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Seis, sete dias, normalmente, a resposta da curva da incidência da Covid. Isso é visível. E, portanto, é necessário esperar pela evolução dos dados para se conseguir perceber se de fato está a acontecer ou não uma relação causa-efeito.
Portanto, a próxima semana será decisiva para aferir se aquilo que mudou desde ontem pode ou não ter efeito na curva.
É decisiva se a mudança for brusca. Por exemplo, dia 16 de setembro, nós tivemos o início da atividade escolar. E dia 23 de setembro, foi notória a alteração da tendência de incidência. Aí houve uma alteração significativa dos contactos e da mobilidade, e aí foi notório. Portanto, se observarmos nestes dias uma alteração comportamental, quer o nível de utilização de máscara na rua, quer o nível da redução dos contactos.
Quando fez estas estimativas e introduziu essa variável do regresso à escola e ao trabalho, e à utilização dos transportes, é possível introduzir a variável da mobilidade das pessoas para entrarem nessas contas e fazer essa previsão?
Não, no meu caso, não. No meu caso, eu não uso modelo matemático como o SIRS, que é o tal modelo matemático da epidemiologia matemática, que utiliza o número de suscetíveis, o número de infectados, o número de recuperados e consegue, com mais algumas condicionantes, introduzir variáveis socioeconômicas ou sociais de comportamento e poder prever essa alteração. O meu modelo é um bocado mais, nós chamamos heurístico, é um bocado mais simplista, ou seja, ele é baseado no histórico dos dados. Eu preciso dos dados para ver a tendência do futuro. E, portanto, não é possível, no meu caso, introduzir isso.
Portanto, nos dados que são publicamente divulgados ou tem acesso a dados mais finos sobre aquilo que está acontecendo no país?
Sim, utilizo os dados mais finos, como são cedidos pelo Instituto Ricardo Jorge para a Faculdade de Ciências, que são os tais dados corrigidos à data de sintomas, e com essa série de dados e mais um tratamento matemático que faço, nos últimos dias, 21 dias de estimar o número de infectados que já ocorreram, mas que ainda não foram diagnosticados, consigo melhorar a série e a tendência vai me indicar qual é o comportamento dessa incidência nas próximas semanas. Basicamente, eu consigo, com essa série corrigida, estimar que atualmente estão a ocorrer cerca de dois mil infecções por dia. Contudo, em termos de notificação, de diagnóstico, nós estamos a detetar ainda cerca só de 1600. Isto é uma média dos últimos cinco dias. Os dois dias que nós tivemos dois mil casos, foi uma recuperação do déficit de notificações que nós temos tido. Normalmente, temos esse déficit no fim de semana e depois durante a semana tentamos recuperar. Trabalhamos um bocadinho mais, os laboratórios trabalham um bocadinho mais e debitam cá para fora resultados de exames que foram acumulando no fim de semana. E portanto, esta série, como está corrigida desse efeito, é mais estável e indica uma tendência. E é essa tendência que me indica o que é que vai acontecer nas próximas semanas. Portanto, o que eu tenho aqui ainda é um reflexo da evolução da incidência até ao dia de ontem.
Mas dia 10 de outubro, ao Observador, fez esta previsão de mais de dois mil casos, que acabaram por se verificar. E esses números, que o Carlos Antunes trabalha, são depois cedidos a epidemiologistas que aconselham o governo. E, no entanto, o governo parece ter sido apanhado desprevenido. De alguma forma, achavam que estaria a exagerar nos seus cálculos?
Eu não sei se os meus resultados chegaram mesmo ao ministério, à DGS. Não sei. Eu falei apenas em dois mil, não quis arriscar muito pra frente. Contudo, a evolução continua a dar-se. Há uma semana, eu falava que os casos estavam se a duplicar de 30 em 30 dias. Depois, no início dessa semana, esse intervalo passou de 22 a 22 dias e agora já estamos mais ou menos a duplicar o número de casos a cada 15 dias. Ou seja, estamos aproximados daquilo que está a ocorrer já há algum tempo na Holanda, na França, na República Checa. Portanto, o ritmo, a aceleração, a rapidez com que os números estão a aumentar, está a evoluir de dia para dia, de semana para semana. E portanto, eu ouvi falar nos três mil casos. Não sei se por acaso foi comentado ou não esse valor com a ministra. O que eu trabalho é na academia, com os colegas, e portanto eu não sei se essa mensagem chega ou se não chega, se é valorizado ou se não é valorizado. Também não estou a trabalhar para esse fim. Estou a trabalhar com colegas que fazem.
Está em partilha de conhecimento.
Em partilha de conhecimento, exatamente.
Carlos Antunes, isto é o que se chama o crescimento exponencial. É isso que está a acontecer no país nesta altura.
Certo. O crescimento exponencial já se veio a verificar desde 19 de agosto. Só que o crescimento até dia 23 de setembro foi uma exponencial baixa, digamos, de baixo grau. A partir de 24 de setembro, o grau aumentou, a duplicação de casos passou a ocorrer a um período mais curto, ou seja, começou a acelerar o processo do crescimento dos novos casos. É isso que nós estamos a observar agora. E o importante, do ponto de vista da previsão no curto, médio prazo, é que estas curvas têm aquilo que chamamos uma inércia, tem um momento, tem uma quantidade de movimento, ou seja, ela não muda de um momento para o outro, ela tem uma resistência à mudança. Mesmo que nós mudemos os nossos comportamentos Para ela inverter a sua tendência, tem que haver uma mudança de comportamento drástica. E depois só conseguimos observar essa mudança passados sete dias, no mínimo. Se houver uma mudança suave dos comportamentos, a inércia do crescimento da incidência continua na mesma com seu movimento de aumento. É isso que se tem verificado em Madri, em Espanha, em Paris, em França. Introduziram medidas, as medidas não foram eficazes, foram muito soft e os casos continuaram na mesma, na sua progressão exponencial. O que eu posso dizer é que é expectável, se não houver uma mudança drástica da quebra dos contatos que causa o contágio, nós não vamos observar uma mudança nesta tendência exponencial que estamos a verificar de cerca de 15 dias a duplicarmos os casos. O que eu estimo é que a nível de infecções, estarão a ocorrer atualmente cerca de duas mil. Nós estamos a detetar cerca, em termos médios, de 1600. Estamos com déficit de 400. Ou seja, todos os dias nós estamos a perder 400 novos casos. Isso faz com que, em termos de déficit dos últimos 21 dias, eu estimo que haja cinco mil infetados que estão por diagnosticar. E este número tem vindo a aumentar, ou seja, nós estamos a perder a corrida quanto à detecção de novos casos. Os novos casos estão a ocorrer mais rápido a medida que vamos diagnosticando de uma forma mais eficaz, quebrando as cadeias de transmissão. Se o fizermos, isso precisamos ter mais meios no terreno para conseguirmos detetar mais eficazmente os contágios que estão a ocorrer. E outra forma é reduzir a velocidade do vírus, portanto, reduzir os contatos. Isso já foi mais que falado pelos especialistas. Se reduzimos os contatos, quer por aumento da nossa proteção, quer por manter o distanciamento social, quer por evitar espaços fechados, sítios com muita gente, se quebrarmos esses contactos, o vírus começa a andar mais devagar, começa a progredir mais devagar. E se nós começarmos a detetar os casos mais rapidamente, então conseguimos reduzir o espaço entre nós e o vírus. Essa é a única forma que se consegue achatar a curva utilizando termos de terminologia que as pessoas já conhecem. E dessa forma conseguimos começar a ver o pico no horizonte, que será a nossa meta da nossa corrida.
E onde é que será essa meta? Consegue antecipar?
Há 15 dias, como falei à vossa colega do observador, eu conseguia ver essa meta que estava a apontar para o fim de novembro, meados de novembro. Por quê? Porque estava a ver o R, o tal R, estava a diminuir e a convergir para aquele limiar que é 1.0. Quando o R atinge 1.0, nós estamos no topo de uma onda, no pico. E quando o R passa a ter um valor mais baixo do que um, nós começamos a reduzir o número de casos. Ora, até há uma semana, mais ou menos 15 dias atrás, eu estava a ver esse período em que o R iria interceptar a linha de 1.0. Isso iria ocorrer no fim de novembro. Neste momento, o que nós estamos a observar é que o R está em tendência de aumento. Ele atingiu o valor 1.0 em 20 de setembro, mais ou menos, e a partir de 22 começou a subir. Está atualmente em 1.23. Reparem, basta o R estar ligeiramente acima de um para nós termos um crescimento exponencial, mesmo que seja 1,01.
E o que aconteceu da última semana em que conseguia ver esse pico para agora? O que pode justificar essa alteração do R?
A alteração do R tem a ver com o aumento de contactos e o aumento de contágio. Ou seja, a velocidade com que o contágio está a dar, foi aumentando, e nós fomos perdendo o distanciamento dessa contabilização através dos diagnósticos. E isso verifica-se nos outros países também. Há países que chegaram a 1.5, países europeus. Em que o 1.5 é basicamente, nos próximos dias nós termos 50% de novos casos a mais do que hoje. Ou seja, se hoje temos mil, nos próximos dias vamos ter 1500. E a duplicação de casos atinge-se ao fim de três, quatro, cinco dias. Como houve uma aceleração devido ao aumento dos contactos, por início de atividade, quer escolar, quer de uma forma geral da atividade profissional, nós vemos isso, observamos isso na quantidade de pessoas que vemos circular, quer na estrada, quer nos transportes públicos, quer no centro das cidades. Portanto, como houve o aumento de contactos, o contágio encontrou um espaço para progredir ainda mais. Nós, como não acompanhamos, em termos de diagnósticos, de seguir as cadeias de transmissão, na monitorização das cadeias, não conseguimos parar essa avalanche, esse aumento, portanto, o R continuou a subir. Ele está agora a estabilizar aqui na ordem de 1.25, 1.23. Antes de ontem estava 1.25, hoje está 1.23. Portanto, está ali a estabilizar. Aparentemente, digamos que a progressão exponencial está a estabilizar, mas isso não significa que o número de casos não continua a aumentar. Deixou de aumentar de forma acelerada, mas vai continuar a aumentar.
Diga-me só uma coisa, esse 1.25 que está agora. Diga?
1.23.
1.23. Reflete um Rt de há três ou quatro dias?
Ele é calculado com os últimos sete dias. Cada valor que eu calculo usa valores de sete dias e depois ainda faço uma média. Portanto, sim, reflete os últimos sete dias.
Ou seja, neste momento será superior a esse 1,23?
Sim, o valor que eu estou a dar é, chamamos nós, a estimativa média. Ele tem um intervalo de confiança a 95% e está a variar entre 1.14 e 1.31. Portanto, o R estará na região entre 1.15 e 1.30. Estará nessa região. 1.23 é o valor médio, a estimativa média. Portanto, há sempre uma incerteza na estimativa deste valor, mas está aí. O que eu vejo no meu gráfico é que nos últimos sete, 10 dias, o R deixou de subir como estava a subir no final de setembro e início de outubro. Ou seja, ele agora está a entrar numa fase estacionária. A expectativa, olhando para o histórico do R, é quando ele faz isto, ele vai começar a baixar nos próximos tempos. Se começar a baixar, quer dizer que a progressão de aumento de novos casos vai começar a diminuir. Não os novos casos, a progressão. A taxa com que se cresce diariamente vai começar a diminuir, mas não o número de casos. Essa será a esperança. Se efetivamente estas medidas surtirem efeito, então nós vamos começar a ver esse R a começar a infletir, portanto estabiliza no 1.23, 1.24, começa a infletir e começa a diminuir ligeiramente. E nesse caso, se for sustentada essa descida, então sim, podemos começar a ver o pico no horizonte. Mas é preciso ver os dados.
É preciso olhar para os dados. Carlos Antunes, vamos assumir que as mudanças de comportamento vão ser suaves, até com base naquilo que o primeiro-ministro tem dito, que não quer tomar medidas mais drásticas que levem a um encerramento da economia. Consegue prever, antecipar, a alguma distância, como é que estaremos no Natal?
Este método, até pela própria experiência que eu tenho nestes últimos seis meses, e monitorizo muitos países europeus e países de fora da Europa, para perceber exatamente como é que o meu modelo matemático se deve ajustar e deve seguir as diferentes curvas. Cada caso é um caso. E a própria letalidade também acompanho. Eu posso lhe dizer o que eu tenho previsto no modelo para início de novembro. Mas a incerteza é tão grande, que é um erro estar a dizer. Até início de novembro, eu penso que posso arriscar. Nós podemos estar, no início de setembro, nos 3500 casos.
No início de novembro.
Sim. Desculpe. No início de novembro, exatamente. Portanto, até o final de outubro, é provável que atingimos os 3000 e que na primeira semana de novembro chegamos aos 3500. O meu pico está um bocado artificialmente colocado no final de novembro, com 4000 casos, mas é fictício, ou seja, ele ainda é provisório, porque eu não consigo ainda antever o período em que vai ocorrer o pico. Ele está indefinido. É o que eu digo aos meus colegas, ele está indefinido. Portanto, não há uma convergência visível do R para o tal limiar de 1.0. E, portanto, tenho um pico fictício colocado a 26 de novembro com 4000 casos, mas pode ocorrer, como pode ultrapassar esse valor, à semelhança do que nós estamos a ver noutros países. Repare, se nós olharmos para Inglaterra ou para a Holanda. Eu posso lhe dizer rapidamente. A Holanda passa, em 15 dias, de 2000 casos para quase 8000 casos. A Inglaterra a mesma coisa. A Inglaterra está agora nos 18 mil casos. Estava há duas, três semanas, com menos de metade disso. E, portanto, se nós continuarmos com a tendência, como estes países, que já tomaram medidas. A Inglaterra já tomou medidas, a França já tomou medidas, etc. E não estamos a ver nesses casos. O R está controlado, no caso da Inglaterra, o R está controlado, mas ainda está acima de um. Está a diminuir, está agora em 1.06. E essa tendência tem sido muito suave, ou seja, ele começou a diminuir, mas muito suave e é isso que eu espero que vá acontecer em Portugal, ou seja, que as medidas não sejam muito eficazes e que o que a gente vai observar é, digamos, um controle do R, mas não vamos deixar ter um crescimento exponencial. E podemos estar perfeitamente até final de dezembro em crescimento contínuo do número de novos casos.
Muito bem, Carlos Antunes, docente e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, nosso convidado hoje no "Direto ao Assunto". Muito obrigado pelos seus esclarecimentos e bom dia.
Bom dia.
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