro ajudou-as a atravessar. Há tantas histórias que eu já ouvi, que eu já recebi. E acho que isso para mim é que é a maior consagração de todas, é este lado humano de chegar às pessoas. Somos todos humanos, somos todos iguais, temos todos os nossos desafios. E haver esta partilha de eu estar a criar, porque acima de tudo os livros resultam de uma necessidade de me expressar e saber que, dando vazão àquilo que eu tenho necessidade de me expressar e de exprimir, isso ainda é útil para alguém, é o chamado dois em um e portanto estou muito satisfeito e muito realizado.

E como se pode perceber, tinhas muito mais para dizer que não se esgotou num livro. Já vamos com cinco, não é?

Sim, e coisas que eu nem sabia que tinha para dizer. E só quando me sentei, parei em frente à folha em branco, é que as coisas depois começam a fluir e a sair e também das vivências que vou tendo. Também vai-me mostrando que nós temos sempre mais para dizer ou para fazer do que aquilo que achamos ou daquilo que pensamos. Muitas vezes nós: "Não tenho mais nada, não vou fazer". Não sabemos. Às vezes devíamos ter também esta postura mais humilde perante a vida. Nós não sabemos. Só depois de tentarmos ou de fazermos é que vamos realmente de: "Ok, afinal tentei e não tinha mais nada para dizer, não saiu nada, é um facto, não há mais nada para dizer". Agora deixa-me experimentar, pode ser que haja, pode ser que não haja, e eu gosto de manter tudo em aberto.

Estás a falar de experimentar e de ser proativo e de ser até corajoso e arrojado. Vou encontrar uma frase que eu li num dos teus livros, que tem a ver com o facto de a felicidade pode estar a um medo de distância.

Sim, porque o medo vai lá estar sempre. E ainda bem que está. Às vezes há esta ideia, não sei se tu concordas, que nós estamos à espera de extinguir os nossos medos para poder fazer qualquer coisa, quando na verdade podemos ir com medo, não tem mal nenhum ir com medo. E vejo muitas pessoas que estão nessa batalha de tentar extinguir os seus medos e eliminá-los um por um para depois, aí sim, poderem começar a viver. Quando na verdade, da minha experiência, nós vamos aprender a lidar com os nossos medos e aprendendo também com eles, à medida que os vamos enfrentando, à medida que vamos lidando com eles. Eu claro que tive muito medo de me despedir do meu trabalho Convencional, seguro, bem pago, para me meter num avião para ir trabalhar com crianças para Cabo Verde. Parecia uma coisa completamente louca e sem sentido. E lembro-me de estar na porta de embarque do aeroporto a pensar: "Será que estou maluco? Será que isto faz sentido? E se eu volto para trás com aquela cara de derrota de afinal não correu bem, tenho que voltar a onde estava". Claro que esses medos estão todos lá, mas é normalizarmos os medos.

Nas tuas músicas preferidas, tens alguma música que desbloqueia o medo, em que tu até podes estar a sentir medo, mas de alguma forma essa música traz-te coragem, traz-te força, traz-te luz e tu vais com essa música?

Uma música que eu gosto muito, vamos continuar aqui nos artistas nacionais, que é do NBC, que se chama "Acorda", que o refrão é mesmo: "Não deixes passar uma vida toda para saber aquilo que te incomoda. Acorda já". Então esta música do NBC, identifico muito e ajuda a desbloquear. É daquelas músicas que motiva.

Acorda já, já. Acorda, acorda já, já. Acorda já, já. Acorda, acorda já, já. Acorda já, já. Acorda, acorda já, já. Acorda já, já. Não deixes passar uma vida toda para teres certezas daquilo que te incomoda. Então acorda já. Então acorda já. Não deixes passar uma vida toda para teres certezas daquilo que te incomoda. Então acorda já. Então acorda já. Mandaram-me pra escola pra escolher uma profissão. Eu não era um mau aluno, mas só queria diversão. Não sabia se algum dia ia ter algum patrão, mas dentro da opção, eu escolhi gestão. Os meus pais diziam: "Tu escolhe um emprego estável, que te pague tudo aquilo que nós dissemos não". Eu fiz parte do padrão, acreditei no cifrão. Foi aí que eu aprendi a ver um homem na prisão. Não deixes passar uma vida toda para teres certezas daquilo que te incomoda. Então acorda já. Então acorda já. Não deixes passar uma vida toda para teres certezas daquilo que te incomoda. Então acorda já. Então acorda já. Eu fiz o sacrifício e desde o início tive que arranjar formas pra alimentar o vício. Como é que eu faço agora? Tantas vezes eu disse. Estava mais perto de acabar a vida no hospício. Mudei a minha vida pelas rimas e batidas, discussões são debatidas pra saber se estou certo. Sei que estou mais perto, mais perto de mim. Sinto-me mais perto, mais longe do fim. Não deixes passar uma vida toda.

Manuel, no teu dia perfeito, tu vais a um concerto, vais a um teatro, vais a um cinema. Que atividade destas é que tu não deixas escapar?

Por acaso eu não sou muito pessoa de ir a espetáculos, na verdade. Nem futebol, gosto muito mais de ver futebol em casa, ouvir música nos fones. Teatro, se for um bom teatro, gosto de ir, porque aí não dá para ter a experiência de outra forma, mas não sou muito de estar em muita gente, no meio de confusões, mesmo centros comerciais. Tudo o que é grandes festivais de verão também muito dificilmente me vão ver lá, porque gosto mais de consumir a música numa vertente mais intimista, com os fones ou com a coluna em casa e não tanto de grandes ajuntamentos. Portanto, o dia perfeito não passaria por aí, em princípio.

Em que circunstâncias é que gostas de ouvir música?

Eu gosto muito de ouvir enquanto faço caminhadas. Aliás, hoje de manhã foi o que eu estive a fazer. Eu gosto muito de caminhar. Vou sempre com os fones, ou a ouvir podcasts ou a ouvir música. Gosto muito de nas caminhadas, claro, se for a dizer na praia, junto ao mar, se for montanha, montanha, se for no jardim, é jardim.

És mais um homem de praia ou um homem de campo?

Mais de praia, talvez. Gosto muito do campo também, da montanha, mas acho que tendo mais para a praia, sim. Gosto de praia, mas não sou aquelas pessoas que têm que ver o mar todos os dias. Não, não sou essa pessoa. Verão passado, fui uma vez à praia, portanto, não é por aí. Mas tudo o que está à volta do mar e todas as interpretações, e sim, escrever na praia ou ao ar livre, numa montanha, mas essencialmente escrevo ou em bibliotecas, gosto muito de ir para bibliotecas, em casa ou nos cafés. Ou seja, em sítios onde haja pessoas. A biblioteca é um local onde há pessoas, mas há silêncio e dá para observar o que aquela pessoa está a estudar, o que está a fazer. Olha, aquele senhor está a ler o jornal, em que página é que ele parou. Portanto, a biblioteca é um ambiente interessante e os cafés, por todo aquele rebuliço, que é bom de absorver e de ouvir conversas, que as mesas normalmente também estão muito próximas, mas depois quando é demais, também os fones e hoje em dia inventaram o cancelamento de ruído, que é uma coisa ótima.

Imagina um amigo teu, mas daqueles mesmo amigos. Ele sabe que tu gostas de...?

Sabe que eu gosto de cozinhar.

Para amigos.

Para amigos e para mim. Também gosto de cozinhar para mim próprio, há aquelas pessoas que só gostam de cozinhar para os amigos, mas também gosto de cozinhar para mim próprio, que é ter aquela gratificação no final de: "Eu que fiz isto, está uma maravilha".

E tu fazes um prato só para ti? Imagina, vais comer sozinho.

Sim, faço.

A sério?

Sim, faço. Tento logo fazer mais para depois guardar, para fazer as marmitas. Mas sim, uma vez mais, cozinhar, fones, também é um momento para estar a ouvir música. Normalmente nunca estou só a cozinhar, estou sempre a ouvir qualquer coisa. E as tarefas domésticas, claro que não têm que obrigatoriamente fazer parte de um dia perfeito, mas gosto muito do que são tarefas domésticas. Não todas, obviamente, porque vejo nas tarefas domésticas quase um momento também de uma meditação ativa. O estender a roupa, o apanhar a roupa, lavar a loiça, o tirar da máquina, o cozinhar, o cortar. Porque entras ali num estado, não sei se te acontece, meio de transe, que estás a mexer as mãos, não estás a pensar, mas ao mesmo tempo estás no modo mecânico, parece que cria ali um espaço e assenta a parte mental que muitas das ideias surgem ou a lavar os dentes ou a tomar banho, e depois já está mais que comprovado. Então gosto muito dessas tarefas porque sei que podem ser propícias a surgir algo.

Que música é que ouvirias Quando estás em casa, que música ouves a arrumar a casa depois de um sábado ou depois de um domingo?

Gosto muito de música cabo-verdiana também pela experiência que tive. Elida Almeida, que é uma artista cabo-verdiana, "Leva-m Ku Bo", leva-me contigo, que também é uma música especial porque descobri enquanto estava em Cabo Verde e normalmente as minhas músicas favoritas consigo sempre relacioná-las com um período da minha vida e por isso é que se tornam especiais, porque levam-me sempre para aqueles sítios. Então Elida Almeida. E música cabo-verdiana em geral, Funanás. Música cabo-verdiana recomendo para as tarefas domésticas.

Manuel Clemente, estamos a tentar conhecer o teu dia perfeito. A pessoa que tu levarias no teu dia perfeito para onde quer que fosse, és tu, porque sem ti não vais a lado nenhum.

Sim, visto dessa forma, sim, tento ser a melhor companhia possível para mim próprio.

Porque este é o título do teu livro mais recente.

Sim, só fazendo o enquadramento, desculpa. Sim, é verdade, esse é o título do último livro, "Sem Ti Não Vais a Lugar Nenhum". Uma vez mais, este título nasceu de uma brincadeira, de uma expressão que todos ouvimos, principalmente na juventude, também ouviste de certeza, que é o se continuas assim não vais a lado nenhum, deixa-te andar que não vais a lado nenhum. E eu sempre me questionei: o que é o lado nenhum? Que sítio é esse a que não vamos chegar se continuarmos assim? Portanto, depois a minha mente leva-me para estes sítios. E então eu tentei reinterpretar o sem nós próprios é que não chegamos a lado nenhum. E aqui o sem nós, sem a nossa companhia, sem estarmos bem, sem estarmos alinhados com os nossos valores, aí é que podemos ir a muitos sítios, mas nunca vamos chegar a lado nenhum. E aqui o lado nenhum no sentido de sentirmos bem ou ser bem-sucedidos ou estarmos bem, aqui o lado nessa ótica. E sim, tento ser a melhor companhia possível para mim, porque se há coisa que temos a certeza é que nós somos a única relação nossa que vai durar para sempre, de certeza absoluta, há umas que vão e vêm, outras terminam, mas nós vamos ter que levar conosco para sempre. Portanto, já que vamos ter que levar conosco para sempre, então que essa relação seja o mais saudável possível. E nós muitas vezes não sei se sentes isso.

E que gostemos da nossa própria companhia.

Que gostemos da nossa própria companhia e acima de tudo, que também sejamos empáticos e tenhamos compaixão por nós. E muitas vezes, não sei se sentes isso, não somos muito delicados a falar conosco. No nosso diálogo interno, estamos sempre: "Epá, a mesma coisa, já voltaste a esquecer." Estamos sempre a dar-nos nas orelhas e achamos que isso não tem mal nenhum, porque é entre nós e nós, e ninguém ouve, mas vai colocando aqui uma carga e uma tensão e um peso.

Mas isso não é bom, nós ralharmos sistematicamente conosco próprios.

Mas somos muito duros. Regra geral, somos muito duros conosco e parece que é algo inofensivo, que é: "Oh, sempre fizeste e parece que não tem impacto nenhum". Mas aquilo repetido tantas vezes vai nos recalcando.

Vai-nos amachucando.

Sim, é essa a minha perspectiva.

Portanto, fica aqui se calhar um alerta: não permitir que nós ralhemos conosco próprios, ou pelo menos não tanto.

Sim, e sempre numa perspectiva de estamos a aprender, estamos a viver pela primeira vez, que saibamos, sem querermos entrar por outros campos. Estamos a viver o dia de hoje, nós os dois, pela primeira vez. Portanto, é tudo novo, constantemente é tudo novo. Então se é tudo novo, nós vamos errando, vamos tropeçando aqui e ali. Não vale a pena sermos tão duros ou tão exigentes. Claro que não no sentido inconsequente, mas sermos mais benevolentes conosco e permitir: "Ok, errei, falhei, não é o fim do mundo, raramente é o fim do mundo". E a tentar aprender qualquer coisa e seguir.

Permitir-te falhar não é, de certa forma, estares a permitir fraquejar?

O que é o permitir falhar? Percebo o que estás a dizer, não no sentido de vou falhar de propósito, mas no sentido de saber que posso falhar. Imagina, eu posso vir para aqui hoje ter uma conversa contigo e posso conjugar mal um verbo, posso dizer um disparate. Falhei. Aconteceu, pronto, não é o fim do mundo, não foi de propósito, passou, ninguém morreu, a vida segue. Vou tentar para a próxima estar mais atento, mas a vida segue. Agora, não é nunca no sentido de se eu me permito falhar, então vou ser vulnerável ou vou estar a fraquejar ou vou estar a abrir espaço à crítica. Não, não considero que o mundo seja assim um lugar tão perigoso ou tão ameaçador, que muitas vezes nos fazem querer acreditar que não há espaço para errar, que não há espaço para falhar e que à mínima falha cai-nos logo tudo em cima. Não é bem assim.

Aliás, errar é importantíssimo, não é?

Sim. Eu costumo dizer que errar É assimilarmos uma lição com a qual não estávamos a contar, portanto, é ainda melhor. Ou seja, naquilo que estávamos à espera de aprender, apareceu algo novo. Espetacular. Claro que na altura temos aquela reação mais brusca: "Não estava à espera, fomos apanhados desprevenidos". Mas a médio e longo prazo pode ser muito bom. Eu tive a oportunidade de viver em Nova Iorque e lá a mentalidade é completamente diferente. Se tiveres errado muitas vezes-

Fui lá trabalhar, desculpe interromper-te.

Acabei por escrever o "Nunca Fiques Onde Já Não Estás" lá, mas fui com a minha namorada, que na altura foi para lá trabalhar e eu, claro, aproveitei a boleia, fui para lá e foi lá que foi escrito 90% do "Nunca Fiques Onde Já Não Estás". E lá eles têm muito essa mentalidade do quanto mais vezes falhares, melhor. "Já faliste quantas empresas? Sete, oito? Ótimo, quer dizer que aprendeste muito". Às vezes exageradamente, mas eles têm muito essa cultura do erro e da falha, e que bom, e continua.

Qual é a música que tu achas que é indicada para alguém que tem medo de errar?

Há uma música que não é das mais conhecidas, mas que eu gosto muito, que é o "Pensa Na Hoje", em crioulo, pensa no hoje, no agora, que é um clássico. Estamos sempre a dizer, estar no presente, estar no aqui e no agora. Mas é isso, se pensarmos no aqui e no agora, no hoje, há pouco espaço para estarmos preocupados: "E se vou falhar, e se não vou conseguir". Se fores só, estamos agora aqui, tudo o que existe neste momento é isto. E depois, logo se vê. E eu tento cada vez mais, como se costuma dizer, um dia de cada vez. Todas estas expressões que são frases feitas, mas que são feitas é por algum motivo, conseguiram superar o tempo e foram sobrevivendo. É por algum motivo. E é não estarmos tão preocupados, porque a nossa mente vai criar cenários muito hipotéticos e 95% deles nunca se vão concretizar. Só que no entretanto, foram-nos consumindo e foram hipotecando o nosso presente. E depois nós pensamos: "Para quê? No final não valeu a pena".

Manuel Clemente, és um autor de não ficção. Tu acabas por ir beber muito à tua vida, à tua experiência. Neste livro mais recente, o "Senti-me Não Vais a Lado Nenhum", fala-me de um momento teu que esteja refletido aí nesse livro.

Os livros, como tu disseste, e bem, Ana, retratam sempre coisas que eu vivi, experiências que eu passei e depois acaba também por não ser cronologicamente, ou seja, há coisas que eu já vivi há mais anos, da minha infância, que só apareceram, por exemplo, agora no último livro. Não segue propriamente uma ordem. E, sei lá, por exemplo, neste último livro tem um capítulo que para mim é muito especial, que se chama Oliver, que é o nome do rapaz que eu conheci em Cabo Verde, que ele também gostava de escrever. Ele na altura deveria ter uns 14 anos. Eu longe de achar que eu iria escrever ou que iria publicar livros. E ele na altura veio mostrar-me coisas que ele tinha escrito e pedir-me uma opinião e para eu corrigir, e dizer-me que o sonho dele era um dia escrever um livro. Então neste último livro, ou seja, só passados cinco livros, é que, consegui não, foi agora o momento, por algum motivo, acabo quase por escrever aqui uma carta a ele. Nunca mais soube nada dele, entretanto já é um homem. Mas pronto, tentar escrever um bocado a ele e a agradecer-lhe para se algum dia isto chegar a ele, ele poder ler. Se se lembrar, se calhar aquilo foi mais importante para mim do que para ele, ele nem se lembra, mas eu prefiro ficar nesta nuvem mágica e meio romântica de prefiro nem saber muito bem se ele se lembra, se não se lembra, mas é sem dúvida que é um capítulo especial.

Esse dia em que o Oliver foi pedir a tua opinião, foi de alguma forma um dia perfeito para ti? Deve ter sido, para ainda hoje te lembrares dele.

Sim, foi perfeito. Também tendo em conta o meu presente atual, consigo fazer aqui o rewind, a retrospectiva e ligar as coisas. E também porque me lembro muito no momento da despedida, quando vinha embora de Cabo Verde, eu estava no Tarrafal, tinha que apanhar o avião à cidade da Praia e estava na carrinha à espera para arrancar, e estavam lá alguns miúdos a despedir-se. E lembro-me de ver lá o Oliver uma vez mais com as suas folhas debaixo do braço, assim umas folhas soltas de caderno, com linhas, mas assim meio rasgadas, amachucadas, e de eu fixar o meu olhar nele e ficar ali com aquela imagem cristalizada. E para mim foi especial e também tentei reviver esse momento e retratá-lo nesse capítulo do livro.

Falámos há muito da tua viagem de voluntariado a Cabo Verde. Tu vês-te a fazer voluntariado no futuro, ou seja, para ti o futuro perfeito inclui voltar a fazer voluntariado? E se sim, onde?

Não sei. Para já, não está nos planos. Como foi uma experiência que eu queria muito ter e foi intensa, marcante, de certa forma sinto que já a vivi.

Essa já está. Check.

Sim, um bocado check, mas entretanto foram surgindo outras prioridades, fui fazendo outras coisas e sinto que há outras formas de eu também poder contribuir. É o que eu digo sempre às pessoas: não temos todos que nos despedir e ir para o outro lado do mundo. Por acaso comigo foi assim, proporcionou-se, mas pode ser no nosso bairro, na esquina da nossa rua, pode ser com uma vizinha ou com um vizinho. Acima de tudo, acho que todos procuramos, de alguma forma, contribuir para o coletivo, para a sociedade, e atualmente eu sinto que o vou fazendo com os livros, com a minha escrita, e isso também acaba por preencher esse meu lado de partilha, de interação com os outros. Mas no futuro, logo se vê. Se voltar a proporcionar, claro que sim.

E qual é o evento que tu gostavas mesmo que acontecesse no futuro? Eu digo evento, mas qual é o teu objetivo que tu gostavas de conquistar no futuro?

Eu sou um bocado desinteressado.

Se isto acontecesse, seria perfeito.

Seria perfeito continuar a escrever, lançar mais um livro. Seria perfeito, seria bom sinal. Era sinal que há alguma coisa para dizer. E sendo um bocado abstrato, seria perfeito o evento de continuar com saúde, com energia, a gostar daquilo que faço, porque de resto eu sou uma pessoa que é um bocado desinteressante nesse aspeto. Não tenho grandes sonhos nem grandes objetivos, porque isso acaba sempre por colocar alguma expectativa. Claro que tem algumas coisas, como eu referi, eu gostava de ir ao Brasil, se calhar lançar lá um livro, ir lá uma temporada, escrever mais. Mas é tudo coisas muito abstratas e não tenho nada de muito concreto, porque também a vida tem me ensinado que nem sempre aquilo que nós queremos é aquilo que nós precisamos. E nós quando queremos muito uma coisa, ficamos ali quase cegos e acabamos por não olhar para as outras todas que podiam ser bem melhores. Então eu entro aqui um bocadinho no deixar andar. Mais uma expressão que eu gosto muito é deixar andar.

Até ao dia em que vais reconstruir essa situação.

Exatamente. Normalmente associamos o deixar andar a uma atitude displicente, desleixada, mas eu gosto de encarar o deixar andar como deixar as coisas andar, deixar fluir, deixar tudo andar e não interferir.

Achas que quando deixas andar podes de repente ter uma boa surpresa.

Exatamente. Como o facto de estarmos hoje aqui os dois, por exemplo.

Exato. Que não estava previsto.

Não. É um bom exemplo do deixar andar no bom sentido.

E numa situação, que não vai acontecer, Manuel, mas numa situação em que te dissessem: "Escrever já está. Já editou tudo o que tinha para editar. Pronto, já está." O que te verias a fazer no dia a seguir? Ou vá, algum tempo depois, até se quiser similar que escrever já não dá.

Boa pergunta.

Nunca pensaste nisto?

Não, por acaso nunca pensei. Lá está, um dia de cada vez, nunca pensamos nessas coisas para não sofrer por antecipação. Mas à parte da escrita, eu também sou analista de human design. Human design, só fazendo um enquadramento, é uma ferramenta de autoconhecimento, que também teve um papel importante na minha vida neste processo todo de despedir, de acabar, de escrever e que entretanto formei-me para ser analista. É outro trabalho que eu faço e que me permite acompanhar as pessoas e trabalhar com as pessoas a nível individual, enquanto os livros chegam às pessoas de uma forma mais genérica, mais massificada. As sessões de human design permitem esse acompanhamento individualizado e personalizado. São atualmente as duas tarefas. Não tendo a escrita, iríamos se calhar inclinar mais para a outra, mas qualquer coisa que envolva comunicar, conversar, expressar, pessoas, o que estamos aqui a fazer hoje, gosto muito. Passaria por aí. Não sei o quê em concreto, mas passaria por aí.

Que não vai acontecer, Manuel.

Se acontecer, eu venho aqui.

Não, e depois vens e falamos sobre a tua experiência 100% como analista de human design.

Pode ser.

Mas era uma coisa que tu atualmente já fazes e que também te preenche. E se calhar às tantas consegues ir lá buscar sementes para escreveres os teus livros.

Sim, uma coisa também alimenta a outra. Receber ali tantas histórias e tantas partilhas também pode ajudar-me próprio a retirar dali insights que eu considero valiosos e que façam sentido partilhar nos livros. Estar sempre relacionado com pessoas, com comunicar, com expressar, com refletir. Sempre tudo muito dentro desse campo.

Sendo assim, que música punhas a tocar enquanto estás a exercer a tua atividade em human design?

Gosto muito também do Tiago Bettencourt, voltando aos artistas nacionais. Há várias músicas que eu gosto, mas particularmente de "Espaço Impossível", que tem mais uma parte que eu gostava ter sido eu a escrever. E eu gosto muito de ter esta sensação de: "Gostava ter sido eu a lembrar-me disto". Que às tantas o Tiago diz: "Vais ser tu a ir buscar o que o mundo não te der". E aqui não interpreto tanto na ótica de ir atrás, de ir à procura, mas vamos ser nós, de alguma forma, a criar ou a gerar aquilo que sentimos falta ou aquilo que achamos que está em desequilíbrio e parte de nós também trazer isso para cima da mesa da humanidade. Se víssemos a humanidade como uma refeição, um banquete, e nós traríamos aquilo que sentimos que faz falta. Como quando vamos jantar à casa dos amigos, cada um leva uma coisa, sermos nós a trazer isso e que seja algo que venha mesmo da nossa verdade, da nossa essência e que ressoa 100% connosco.

Se és de ferro, queres quebrar. Se és de pedra, queres sentir. Se és de vento, queres ter paz. Mas se encontras, queres fugir. E se tens vida, queres mudar. Mas se mudas, não te vês. Quem procura, encontrar. Quem encontra para esquecer. Como a noite amanhece. Qualquer santo enlouquece. Quando acordas, queres amar. Porque o mundo faz-te frio. Como água quer ser mar. E chuva quer ser rio. Se és semente, queres crescer. Mas sem água vais secar. Vais ser tu a ir buscar. O que o mundo não te der. Como a noite amanhece. Qualquer santo enlouquece. Queres espaço impossível. Queres arder o que apanhou. Queres a escolha que passou. Mas tudo é o que tem de ser. Tudo flui ou te faz crescer. Leva para o mar. Tudo é o que tem de ser. Tudo é o que tem de ser.

Chegamos assim ao fim do "Dia Perfeito" do escritor Manuel Clemente. Um programa com a produção da Maria Ribeiro Nunes, sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, tema interpretado pela cantora Jéssica Pina.

E as maravilhosas questões da Ana do Carmo.

Temos encontro marcado no próximo "Dia Perfeito", que é já para a semana. Até lá, subscreva este podcast e partilhe. Isso seria perfeito.

Oh, it's such a perfect day. I'm glad I spent it with you. Oh, such a perfect day. You just keep me hanging on. You just keep me hanging on.