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Recebemos a atleta olímpica Ana Catarina Monteiro, nadadora que em Tóquio assinalou o melhor resultado feminino da natação portuguesa e que hoje em dia é vereadora do PS na Câmara Municipal de Vila do Conde. Já vamos a essa transição de vidas. Bem-vinda, Ana Catarina Monteiro. A começar pela parte desportiva. O João Costa, nos Jogos Olímpicos, ficou a um segundo do recorde nacional. A Camila Rebelo esteve hoje a lutar por uma passagem à meia-final até ao fim e o Diogo Ribeiro está nas meias-finais dos 50 metros livres e tem ainda a mariposa. A natação está a cumprir as expectativas nestes Jogos?
Muito boa tarde e desde já muito obrigada por eu convite, por esta participação. É sempre um grande orgulho poder falar daquela que é a minha grande paixão, que é a natação e algo que tanto acompanho, tão de perto acompanho. O desempenho dos nadadores portugueses. Nós quando falamos em Jogos Olímpicos, acho que é sempre difícil. Todos os atletas trabalham para chegar aos Jogos Olímpicos na sua melhor forma, chegar aos Jogos Olímpicos e fazer os seus recordes pessoais e recordes nacionais, mas nem sempre isso se traduz na realidade. São muitas as componentes, muitos os fatores e estamos sempre a falar aqui de um timing muito reduzido, em que tudo tem que calhar bem para as coisas saírem da melhor forma. E por isso acredito que os atletas trabalham muito e chegam àquele momento em que nem sempre o resultado final é aquele que era expectável. Acredito que no caso da Camila hoje tenha sido muito essa sensação. Ainda não tive a oportunidade de falar com ela, mas a Camila vem de um título europeu, nadar na marca dos 02:08.95, e hoje passou a ser atleta olímpica. Portanto, acho que isso é o grande marco que aqui está. O resultado de hoje, certamente a Camila queria mais, estava a lutar por uma meia-final e com toda a legitimidade. Não aconteceu, mas acho que é um grande orgulho para nós ter uma atleta como a Camila a representar-nos e ter a nossa representação nos Jogos Olímpicos.
Pode acontecer o mesmo com o Diogo Ribeiro? Desculpe interrompê-la, mas pode acontecer o mesmo. Demasiada pressão, tendo em conta que vem com dois títulos mundiais. A Camila tinha um título europeu.
Sim. Nós estamos dentro do mundo da natação e temos que olhar para a entry list. E quando olhamos para a entry list, o Diogo vinha com o 17º tempo de inscrição nos 100 metros livres, com o 15º tempo de inscrição nos 100 metros mariposa e aos 50 livres não estou certa de qual era o tempo de inscrição, mas hoje superou-o por bastante. E portanto, a prestação de hoje do Diogo, dos 50 livres, são efetivamente aqueles resultados que nós procuramos, que é chegar às meias-finais e chegar às finais nos Jogos Olímpicos. Hoje o Diogo chegou à meia-final e estou certa que será uma grande luta para poder estar na final. Mas um passo já foi dado, melhorou a classificação de entrada, nadou em cima do recorde nacional e portanto, apresenta-se numa boa forma para poder nadar abaixo do seu recorde nacional e com isso poder estar na luta para as finais, porque todos os atletas que chegam a este patamar, chegam aos Jogos Olímpicos com objetivos idênticos, que é superar-se. E portanto, a primeira luta é sempre conosco e depois ficamos sempre, de alguma forma, dependentes do resultado também dos restantes.
Há bocado interrompi-a não para falar da Camila Rebelo, mas para falar do João Costa. E a dizer sobre o João Costa, qual é a sua análise?
O João Costa vem de uma cirurgia ao ombro em janeiro deste ano. Estamos a falar de um trabalho de superação gigante. O resultado do João não é de todo aquele que ele esperava. Certamente foi a época, e como ele próprio disse em algumas declarações, foi a época mais difícil da vida dele, sendo a mesma em que cumpriu o maior sonho, que é de se tornar olímpico. Acho que é muito importante para quem ouve e para quem acompanha estes resultados, perceber que no momento em que o resultado não sai, a maior frustração vai ser sempre do atleta, que deu sempre tudo para chegar ali na melhor forma. E por isso acho que aquilo que o João fez, de conseguir ter chegado aos Jogos Olímpicos, de se ter superado, de se ter recuperado da lesão e de uma cirurgia ao ombro, e ter chegado aos Jogos e ficado a um segundo do resultado do seu melhor tempo, é sem dúvida gratificante para ele, no sentido de cumprir um objetivo, fez uma superação e certamente irá pensar em Los Angeles 2028 já com outra mente.
Estava aqui há pouco a dizer que hoje a Camila Rebelo tinha-se tornado olímpica. Isso é algo que tem um peso diferente, ou seja, há uma diferença muito grande entre nadar num campeonato da Europa, do mundo ou num meeting e nadar nuns Jogos Olímpicos?
Sim, penso que tem, pelo próprio reconhecimento do evento. Se nós olharmos para os nossos competidores quando estamos num campeonato do mundo ou nuns Jogos Olímpicos, os nossos competidores são os mesmos, mas os Jogos Olímpicos são sem dúvida o patamar mais alto do desporto. Nós trabalhamos há quatro anos, não trabalhamos a um. Quando termina este ciclo, começamos a pensar no próximo. Depois, todos os outros objetivos são objetivos intermédios. E portanto, acho que o momento em que se torna olímpico é sempre um momento especial. Ser olímpico é algo que disse muitas vezes: "Olímpico uma vez, olímpico para a vida toda". E ser olímpico é estar num leque restrito de pessoas que conseguiu estar entre os melhores do mundo, no maior evento desportivo do mundo, que só acontece de quatro em quatro anos e que tem todo um processo envolvido. E portanto, o tornar-se olímpica, sem dúvida que eu acho que é a grande vitória dos Jogos Olímpicos. Depois nós temos os nossos objetivos.
Tem acontecido muitas vezes alguns atletas saltarem os campeonatos do mundo para se resguardarem, para se prepararem para os Jogos Olímpicos. Isso depois também gera demasiadas expectativas para quem teve uma boa prestação nos Mundiais ou nos Europeus e depois nos Olímpicos vai encontrar atletas que não encontrou nesses certames.
Eu acho que isso faz mesmo. Era aquilo que dizia: quando acaba um ciclo olímpico, por norma, um atleta vai pensar no próximo ciclo e pensa sempre a quatro anos e depois vai perceber onde é que deve apostar. Se deve apostar logo no primeiro ano, se deve apostar no segundo, se deve apostar no terceiro, se deve apostar em todas as competições durante o ciclo olímpico. Acho que depois passa muito pela gestão de cada atleta e do treinador e do planeamento de cada atleta. Aqui a questão é: nos Jogos Olímpicos, efetivamente vão estar todos, porque é o maior evento. Todos os outros campeonatos vão estar dependentes da gestão de carreira e da gestão de percurso de cada um dos atletas. Mas nós estando no meio, temos acesso aos rankings mundiais, aos tempos que são feitos em provas que não são Campeonatos do Mundo e Campeonatos da Europa. Vamos estando a par do que acontece na natação mundial.
Do que os outros vão sendo capazes.
Estamos a par. O fato de numa competição não estarem alguns atletas, nós não deixamos de os contar, nem de os contabilizar para os Jogos Olímpicos, porque efetivamente há nomes que são favoritos.
E que vão gerindo a época de uma maneira ou de outra. Ana Catarina Monteiro, aceitou entretanto este desafio para ser vereadora a tempo inteiro em Vila do Conde. Como é que surgiu e por que decidiu dar esse passo?
Curiosamente, estava em Tóquio quando recebi este convite para poder fazer parte da lista do professor Vítor Costa. Penso que foi um ou dois dias antes da minha competição que recebi este convite de forma mais formal. E na altura achei logo que era um desafio muito interessante. Eu sabia que naquele momento, e foi a mensagem que eu passei, eu naquele momento queria iniciar um novo ciclo olímpico e não tinha capacidade de dar a resposta que gostava, mas tinha todo o gosto de poder, de alguma forma, estar envolvida no projeto e poder conhecer mais de perto o projeto. Foi isso que fiz e estive logo na lista desde o primeiro momento, por me identificar efetivamente com o projeto para Vila do Conde, por me identificar com as pessoas que faziam parte da lista. Aceitei.
E agradada com a experiência? Ou seja, se for convidada daqui a um ano para continuar, diria que sim?
Sem dúvida que estou agradada com a experiência. O momento também em que este segundo contacto me foi feito, que foi no final do ano passado, por necessidade de alteração dos quadros, porque um dos vereadores em funções, por motivos pessoais e motivos profissionais, não estava a conseguir assegurar o seu trabalho na Câmara. Foi-me feito este pedido em dezembro do ano passado e o timing acabou por ser, para mim, perfeito, porque estou no final de uma preparação olímpica, em que o tipo de trabalho já é muito diferente do tipo de trabalho nos primeiros dois anos de um ciclo olímpico, em que há muito volume, muitas horas de treino. No último ano do ciclo olímpico, o trabalho já é um trabalho afunilado, já trabalhamos para a prova e para o momento da prova, que são dois minutos. O tempo dedicado é diferente, a necessidade do descanso, tudo é diferente. Para mim veio no momento certo este desafio. Confesso que de fevereiro a junho, fazer a conciliação de manter todo o meu foco, por um lado, na componente desportiva, a tentar ainda chegar a Paris e, por outro lado, conhecer todo um mundo diferente de desafios foi desafiador mesmo. Acho que não há outra palavra para o que foram estes últimos meses, mas muito gratificante e por isso, neste momento, estou mesmo muito satisfeita com aquilo que estou a viver.
E empenhada de corpo e alma. Ana Catarina Monteiro, lamento, mas não temos mais tempo. Obrigado pela sua disponibilidade para se juntar a nós e partilhar também a sua experiência enquanto atleta e também agora enquanto autarca aqui no "Direto ao Assunto" da Rádio Observador.
Muito obrigada.