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Mais uma edição de A Campeã aqui na Rádio Observador. Já sabe que é por aqui que todos os dias analisamos aquilo que se passa no Campeonato da Europa Feminino de Futebol. Agora sim, já temos finalistas, temos as duas. Já sabemos que a final vai ser no próximo domingo, dia 27, às 17h, entre Inglaterra e Espanha. Espanha teve de sofrer um pouco, foi até ao prolongamento, mais um jogo a necessitar de prolongamento, mas Aitana Bonmatí a fazer ao minuto 113 o gol que dá o apuramento para a final do Campeonato da Europa. Começo por ti, Edite Fernandes, bem-vinda mais uma vez. A Espanha, que tanto falávamos que iria chegar com tranquilidade à final, lá chegou, mas ontem ainda apanhou um susto com uma Alemanha, como dizíamos, muito organizada.
Boa tarde a todos. É verdade, com uma Alemanha bastante organizada, mais um jogo muito bem conseguido e muito compacto, muito intenso por parte da seleção alemã, que a dificultar sempre naquilo que toca ao contacto físico, ao esforço físico ou ao nível de duelos. É sempre uma seleção muito intensa. Mas, por outro lado, depois também tínhamos para muitos de nós a seleção que melhor pratica o futebol, a seleção que fez uma fase de grupos espetacular, a seleção que era a grande candidata, a principal candidata a chegar a esta final e conseguindo já historicamente, pela primeira vez, chegar a essa final. Mas é, no fundo, a final que toda a gente previa ou que toda a gente queria. A atual campeã da Europa e contra uma Espanha que, para nós e para mim, na minha opinião, é a melhor seleção do mundo a jogar e a praticar melhor futebol.
Ontem, João Pinto, dizias que a chave podia ser para a equipa da Alemanha não sofrer cedo, porque tem sido algo que Espanha tem feito regularmente, marcar gols muito cedo no início, dominar logo as primeiras instâncias. A verdade é que ontem até tivemos um início de jogo muito bom da Alemanha, a Klara Bühl até tem uma oportunidade. Notou-se que a Alemanha tinha a lição bem estudada nesse sentido também.
Sim, mas a Espanha também. A Espanha percebeu que a Alemanha ia tapar muito pelo meio, ia meter muita gente ali a tapar o corredor central e insistiram imenso nos flancos com uma jogada que deve passar para os manuais dos treinadores deste planeta, porque a maneira como a Aitana recebia a bola no meio, olhava, percebia quem é que estava a sprintar nos flancos, quer de um lado, quer do outro, e metia a bola em profundidade. A recepção de bola era fabulosa e colocavam sempre a defesa alemã com problemas. Foram 10, 15 minutos no início, com uma qualidade fabulosa. Qualidade a nível tático, qualidade a nível técnico. E quando digo a nível técnico, não é finta curta, não é aquele drible de praia. Não, é uma recepção perfeita com a bola orientada e com a cabeça já a olhar para a área e a saber onde é que tinha que colocar a bola. E acho que a Alemanha conseguiu o seu intento porque a Espanha só não foi feliz na finalização. Depois, claro, o jogo foi se arrastando, foi andando. Não é fácil passares 40 minutos a fazer isto, a obrigares as tuas laterais e os extremos a correrem, a sprintarem à vez. E quando as espanholas, que jogavam mais na extrema, começaram a receber a bola no pé e a receber a bola de costas para a baliza, tornou-se tudo mais simples para quem defendia. Entrámos nesse jogo, o jogo foi se arrastando, a Alemanha começou a arranjar maneira de sair da pressão alta de Espanha, muito com base na técnica, deixaram de fazer aquele justão para a frente e começaram a arranjar o apoio na ponta de lança, que virado de costas, ali no meio-campo, distribuía o jogo. Isso parecia resultar, a Alemanha equilibrou, levaram o jogo para o prolongamento e depois no prolongamento há uma falha da guarda-redes, que devia estar a cobrir o primeiro poste, e há um quadro pintado por quem marcou o gol, que realmente encontra ali aquele buraquinho e tem a capacidade técnica de meter ali a bola. Portanto, a Espanha ganha. Para mim, ganha com toda a justiça. Acho que o resultado peca por escasso, acho que o resultado certo era um 3x1, uma coisa assim do gênero, até para termos mais gols durante o jogo. Mas realmente a Alemanha sai com honra, sai de cabeça erguida e a Espanha segue o seu caminho.
Pedro Henriques, olhando aqui para esta fase a eliminar, ou seja, a partir dos quartos de final, tivemos no prolongamento o França-Alemanha, o Suécia-Inglaterra e agora a Alemanha-Espanha, Inglaterra-Itália. Ou seja, a maioria dos jogos até agora a eliminar tiveram prolongamento. Encontras alguma explicação para isto? E depois, sobre ontem, o que aconteceu para que a Alemanha conseguisse contrariar tanto a Espanha, apesar de tudo?
Olha, começando pela tua primeira pergunta, eu diria o seguinte: eu acho que o nível elevadíssimo de motivação de todas as jogadoras que chegam a esta fase é bastante grande. E quando temos seleções em que nós, num plano teórico, olhando para o ranking, olhando para aquilo que estão a fazer ou a ser as suas prestações, nós dizemos: "bem, esta seleção é mais favorita e se calhar vai ganhar", percebemos que mesmo as ditas menos favoritas, não vou dizer que fazem das fraquezas forças, porque não há aqui uma questão de fraqueza, mas fazem, sobretudo, da motivação e da possibilidade de ir mais além, todas as suas forças. E eu acho que um bom exemplo disso será, quando depois fizermos aqui um rescaldo disto tudo, a Itália, que é para mim a seleção mais surpresa de todas, não só pelo ranking, como aquilo que conseguiu no sentido de até onde chegou. Eu acho que esse é o fator mais importante. E depois o fato de o futebol feminino estar a evoluir, todas as seleções estarem a evoluir muito e depressa, e da qualidade ser bastante, e daí haver estes desequilíbrios que se calhar há 10 ou 15 anos até seria mais fácil dizer um X dois relativamente às diferenças que havia das seleções, porque aqueles países que já eram fortes continuam muito fortes, e agora surgem um conjunto de países, onde incluímos também Portugal, obviamente, a aparecerem e a aproximarem-se cada vez mais qualitativamente daquilo que são as outras seleções que eram, por si só, maiores. Relativamente ao jogo de ontem, eu penso que a Alemanha é uma seleção muito pragmática, é a número três da FIFA. Parece que estamos a falar de mais, não, é a número três da FIFA, a Espanha é a número dois. Não é uma seleção qualquer, não ia ser um jogo fácil, não obstante, como disse a Edite, e eu acho que estamos todos de acordo, é a seleção que está a jogar o melhor futebol, é a melhor seleção do momento, a campeã do mundo, inclusivamente ganhou a Liga das Nações e portanto todo o favoritismo nela. E depois, conseguiu fazer coisas interessantes, sendo que a Espanha ganhou algumas vantagens no sentido da própria posse de bola, aí bastante, 77% contra 33%. Depois isso tem sempre, quando tens mais posse de bola fazes mais passes, quase o dobro, 723 contra 352. A própria precisão de passe, e também a questão da qualidade, 86% contra 72%. Depois aquilo que são os remates, 22-15, mas aqui este 15 é muito interessante, a quantidade de vezes que a Alemanha consegue chegar à área, à zona de finalização e nos remates à baliza 9-4, o que sendo o dobro também não deixa de ser um número que diz duas coisas. Primeiro, Espanha claramente superior, no meu ponto de vista, mas a Alemanha a dar luta e em dados momentos até, como foi quase a acabar o jogo, a poder chegar à finalização e marcar um golo e ter resolvido a eliminatória. Mas acho que acaba por passar a melhor seleção destas duas e aquela que o melhor futebol está a praticar neste momento.
Meus caros, vamos avançar para as notas e as campeãs, porque vamos deixar o programa de amanhã para fazer um bocadinho a antevisão deste jogo da final, este Inglaterra-Espanha, e também para fazer um pequeno balanço daquilo que tem sido o Campeonato da Europa. Vamos deixar isso para amanhã. Hoje, notas e campeãs. Começo por ti, Edite Fernandes, quem é a tua campeã do dia e que nota dás?
Eu tenho duas campeãs. Primeira é a Espanha, a seleção espanhola, principalmente pela qualidade de jogo e por ter sido a melhor seleção neste Europeu para chegar para a final, na prática, na sua qualidade enquanto plantel e enquanto seleção. Mesmo as próprias suplentes sempre a acrescentar ao jogo e à qualidade dessa seleção. Nota 18. E vou aproveitar a outra minha campeã, Aitana Bonmatí, que está muito à frente de todas as outras. Inteligência, habilidade, técnica, claramente e justamente a melhor jogadora do mundo e a fazer a diferença. É a minha campeã e com nota 18 também.
Pedro Henriques, vamos à tua nota e campeã.
Como eu gosto de fazer copy e paste da Edite Fernandes. Então é assim, a Espanha e Bonmatí. E agora tentando olhar de outra maneira. A Espanha, porque se qualifica pela primeira vez para a final de um Campeonato da Europa Feminino. Estamos a falar da campeã do mundo, tem as outras ligações, joga e que se farta e é a primeira vez que está. E o que vai acontecer? Vai-se reeditar a final do Mundial de 2023, ou seja, Espanha e Inglaterra, o que não deixa de ser interessante. E depois acrescentar Salma Paralló, que para além de tudo aquilo que já foi destacado e que todos nós sabemos e que a Edite Fernandes agora realçou, é só para relembrar que ela foi boladora em 23/24. Mas realmente é uma jogadora fora de série e fora do comum. Portanto, são também as minhas notas campeã com 18 para Espanha e para Bonmatí.
Vamos avançar para o João Pinto. João, nota e campeã.
É isso. Quem viu o jogo ontem só pode dar os campeões que acabaram por ser entregues. Eu acho que aqui o grande campeão, e não interessa aquilo que vai acontecer na final, o grande campeão é mesmo a capacidade de formação de Espanha, a maneira como se nota um trabalho desde o berço naquelas academias para aí fora e da maneira como Espanha, em todos os seus escalões, em todas as suas variantes de futebol, 4-3-3, com o mesmo futebol, o mesmo tipo de jogo, continua e vai dominar o futebol mundial durante alguns anos. E portanto, o 20 tem que ser para os nuestros hermanos, agora as nossas hermanas.
Ora bem, meus caros, amanhã cá estaremos então para mais uma edição de "E a Campeã?" todos os dias aqui na Rádio Observador. Até amanhã.