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Hoje no programa de ciência da Rádio Observador destacamos uma intervenção cirúrgica inovadora. Realizou-se pela primeira vez em Portugal, no Hospital CUF Tejo, a substituição da válvula cardíaca tricuspide por uma prótese feita à exata medida do coração deste paciente. É uma cirurgia também feita através de cateterismo cardíaco, que é um processo menos invasivo.

E vamos saber melhor como é que funciona este processo. Conosco aqui na Rádio Observador está Ruben Campos, é cardiologista de intervenção no Hospital CUF Tejo. É um dos cardiologistas da CUF que lidera a equipa que procedeu a esta intervenção única em Portugal. Muito boa tarde e bem-vindo ao Observador.

Olá, boa tarde. Obrigado.

Doutor, começava por lhe perguntar que tipo de intervenção é esta e que inovação temos face àquela que é a prática clínica que tem sido seguida.

Este é um procedimento, nós lhe chamamos de cirurgia, é um procedimento minimamente invasivo, quer dizer que é feito através de buraquinhos na perna, o cateterismo, em que através desses mesmos cateteres vamos, através de pequenas veias, pequenas incisões na perna e através da veia que vai até o coração, introduzir uma válvula e substituí-la pela válvula doente, sem necessidade da cirurgia mais convencional, que é a toracotomia, que é abrir o peito, com necessidade de anestesia geral, cuidados intensivos, internamentos e um período de recuperação mais prolongado. A cirurgia de substituição da válvula por cateterismo já se faz. O que é novo é a substituição da válvula, sendo uma válvula feita customizada, uma válvula à medida do coração do doente. Normalmente, estas válvulas são standard, têm tamanhos pré-determinados, que se vão adaptando aos doentes. Mas neste caso, não. Esta válvula foi desenhada particularmente para este doente.

Doutor, esta válvula é feita de que material?

É do mesmo material das outras válvulas, digamos assim, que tem um frame ou uma estrutura de metal, de nitinol, que é uma liga metálica, e depois é revestido com tecido bovino, pericárdio bovino, como as outras válvulas também, que se implantam cirurgicamente. A vantagem ou a inovação é que ela é moldável, de tal maneira que se permite introduzi-la dentro de um cateter que tem cinco, seis milímetros e só vai ganhar a sua forma final depois de sair o cateter dentro do coração do doente. É isso que permite que seja minimamente invasivo.

O facto desta válvula ser criada de forma proporcional ao tamanho do coração, sob o ponto de vista clínico, traz alguma vantagem aos doentes que são submetidos a esta intervenção?

Sim, esperamos que sim. Isto tem que se fazer estudos.

Não é só uma questão estética a parte do disse-me isso.

Não, não tem estética nenhuma porque não se vê. Fica dentro do coração, portanto, não é uma coisa que seja visível. Percebo que me está a perguntar da parte estética da pequena incisão na pele, em vez de ser a grande cirurgia. Mas a vantagem é que permite que o material se adeque perfeitamente à anatomia daquele doente em particular e não o contrário. O que tem acontecido e o que vai acontecer, por vários motivos, é que o material está disponível e vamos pôr o mais próximo para aquele doente. Salvo a comparação, é como comprar a pronta a vestir ou feito à medida no alfaiate. Neste caso, estamos a fazer à medida, o que também tem custos.

É mais caro?

É mais caro. É mais caro nesta fase, pelo menos, que é uma fase inicial. Depois ganha escala, os preços acabam por baixar, como qualquer inovação na ciência. Mas neste momento é sim mais caro.

Doutor, e esta válvula cardíaca tricúspide é o quê, afinal? Qual é a função desta válvula?

É uma das quatro válvulas do coração. O coração tem duas do lado esquerdo, duas do lado direito. E uma das do lado direito é a válvula tricúspide. Este é um sistema hidráulico, mecânico, como qualquer válvula, que permite que o sangue ou o fluido circule numa direção, apenas, portanto, que entre, que neste caso, passe da aurícula direita para o ventrículo direito e não volte para trás. O que acontece em pessoas que têm insuficiência tricúspide é que a válvula deixa, por vários motivos, de funcionar e o sangue vai pra frente como deve ir, mas também volta para trás. E nos estágios mais graves, chega a 60, 70% do sangue que é bombeado para a frente, volta para trás. Gera um sistema mecânico ineficiente. O que a válvula faz, a nova válvula, é impedir isso, é substituir a antiga e permitir que o sangue só movimenta o fluxo na direção que deve seguir.

Doutor, tem ideia quantos pacientes em Portugal podem vir a beneficiar desta inovação? Que tipo de maleitas que nos estava a explicar neste preciso momento o funcionamento dessa válvula, é um problema recorrente em doentes cardíacos?

Sim, é um problema muito frequente. A insuficiência tricúspide, numa fase inicial, é considerada uma entidade relativamente benigna e 60, 70% das pessoas com alguma doença cardíaca poderá ter algum grau de insuficiência tricúspide. O que gera mais preocupação é quando atinge estádios mais graves, de moderados a graves. Nestes estádios, que normalmente levam à insuficiência cardíaca, estima-se que seja 1,5% da população com mais de 70 anos, a população masculina possa ter, e na população feminina, com mais de 70 anos, até 5% das pessoas podem ter insuficiência tricúspide grave, com consequências.

Doutor, também falou há pouco dessa forma menos invasiva. Pelo que percebi, nesta cirurgia não é necessária uma anestesia geral.

Depende do doente, porque muitas vezes são doentes muito frágeis. Nesta fase, nós estamos a reservar este tipo de cirurgias para doentes que não podem ser operados, porque têm um risco muito alto ou proibitivo. E esses doentes têm esse risco porque têm muitas comorbilidades e às vezes não conseguem estar numa mesa de cateterismo durante hora e meia, que é o tempo que demora o procedimento. Mas outros doentes que consigam tolerar esse processo, doentes relativamente mais saudáveis, entre aspas, podem fazer este procedimento com anestesia local apenas. O que já temos feito várias vezes para outro tipo de válvulas, para esta não, foi a primeira vez, mas é possível fazer só com anestesia local.

Presumo também que o pós-operatório seja mais simples.

Muito mais simples. Essa é a grande vantagem das válvulas que são implantadas por cateter, não apenas a tricúspide, mas todas as outras. A cirurgia é muito menos agressiva, não é preciso fazer uma toracotomia, ou seja, não é preciso abrir o peito. O tempo de recuperação é muito mais rápido. A mobilização nestes doentes, normalmente idosos, é fundamental a mobilização precoce e com este tipo de cirurgia pouco invasivo, é muito mais rápido, há menos perda de sangue, menos infecções. Sim, portanto, a recuperação é mais rápida e a alta também, menos tempo em cuidados intensivos.

Muito bem, boas notícias. Ruben Ramos, cardiologista de intervenção no Hospital CUF Tejo, na rubrica de ciência da Rádio Observador. Hoje estivemos com Ruben Ramos a analisar esta intervenção cirúrgica inovadora, a substituição da válvula cardíaca tricúspide por uma prótese feita à medida do coração do doente. Doutor Ruben Ramos, muito obrigado pela sua participação na rubrica de ciência e boas festas.

Muito obrigado. Bom Natal.

Rádio Observador, Vila Nova de Famalicão, 98.4. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7, em Lisboa, e em 98.4, no Porto.