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Dois anos depois estamos de volta e a “Campeã É” regressa à antena da Rádio Observador. Depois do Mundial de 2023, agora temos o Campeonato da Europa de 2025, onde vamos falar aqui todos os dias, de segunda a sexta, sobre aquilo que se passa no Campeonato da Europa Feminino de Futebol na Suíça. Portugal já começou essa campanha. Também já tivemos jogos do grupo A. Estava nos planos que este programa tivesse estreia já nesta quinta-feira. Tendo em conta aquilo que aconteceu no futebol português, passámos a estreia deste programa para o dia de hoje, esta sexta-feira, dia 4 de julho, onde já sabemos qual foi o primeiro destino da seleção portuguesa de futebol. Neste programa vamos ter a Edite Fernandes, o João Pinto, o Pedro Henriques, o Luís Pinto Coelho e também algumas surpresas. Hoje não vamos ter conosco a Edite Fernandes, vai estar conosco nas próximas edições. Juntam-se a mim, portanto, o Luís Pinto Coelho, o João Pinto e o Pedro Henriques. Bem-vindos, como estão?

Viva, boa tarde.

Ora, um pouco entusiasmados, certamente por causa da nossa seleção, tendo em conta aquilo que aconteceu ontem, mas vamos ter de falar aqui também sobre outros jogos. Vamos começar, obviamente, pelas navegadoras. Cinco zero, uma derrota pesada neste início de Europeu. Luís Pinto Coelho, começo por ti, até porque estiveste conosco no relato. Quais é que foram os pecados capitais da equipa, tendo em conta que, claro, Espanha é uma grande seleção, é campeã do mundo neste momento, mas o que é que falhou principalmente na nossa?

Eu acho que falhou um bocadinho os níveis de concentração naquela fase inicial, também algum desacerto posicional da nossa linha defensiva, mas a equipa entrou claramente muito desconcentrada e aqueles primeiros 10 minutos são fatais, sofre dois gols. Essa equipa já andava um pouco desconfiada de si própria pelos últimos resultados. Entrar contra a Espanha, perder dois zero depois de uma goleada recente também contra as espanholas, as coisas complicaram-se, e de que maneira. Eu acho que o pecado capital foi mesmo alguma falta de concentração e até de agressividade também nos duelos. E obviamente contra uma seleção daquela qualidade, entrar ou não entrar em jogo. Tivemos um início que não estivemos em jogo, é fatal. E depois na segunda parte corrigimos um pouco, mas já estava o resultado feito e a vitória espanhola já estava consumada.

João Pinto, olhando aqui para as escolhas de Francisco Neto, os destaques vão para a presença da Bia Fonseca. Também a ausência, diria eu, da Dolores Silva, tendo em conta que é a capitã, a Borges também, sempre uma opção fiável no corredor. Achas que estas trocas de Francisco Neto foram também importantes para aquilo que aconteceu logo no início, na primeira parte?

É aquela coisa de tentar surpreender. E surpreendeu, mas surpreendeu a malta errada. Surpreenderam as nossas. Realmente acabou por não resultar. Eu acho que o que correu muito bem foi o plano de jogo de Espanha. As espanholas tinham um plano de jogo que era marcar cedo e desbloquear o jogo. E esse plano correu na perfeição. Elas tiveram muito bem naquela armadilha que fizeram a nossa linha de fora de jogo. Nós contávamos em apanhá-las muitas vezes fora de jogo, mas aquelas duas avançadas, uma ficava fora de jogo e fazia subir a linha, depois a outra aparecia vinda de trás, sem marcação e eles repetiram isso duas, três vezes e deu golo. Isso acabou por dar o primeiro golo, depois acabou por dar o segundo. E acho que fomos sempre surpreendidos pela capacidade que a Espanha teve de preparar o jogo contra um adversário que eles já esperavam que jogasse com as linhas muito recuadas, povoaram muito ali dentro da grande área. E nós nunca tivemos, foi o que o Luís disse, nós nunca tivemos realmente uma hipótese. Quando acordámos já estava dois zero. A partir daí foi uma superioridade muito grande. Sendo muito prático, muito pragmático, aquilo que podemos fazer agora é, olhando para o próximo jogo, perceber o que é que com o nosso esquema tático, pode também correr mal com a Itália. Porque esse esquema tático da Itália é muito parecido com o de Espanha e portanto, com a Bélgica, eles jogam com três centrais, nós também, mas com a Itália vamos ter o mesmo tipo de dificuldades, portanto convém não repetir os mesmos erros.

Claro, a Itália que venceu a Bélgica por um zero, já vamos olhar também para esse jogo e para outros destaques também dos outros jogos que já aconteceram logo no primeiro grupo, no grupo A, entre Suíça, Noruega, Islândia e Finlândia. Pedro Henriques, obviamente que não quero estar aqui a dar qualquer tipo de desculpas para o desar que Portugal teve, até porque tem sido uma constante aquilo que o Luís e que o João Pinto disseram há pouco, a questão da pouca concentração no início, temos sofrido muitos gols no início, mas tendo em conta toda a situação que o futebol português viveu ontem, obviamente que as jogadoras estariam emocionadas e vimos no final também a homenagem que se fez a Diogo Jota e a André Silva. Haveria aqui algum motivo para que Portugal pudesse, quem sabe, pedir o adiamento do jogo ou isso, de certa forma, pode ter tido impacto também aqui no jogo de ontem?

Olha, boa tarde a todos. Obrigado também pelo convite para estar aqui na “Campeã É”. Em primeiro lugar, dizer que esse aspeto emocional percebeu-se. Entre todas as que falaram, eu acho que o discurso mais emocional foi o da Jéssica. No final, acho que realmente se percebeu, ela estava ali entre tentar segurar as palavras e o choro, que era um dia mau para jogar futebol. Só que este tipo de torneio, independentemente daquilo que foi realmente uma grande tragédia, tem esta problemática que é jogos muito próximos uns dos outros E estar a adiar um jogo e encurtar um jogo que à partida para Portugal dificilmente não seria a derrota. É bom que a gente tenha essa noção. Espanha é número dois do ranking mundial, é campeã do mundo, tem esta questão curiosa que é nunca terem sido campeões da Europa e estão a apostar fortíssimo em ser pela primeira vez campeões da Europa.

Nunca passaram dos quartos, Pedro, sequer.

Exatamente, nunca passaram dos quartos-final e, portanto, têm essa questão. Independentemente da tragédia que é o futebol português e do estado emocional, eu acho que não adiantaria muito adiar, porque iríamos adiar aquilo que era quase certo, uma derrota, e iríamos encurtar o tempo de descanso para segunda-feira, em que teremos um bocadinho mais de hipótese nos dois jogos que se seguem: Itália 13ª do ranking, Bélgica 20ª do ranking, nós somos 22º. Não me parece que fosse uma boa ideia, independentemente do aspeto emocional. À parte disso, é aquilo que já foi aqui dito, eu acho que é o grande poderio da Espanha, aliado a um erro tático, no meu ponto de vista, já há bocadinho o campeão tinha falado sobre isso. Acho que a aposta da surpresa da Bia, aquilo foi a mina, foi ali o corredor, equilibrou-se muito melhor com a Ana Borges e com a Célia depois dentro do jogo, retificou-se claramente isso. E a experiência nesses jogos, acreditem, vale mais do que às vezes muito fogo e muito pulmão para correr. A experiência é fundamental. Começámos com o pé esquerdo, digamos assim. Agora temos aqui dois jogos para tentar emendar alguma coisa, mas aquilo que me preocupa é o estado emocional da equipa, não só por este aspeto da tragédia que é o nosso futebol, mas o estado emocional que já vinha do anterior. Repara que nós empatámos, um empate altamente compromissador a 23/06 com a Nigéria e depois tudo para trás é uma derrota com a Bélgica na Liga das Nações por 3 x 0, uma derrota de 6 x 0 com a Inglaterra a 30 de maio e em abril nós tivemos esse duplo confronto em que perdemos com a Espanha 4 x 2 e 7 x 1. Depois a partir daí para trás temos umas coisinhas bem feitas, porque felizmente ganhámos à Bélgica e até tínhamos empatado com a Inglaterra. Mas são vários meses em que emocionalmente e psicologicamente esta equipa não ganha. Eu acho que esse é um grande problema neste momento que tem que ser resolvido e que tenho as minhas dúvidas se realmente se consegue em tempo útil fazer exatamente esse tipo de resolução, porque aquilo que aconteceu é que todos os jogadores estavam com medo de tocar na bola e assim que tinham a bola nos pés ninguém queria errar e passavam a bola para a frente. Se não há confiança, a coisa é complicada.

Claro. Olhando para o futuro, e vamos olhar aqui para os outros jogos que já aconteceram antes de irmos às notas de campeão. Tivemos no grupo A, Islândia zero, Finlândia um. É uma vitória da Finlândia surpreendente e que não acontecia há 16 anos no Euro feminino. Suíça um, Noruega dois e aqui principalmente Bélgica zero, Itália um. Luís Pinto Coelho, daquilo que viste desta Bélgica e desta Itália, Portugal deve ter realmente receio daquilo que pode acontecer nas próximas duas jornadas?

Principalmente com a Itália. Eu acho que a Itália está a um patamar acima da nossa seleção. Não é a Espanha, obviamente, mas é uma seleção forte. Acho que temos que ter a máxima concentração. E depois há aqui um problema, porque a Espanha, se tudo correr normalmente, ganhará os três jogos, e os cinco gols sofridos ontem pode fazer toda a diferença. Porque imaginemos que acabam todas as equipes empatadas, com a Itália, a Bélgica e Portugal, depois a diferença de gols pode ser complicada, não sei, vamos ver. É logo um tiro inicial falhado, mas parece-me que a Itália é uma seleção um pouco mais forte que Portugal, mais forte que a Bélgica, e confirmou-se ontem no jogo, um pouco melhor, embora tenha sido um jogo equilibrado. Mas acho que temos de ter muita concentração, muito cuidado, porque é uma seleção que, como o João Pinto referiu, tem um futebol muito parecido com o espanhol. E nós não nos damos muito bem com esse estilo de futebol.

Daquilo que viste ontem, João Pinto, entre a Bélgica e Itália, é isso mesmo. Assusta também essa questão de ser um futebol muito parecido com o da Espanha, no caso da Itália?

É, exatamente. São jogadoras que tecnicamente já estão em outro patamar e depois têm um futebol muito direcionado à baliza, é muito ofensivo e muito vertical. E o que me parece é que Portugal prefere andar ali a trocar a bola de um lado para o outro, a passear, a fazer mais posse. E com essas equipes não dá, porque realmente são equipes que vão lá pela certa e vão muitas vezes. É mesmo difícil jogar contra elas. Basta ver o resumo do jogo da Bélgica com a Itália e 80% são oportunidades que a Itália desperdiçou, apareceram muitas vezes na cara da guarda-redes belga, falharam muitas oportunidades, têm jogadoras com uma grande capacidade técnica, ou seja, de controle de bola e velocidade, por exemplo, e vão pôr exatamente o mesmo tipo de problemas que a Espanha. Portanto, mais vale irmos com o esquema que sempre treinamos. Não digo para mudarmos os três centrais, mas pelo menos o posicionamento das jogadoras e as jogadoras em si têm que ser mais adequados.

Pedro Henriques, vitória justa da Itália e o que isso nos pode dizer agora para as próximas jornadas?

O que nos pode dizer é que se Portugal não ganhar ou pelo menos empatar com a Itália, ficamos em maus lençóis, porque passam duas seleções, como nós sabemos. E aí uma derrota tira-nos completamente, no meu ponto de vista, de qualquer hipótese de poder lutar por aquilo que seria a passagem da fase de grupos. De qualquer maneira, nós já conseguimos fazer, se olharmos um bocadinho mais para trás, conseguimos também ganhar à Bélgica e também conseguimos ter um empate com a Inglaterra, num jogo bastante bem conseguido. Portanto, agora depende. E se olharmos muito mais para trás, eu sei que o contexto é diferente, nós surpreendemos quando um dia jogamos praticamente olhos nos olhos com os Estados Unidos da América e quase que íamos conseguindo alcançar o objetivo nesse jogo. Portanto, isso significa que há potencial, há capacidade, há qualidade. Eu sei que ontem o momento foi muito difícil. Aquilo que me pareceu, não sei se é a partir, se foi o estado de espírito. Eu ontem não vi aquele olhar felino, seja de navegadoras ou de tigres ou o que queiram dizer. Ontem faltou esse olhar felino. Não sei se foi o contexto, ou se lá seja só isso Porque faltou mais qualquer coisa e isso chama-se atitude e postura. Isso vê-se nas small islands muito. Nós hoje temos acesso aos túneis, às entradas e vê-se isso, a atitude das jogadoras espanholas e a maneira como entravam em relação às portuguesas. E depois, se quisermos estender isso ao selecionador, o tal que eu acho que está em fim de ciclo, também. Acho que falta qualquer coisa em termos posturais, de comportamento e de atitude. Mais raça. Portugal é mais do que isto e esperemos que elas consigam dar uma resposta.

O próximo jogo de Portugal é no próximo dia 7 de julho, para ouvir aqui na Rádio Observador, Portugal e Itália, às 20h, com relato em direto aqui na sua rádio. Mais logo vamos ter também dois jogos, às 17h: Dinamarca-Suécia, Alemanha-Polónia, jogo a contar para o grupo C. João Pinto, já escolheste qual destes é que vais ver? Vais ver os dois? Como é que vai ser o programa?

O da Dinamarca. O da Dinamarca tem tudo para ser um grande jogo. São dois grandes rivais, é quase um dérbi e têm tido resultados muito interessantes. No último jogo, a Dinamarca era favorita, mas foi a Suécia que ganhou na Liga das Nações e tem sido um histórico de confrontos engraçados entre eles. Esse é o jogo. A ver um, será esse.

Luís Pinto Coelho, o que é que vais ver?

Não sei se vou conseguir ver em direto, mas depois vou puxar para trás esse Dinamarca. Eu penso que é o jogo mais apelativo e acho que pode ser até um jogo bastante aberto e bastante interessante de assistir, sem dúvida.

Ainda estás com o jet lag do Campeonato do Mundo de Clubes, vais aproveitar a noite toda para ver em diferido. Pedro Henriques, qual é que é o menu para mais logo? A recomendação do chefe.

Para mim não há dúvidas nenhumas, é ver o Tiago Martins no Dinamarca-Suécia. Não tenho dúvidas que é esse o jogo que vou ver, que é ver o nosso lado. Isto para relembrar que temos o Tiago Martins como VAR neste Campeonato da Europa e temos também, a seu tempo, a quem falar, até porque a Catarina Campos já se estreou como quarto árbitro no jogo da Islândia, mas de qualquer maneira, quando ela aparecer e fizer um jogo, e vai aparecer, obviamente, ela e as assistentes, depois terei tempo para falar da equipa de arbitragem feminina, que pela primeira vez também estamos no Europeu a ser representados, e isso também é muito relevante e importante.

Claro que sim.

De qualquer maneira, os jogos hoje são todos engraçados, mas naturalmente que este dérbi Dinamarca-Suécia é realmente, não só pelo VAR, obviamente, mas pelo jogo em si. Tem tudo para ser um grande jogo.

Vamos às notas e aos campeões. Vamos a ti, Pedro Henriques, qual é a tua campeã do dia e que nota que dás?

Gostava de dar a Portugal, mas vou dar à Espanha, porque eu acho que o olhar felino das espanholas, o fato de nunca terem sido campeãs da Europa, embora número dois do ranking, a melhor equipa, a melhor seleção a jogar futebol feminino neste momento, eu acho que merecem pela atitude, pela postura, pela maneira séria como encararam o jogo e tentaram sempre marcar mais um golo. E pelo futebol produzido, realmente foi um grande jogo sob todos os vistos da Espanha e por isso uma nota 16, neste caso para as nossas irmãs. Espero na segunda-feira estar a dar às portuguesas por outros motivos, obviamente.

João Pinto, nota e campeã.

A minha campeã é a diáspora. É aquela bancada cheia de portugueses, de imigrantes, que nunca nos falham e portanto nota 20 para eles e obrigado pelo apoio.

Claro que sim. Vamos ao Luís Pinto Coelho. Nota e campeã.

Vou dar aqui duas notas, dois 18 a duas atletas que ontem me encantaram muito. A Ariana Caruso, de Itália, e a intenção é esta meio-campista italiana no jogo contra Portugal, muito talentosa. E depois a Vicky López, que ontem fez um jogo absolutamente fantástico. É uma maravilha vê-la jogar com 18 anos. Joga mesmo muito e não tenho dúvidas que se continuar com o crescimento normal, poderá ser a breve prazo considerada a melhor jogadora do mundo.

Meus caros, na segunda-feira estamos de volta para mais uma edição de "E a Campeã É?", sendo que fica também esta dica, vamos ter já a seguir as primeiras na Rádio Observador com o segundo episódio. São Tato vai ser a segunda entrevistada no programa sobre a primeira geração da seleção feminina. Obrigado e até ao próximo episódio.