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Terceiro dia de buscas e nada. Terminaram as operações que decorreram durante três dias na barragem do Arade, no âmbito do caso Maddie McCann. Hoje, no "Direto ao Assunto", está conosco o editor de sociedade do Observador, Carlos Diogo Santos, aqui para uma conversa também com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz.
E foram três dias intensos de buscas, com grande aparato. Nenhum vestígio encontrado da criança inglesa que desapareceu no Algarve há 16 anos. Carlos Diogo Santos, boa tarde. Afinal, o que é que foi e não foi encontrado em três dias?
Boa tarde. Sim, de facto, não foi encontrado nenhum vestígio biológico de Maddie McCann. Era uma das expectativas das autoridades, era que naquele local pudesse haver alguma pista ou algum vestígio da criança. Não foi encontrado nada disso. Há, de facto, alguns materiais que foram recolhidos e que vão ser analisados pelas autoridades alemãs, porque este pedido de buscas foi formulado pela Alemanha, mas que não têm, aparentemente, grande relevância para a investigação. Mas já que foram encontrados, vão ser analisados para perceber se podem ou não ter essa relevância. Mas aparentemente, daquilo que fui falando com algumas fontes, não terá grande relevância esse material pedido.
Uma operação com grande aparato, que não é muito habitual em Portugal. O que trouxe as autoridades alemãs a Portugal?
É um conjunto de várias coisas. Esta investigação que está desde há alguns anos, ainda que seja recente, mas que aponta para Christian Brückner como o principal suspeito do desaparecimento de Maddie em 2007. Os inspetores alemães foram recolhendo, não só a polícia, mas também o Ministério Público, várias informações, tanto por inquirições, material recolhido em aparelhos como telemóveis, computadores, que apontam para aquela barragem como sendo um local onde Brückner gostava muito de estar, passava muito tempo, fazia diversas atividades de lazer, muito diversas, algumas até que poderão ser mais ou menos lícitas, e portanto, isso fazia com que aquele local fosse um espaço onde se sentia à vontade, um espaço que conhecia muito bem. E é muito interessante se nós repararmos que pelas imagens das televisões, para quem tem assistido, dá para perceber que falamos em Barragem do Arade, mas o local onde se concentram as buscas é apenas uma das línguas de terra da barragem. Isso é exatamente porque é o local que era frequentado nesses períodos, nessas estadas longas de Brückner em Portugal, e onde ele gostava muito de estar.
Mas isso seria suficiente, o facto de ele passar aí algum tempo, seria suficiente para desencadear esta operação, ou é de supor que as autoridades alemãs, a polícia alemã, tivesse na sua posse outros dados que poderiam indiciar a prática do crime?
As autoridades alemãs têm Brückner como a linha principal de investigação para o desaparecimento de Maddie McCann. E de facto, essa é uma questão muito interessante. A investigação na Alemanha corre com segredo de Justiça e de facto aquilo que é pedido às autoridades portuguesas é que estas diligências são importantes de realizar. Obviamente que é dado algum contexto, é fundamentado o porquê, mas o porquê vai, segundo apurei junto de várias fontes no local, muito ao encontro disto que dizia, que há um conjunto de inquirições, há um conjunto de material recolhido em aparelhos que apontam para este local como um local que é recôndito, que é um local ermo, mas onde Brückner se movimentava com muita à vontade. De outra forma, era o local que poderia ser considerado por ele perfeito, se quisesse cometer um crime em território nacional, e desfazer-se de algum material biológico. E portanto, é muito difícil perceber se era suficiente ou não, sem conhecer em detalhe o inquérito, sem conhecer as inquirições, o que é que foi dito. Há, de facto, um dos informadores, e isso tem sido público, que é um informador da polícia alemã, que é muito relevante para isto.
Foi ele que apontou no sentido também da barragem do Arade.
Ele não apontou, segundo aquilo que eu fui apurando, esse informador, e mais uma vez digo, o processo corre em segredo de Justiça, portanto, em traços gerais, o informador nunca disse que houve um crime e que o local onde teria sido depositado os restos da Maddie era ali. Nunca foi dito isso assim. O que foi dito foi, de facto, algum tipo de informações que apontam para a grande probabilidade de De Brückner ter tido mais do que um envolvimento. As informações apontam mesmo para que ele tenha sido o responsável pelo rapto da criança. E depois a questão do crime é apenas o juntar de peças, e as buscas na barragem do Arade acabam por ser uma tentativa de encontrar uma peça deste puzzle, que é: ele é apontado como sendo o suspeito, e isso vem de diversas conversas com esse informador. Esse informador diz também que a barragem do Arade é um local que é considerado pelo próprio Brückner como um paraíso, mas que ele tem consciência que é um local que também é um paraíso para ele, porque é um local deserto, ermo, onde ele passa muito tempo, muitas horas, e, portanto, que poderia ser o local onde ele se sentiria à vontade para fazer algo que quisesse fazer fora do olhar da polícia ou de qualquer pessoa.
E como é que se explica que na altura não tenha sido uma das pessoas sinalizadas?
Há muitas questões que hoje, 16 anos depois, se pode fazer. De facto, há uma sinalização desde o início de contactos, de números, de telefone, que estavam próximos do Ocean Club, que é o aldeamento turístico onde Maddie McCann estava naquele dia de maio de 2007, antes de os pais dizerem que ela desapareceu. É também só a versão dos pais, que foi sempre tida em conta para esses momentos iniciais. E de facto, há esse detalhe. Há um registo que aponta para que Brückner estivesse numa das suas temporadas em território nacional e não só isso, que estivesse no Algarve e não muito longe da Praia da Luz, onde fica este aldeamento turístico. Portanto, é muito difícil. Aquilo que eu posso dizer é que, obviamente, uma investigação deve manter sempre todas as linhas de investigação em aberto até chegar a conclusões. Tendo havido várias linhas até hoje investigadas, recordo que logo no início foi Robert Murat, que era o principal suspeito. De seguida, e em setembro de 2007, se não estou em erro, após um interrogatório dos pais de Kate e Gerry McCann, eles são constituídos arguidos e são considerados pela polícia suspeitos. Alguns dos detalhes que os põem no radar, na mira da polícia, é o facto de terem sido encontrados vestígios biológicos da criança dentro do carro. Mas o certo é que essa linha de investigação, que conheceu vários avanços e recuos, e todos nós sabemos da relevância de algum tipo de contactos ao mais alto nível que houve de outros países, neste caso do Reino Unido. A verdade é que essa linha de investigação acabou por formalmente não levar a justiça a lado nenhum e nunca se conseguiu encontrar um responsável. Muitos anos depois, há, de facto, esta nova linha que se abre. Não é uma linha que cai do nada. Como digo, já havia referências a esta localização de Brückner ao redor da Praia da Luz, mas que também dado o perfil, não podemos esquecer que há um perfil de agressor sexual que o próprio Christian Brückner tem, não só em Portugal, de violação, de tentativa até de forçar mulheres e até mesmo suspeitas em relação a algumas jovens. Portanto, há aqui um perfil que poderá encaixar. E não é só isso. Porque depois é preciso cruzar todo este perfil, tudo aquilo que já na altura existia, que era a proximidade ao aldeamento, com também o que se vem a saber a posteriori. O que se vem a saber a posteriori é muito graças a um informador, a material recolhido e que apontam para que Brückner pudesse ser o principal alvo.
Mas o ex-inspetor da PJ, que há 16 anos esteve à frente da investigação, Gonçalo Amaral, numa entrevista à Rádio Observador, arrasou esta nova linha de investigação, ou uma linha de investigação que foi reaberta. Não se ignoraram, na altura, outros indícios, outras hipóteses?
Eu acho que é preciso, Bruno, aqui separarmos duas coisas. Esta diligência, que foi feita ao longo de três dias, e que foi pedida pelas autoridades alemãs, e a que a Polícia Judiciária tinha de responder. Em matéria de cooperação internacional, não passaria pela cabeça de ninguém que a Polícia Judiciária não desse autorização para que, de facto, houvesse aqui um conjunto de diligências que as autoridades alemãs consideram que é relevante.
Não percas essa linha de raciocínio, já lá voltamos, mas já agora deixa-me perguntar: por que a análise e a perícia do material não é feita em Portugal? Exatamente porque dizias, no âmbito desta cooperação.
Certo. Essa é uma questão que é interessante, que pode levantar aqui algumas questões. E tudo isto foi feito ao abrigo da decisão europeia de investigação em matéria penal. E aquele que foi o entendimento da Polícia Judiciária e das autoridades portuguesas envolvidas é de que as pistas, neste caso, os vestígios que foram recolhidos em Portugal, devam ser entregues, assim como foram recolhidos, à investigação que os requereu, neste caso, à investigação alemã. É uma questão que poderá levantar aqui algum tipo de questões, nomeadamente, Portugal tem capacidade, o laboratório de polícia Da Polícia Judiciária em Lisboa tem capacidade para fazer todas estas análises que vão ser feitas na Alemanha, mas a questão vai mais além. Foram os alemães que, no âmbito de uma investigação que eles estão a levar a cabo, pediram determinadas diligências. Depois disso, foi recolhido algum material que não terá grande relevância, como eu dizia no início, e portanto aquilo que foi o entendimento é que ele deve ser entregue para que seja feita a perícia em território alemão, porque foi o Ministério Público alemão que está a dirigir esta investigação.
E a Polícia Judiciária, entretanto, já reagiu oficialmente. O que é que disse?
A Polícia Judiciária não diz muito mais do que aquilo que já é publicamente sabido há alguns dias, que é que estas diligências foram feitas, houve trabalhos a decorrer junto a esta barragem, que foram acompanhados pela polícia alemã, que aliás até participou nos trabalhos e, além dessa participação, houve também a presença, não tão ativa, porque como digo, o inquérito é alemão, da polícia britânica. Além disso, dá conta de como foi muito importante a cooperação das restantes autoridades portuguesas presentes no local e sem as quais não era possível que todo este trabalho fosse feito, a GNR, a Proteção Civil e os bombeiros, que de facto forneceram não só homens, mas também meios para que alguns dos trabalhos destas buscas fossem feitos e portanto, não vai muito além disso. Diz apenas que foram recolhidos alguns materiais e que vão ser encaminhados às autoridades da Alemanha.
E são essas autoridades da Alemanha que vão analisar o que foi encontrado, mas pelo que o Observador apurou, nenhum vestígio biológico de Madeleine McCann. Três dias intensos de buscas, aqui também retratados por Carlos Diogo Santos, o editor de sociedade do Observador.