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Tanto nos Estados Unidos como na Europa foram registados cerca de 100 casos da síndrome Guillain-Barré após a toma da vacina da Janssen em 13 milhões e 19 milhões de doses que foram administradas, respetivamente. O regulador dos Estados Unidos já lançou um alerta sobre a ligação entre esta vacina e a síndrome de Guillain-Barré, depois de concluir que as pessoas que receberam esta vacina têm três a cinco vezes mais probabilidades de desenvolver a condição grave da doença.

Quem sofre da síndrome Guillain-Barré pode ver os sintomas ligeiramente aumentados. Até o momento, não há dados que liguem estes casos às vacinas da Moderna ou da Pfizer. Para falarmos sobre o tema e ajudar-nos a compreender melhor esta síndrome, junta-se agora em direto o professor Mamede Carvalho, neurologista, especialista em esclerose lateral amiotrófica, diretor do Instituto de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Boa tarde, professor.

Boa tarde.

O que é esta síndrome Guillain-Barré?

A síndrome Guillain-Barré, que foi descrita por estes autores, caracteriza-se por uma polineuropatia, ou seja, um envolvimento, uma doença, se quisermos, dos nervos periféricos, de instalação muito rápida e de predomínio motor, que condiciona uma incapacidade funcional muito grande, dificuldade em mobilizar-se sem a pessoa ser capaz de seus cuidados. E é uma doença particularmente grave porque cerca de 20% dos doentes vão ter, ou virão a ter, ou poderão ter envolvimento respiratório, o que vai necessitar do suporte ventilatório, hospitalar. E apesar desde que há este suporte ventilatório, a mortalidade tenha diminuído bastante, mesmo assim, devido a fenômenos que têm a ver com a disfunção do sistema nervoso autônomo, complicações respiratórias e mesmo trombóticas, estes doentes podem ter, e têm, uma mortalidade cerca de 3, 4% ainda. Além do mais, aqueles que vêm a recuperar ficam, em cerca de 20% dos casos, com sequelas, que são mais ou menos acentuadas, dependendo também da severidade da doença na fase aguda.

Portanto, estamos a falar de uma doença autoimune e que provoca uma fraqueza muscular e pode provocar paralisia também.

Exatamente. É muito variável. A pessoa pode ter apenas uma perturbação na marcha, mas pode ficar acamada com completa paralisia muscular, com incapacidade, por exemplo, de engolir ou de falar. E portanto, é uma doença que pode ser muito grave e, como eu digo, até pode necessitar de suporte ventilatório, cujo alvo é a mielina do nervo periférico, ou seja, é a camada do nervo periférico que ajuda na condução dos impulsos nervosos, e a mielina, que é uma zona exposta do nervo, é o alvo imunogênico, portanto é uma doença imunológica, é o alvo para que haja uma destruição, uma lesão, uma inflamação do nervo.

Mas podemos considerar que esta é uma doença rara e pergunto-lhe também, professor Mamede Carvalho, quais são as causas que provocam esta síndrome?

Muito bem, esta é uma doença rara, portanto, essa incidência é de cerca de um a 100 mil por ano, quer dizer que em Portugal haverá cerca de 100 casos por ano da doença, e decorre de um processo infeccioso qualquer, ou de um rinovírus, de um vírus, de uma influenza, um vírus que afeta as vias aéreas superiores, ou muitas vezes até a causa é uma bactéria intestinal, Campylobacter jejuni, que causa esta doença, que infecta algumas pessoas, nem todos naturalmente reagem desta forma, isso depende da resposta imunológica. E há outros vírus também, como o Epstein-Barr ou citomegalovírus, que podem ser a causa desta doença. É uma doença tipicamente pós-infecciosa. A pessoa tem uma infecção viral ou até bacteriana, como vimos, e passado cerca de duas semanas, tem o quadro do Guillain-Barré.

E há tratamento para esta doença?

O tratamento visa bloquear a resposta imunológica contra a mielina. Há dois tratamentos que são standard: o número um são as imunoglobulinas, que é uma forma de imunomodulação. A plasmaferese é por vezes também utilizada. São tratamentos que, está provado, aceleram a recuperação do doente, o que não quer dizer que melhora como o doente fica depois do fim do processo de recuperação. São coisas diferentes. Mas acelera a recuperação, está demonstrado cientificamente.

Mas não é possível eliminar todas as consequências.

Não, de forma alguma.

Portanto, de forma nenhuma. Professor Mamede Carvalho, nós explicávamos no início e no lançamento desta nossa conversa que o Comitê de Segurança da Agência Europeia do Medicamento está a analisar os casos desta síndrome após a toma da vacina da Janssen. Esta síndrome, que também já foi associada a outras vacinas, como por exemplo a da gripe, aumentando aqui um pouco o risco de contrair a síndrome Guillain-Barré. É comum esta síndrome estar associada a este tipo de fármacos, ser um efeito secundário normal?

Não, não é. Atualmente, o Guillain-Barré pós-vacinal é uma situação muito excepcional. Aconteceu uma epidemia, digamos assim, em 1976, a uma vacina que tinha origem porcina, ou suína, se quiserem, para tratamento ou para prevenção do tratamento da gripe. Isso aconteceu nessa época, foi identificado, foi corrigido os aspectos antigênicos da própria vacina que originavam esta situação, da reação imunológica cruzada que afetava depois a mielina, mas isto é uma situação absolutamente excepcional. De facto, há esta aparente associação agora com a vacina da Janssen ou da Johnson, uma vez que são a mesma companhia, na prática.

Bom, perdemos aqui momentaneamente. Não, está. Deixámos de ouvir o senhor professor durante breves instantes. Agora já retomamos o contacto.

Eu estava apenas a dizer que é muito raro, não sei se perderam aqui. Estava a dizer que é muito raro acontecer após uma vacina. Aconteceu, de facto, em 76, quando houve uma epidemia, uma vacina que tinha uma origem porcina, enfim, para tratamento para gripe. E agora é esta associação que foi descrita com a vacina da Janssen.

Certo. Aquilo que nós já sabemos, os dados que nós temos, a vacina pode não potenciar o desenvolvimento da doença, mas pode intensificar os sintomas que já existem para esta síndrome.

Esta argumentação é um pouco complexa, porque na verdade aquilo que se verificou é que nestes milhões de vacinas, cerca de 12 milhões de vacinas, houve um número de casos apreciável, cerca de 100 casos. Se esse período vacinal fosse no ano, seria o normal, seria aquilo que a gente encontraria na epidemiologia, como eu digo, a incidência de um por 100 mil por ano, portanto, seria 100 casos para cerca de 10 milhões. Mas a verdade é que há uma associação temporal, ou seja, tanto quanto se sabe, as pessoas surgiram com Guillain-Barré cerca de 10 dias a duas semanas após a toma da vacina. Isso é que é um indicador muito forte da associação. É claro que isso tem que ser investigado, tem que ser analisado matematicamente, mas a verdade é que se assim for, se houver esta relação temporal, não se pode deixar de associar os dois fenômenos, ou seja, o aparecimento de Guillain-Barré e a vacina.

Professor, em 1976, no caso que estava a dar também durante uma epidemia, estabeleceu-se esse nexo de causalidade entre a toma da vacina que na altura foi administrada e o desenvolvimento desta síndrome?

Sem dúvida. Aliás, isso foi publicado na altura numa revista científica americana muito prestigiada, de medicina, naturalmente. E, portanto, sim, na altura houve o convencimento, que até hoje persiste, da associação.

E, portanto, o que aconteceu a seguir, a vacina foi corrigida, como nos explicou.

Sem dúvida, exatamente.

Existem hoje várias vacinas para prevenir a infecção da Covid-19. É possível que uma determinada vacina potencie o desenvolvimento desta síndrome e outras não o façam, pese embora tenham precisamente o mesmo objetivo, todas estas vacinas?

Tem, mas tem que se ver muito bem qual é a sua composição. Não é seguramente, a princípio, o DNA do vírus, do coronavírus, que produz o spike, que é inserido dentro de um adenovírus inativado, que vai provocar, com certeza, a princípio, Guillain-Barré. Não faz muito sentido. Tem que se ver se algum componente antigênico da vacina, alguma proteína, algo que contenha esse DNA, que possa desencadear uma reação imunológica cruzada afetando a mielina.

E professor Mamede Carvalho, há casos identificados sem a vacina, ou seja, pessoas que estiveram só infectadas com a Covid-19.

Sim, também está descrito. Há muita literatura sobre isso. E de facto, não é uma associação muito forte, mas há vários casos de Guillain-Barré após a infecção por coronavírus, como seria de esperar, uma vez que qualquer infecção viral pode potencialmente desencadear.

Certo, e portanto estamos a falar de uma doença rara, mas gravíssima, como disse. Não há recuperação completa, foi aquilo que nos deixou—

Não, o que eu digo é que em 20% dos doentes há um defeito motor mais ou menos grave, que persiste.

Que depois prevalece. Professor Mamede Carvalho, agradeço lhe ter estado conosco. É neurologista, é também especialista em esclerose lateral amiotrófica, diretor do Instituto de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Ajudou-nos aqui a perceber o que é exatamente esta síndrome rara de Guillain-Barré, que surgiu em 100 casos nos Estados Unidos depois da toma da vacina da Janssen. Como dizíamos aqui também, a Agência Europeia do Medicamento está a analisar os casos desta síndrome depois da toma desta vacina e já tinha também recomendado que fosse incluída nos efeitos secundários possíveis na descrição da vacina da AstraZeneca. Amanhã voltaremos a falar de ciência, na tarde em direto. Pode sempre voltar a ouvir esta conversa. Vai ficar disponível em observador.pt, também em podcast. A rubrica de ciência da tarde em direto chama-se E=mc². Para já, olhando para o nosso relógio, faltam 15 minutos para as 18h. Conhecemos os títulos que vão estar em desenvolvimento na próxima edição com o jornalista Miguel Vieira.

Voltou a aumentar numa semana o número de conselhos em risco elevado e muito elevado de incidência da Covid-19. Mais 30 no espaço de sete dias. São agora 90, representam um terço dos municípios de Portugal continental. A ministra Mariana Vieira da Silva afirma que a situação da pandemia continua a degradar-se. Ainda assim, o governo não aprovou novas medidas restritivas para controlar a disseminação do novo coronavírus. Vai aguardar pela reunião no Infarmed, agendada para o próximo dia 27. A Autoridade Nacional do Medicamento está a investigar e pode ainda hoje avançar com as primeiras conclusões. Foram registados 20 casos de desmaios no centro de vacinação de Mafra, depois da toma da vacina da Janssen, produzida pela Johnson & Johnson. O anúncio foi feito agora, mas os primeiros comboios só começam a circular em 2026. O Conselho de Ministros aprovou esta quinta-feira o lançamento do concurso para a compra de 117 novas automotoras elétricas, uma aquisição que vai custar ao Estado mais de 800 milhões de euros. Na edição das 18h, vamos olhar para a decisão do Tribunal de Justiça Europeu, que abre caminho à possibilidade das empresas privadas proibirem o uso de símbolos religiosos, políticos e filosóficos nos locais de trabalho.

Desenvolvemos estas e outras notícias às 18h, no Jornal Observador. A edição estará a cargo do Miguel Vieira. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.