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Houston, we have a problem.
E assinala-se hoje o Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência. Até ao final do mês de maio, o governo vai realizar uma série de workshops online. Também o Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço celebra este dia com a sessão online intitulada "Astronomia no Feminino". O grande objetivo destas iniciativas é valorizar e dar a conhecer o trabalho das mulheres nas áreas da ciência, da tecnologia, da engenharia e também da matemática. Vai juntar-se a nós Constança Cacela, diretora de uma das áreas de investigação da Ovione, que é uma empresa importante na investigação e produção científica. É a única em todo o mundo a produzir um dos ingredientes do Remdesivir, um dos antivirais indicados para o tratamento da Covid-19 na Europa e também nos Estados Unidos. Nesta empresa, na Ovione, trabalham dezenas de investigadoras das áreas da biomedicina, da medicina, da farmácia e também da química. Muito boa tarde, Constança Cacela. Obrigado pela disponibilidade. Começo por lhe perguntar como é que surgiu a paixão pela ciência.
Olá, muito boa tarde. Antes de mais, quero agradecer, eu e a minha empresa, a Ovione, pelo convite que nos foi feito para esta entrevista. Respondendo à questão que me colocou, como é que surgiu a minha paixão pela ciência, eu desde que me lembro que sempre gostei de estudar e de aprender. Recordo-me da primeira vez que entrei dentro de um laboratório de química dos antigos e fiquei maravilhada pela beleza dos materiais de vidro, pelas bancadas negras, pelos frascos com os reagentes. E, portanto, a escolha pela ciência foi muito natural. Quando terminei a minha licenciatura, sentia que sabia muito pouco ainda e que era muito nova, portanto, tinha muito para aprender e queria continuar a estudar. E como sempre fui fascinada pelo desconhecido, pelo desafio e pelo fascínio da resolução de problemas, decidi enveredar durante bastantes anos por uma carreira científica, até entrar pela Ovione, que me proporcionou poder continuar a fazer ciência e a contribuir com a nossa ciência para a inovação e com a inovação no desenvolvimento de novos fármacos.
E Constança Cacela, hoje é este Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência. Neste momento, qual é o papel das mulheres e também em Portugal, na produção de resultados científicos e neste trabalho. Muitas vezes fala-se do afastamento das mulheres de lugares de chefia, de cargos de relevo em várias áreas. Qual é, neste momento, o cenário também no que diz respeito à ciência e às mulheres que estão a trabalhar como investigadoras e como cientistas?
Infelizmente, ainda existe um desequilíbrio de gênero na ciência e, portanto, todas estas iniciativas são muito importantes. O que nós temos que fazer é, de facto, dar bons exemplos e mostrar o bom que se faz na ciência por mulheres brilhantes que temos em Portugal. Este é um caminho que ainda tem que ser feito, porque de facto existe um desequilíbrio de gênero, não só em Portugal, mas mundialmente. Eu penso que os números apontam apenas para que cerca de 30% dos investigadores no mundo é que são mulheres. E a ciência ganha pela diversidade. E as ideias dos homens e das mulheres complementam-se. E, portanto, é fundamental continuarmos este caminho na promoção da igualdade do gênero na ciência.
E sente que o papel da mulher tem sido mais valorizado ao longo dos últimos tempos? Tem havido um cenário de maior oportunidade para as mulheres singrarem também nesta área da ciência?
Eu penso que algum caminho tem sido feito nos últimos anos e tem sido dado mais protagonismo às mulheres e tem-se mostrado trabalho de cientistas muito importantes em diferentes domínios. Ainda é pouco, mais há a fazer e, portanto, sem dúvida que o papel da mulher tem que ser mais valorizado na ciência. O contributo feminino é tão importante e fundamental quanto o masculino. E também só dando visibilidade e valorizando o papel da mulher é que podemos atrair mais meninas para a ciência e elas também se sentirem confiantes que podem percorrer este caminho e que podem seguir os seus sonhos de serem cientistas.
Ainda assim, Constança, esta é uma realidade que começa a mudar. Por exemplo, em cursos de universidade começam a haver cada vez mais mulheres a tirar coisas que tipicamente, antigamente e tradicionalmente se diziam que eram para homens, engenharias, coisas assim. Isso está a mudar, não está?
Está a mudar, mas os números mostram que ainda é um mundo que é muito dominado pelos homens. Mas concordo que estamos melhor do que há 15 anos, por exemplo. Mas há muito ainda a fazer e os números mostram isso. Eu penso que apenas 28% dos engenheiros é que são mulheres. Portanto, é uma diferença significativa. Contudo, também existem bons exemplos e eu acho que é para esses bons exemplos que nós temos que olhar. Eu posso lhe dizer que, por exemplo, na nossa empresa, e nomeadamente na minha equipa, eu lidero uma equipa de cerca de 60 pessoas, entre as quais 70% são mulheres, e destas mulheres, 34% têm doutoramento. Mais importante ainda, nós temos centenas de investigadores em todo o mundo e 50% a 60% dos nossos investigadores são mulheres. Portanto, este é um bom exemplo daquilo que pode ser feito e que está ao nosso alcance. É continuar a apostar nestas iniciativas e continuar a dar bons exemplos daquilo que fazemos, daquilo que as mulheres são capazes de fazer. E temos muitos. E eu penso que é através destes exemplos e destes modelos que podemos chamar mais raparigas à ciência e dar-lhes a confiança necessária para saberem que vão ter sucesso no seu percurso profissional e que podem seguir o seu sonho.
Muito obrigado, Constança Cancela, por ter se juntado a nós. A diretora de uma das áreas de investigação da Ovior. Muito obrigado por esta conversa.
Eu é que agradeço. Muito obrigada pela oportunidade.
Obrigado. É também cientista e por isso mesmo juntou-se a nós para falar de ciência. Hoje não tanto de ciência, mas do Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência, um dia celebrado nesta quinta-feira. A Ciência está de regresso à Rádio Observador no dia de amanhã.
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