Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Seja bem-vindo ao "Dia Perfeito", um podcast sobre uma combinação de sonhos e realidade. Já pensou o que não pode faltar no seu dia perfeito? Será olhar para o azul do céu? Será definir o ponto de partida? Cada um desenha o dia perfeito à sua medida. Eu sou a Ana do Carmo e hoje o meu convidado perfeito é o cantor e empresário André Sardet.
Olá, eu sou o André Sardet. Como a Ana do Carmo disse, eu sou músico, sou empresário, tenho várias vidas, o que me faz não ter rotina, mas ao mesmo tempo ter dias muito intensos. São dias que começam muito cedo, acabam sabe-se lá quando, porque pra além da música, faço produção de eventos há muitos anos, com muito gosto, festivais como o Sol da Caparica, o Marmequer em Portimão. E tenho também um hotel, e isso obriga-me a ter várias vidas, ter que me reinventar várias vezes ao longo destes anos, mas ao mesmo tempo também ter uma vida muito completa e muito realizada.
Num dia perfeito, tu cantas ou escreves música?
Olha, não há nada que me realize mais do que a música. Dentre as vidas que eu tenho, não há nada que me realize mais. Escrever é um ato que me ajuda a resolver enquanto pessoa, sempre assim foi. Mas é também algo que me obriga a ter muita disponibilidade mental, o que não tem sido fácil nos últimos anos, porque para se escrever é preciso, por um lado, estar bastante atento aos outros, bastante àquilo que está à nossa volta, mas ao mesmo tempo ter disponibilidade para nos focarmos na composição, porque a composição tem um misto de talento, mas também muita insistência, muito trabalho. E ao mesmo tempo, uma concentração quase absoluta, ou seja, preciso de não estar com o telefone sempre a tocar, sempre a receber e-mails, sempre a receber apelos externos, e é preciso estar a pensar só em compor.
Até porque quando compões, tu compões muito baseado na tua própria experiência, na tua vida.
Ou em algo ou em pessoas que eu observo e, portanto, é preciso ter essa tal disponibilidade para ouvir histórias.
Mas espera, quando dizes pessoas que observas, são pessoas à tua volta, pessoas da tua família?
Tu, por exemplo, podes me contar uma história da tua vida, que me faz ter vontade de compor sobre ela e interpretá-la à minha maneira. Por exemplo, uma das coisas que eu mais gosto de fazer é escrever pra filmes ou pra telenovelas, porque dão-me um guião, dão umas características das personagens, dão traços de personalidade e a partir daí eu componho. E tenho composto muitas músicas sobre coisas que não são, de fato, assuntos autobiográficos. São coisas que eu apanho ou situações que me pedem, inspiradas nos tais traços de personalidade das personagens.
Ou seja, escrever e criar pra ti, compor é importante, acaba por ocupar um espaço muito importante na tua vida, mas cantar suponho que também.
Sim, eu felizmente consegui contrabalançar nos últimos tempos aquilo que é a minha atividade de produção de eventos durante o verão, com a música. Ou seja, eu neste momento estou a aceitar muito mais concertos no inverno, em salas, num formato mais pequeno, um formato trio. Gosto muito de fazer concertos no Natal, tenho um especial de Natal, que é uma época onde eu gosto muito de cantar os clássicos de Natal, além das minhas músicas. E isso permite contrabalançar a falta de disponibilidade do verão e acabo por atuar muito mais no inverno. E é algo que me realiza muito. E é o tal ponto de equilíbrio que eu até então não tinha encontrado.
Portanto, estás aí numa altura perfeita, digamos assim.
Estou. Ainda agora tenho uma série de concertos, Açores, aqui em Lisboa, Oeiras, etc. E de fato, compensa a falta de tempo do verão pra aceitar grandes concertos.
De inverno és cantor, de verão és organizador de eventos. Como é que o-
Mas nunca deixo de ser músico. Ou seja, há sempre esse ponto comum que é música e se calhar aquele olhar mais observador e mais descodificador daquilo que toda a gente sente, mas que nem toda a gente consegue transpor pra música. E, portanto, é esse olhar, eu acho que tenho sempre o tal olhar crítico, que é isso que depois me faz tirar aquele ponto, aquela frase e aquele motivo que me faz compor música.
Quando és organizador de eventos e deste festival que tu acabaste de falar, qual é o teu dia perfeito enquanto estás...? Porque eu suponho que deve ser tipo a mil à hora, não é? Como é que essa velocidade tu consegues encontrar um dia perfeito? Tu tens que encontrar pelo menos momentos perfeitos.
É, eu acho que na vida temos que ter o tal ponto de equilíbrio, que é muito importante. Não trabalhar só, também não passar os dias na praia, não estar só com a família ou só com os amigos. Todas as pessoas têm o seu lugar, todas as atividades têm o seu tempo próprio. E, portanto, aquilo que eu tento fazer e tenho tentado fazer nos últimos anos é esse equilíbrio entre o trabalho, o lazer, a família, o desporto, que é algo que eu preciso muito. Eu gosto muito de Correr sozinho no meio da natureza, no verão e no inverno, seja com 2°, seja com 20 ou com 30. Gosto muito de ter esse momento de paz em que eu estou comigo e isso faz com que, por exemplo, cada vez que eu corro, cada vez que eu faço esporte, tenha um dia perfeito, porque me ajuda muito.
Ou seja, começas o dia a correr e achas-
Normalmente de manhã.
E o facto de correres já te dá uma boa energia para o resto do dia?
Dá-me muita boa energia. Eu costumo dizer que deixo os meus demônios todos ou no ginásio, ou na corrida, no Choupal, em Coimbra, normalmente é onde eu corro. Eu tenho um hábito que é correr em todos os sítios onde vou.
Normalmente, quem gosta de correr, gosta de correr em qualquer sítio onde vai, gosta de experimentar.
A corrida tem uma vantagem perante os outros desportos: tu não precisas de outras pessoas para correr. Podes correr em qualquer lado.
A qualquer hora que tu queiras.
A qualquer hora. Podes correr de manhã, podes correr à noite, já me aconteceu também, e é uma excelente forma de conhecer cidades. Eu só fiquei com uma pedra no sapato de não ter corrido em Nova York, mas anda-se tanto em Nova York, cheguei ao fim, já não tinha coragem para correr.
Diz-me uma coisa: que música é que tu levas nos teus fones quando vais a correr?
Zero música.
A sério?
Zero música.
Vais só tu e a natureza à tua volta?
Eu vou te explicar. Quando eu ouço música, eu entro tanto na música que depois tenho dificuldade. Ou é daquelas músicas que têm o passo certo, o tempo certo pra corrida, ou se eu quero ir mais depressa e a música está mais devagar, é uma confusão, porque eu entro dentro da música e a música depois é que manda em mim. E, portanto, não consigo.
Isto de ser músico realmente é complicado.
Exatamente.
Isto é um defeito profissional, André.
É um defeito profissional. Às vezes faço outro tipo de desporto, que é o spinning, em que estamos numas bicicletas sem rodas dentro de um ginásio e a música aí ajuda.
A música já está ritmada.
Já está ritmada.
Aquilo é uma coreografia também.
Se me perguntares: "Gostas da música?" "Não." "Achas a música muito alta?" "Acho." Estou farto de dizer: "Epá, baixem a música, nós não somos surdos, não precisamos disto tão alto." Mas de fato ajuda, há ali um momento em que nos ajuda a manter a passada e a entusiasmarmos.
A música empurra, não é?
Empurra. Exatamente, é o nosso empurrão.
Diz-me uma coisa: a que horas é que começa o teu dia perfeito?
O meu dia perfeito não começa como todos os dias, às 7h00. O meu dia perfeito começa ali às 8h30, 9h00. Já é um luxo se começar assim.
Ok.
Já não peço pra dormir até ao meio-dia porque já não consigo. Mas 8h30, 9h00, se eu conseguir dormir até às 8h30, fico felicíssimo da vida.
Mas se conseguires porque tens disponibilidade pra isso, ou se conseguires porque o teu corpo te deixa?
É porque tenho disponibilidade pra isso. Porque normalmente quando o despertador toca, sou obrigado a levantar-me bastante contrariado. Não é algo que diz: "Ai, que bom, começou o meu dia". Não. "Mais um dia, tem que ser. Vamos embora".
E o que tu fazes para transformares esse dia, enfim, um dia inevitável, um dia com coisas boas e outras coisas menos boas?
É a tal coisa. De manhã, desporto, normalmente, depois trabalho, escritório. Muitas vezes estou fora de Coimbra, ando sempre de um lado para o outro. Eu faço à volta de 60 mil km por ano, o que é duro e é pesado. O dia vai correndo, às vezes tenho almoços com pessoas, outras vezes não tenho. Gosto muito de levar o meu filho à escola. Gosto muito de preparar o pequeno-almoço, o pequeno-almoço que ele gosta. Vamos a conversar o caminho todo pra escola. Normalmente a seguir, deixo na escola, a minha filha já está em Lisboa, ligo à minha filha: "Tudo bem? Como é que estás? Como é que vai ser o teu dia?", etc. Depois o trabalho, normalmente. Eu costumo dizer que a minha vida é resolver problemas, e já lido bem com isso, problemas disto e daquilo, mas sou muito feliz naquilo que faço. Tenho tentado também na minha atividade enquanto produtor, usar mais a minha criatividade e criar projetos de raiz, projetos que vão buscar aquilo que são as tradições, a cultura de determinadas regiões, e depois fazer esse casamento entre essa cultura mais local com artistas e nomes mais nacionais, o que é algo que me realiza muito, porque é preciso estudar, é preciso ir ao fundo do fundo.
André, já voltamos ao André produtor. Agora quero entrar no teu carro de manhã, quando vais levar o teu filho à escola. Qual é a música que vocês ouvem no carro e que é uma boa música, é uma música auspiciosa pra um dia bom que vem aí?
Olha, há bocado disse que quando vamos para o carro, falo muito com meu filho. Também há outra coisa que me deixa muito feliz, que é quando ao fim da tarde vou buscar ou vamos dar uma volta, sem destino, damos uma volta a ouvir música. E aí ouvimos Sade Adu, por exemplo, que ele adora. É engraçado como é que o miúdo com 16 anos gosta. Se calhar alguma coisa de bem tenho feito pros meus filhos. Gosto também de ouvir John Mayer, que adoramos os dois e portanto estes dois nomes estão normalmente nessa playlist, às vezes também Sting.
E que música então é que nós escolhemos pra ouvir agora?
Olha, podemos escolher uma do John Mayer. New Light, por exemplo, ou Gravity. Gravity, pode ser.
Estamos a conhecer o dia perfeito de André Sardet. Ele é músico, cantor, compositor e também organizador de eventos. André, é um pouco sobre este André que eu queria falar agora e queria conhecer melhor o André organizador de eventos. Pelo que pude perceber, André, tu tens tido uma preocupação com a parte ecológica e sustentável dos teus espetáculos.
Exatamente.
Isso é um assunto que te toca?
Isso é um assunto que me toca desde que, há muitos anos, fui à casa do meu avô e eu não reciclava, não tinha hábitos ambientais, se quiseres.
Mas há alguns anos nenhum de nós tinha.
Sim, é verdade. Mas achei muito curioso e saí quase envergonhado desse dia, porque o meu avô faleceu com 86 anos, ele teria 82, por aí, e estava a reciclar. E eu disse: "Uau, como é que alguém que não vai estar muitos anos neste mundo tem este cuidado e eu não tenho?" Ele estava a pensar mais em nós, filhos e netos, do que nele próprio. E achei isso sensibilizador e, portanto, achei que era uma responsabilidade de todos nós. Fiz a minha primeira turnê ecológica em 2008, em que tentei trazer alguns hábitos para um mundo que tinha zero hábitos ambientais e que ainda hoje tem muito poucos. Não há normas ambientais nos eventos em Portugal, o que é algo que os governantes devem pensar sobre isso. Não tens um Ministério da Cultura que fale com o Ministério do Ambiente e diga: "Como é que vamos legislar este setor, estes eventos, o que eles têm que ter, etc." Portanto, há algumas organizações, seja de municípios, seja de privados, que têm esse cuidado e essa sensibilidade, mas haverá outros que não o têm. A minha empresa é uma empresa certificada com uma norma ambiental, de certificação ambiental, e foi a primeira neste setor. Os eventos têm uma característica muito interessante, que é: têm muita gente e tu consegues comunicar com muita gente. E tu, de repente, podes ser o clique ambiental dessas pessoas, tal como o meu avô foi o meu clique ambiental, tal como o meu avô teve uma ação que me fez perceber que eu devia mudar alguns hábitos. Nós temos essa oportunidade quando estamos com 20, 30 mil pessoas num recinto e, portanto, acho que são oportunidades perdidas cada vez que nós não o fazemos. Sabes que, por exemplo, cada vez que tu queres reciclar num evento, tens que pagar para isso acontecer. Ou seja, tu tens entidades que fazem a recolha dos resíduos, que não são mecenas culturais, aquilo é um negócio e, portanto, há normalmente alguma sensibilidade e algum apoio a esse nível, mas nem sempre isso acontece. Muitas vezes é preciso pagar para ir lá um caminhão recolher os resíduos e, portanto, é muito mais barato pra um organizador dizer: "Vai tudo pro lixo comum e pronto, mistura-se tudo e não interessa quantas garrafas d'água é que vão pro lixo, quantos copos, etc." Mas muitas vezes, para o sucesso destas medidas, precisamos do público. A partir do momento em que começa a haver contaminação de resíduos, nós perdemos esse objetivo.
O caminho para conhecer o dia perfeito do músico André Sardet faz-se por aqui. Venha comigo. André, ainda a falar sobre o André organizador de eventos, como é que é um dia perfeito teu, destes?
Olha, é quando os eventos correm bem, quando ninguém se magoa, quando não há incidentes, quando todas as regras de segurança são cumpridas e eu acho que falta muita legislação. Organiza eventos quem quer, como quer e fazer bem, com segurança ou com insegurança, está à escolha da consciência de cada produtor. O que é algo que eu tenho chamado a atenção a sucessivos ministros, sucessivos secretários de Estado. De fato, é preciso legislar e é preciso quase Como eu hei de dizer isto? Garantir que quem faz seja controlado, seja verificado. Não há uma entidade que certifique, não há uma entidade que verifique se cada vez que se monta um palco, se ele é bem montado ou mal. É passado um termo de responsabilidade. Antigamente, há uns anos, havia a obrigatoriedade de verificar se ele era bem montado ou não. Hoje em dia não acontece. E portanto, quando está em causa a segurança, eu acho que há aqui muita falha e muita falta de legislação que devia ser alterada rapidamente.
Que interessante que tu não me disseste que o teu dia perfeito enquanto produtor de um espetáculo, é o dia em que o espetáculo esgota. Tu não me disseste isso.
Porque se calhar estou muito atento às questões de segurança. Obviamente, que esgotar é muito importante, mas acredita numa coisa, eu prefiro um espetáculo cheio, mas não esgotado. Eu acho que é muito importante que as pessoas tenham uma boa experiência, que tenham o máximo de segurança possível e, portanto, para mim, o tal equilíbrio entre o Excel e a experiência das pessoas, é o mais importante. Obviamente que todos nós temos que pagar as contas e se os eventos acontecem é para serem rentáveis.
Estavas a falar que é importante ter uma boa experiência. Já vamos falar mais sobre isto, mas para já diz-me uma música, a um concerto que tu tenhas assistido, que esse sim, tenha sido uma boa experiência.
Olha, eu no ano passado assisti a um concerto do Sting, que era um sonho de há muitos anos. Ele já cá veio algumas vezes a Portugal, mas eu por um ou outro motivo nunca tinha conseguido ir ver e fui vê-lo em Lyon. E aconteceu uma coisa muito curiosa: o Sting tem uma voz muito mais aguda e eu nunca consegui cantar as músicas em cima das gravações. E eu nesse concerto dizia: "Mas o que se passa hoje que eu consigo cantar as músicas todas?" E quando cheguei cá, entrámos no carro, a minha filha tinha ido conosco, e eu liguei o Spotify e começámos a ouvir as músicas do Sting e eu já não as conseguia cantar outra vez. Então percebi que o Sting já baixou os tons. Que é o que acontece com muitos músicos, porque com a idade a nossa voz vai ficando menos aguda e mais grave. E portanto, o Sting deve ter baixado ali algumas músicas, meio tom, um tom. Depois comparei com os vídeos e de facto estava um tom abaixo. Mas, por exemplo, posso sugerir que ouçamos o "Fields of Gold", que é uma música que eu adoro.
Estamos a conhecer o dia perfeito do André Sardet. É cantor, é músico. Também és viajante, és daquelas pessoas que gosta de viajar?
Gosto muito de viajar. Tenho que me obrigar muitas vezes a viajar, porque: "Ai, que chatice, vou ter que me ausentar uma semana". Eu sou um bocadinho workaholic, portanto isso às vezes faz-me ter que preparar tudo, organizar uma série de coisas e depois quando volto, tenho um monte de outros assuntos para resolver também e o e-mail a explodir. Mas sabe muito bem e cada vez mais me apetece viajar, porque de facto nós somos uma formiguinha aqui neste mundo com tanto para conhecer, com tão boas experiências, com tanta gente boa. Acho que viajar nos alarga horizontes, faz-nos compreender melhor porque é que pessoas emigram, porque é que pessoas procuram vidas melhores. Conseguimos perceber, de facto, que de todas as pessoas que têm uma determinada cor de pele ou uma determinada fisionomia, dentro dessas pessoas, há umas que têm umas características, outras que têm outras, umas que são mais tolerantes, outras que são mais afáveis. Eu estive, por exemplo, há pouco tempo nas Maldivas e é uma sociedade fantástica, com uma religião em que são 100% muçulmanos, mas absolutamente tolerantes. E isso foi um exemplo de que, de facto, há generalizações perigosas e é um povo que é muito afável, muito tolerante, muito compreensivo e que vive bem em sociedade com respeito por toda a gente.
E sobretudo, muito do que nós podemos trazer das viagens é isso mesmo, é perceber que podemos aprender com qualquer pessoa, seja ela mais Ocidente, mais Oriente.
Uma coisa que me impressionou foi a cultura geral E a clarividência daquelas pessoas com quem eu falei, pessoas que trabalhavam no hotel onde eu estive, mas absolutamente informadas ao minuto sobre aquilo que o Trump estava a fazer, sobre aquilo que era a guerra na Ucrânia, sobre aquilo que era o dia a dia e aquilo que estava na ordem do dia. Eles tinham uma opinião clara, lúcida, e achei que de fato isso é muito interessante. E isso serve também para nós falarmos com os nossos filhos e lhes explicarmos que é muito fácil, no conforto das nossas casas e no conforto da nossa família, termos posições sobre imigração. Por exemplo, outro dia tive essa conversa lá em casa. Mas até para nascer é preciso ter sorte, o sítio onde nós nascemos, a sociedade onde crescemos, se és homem, se és mulher, dentro de uma determinada sociedade faz uma diferença brutal. Portanto, é muito fácil dizer algumas coisas como: "Imigrantes ilegais, tudo para fora daqui". Mas essas pessoas, muitas delas, a maior parte delas, não vem passar droga nem traficar nada. Vêm à procura de sustentar os filhos. E nós temos que calçar os sapatos dessas pessoas. E eu acho que nós vivemos num mundo muito extremado, em que os extremos tomam posições radicais polarizadas, e eu acho que a tolerância e o bom senso é que salva o mundo. Essas pessoas são pais como nós, são filhos como nós e só querem aquilo que é legítimo, que é ter o suficiente para pagar os estudos dos filhos, suficiente para pagar medicamentos, suficiente para pôr os filhos a estudar. E, portanto, é a coisa mais legítima que há. Agora, de fato, concordo com a necessidade de acolher melhor essas pessoas.
Estavas a falar que é preciso salvar o mundo. Há alguma música que tu te lembres que seja uma boa inspiração para quem manda nisto, ajudar e começar de alguma forma a salvar o mundo?
Olha, eu descobri há poucos dias um artista que se chama Tomás Rocha, que tem uma música que se chama "Feitos de Carne e Osso". No fundo, nós todos somos feitos de carne e osso e tem muito a ver com aquilo que estávamos a falar. Temos que perceber isso, somos todos iguais nesse aspecto.
Beijo-te o pescoço, sussurra-me ao ouvido. Sussurra-me outra vez que eu perdi o suspiro. Beijo-te o pescoço, acendes as maçãs do rosto. Sussurra bem mais alto que eu agora já nem ouço. Feitos, feitos de carne e osso. Feitos, feitos de carne e osso. Feitos, feitos de carne e osso. Feitos, feitos de carne e osso. Passa a mão nas costas sem medo de arranhar. Eu passo no cabelo, juntos fazemos par. Passa a mão nas costas sem medo de arranhar. Eu passo no cabelo e passo devagar. Feitos, feitos de carne e osso. Feitos, feitos de carne e osso. Feitos, feitos de carne e osso. Feitos, feitos de carne e osso.
Estamos à conversa com André Sardet. Estamos a viajar pelo dia perfeito deste cantor, músico, organizador de eventos, também empresário. André, estávamos há pouco a conversar que estiveste recentemente nas Maldivas. Foi uma viagem perfeita?
Foi uma viagem perfeita. Fui comemorar os 30 anos de vida em comum com a minha mulher, e comemoramos esse dia lá. E foi muito bom, porque acabaram por ser umas férias a meio do ano pra recarregar baterias e voltar cheio de energia. E de fato foi uma viagem perfeita. Não choveu.
Que é nota já meia.
Hoje em dia é uma coisa complicada, sobretudo naquela zona do mundo. E depois tivemos uma noite no Dubai, o que foi muito pouco, mas foi de fato muito bom. E eu gosto muito de viajar, e gosto muito de viajar em família.
Fica o Dubai para outra viagem perfeita.
Sim. Não é dos meus destinos favoritos. Acho tudo muito Disneylândia, não sei por quê. Mas com quem eu falo, dizem-me que não tiveste o tempo suficiente pra compreender. Talvez, dou o benefício da dúvida. Mas se me perguntares: "Quer já voltar pro Dubai?" Não, antes disso, quero conhecer uma série de outras cidades.
Por exemplo?
Itália, conheço muito pouco. Tenho que ir à Itália porque acho que deve ser um país fantástico, com uma excelente gastronomia. Eu gosto muito de cozinhar, de comer, gosto muito de conhecer novos ingredientes, novos pratos e de fato é um país que eu quero conhecer melhor. E andamos a adiar, mas vamos conhecendo assim umas coisinhas muito rápidas, mas que é um país que eu quero conhecer com tempo.
Olha, estávamos a falar sobre viagens e dia perfeito. Para ti, vir a Lisboa é um dia perfeito. Digo isto por quê? Porque a tua filha agora está cá.
Lisboa é a minha segunda cidade. Agora estou mais ligado sentimentalmente, porque tenho um motivo sentimental pra cá vir, que é estar com a minha filha, almoçar com ela, mesmo quando vou e venho no mesmo dia, e isso acontece muitas vezes, às vezes acontece duas, três vezes por semana Porque eu aqui durmo mal, porque há barulho de aviões e há a recolha do lixo às 2 h da manhã ou da reciclagem. Em Coimbra tenho muito mais silêncio e eu tenho o sono muito leve e aqui custa-me um bocado. E às vezes vou e venho no mesmo dia por causa disso. Mas acabo por estar com ela e aproveitar a companhia dela. Antes da entrevista fui a correr dar-lhe um beijinho e vim para aqui. Mas é a minha segunda cidade, eu se não vivesse em Coimbra, claramente vivia em Lisboa, tentaria encontrar um sítio que não tivesse aviões.
Mas esses dias que vens a Lisboa, quais são as partes perfeitas desse dia?
Lisboa é uma cidade fantástica, é uma cidade com imensas oportunidades culturais, imensas oportunidades gastronómicas, é uma cidade que tem uma luz muito bonita e eu gosto muito de aqui estar. Acabo por ter muitos amigos em Lisboa, acabo por ter grande parte da minha vida aqui, porque como eu te disse, desde há 30 anos, talvez, tenho semanas que não venho a Lisboa, mas isso é raro. E desde que estou a organizar o Sol da Caparica, é mesmo muito raro não vir a Lisboa todas as semanas. Mas é uma cidade que também me inspira muito, é uma cidade onde eu não me importaria de viver e quem sabe isso vá acontecer, porque como já falámos, tenho minha filha aqui a viver em Lisboa, o meu filho já fala em vir para cá.
Espalhado também.
O que é que eu vou ficar a fazer com a Catarina em Coimbra? Provavelmente viremos para cá.
Hoje o "Dia Perfeito" está a receber o músico André Sardet, que também exerce funções enquanto produtor de eventos, mas para tornar a sua vida realmente perfeita, decidiu ter a sua própria unidade hoteleira. No meio desta vida, André, como é que te surgiu seres gerente de um hotel?
A Catarina é que tem essa responsabilidade.
Estás a chutar a responsabilidade para a Catarina.
Não, mas ela que está lá no dia a dia. Eu tive a responsabilidade de criar o projeto, mais a obra, se quisermos, mais a parte até o hotel abrir e a partir daí ela é que ficou com o calvário de gerir as pessoas, de gerir o hotel, porque é uma atividade onde há muita rotatividade de pessoas, onde é muita gente. Eu admiro-a muito pela paciência que tem para todos os dias estar naquele projeto e levar para frente, e muito bem. Eu sou um bocadinho diferente, eu não gosto tanto desse tipo de rotinas, a mim custar-me-ia muito estar todos os dias no mesmo sítio a trabalhar. Ela leva esse projeto para a frente, e muito bem, ela e o meu sócio. E para sairmos de Coimbra, um dia teremos que pensar como é que fazemos. As produções é diferente. Hoje em dia quase conseguimos tratar tudo à distância, ou com computador, com reuniões por Zoom. É mais fácil nesse aspecto. Mas Lisboa está nos nossos horizontes, isso não vou dizer que não.
Que música é que tu gostas de ouvir e achas que faz sentido e que faz com que a tua vinda a Lisboa seja ainda mais um dia perfeito?
Aqui há uns dias reouvi o "Alto da Pimenta", que é uma obra fantástica do Veloso e do Carlos T. Posso sugerir aqui um tema, o "Má Fortuna", por exemplo.
"No Cabo de Guarda fui Vou aguardando bons ventos Tiro a pena da mochila E assento meus pensamentos Às voltas com seu fadário Um simples soldado raso Tomai lá meu secretário E guardai bem este meu caso Só me deu pra dizer não Em tempo de dizer sim Também na mesma moeda O mundo me paga a mim Como este cabo tão triste Pedregoso e sem verdura Assim minha vida existe Marcada pela desventura Pergunto à musa porquê Pergunto aos deuses nos céus Todos me dizem que é só má fortuna"
Hoje abrimos as portas do dia perfeito do André Sardet. Ele é cantor, ele é compositor, é músico, no fundo, André, resume-se muito a isto, não é?
Não me chames é artista. Só não gosto que me chamem artista, porque artistas há muitos. Chico Buarque de Holanda.
André, lá está, a música conquistou o teu coração. Mas como é que tu imaginas que seria a tua vida hoje se tivesses seguido o teu plano A? O teu plano A era Engenharia Mecânica.
Eu acho que tenho uma capacidade que é ser feliz a fazer várias coisas. Provavelmente estaria a aturar pessoas numa oficina, a dizer: "Olhe, o meu carro está com a embraiagem estragada" ou "o meu carro tem este barulho". Mas se calhar conseguia ser feliz também. Eu acho que depende muito de como nós nos empenhamos nas coisas. Como eu já disse, sou um bocadinho workaholic, sou muito empenhado nas coisas. Gosto de não ser superficial nos assuntos que trato. E eu gosto muito de automóveis, continuo a gostar muito de automóveis. Estou muito mais racional na compra de carros, já não compro carros novos há muito tempo. Aliás, quase que nunca comprei. Sou muito Tio Patinhas em relação a isso.
Tu gostas de carros, mas na hora de comprar pensas duas vezes, é isso?
Penso 100 vezes. O meu lema de vida é perder o menos possível em carros. Por isso, cada vez que compro um carro novo, que já aconteceu duas ou três vezes, digo assim: "O que eu estou a fazer?" E depois quando os vendo, digo: "O que eu fiz? De facto, andei a trabalhar para este carro." Nisso eu não sou muito irracional, mas gosto, de facto, muito de automóveis.
A tua vida, André, tal e qual como a conheces hoje, pelo menos em termos profissionais, começou a desenhar-se naquele dia, no bar da escola, quando começaste a cantar. A minha questão é: como é que um miúdo tímido decide começar a cantar? Acha que é uma boa ideia, sendo tímido, acha que é uma boa ideia cantar para os colegas no bar da escola?
Olha, eu era mesmo muito tímido. Aliás, há provas factuais disso, como por exemplo, a primeira entrevista que o Júlio Isidro me fez ou o Manuel Luís Goucha. A ir ver, aliás, isso está num documentário que eu lancei quando fiz 25 anos de carreira, em que eu tinha tanta vergonha, não olhava pra eles, era mesmo timidez pura e dura. Mas eu através da música conseguia comunicar com as pessoas, isso foi a grande descoberta da minha vida. Conseguia tocar nas pessoas. Aliás, eu mandei uma cassete à Catarina, por interposta pessoa, não tive a coragem de lhe dar pessoalmente, mas mandei.
Com as tuas canções?
Através de uma amiga nossa comum. Disse à Catarina pra ouvir esta cassete. Depois ela ligou-me e a partir daí combinamos tomar um café, depois outro. Foi assim. Mas a música ganhou uma importância maior a partir do momento em que eu descobri que conseguia tocar nas pessoas, conseguia emocioná-las. E a composição foi a grande diferença. Aos 17 anos, quando eu compus a minha primeira música e disse: "Afinal eu sou capaz de fazer isto". E a partir daí comecei a descodificar, se calhar, aqueles assuntos normais da adolescência e comecei a falar sobre a minha música, comecei a perceber que isso chegava às pessoas. E, de facto, foi esse o grande degrau entre só cantar ou estar na vida das pessoas. Fico muito feliz quando me dizem: "Olha, a tua música juntou-nos, a tua música é a história da nossa vida, é a história de um filho que se batizou com a nossa música". Às vezes, era a música de alguém que partiu. E portanto, são histórias que fazem com que eu tenha na música um significado maior da minha vida, porque estou no dia a dia das pessoas e faço-as felizes.
Lembras-te das tuas músicas todas, da tua discografia? Qual é a música que mais tocou as pessoas, ou pelo menos que tu tiveste esse feedback?
Foi "Feitiço", de facto a música que mais tocou as pessoas, foi a música que teve mais sucesso, foi a música mais tocada na rádio na década de 2000, entre nacionais e internacionais. Foi a música que deve ter casado muita gente, mas que também deve ter divorciado uns quantos.
Aqui o ponto de vista é: foi a música perfeita, seja lá qual for o ângulo da perspectiva, foi a música perfeita pra muita gente.
Foi a música perfeita pra muita gente.
E agora vamos ouvir a tua música perfeita, vamos ver.
Vamos lá. "Eu gostava de olhar para ti e dizer-te que és uma luz, que me acende à noite, me guia de dia e seduz. Eu gostava de ser como tu, não ter asas e poder voar, ter o céu como fundo, ir ao fim do mundo e voltar. Eu não sei o que me aconteceu, foi feitiço, o que é que me deu, pra gostar tanto assim de alguém como tu. Eu gostava que olhasses pra mim e sentisses que sou o teu mar. Mergulhasses sem medo, olhar em segredo só pra eu te abraçar. Eu não sei o que me aconteceu, foi feitiço, o que é que me deu, pra gostar tanto assim de alguém como tu." O primeiro impulso é sempre mais justo, é mais verdadeiro. E o primeiro susto dá voltas e voltas na volta redonda de um beijo profundo.
Estamos a tentar conhecer o André Sardet através do dia perfeito dele. André, há pouco estávamos a falar daquele dia em que tu decidiste começar a cantar no bar da tua escola, sendo um rapaz tímido. Eu acho que isto é uma tónica muito importante. Lembras-te da música que cantaste?
Lembro-me claramente da música, nem sei porque é que eu cantei aquela música. Eu não sei o nome da música. Era uma música que eu ouvia desde miúdo lá em casa e alguém tocou essa música e eu cantei naquele momento.
E aquilo ficou assim.
Já nem me lembro da letra, mas sim, ficou.
Foi o momento.
E o bar parou. Foi uma coisa que foi muito engraçada. Estávamos lá num canto e de repente, ficou um silêncio para ouvir e eu disse: "O que aconteceu aqui foi fantástico".
Na altura já tocavas guitarra?
Já tocava guitarra.
Mas não acompanhaste a guitarra, foi mesmo só voz?
Não, foi só voz.
Um miúdo tímido a cantar só voz?
Ainda por cima foi naquele intervalo em que chegavam croissants quentes.
O bar estava cheio.
Ainda tem mais peso.
Entretanto, seguiste o teu caminho na música. 25 anos já passaram e mais dois?
Quase 30. Quando eu comemorei os 25 anos, na verdade, calharam em cima da pandemia. Foi 2021. Eu celebrei em 22. Foi o IVA. E celebrei em 22, a turnê continua em 23.
Neste percurso, André, pudesses tu mudar, o que é que mudavas? Estou aqui a meter o pézinho.
É uma pergunta quase provocação, porque eu tenho por norma de vida tirar sempre o lado bom das coisas. Tenho momentos em que acredito pouco em mim, mas não sou confiançudo nem convencido, mas eu tiro o lado bom das coisas. E mesmo que olhando para trás, acho que cometi alguns erros, e o meu maior erro foi no início da minha carreira, não ter tido a capacidade de explicar ou não ter imposto às pessoas que estavam comigo aquilo que eram as minhas ideias, porque eu ouço os primeiros álbuns e eu digo: "Mas eu lembro-me de não ter querido esta opção aqui, eu lembro-me de não querer este instrumento, eu lembro-me de não gostar deste arranjo", mas dei o benefício da dúvida a outras pessoas. Não é por mal. Muitas vezes as pessoas ouvem daquela maneira e eu ouvia e ouço de outra.
Se calhar porque confiaste, eram profissionais na altura, se calhar mais experientes que tu.
Eu lembro-me que eu gravei o primeiro álbum com 19 anos. E portanto, eu sei que todas as pessoas deram o seu máximo e fizeram o seu melhor. Eu é que já tinha uma noção para onde queria ir ou para onde não queria ir e não tive a capacidade de bater o pé nalguns momentos. É por isso que eu chego ao terceiro álbum e chamo André Sardet. Esse álbum é homônimo, porque foi nesse momento que eu achei que estava satisfeito com a sonoridade que eu tinha construído. Obviamente que nós à medida que vamos evoluindo na idade, vemos sempre as coisas de outra forma e sentimos sempre que as coisas estão inacabadas. Mas eu achei que aquilo era o ponto de partida para as pessoas ouvirem um bocadinho de uma música minha e perceberem que era de facto minha e que era a minha sonoridade, a minha identidade musical. E, de facto, arrependo-me disso, mas não é algo que tenha feito com que as coisas não tivessem corrido bem, porque não correu tão bem, tiramos o lado bom, passamos à frente.
A tua discografia não se ficou por aqui, ela continuou a crescer. Já falamos mais sobre discos, André. Agora temos que fazer uma pausa aqui na nossa conversa, no nosso "Dia Perfeito", mas voltamos já a seguir. Estamos a conhecer o dia perfeito segundo o músico André Sardet. Há pouco falávamos de música e de discos que não resultaram exatamente como tinhas idealizado. O teu mais recente trabalho, este já é perfeito? O teu ponto de partida?
Nunca são perfeitos. Era o que eu estava a dizer. Fazemos sempre alguma coisa. Eu acho que isto é uma coisa que acontece com quase todos os músicos. Eu acho que as músicas ficam muito mais perfeitas quando as tocamos ao vivo. Quanto mais as cantarmos, quanto mais as tocarmos, mais as interpretarmos, mais elas ficam perfeitas. Devia ser quase obrigatório só podermos gravar ao fim de três ou quatro anos de estrada. Mas isso é impossível.
Essa não é a ordem das coisas.
Essa não é a ordem das coisas.
E neste teu trabalho em que tu colaboras com alguns artistas bastante conhecidos de todos, tiveste momentos perfeitos? Tiveste, com certeza.
Momentos fantásticos. Mais do que perfeitos. Gravei com o Jorge Palma Era um sonho de há muitos anos. Eu tenho muito respeito pelo Jorge, não só musical, mas também pessoal. Ele é um ser humano extraordinário. Nunca ouvi o Jorge a dizer mal de ninguém, nunca o Jorge entrou em tricas de colegas ou em maledicência. Ele é muito boa pessoa, muito bem-informado. E tê-lo a gravar comigo o "Azul do Céu", que é uma música do primeiro álbum, foi mais do perfeito, foi a concretização desse tal sonho antigo. E ele com enorme generosidade aceitou à primeira, portanto foi um momento muito feliz pra mim.
Então qual é a música perfeita, que tu achas que encaixa muito bem neste ponto da nossa conversa?
Já que falamos do Jorge Palma, vou falar de uma música que eu acho que é perfeita, que é "Estrela do Mar". Se eu puder escolher a versão, escolho a versão do Só, do álbum que ele gravou sozinho ao piano, que pra mim está no top 10 dos álbuns a nível nacional, mas logo ali nas primeiras posições.
Estamos a tentar conhecer o dia perfeito do André Sardet, com certeza que já ouviu este nome. Não só já ouviu o nome, como já o ouviu cantar. André, a tua vida passa por Coimbra, onde tu moras e tens casa, também por Lisboa, onde a tua filha neste momento está a morar. Há mais alguma cidade, localidade, região do nosso país que faz parte do teu dia perfeito?
Eu gosto muito do Algarve. Gosto muito do Algarve e gosto especialmente de Cacela Velha, que é um sítio onde eu tenho o privilégio de ter uma casa, e é um sítio que tem, pra mim, uma energia brutal. Sobretudo fora do verão, fora da grande confusão. Infelizmente, aquela praia está no Instagram. O Instagram tem estragado algumas coisas. E, de facto, tem gente a mais nalgumas alturas. Fizeram-se ali erros. Há ali um erro ambiental que eu espero que seja corrigido rapidamente. Houve uma abertura para o mar feita pelo homem, que estragou completamente, assoreou a Ria Formosa naquele sítio. Mas é um sítio fantástico, que podia ser o maior diamante do Algarve e ainda não é. Eu digo que podia ser e ainda não é, porque tenho sempre esperança que Cacela fique o mais bonita possível, o mais preservada possível e o mais respeitada possível. Mas de facto, é um sítio que me inspira muito. É um sítio onde eu vou dar os meus passeios na Ria Formosa, as minhas corridas. Há uns anos, fui à Disneylândia no Natal. Eu tenho sempre uns dias de desaceleração, ou seja, quando vou de férias, preciso de uns dias pra acalmar e pra entrar no registo de férias. E aconteceu uma coisa muito engraçada, porque era época de Natal, já estava tudo mágico, luzinhas e tal.
Que é bonito, André.
É fantástico. E eu entrei na Disneylândia e mal entrei, disse: "Esqueci tudo o que está o mundo cá fora". E tenho um bocadinho essa sensação quando vou pra Cacela. Ou seja, estou ali num mundo entre campo e praia, sobretudo no inverno, gosto muito de lá ir no inverno ou na primavera. E de facto é um sítio que é a minha Disneylândia, se quiseres.
Como é que são os teus dias quando estás lá embaixo em Cacela Velha? Qual é o melhor momento do teu dia?
Ir ao mercado. Eu adoro cozinhar. E eu, pela minha vida, passo muito tempo em restaurantes, tempo demais. E adoro cozinhar e tenho muito pouco tempo pra o fazer. E portanto, adoro ir ao mercado, ou a Vila Real de Santo António ou a Tavira, e vou escolher os melhores ingredientes, desde peixe a marisco, se for o caso. Os coentros no Algarve têm um sabor, o tomate é fantástico. Portanto, eu cozinho de forma completamente diferente no Algarve, porque respeito muito os ingredientes dali e os produtos locais. Eu era capaz de estar a cozinhar o dia todo naquele sítio. Ainda por cima, tenho um espaço fora da casa onde eu vejo o mar. É fantástico estar a cozinhar e ver o mar ao fim da tarde é uma coisa incrível. É a minha Disneylândia, como eu já disse.
André, que música é que tu ouves quando estás na tua Disneylândia?
Olha, ouço Vou pondo a playlist a funcionar e vou ouvindo um bocadinho de tudo. Gosto muito de ouvir Kings of Convenience lá.
Ou seja, à boleia da tua playlist vamos entrar na tua Disneylândia.
Exatamente.
À boleia desta música acabámos de sair da Disneyland com o nosso André Sardet, que hoje veio até ao "Dia Perfeito" e estivemos a conhecer o dia perfeito do André Sardet. André, a nossa conversa já vai longa. Houve tanta coisa.
Mas passou num instante.
Passou num instante e houve muitas coisas sobre as quais não falámos. Estavas a dizer que gostas muito de cozinhar, então se calhar vamos terminar assim. Qual é o teu prato preferido de cozinhar e de comer? Aquele prato que tu querias muito comer no teu dia perfeito.
É difícil. Eu gosto muito de peixe. Eu faço, modéstia à parte, um grande arroz de marisco com aquelas gambas do Algarve, características da zona de Monte Gordo. Podia ser esse com aquele tomate coração de boi. Pode ser esse prato, mas também pode ser um ceviche, mas ameijoas à Bulhão Pato. São tão boas e é um prato tão simples de fazer.
Não é? Basta ter os ingredientes certos.
Não é?
Aqueles coentros que estávamos a falar.
Coentros, o alho e um bom azeite. É só isso.
Imagino que amanhã te dizem: "André, amanhã é o teu dia perfeito". O que é que não pode faltar no dia de amanhã?
A família. A família é o meu motivo para me levantar todos os dias da cama e fazer melhor, lutar e fazer com que também eles tenham a melhor vida possível e que sejam as pessoas mais, falo agora dos meus filhos, boas pessoas bem formadas e tolerantes, que é algo que eu acho que é muito importante. São eles o meu motivo de orgulho e também a minha maior preocupação.
Então olha, que música é que tu dedicas à tua família? Uma música perfeita, pois evidente.
Os meus filhos são os meus consultores musicais, são eles que muitas vezes me ajudam a estar atento às novidades. E aqui há uns anos conheci um pouco mais do Plutónio, que vai estar tanto no Sol da Caparica como no Marmequer, em Portimão, e portanto vamos ouvir o "Interstellar", que é uma música que eu acho que é muito feliz, muito inspirada e que representa também muitos bons momentos ao ouvir música com os meus filhos.
Chegamos assim ao fim do dia perfeito do músico André Sardet. Este programa teve a produção da Maria Ribeiro Nunes, a sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, tema interpretado pela cantora Jéssica Pina.
E as perguntas da Ana do Carmo.
Temos encontro marcado no próximo "Dia Perfeito", que é já para a semana. Até lá, subscreva este podcast e partilhe. Isso seria perfeito.