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O PS Madeira mostra-se disponível para viabilizar a moção de censura do Chega ao governo regional liderado por Miguel Albuquerque. O líder socialista na Madeira vai agora direto ao assunto na Rádio Observador. Paulo Cafôfo, muito bem-vindo.

Olá, Divina. Muito boa tarde.

Já disse hoje à Antena Um que a sua decisão está fechada, a comissão política ainda se reúne amanhã. Qual é que é o objetivo aqui? É levar a Madeira a eleições ou encontrar uma solução de maioria na oposição? E se sim, com que partidos?

Esta é uma situação que foi disputada pelo Chega, aliás, desde o início deste ano, quando foi conhecido o processo judicial que teve Miguel Albuquerque como principal protagonista e que levou, na verdade, a eleições. Desde esse momento, a instabilidade política criada na região teve como principais personagens Miguel Albuquerque e Miguel Castro, ou seja, o PSD e o Chega, e esta instabilidade política volta a ter, eu diria, um novo capítulo. Mas é um novo capítulo com os mesmos personagens e os mesmos protagonistas. Ou seja, só vem confirmar também aquilo que sempre disse desde o início, que a solução governativa que saiu das eleições regionais e que foi validada pelo representante da República, era uma solução precária e muito frágil.

E qual é que é a solução agora?

A solução agora, veremos qual é a solução agora, porque o Chega acaba, neste processo todo, por ser uma contradição sistemática e veremos se ainda mantém a sua moção de censura até o fim.

Mas se o PS está disponível para viabilizar essa moção, é isso que está em causa aqui agora. Viabilizando, o governo cai.

Eu já vi e já ouvi tudo da parte do Chega. Já disseram, contradisseram, disseram e desdisseram, e portanto eu tenho motivos mais do que suficientes para esperar para ver. Agora, o Partido Socialista aqui não está a brincar e, aliás, basta desta brincadeira entre o PSD e o Chega.

Mas por que veio dizer que viabiliza se ainda não acredita que a moção possa mesmo cair?

Eu tenho que enfrentar os factos. Neste momento, o Chega deu entrada na Assembleia Regional de uma moção de censura. Isso é um facto.

É com base nesse facto, Paulo Cafôfo, que eu lhe pergunto que, nesse cenário de moção que à partida vai ser votada na próxima semana e que o PS vai viabilizar, qual é que é o objetivo do Partido Socialista aqui? É ir a eleições ou encontrar uma solução de maioria na oposição? E por favor, responda à minha pergunta para podermos avançar.

Sim, claro, evidente. Mas eu terei de esperar para ver qual a posição do PSD, porque nós temos aqui vários cenários que podem estar colocados em cima da mesa. E há aqui...

Mas quais são?

Quais são? Por exemplo, um cenário: Miguel Albuquerque faz uma remodelação do governo e o Chega volta atrás na moção de censura. Miguel Albuquerque sai do governo e o PSD procura apresentar outra pessoa que possa ser convidada a formar o governo. Ou então vamos mesmo para eleições, ou o senhor representante da República, antes de ir a eleições, convoca os partidos para ver se há alguma solução política, que julgo que neste quadro parlamentar, e indo direto à sua pergunta, parece não estão criadas as condições de haver uma maioria que possa sustentar que o governo seja. E se assim não for, vamos a eleições com certeza.

Deixe-me só perguntar por que a iniciativa de apresentar uma moção de censura não partiu do próprio Partido Socialista?

Essa é uma pergunta muito fácil de responder, porque o Partido Socialista não tinha condições de ver aprovada na Assembleia Regional uma moção de censura que tivesse sucesso. Ou seja, isto só está a acontecer porque o Chega, agora, decidiu que não daria o apoio, do ponto de vista parlamentar e que o apoio que sustenta este governo, não daria, porque se o PS apresentasse uma moção de censura, ela estava condenada ao fracasso.

E agora nos cenários que põe em cima da mesa, se houver uma remodelação no governo, isso é suficiente para que a moção não avance ou não tenha o apoio do PS?

Vamos lá ver. Se houver uma remodelação do governo e o Chega retirar a moção de censura, repare, a moção de censura não existe. Nesse cenário. Agora, há uma coisa que eu também gostaria de dizer nas diversas hipóteses que temos aqui pela frente. E há uma que o Partido Socialista nunca irá caucionar, que é termos uma situação em que Miguel Albuquerque saia do governo e seja outro elemento do PSD, sem ir a eleições, ser presidente do governo. Para nós, é importante a legitimidade. A legitimidade de ser presidente do governo tem que ser uma legitimidade feita com base no voto e nas urnas. E, portanto, nós não aceitamos troca de Miguel Albuquerque por outro presidente ou outra presidente que possa substituí-lo. Portanto, para nós, ou Miguel Albuquerque mantém-se porque o Chega retira a moção de censura, ou então julgo que iremos mesmo a eleições.

Mas indo a eleições, está a dizer que é possível ir a eleições, mas também disse há pouco, e deixe-me voltar aqui um bocadinho atrás, que há condições para uma solução de maioria. E o PS tem essas condições.

Não, eu acho que não há condições para uma solução de maioria. Repare.

Não foi o que eu percebi há pouco.

Não, mas não há, eu diria. Eu não vejo que neste momento Haja. Quando tiver maioria, temos ter 24 deputados. Eu não estou a ver que neste momento isso seja favorável, tendo em conta o contexto em que estamos, porque é preciso ver também o que é que o CDS, o PAN e a Iniciativa Liberal, que acabaram por estes três partidos, o CDS, o PAN e a Iniciativa Liberal, com o Chega, acabaram por viabilizar este governo na moção de confiança que foi apresentada há menos de seis meses.

E o PS pondera fazer eventualmente um acordo de incidência parlamentar com o Chega?

Nós neste momento, com o Chega absolutamente não. Nós nunca iríamos fazer um acordo, seja que tipo de acordo fosse com o Chega, isso está fora de hipótese.

Mas está em cima da mesa apoiar o Chega nessa moção de censura.

Porque não é apoiar o Chega.

E fica com o receio que o PS Madeira fique com o rótulo de criador de uma crise política com o Chega na Madeira?

Absolutamente. Repare, o Chega deu o apoio ao governo. Aliás, se repararmos bem, o Chega que tem o arauto, ou pelo menos procura difundir assim, do combate à corrupção. Na verdade, o PS Madeira já há muito mais anos combate a corrupção, seja com comissões de inquérito, precisamente para casos de pouca transparência no Governo Regional, seja mesmo por denúncias, não anónimas, porque nós não nos escondemos no anonimato, denúncias feitas ao Ministério Público com factos recolhidos por nós. Nós há muito tempo combatemos a corrupção e os esquemas no Governo Regional da Madeira. O Chega é que apesar de levantar essa bandeira, na primeira ocasião que teve, juntou-se e deu a mão a um candidato que se pôs presidente do Governo Regional, que é arguido por corrupção activa e passiva.

Então e com essas críticas todas que faz ao Chega...

Nós não estamos a apoiar o Chega, jamais. Agora, há aqui uma situação que é uma moção de censura. Efetivamente, quando se trata de questões de corrupção, obviamente nós não estamos nunca de lado, e o conteúdo dessa moção tem a ver precisamente com a corrupção, obviamente nós sabemos de que lado estamos, e não estamos do lado da corrupção, claramente.

Se o desenlace for ir a eleições, serão as terceiras eleições em menos de um ano e meio na Madeira. O eleitorado vai entender?

Eu acho que o eleitorado está cansado, mas está cansado mais do que estar cansado de eleições. Está cansado desta brincadeira. Nós até temos o bailinho da Madeira, em que dizemos: "Vamos dançar esta linda brincadeira, mas isto já ultrapassa os limites no sentido daquilo que é e tem sido este jogo entre o PSD e o Chega. E as pessoas estão cansadas.

E o PS não contribui para essa brincadeira, para esse bailinho, Paulo Cafôfo?

Não, porque não foi do PS esta iniciativa.

Mas o PS pode escolher como votar.

Mas o PS nunca vai estar do lado em que se tem uma moção de censura e vai ser contra, porque nós sempre queremos uma mudança política na região. Aliás, nós chegamos a apresentar em fevereiro uma moção de censura também. Num contexto diferente, obviamente, mas nós aquilo que queremos é mudança política na região. E perante uma moção, que obviamente põe em causa o governo, independentemente de quem venha, nós aí nunca estaremos do lado do PSD, jamais.

Mas o PS teve 21% nas eleições e o PSD 36%. O que é que lhe sugere que consiga diminuir esta distância?

Olhe, como te disse, ainda não tendo terminado há pouco, as pessoas estão cansadas de quê? Destes casos, que não são casos anecdotários, são casos graves. Nós temos, repare, um governo de oito pessoas, cinco são arguidas em diversos casos levantados pelo Ministério Público. As pessoas estão cansadas disto. Estão cansadas também, ainda muito recentemente, com a situação dos incêndios de agosto, de ver que um presidente do governo abandonou o seu povo para estar estendido no areal do Porto Santo a apanhar sol. As pessoas estão cansadas disto.

Para melhorar as hipóteses do Partido Socialista de conseguir vir a governar a Madeira, equaciona ir a jogo numa coligação pré-eleitoral com o JPP, por exemplo?

Como digo, ainda é muito cedo para nós fazermos essas conjeturas. Temos de esperar para ver primeiro o que é que vai acontecer no PSD, em primeiro lugar, e depois, se houver eleições, devíamos delinear a estratégia que acharmos mais correta. Agora, tenho que lhe dizer que não tenho medo de eleições, de maneira nenhuma. Eu acho que a democracia, quando é preciso, e para mais em situações de crise, se for necessário, vamos a eleições com certeza e vamos com toda a determinação. E portanto, o PS Madeira é um partido que nunca teve medo, nem do tubarão que é o PSD, que por vezes tem a arrogância de ter para si quase a propriedade da autonomia ou da região, porque confunde-se poder com o partido. E nós temos, felizmente, militantes que nunca se vergaram e que ao longo da sua vida sempre levantaram a bandeira da democracia e da liberdade.

Mas não há sequer conversas exploratórias com o JPP.

Não, neste momento não há conversas nenhumas. O Partido Socialista não está condicionado por nenhum outro partido A situação despoletou esta semana, é muito prematura, precisamos de ver qual o desenvolvimento. Há situações que controlamos, outras que não controlamos e precisamos de ver como os outros partidos se posicionam e como a situação evolui.

Se viabilizar a moção de censura do Chega e a Madeira for a eleições, equaciona não ser Paulo Cafôfo a liderar o PS Madeira nessas eleições?

Não. Eu sou o presidente do PS Madeira, não tenho sequer um ano de mandato e havendo eleições eu aparentemente quero e pretendo ser candidato.

Eu pergunto isto porque é um apelo que vem de dentro do seu partido.

Não, é um apelo que não vem de dentro do partido.

Vem do antigo secretário-geral.

É um apelo que vem de um antigo presidente do partido.

João Pedro Vieira.

Não, João Pedro Vieira é um secretário-geral. As pessoas, seja o Carlos Pereira, seja João Pedro Vieira, eu gostaria de vê-los não a combater o próprio Partido Socialista, mas a combater o PSD. Houve uma oportunidade de esclarecer, há menos de um ano, a liderança do partido. Ninguém se atravessou, nem ninguém se candidatou contra mim. E eu tenho toda a legitimidade de, como presidente do PS Madeira, de encabeçar, se assim existirem eleições, a candidatura do Partido Socialista.

E já falou com Pedro Nuno Santos sobre essa questão da moção de censura? O líder do PS ficou sensibilizado com os seus argumentos para apoiar a moção do Chega contra o governo regional?

Eu tenho, com alguma frequência, conversa e diálogo com o secretário-geral Pedro Nuno Santos. Agora, não é hábito meu, nem o farei agora, de dizer na praça pública o teor das conversas que tenho com o secretário-geral.

Paulo Cafôfo, muito obrigada por ter vindo ao "Direto ao Assunto", a tarde política da Rádio Observador. Até à próxima.

Muito obrigado, boa tarde.