A depressão Bruna pôs metade do país sob aviso amarelo, mas, na Praça do Rossio, em Lisboa, os manifestantes pela habitação mantiveram a acampada — mesmo depois da iniciativa de Renata Cambra, que apelou à desmobilização e relocação do protesto até quarta-feira. A ativista propôs a retirada “tática” das tendas, mas o plenário de delegados da acampada decidiu em contrário. Este domingo, a possibilidade de desfazer acampamento ou mudar de localização volta a ser votada. A organização da acampada mantém que quer dialogar com a Câmara Municipal de Lisboa e com o Governo. “O único diálogo que tivemos foram bastonadas.”
Renata Cambra tornou-se o rosto dos protestos pelo direito à habitação em Lisboa depois da decisão do tribunal administrativo da cidade, que permitiu que a ativista se mantivesse no Rossio. Na sequência da atenção mediática de que tem sido alvo, conseguiu reunir-se com Carlos Moedas, mas isso não aconteceu com os representantes da organização da acampada, que continuam a reivindicar serem ouvidos pelos órgãos executivos. “Estamos sempre a bater nessa tecla”, afirma ao Observador uma porta-voz do movimento, Adriana Lima. “Queremos que o Governo nos ouça, queremos dialogar com esses órgãos, porque o único diálogo que tivemos [até agora] foram bastonadas.”
Segundo a ativista entrevistada pelo Observador, Renata Cambra não pertence à organização das manifestações que ocupam a Praça do Rossio desde 17 de outubro. E enquadra a sua proposta de relocação da acampada como apenas uma das várias iniciativas colocadas à consideração na assembleia popular — onde têm sido tomadas as decisões sobre o protesto.
A proposta que fez este sábado, quando sugeriu a retirada das tendas na noite em causa e ainda a relocação do protesto para outra praça da capital, aconteceu “numa assembleia, onde toda a gente pode sugerir coisas e se estimula a troca de ideias”, explica Adriana Lima. Como tal, a proposta, que não foi consensual na assembleia popular, foi remetida para o plenário de delegados, um grupo mais pequeno de responsáveis pela acampada, que votou pela permanência no local.
A ordem do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, conhecida no final da semana, determinou “que a manifestação ‘Acampada de Lisboa’ deve deslocar-se para um dos seguintes locais: Largo S. Domingos, Praça Martim Moniz ou Restauradores” para que possa ser instalado o mercado de Natal. Para já, Adriana Lima garante que não foi tomada nenhuma decisão a esse respeito e absteve-se de opinar sobre os locais alternativos sugeridos pelo autarca.
“Nós não temos nada contra o mercado de Natal”, afirmou a ativista Adriana Lima ao Observador, para quem a necessidade de manter o protesto no Rossio deriva da importância simbólica daquele lugar. “Além de toda a história de ativismo, o Rossio é o espaço onde a acampada [em Lisboa] começou, é um espaço querido para nós”, acrescenta. Contudo, perante as declarações de Carlos Moedas, a porta-voz informal admite “reinventar” o movimento, até para evitar “mais investidas policiais”.
Entretanto, existe ainda a providência cautelar interposta por Renata Cambra a pedir a anulação da decisão de Carlos Moedas, ao mesmo tempo que a própria ativista já tenha proposto que seja reavaliado o local do protesto. Segundo a agência Lusa, a também fundadora do partido Trabalhadores Unidos justificou a sua proposta na assembleia popular como “uma decisão tática”, defendendo que sair implica “tomar o controlo da narrativa” e estar “um passo à frente”.
Certo é que, não só o despacho de Carlos Moedas na sexta-feira, como as previsões meteorológicas, que indicam chuva para a próxima semana — com a depressão Bruna — estão a levar os manifestantes a ponderar alterar planos e o modelo da acampada. Para já, para contornar o problema da chuva, os manifestantes estão a “colocar paletes debaixo das tendas e a protegê-las”, explica Adriana. Junto do refeitório improvisado, agora melhorado e preparado para enfrentar a depressão Bruna, um cartaz indicava no sábado que os participantes precisam de materiais para se protegerem da chuva, como toldos e lonas. Até agora mantém-se a agenda cultural, que este domingo previa oficinas, conversas em mesa redonda, atividades para crianças e as habituais cantinas populares. As iniciativas foram deslocadas, mas apenas ligeiramente, para debaixo das arcadas do Teatro Nacional D. Maria II.