Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
São vários os recados que a presidente do Banco Central Europeu deixou hoje em Sintra, no Fórum do BCE. Luís Miguel Ribeiro, presidente da Associação Empresarial de Portugal, é quem vai hoje direto ao assunto aqui, também com a ajuda da Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
Luís Miguel Ribeiro, bem-vindo à Rádio Observador, em dia de aniversário.
Muito obrigado.
O líder do BCE defende que as empresas têm de sacrificar margens de lucro para a inflação baixar. O Presidente da República também já tinha pedido um esforçozinho há algumas semanas. As empresas têm feito ouvidos moucos a estes apelos, não há condições para ganharem menos?
Antes de mais, começar por dar os parabéns à Rádio Observador pelo quarto aniversário.
Obrigada.
Aproveitar também para endereçar os parabéns. Relativamente às declarações da Christine Lagarde e relativamente ao esforço que está a ser pedido às empresas, é bom que nós tenhamos em linha de conta alguns indicadores. Nomeadamente, que não se esqueça que o índice de preços no consumidor face ao índice de preços na produção industrial, durante o período da pandemia, foi sempre muito superior, ou seja, o índice de preços na produção industrial chegou a ser quase três vezes mais o índice de preços no consumidor. O que significa que as empresas andaram muito tempo a comprimir os seus esforços, as suas margens, porque não faziam refletir no preço final. Depois também é importante nós termos presente que o excedente bruto da exploração face ao excedente bruto da nossa economia, em 2022, teve alguma recuperação, mas isto deveu-se sobretudo ao comércio, transportes, alojamento, restauração, muita a ver com a questão também do turismo. Mas mesmo assim, esta relação entre excedente bruto de exploração e o excedente bruto mostra que ainda estamos abaixo de 2019. E a indústria é claramente um desses setores.
Deixe-me só interromper, Luís Miguel Ribeiro, exatamente por causa dessa questão, porque a Christine Lagarde também disse hoje que as empresas não estão a repercutir nos preços a recente descida das matérias-primas com a mesma velocidade com que repercutiram as subidas.
Sim, porque repare, se calhar neste momento não só em Portugal, porque muitas das matérias-primas que estão a ser incorporadas nos produtos finais, que ainda estão a custos e a preços de há uns meses a esta parte. Isto não é momentâneo, não é no imediato que se consegue fazer repercutir essa descida que está a acontecer agora, mas que as empresas têm alguns stocks, as empresas têm já as encomendas feitas há algum tempo, os preços está firmado já há algum tempo no momento da encomenda e, por isso, essa descida das matérias-primas há de se refletir mais à frente, mas neste momento não é possível fazê-lo de uma forma imediata. Mas eu ia, se me permite, referir uma terceira questão que é fundamental termos em linha de conta, porque a Christine Lagarde fala numa perspectiva europeia, e é essa a responsabilidade dela, e provavelmente não está a fazer a análise comparativa, como deveria fazer em vários itens, nomeadamente no custo do financiamento em Portugal e naquilo que as empresas portuguesas são duplamente penalizadas. É que as nossas empresas, comparativamente às congéneres europeias e de países europeus, pagam juros mais altos no financiamento e têm remunerações mais baixas nos seus depósitos. Isto, dados do Banco de Portugal de abril de 2023. E por isso, nós quando fazemos uma análise e declarações como as que ouvimos, nós não podemos fazer uma análise no momento. Nós temos que perceber que há um histórico, há todo um processo e há toda uma consequência de um período que as nossas empresas viveram e que estão a viver, porque este aumento das taxas de juro afeta as famílias, mas também afeta muito as empresas, é preciso não esquecer.
Luís Miguel Ribeiro, mas precisamente nesse sentido, Christine Lagarde disse que os juros têm de subir para as empresas não subirem os preços a seu bel-prazer. Essa carapuça assenta às empresas em Portugal? Falou também que não beneficiam das taxas de juro, das mesmas taxas de juro tão elevadas, na remuneração dos seus depósitos.
Pois, mas repare, o que nós estamos a dizer e que a Christine Lagarde diz é que as taxas de juro têm de aumentar, têm que voltar a aumentar para os preços baixarem. Ora, quando nós temos empresas ainda muito alavancadas em financiamento, quando as empresas portuguesas têm condições de financiamento em piores condições que empresas de outros países, como é que as nossas empresas, que têm custo de financiamento mais elevado que as outras empresas de outros países, têm custo de remuneração dos seus depósitos mais baixos. Como é que aumentar as taxas de juro vai contribuir para diminuir os preços? Este é um aumento de custos que as empresas têm de suportar. Se as empresas suportam o aumento de custos, se suportam também a taxa de inflação, suportam. Se ainda estão a viver consequência do período da pandemia, com todos os aumentos e com toda a contração que tiveram nas margens durante esse período, como referi há bocadinho, quando comparamos o índice de preços do consumidor com o índice de preços na produção industrial durante todo o período que vivemos na pandemia e agora ainda do período da guerra, percebemos que ele tinha um esforço feito durante muito tempo, que não é possível, agora de um momento para o outro, haver aqui um ajuste Destes preços e também não é com o aumento das taxas de juro. Eu percebo e sei que a inflação combate-se em grande parte com o aumento das taxas de juro, mas no caso das nossas empresas e empresas que ainda estão muito alavancadas em financiamento, e em financiamento esse que tem condições piores do que as empresas dos outros países da União Europeia, nós não estamos a ajudar que as nossas empresas possam, por essa via, diminuir os preços, antes pelo contrário.
E quanto a esta trajetória da inflação, Luís Miguel Ribeiro, a presidente do BCE acaba por refrear aqui os ânimos. Diz que é improvável que se possa declarar vitória contra a subida generalizada dos preços num futuro próximo. Aliás, acusa mesmo as empresas de terem aumentado os preços e com isso terem provocado dois terços da pressão inflacionista. Como é que vê estas palavras? E já agora, não sei se está mais otimista. Ainda hoje ouvimos também o presidente do BPI achar que é tempo de fim de ciclo da inflação começar a baixar.
Relativamente à inflação, temos que ter uma análise e uma expectativa, diria, moderada, nomeadamente naquilo que é a inflação nos próximos tempos, naturalmente que ela vai reduzir gradualmente durante os próximos tempos. Não sei se chegámos ao pico, não sei se já estamos no período descendente. Os últimos indicadores mostram-nos que sim, que a inflação tem sido já inferior, mas é preciso termos consciência que, e eu acho que muitas vezes peca-se nesta análise da inflação. A inflação estar com indicadores ou com valores inferiores não significa que estamos a ter redução de preços ou que está a haver um ajuste dos preços. Significa que os preços continuam a aumentar, mas menos. É isto que significa. Ou seja, significa que todos nós, e as empresas também, estamos a comprar e estamos a pagar mais caro que aquilo que pagávamos antes. Sendo certo que esta evolução do aumento está a ser agora mais moderada, mas que ainda vai continuar a acontecer durante algum tempo. E quando nós também temos e as empresas têm esta pressão, por exemplo, do ajuste nos salários, porque o mercado de trabalho hoje exige que as empresas tenham melhor remunerações, porque há escassez de mão de obra e que o mercado de trabalho, como qualquer outro mercado, entre a lei da oferta e da procura, demonstra claramente que há menos oferta, a procura mantém-se ao aumento. Aliás, ainda há dias, numa grande feira que fizemos aqui com 400 estal expositores na Emap, aquilo que as empresas mais se queixavam e na visita que demos aqui ao Ministro da Economia, era da falta de mão de obra e do custo do financiamento. No último inquérito que a AIP fez a 1183 empresas, aparece à cabeça das preocupações, quer no presente, quer na expectativa para o futuro, das preocupações futuras, a questão da falta de mão de obra e nos custos de financiamento. Ora, estas duas preocupações presentes e futuras, estes dois impactos que isto tem nas empresas e na produção e naquilo que é a atividade das empresas, nomeadamente o custo com a mão de obra e o custo com o financiamento, eu diria que não permitem que as empresas possam rapidamente fazer um ajuste nos preços, porque continuam a ter custos elevados, nomeadamente este custo com recursos humanos e com o financiamento, sendo que as empresas portuguesas, e como nós não temos mecanismos para apoiar as empresas no processo de financiamento e de capitalização, nomeadamente o papel do Banco de Fomento, que ainda não se está a sentir. Esperamos que rapidamente aconteça. Já esperamos há muito tempo, mas infelizmente esperamos que ele venha rapidamente a fazer sentido para as empresas, e sim que possamos contribuir para diminuir os encargos com financiamento às empresas, que se possa cada vez mais ter uma política de retenção e de atração de mão de obra de outros países e que também isso possa permitir às empresas melhorarem as condições da remuneração e de diminuição dos custos de produção.
Deixe-me interrompê-lo, Luís Miguel Ribeiro, estamos a ficar sem tempo neste Direto ao Assunto. Só uma última pergunta para 40 segundos. Lagarde considera que os salários estão a subir acima da produtividade em alguns setores. Sabemos, por exemplo, que o indicador está a baixar na construção, no setor público. Revê-se neste alerta da presidente do BCE?
Aí revejo, porque esse é o problema central da nossa economia e das nossas empresas, que é o problema da produtividade e que neste momento, pressionado pelo aumento dos salários, está naturalmente a ter esta relação. Há um facto de um maior aumento nos custos do trabalho face à melhoria da produtividade que nós precisamos de melhorar nas nossas empresas, porque se não melhorarmos a produtividade, dificilmente melhoramos a nossa competitividade e todas estas questões vêm sempre depois bater nesta base, que é o problema que o país tem, que é a questão da produtividade e da competitividade. E por isso, enquanto não melhorarmos isto, naturalmente que teremos mais dificuldade em baixar preços e em melhorar as remunerações das pessoas que trabalham nas empresas, melhorar os salários, mas melhorar de forma sustentada e sustentável, ou seja, a partir de uma melhoria da produtividade nas empresas.
E esse tema daria todo um outro Direto ao Assunto. Muito obrigada, Luís Miguel Ribeiro, por ter vindo à Rádio Observador, presidente da Associação Empresarial de Portugal. Obrigada. Estamos de volta amanhã.
Mais uma vez, parabéns.
Obrigada.